Notas iniciais
Disclaimer: Naruto não pertence a mim. Eu sei, você sabe, todo mundo sabe.

Um

Haine

Tsunade guardou rapidamente a garrafa de saquê que estava bebendo assim que entrei em sua sala e pegou um relatório qualquer, fingindo que estava lendo. Levantei a sobrancelha e lancei um olhar cético a ela, mas resolvi não comentar. Não, estava cansada demais para fazer isso e não me sentia suicida naquele dia.

- Você está péssima – dei de ombros, não me importando muito com o comentário.

Fazia alguns dias que eu não via o meu reflexo, mas a julgar pelo estado das minhas roupas – sujas, amassadas, e com um pouco de sangue – e o meu corpo – sujo, e com hematomas – eu não estava lá essas coisas. Isso sem falar no ninho que o meu cabelo deveria estar parecendo.

Coloquei o relatório da minha missão e o pergaminho recuperado na mesa da Hokage. Tanto trabalho por um pedaço de papel.

- Não sabia que você conseguia ler de ponta cabeça – apontei para o relatório que ela tinha pegado para disfarçar o fato que estava bebendo durante o expediente.

- Você voltou mais rápido do que eu esperava – disse ignorando o meu comentário, assim como esperava que ela fizesse.

- Eu sou rápida – respondi passando os dedos pela pintura de minha máscara ANBU. Eu estava exausta e daria tudo para estar na minha cama naquele exato momento.

- Algum problema durante a missão?

- Nada que eu não pudesse resolver, mas eu não esperava uma batalha tão intensa, quero dizer, os caras pareciam Genins recém saídos da academia! – Balancei a cabeça para afastar as memórias da luta e percebi que estava raspando o sangue ressecado em minha mão. Parei imediatamente. – Estou cansada.

- Imagino. Vá ao hospital e trate desses hematomas primeiro – grunhi de frustração.

Hematomas não doíam – incomodavam, mas não doíam – e mesmo assim a Hokage insistia para que eu fosse atrás da Sakura e cuidasse deles. E quando eu não ia atrás da Sakura, a Sakura vinha atrás de mim. Eu me sentia como uma criança de cinco anos quando elas faziam isso.

Que culpa tenho eu se sou acostumada com a dor?

- É mesmo necessário? – Perguntei franzindo o cenho. – Estou bem, só com sono. Não durmo direito há dias.

- É mesmo necessário e isso é culpa sua.

- Minha?

- Sua. É você quem insiste em ir sozinha em missões. Se você fosse com mais alguém, poderia dormir pelo menos um pouco – fiz uma careta e resisti à vontade de bufar. Mesmo se eu saísse em missões com outros ninjas, eu me sentiria desconfortável e provavelmente descansaria só quando o outro fosse dormir.

Eu me rotulava como a única pessoa em todo o mundo em quem eu podia confiar. Uma droga, eu sei. Mas eu aprendi da maneira difícil a não confiar em qualquer um. Confiança precisa ser conquistada, e até isso acontecer eu vou partir do pressuposto que a única coisa que as pessoas querem de mim é a minha vida.

Meus problemas de confiança também me tornaram uma pessoa nem um pouco sociável, o que provavelmente explica o motivo de eu só falar com a Hokage e a Sakura na vila inteira. Nem mesmo com a Shizune eu converso, sem falar que aquele porco que ela carrega pra todo canto não me inspira confiança.

- Tudo bem – disse após soltar o ar pesadamente. – Então vou indo.

- Ainda não – Tsunade me impediu. – Espere mais um pouco.

Sério? Eu só queria a minha cama e o meu chuveiro! E até mesmo esses pequenos luxos teriam que esperar até que eu fosse para o hospital. Não queria que a minha porta fosse abaixo por causa da força monstro da Sakura outra vez.

- Por que eu tenho que esperar?

- Porque eu tenho outra missão para você.

- Outra? – Perguntei incrédula, sem esconder o descontentamento no meu rosto. – Mas eu acabei de voltar!

- Relaxe, não é outra missão ANBU. É uma Rank-C e você não vai sozinha.

Fiz uma careta. Missões em grupo são pior que a peste.

- Já não era sem tempo – a Hokage disse com sua voz-Hokage quando a porta de seu escritório foi aberta.

Olhei para trás, para os dois recém chegados, e imediatamente me lembrei do meu estado deplorável.

Um menino loiro e outro menino moreno olhavam para mim com curiosidade. O loiro tinha olhos azuis e umas coisas estranhas no rosto, além de estar usando um casaco preto com laranja horroroso. O moreno tinha olhos castanhos e coisas estranhas no rosto também. O que há de errado com as pessoas nessa vila? Marcas no rosto estão na moda?

- Você é minha vizinha! – Gritou o loiro apontando para mim.

Pensando bem, o loirinho ali até que me parecia familiar. Sim, ele era o meu vizinho de cima.

Aquele desgraçado infeliz!

Ele ficava pulando por ai o dia todo como uma adolescente maluca e sem dúvidas era o responsável pelas minhas dores de cabeça matinais. Eu não precisava de um despertado. Não, eu tinha um vizinho escandaloso no lugar!

- É, você me parece familiar – respondi com um sorriso doce e com certeza falso que ele não pareceu notar.

Um trovão pode ser ouvido ao longe.

- Vai chover? – Perguntou o loiro olhando pela janela do escritório da Hokage. – Mas está um dia tão bonito...

- Ei! – Gritou o moreno olhando diretamente para mim. – Por que os seus...

- Haine, estes são Uzumaki Naruto e Inuzuka Kiba – ela disse interrompendo o moreno conhecido como Kiba. – Naruto, Kiba, esta é Sonozaki Haine.

- Por que estamos aqui, vovó?

- Tenho uma missão para vocês – a Hokage disse de olhos fechados, ignorando o comentário de Naruto.

- Oba! – Gritou o loiro. – Finalmente, eu já não aguentava mais-

- Cale a boca, Naruto – disse a Hokage irritada. – Algumas pessoas que vão para o País do Trovão têm desaparecido. Elas normalmente são vistas pela última vez no território do País do Fogo, então quero que vocês investiguem o que está acontecendo e detenham quem quer que esteja por trás disso. É possível que o Raikage ou Mizukage mande alguém para investigar também, portanto não ataquem ninguém a menos que sejam atacados primeiro ou que tenham certeza que ele é culpado. Haine, você é a líder da missão.

Concordei com a cabeça, mas não estava muito animada com isso.

- O quê?! – Naruto gritou indignado. – Mas isso é missão de Genin!

- Você tem me incomodado a semana inteira, implorando por uma missão e agora que eu te dou uma você reclama?

- Mas eu queria uma Rank-B ou Rank-A, não uma Rank-C!

- Eu posso te substituir, se quiser – Tsunade o ameaçou.

- Não! Eu faço essa, eu faço essa!

- Tem como você ser mais desesperado, Naruto? – Kiba perguntou rindo e Naruto franziu o cenho.

- Vocês partem ao nascer do sol – disse Tsunade ignorando os dois. – Alguma dúvida? – negamos com a cabeça. – Muito bem.

- Podemos ir então? – Perguntei esperançosa.

- Você vai passar no hospital antes de ir para casa? – A Hokage perguntou, e eu grunhir de novo.

- Vou – respondi a contragosto.

- Então pode ir – Tsunade nem terminou de falar e eu já me encontrava do lado de fora da sala.

Estava fazendo um dia bonito em Konoha; o sol brilhava, os pássaros cantavam, as crianças brincavam e o meu humor piorava a cada segundo de toda essa felicidade. É difícil ser agradável quando a única coisa que você quer parece mais e mais distante.

Às vezes eu achava que eu era um caso perdido.

Estava no meio do caminho para o hospital quando senti uma, não, duas. Duas pessoas me seguindo. Quem é o idiota que segue uma kunoichi em plena luz do dia? Obviamente uma pessoa não tem muito apreço pela vida. Eu continuei andando, ignorando ao máximo esse sentimento de ser seguida, mas, como sempre quando se trata de mim, os sentimentos levaram a melhor e em poucos segundos peguei uma kunai e me vi segurando-a perto da garganta do meu perseguidor.

- Mas pra que isso?!

Olhei para cima e vi que meu alvo era Inuzuka Kiba.

- Por que estava me seguindo?

- Eu não estava te seguindo – ele respondeu parecendo desinteressado. Estreitei os olhos e aproximei a kunai de seu pescoço.

- Por que estava me seguindo? – Perguntei novamente. – E não diga "eu não estava te seguindo" porque eu não vou acreditar.

- A Tsunade-sama me disse pra te seguir e garantir que você fosse atrás da Sakura – indignação passou pelo meu corpo e fez meu sangue ferver.

- Inacreditável! – Disse exasperada, dei meia volta e retomei meu caminho. – Eu não tenho cinco anos. Eu não preciso de uma babá. Eu sou uma kunoichi perfeitamente capaz de se virar sozinha. Oh, onde esse mundo vai parar?

Ouvi Kiba rir dos meus murmúrios atrás de mim, mas não me incomodei em parar e brigar com ele sobre isso. Ele provavelmente estava pensando em como eu era a maior louca que já havia pisado na vila. Não que eu ligasse. E mesmo se ele pensasse isso, Kiba não deixou de me seguir, afinal ordens da Hokage eram ordens da Hokage.

Foi então que o presente me atingiu e eu parei abruptamente, o que resultou em Kiba tropeçando em mim.

- Desculpe, não vi você – ele disse com um tom brincalhão.

- Ei! Nada de piadas sobre a minha altura!

- Por que você parou? – Ele perguntou me ignorando completamente.

- Quem está com você?

- O quê? Não tem ninguém comigo – olhei cética para ele.

- Eu senti duas pessoas me seguindo. Duas. Não uma. Duas – disse mostrando para ele com os dedos.

- Eu sei contar – ele abaixou meus dedos levemente irritado.

- Então? – Ele suspirou e apontou para trás.

Um grande – e quando digo grande quero dizer enorme – cachorro branco com orelhas amarronzadas olhava para mim atentamente. Engoli em seco e não tirei os olhos do bicho.

- O que é isso? – Perguntei aos sussurros para Kiba.

- Não é um "isso" – ele disse. Alguma coisa estava diferente em sua voz, não sei se ele estava irritado comigo ou se divertindo as minhas custas. Não desviei os olhos da criatura branca para verificar. – É o Akamaru, meu ninken. Nunca viu um cachorro na vida?

- Eu já vi lobos, mas nunca desse tamanho. Por que ele é tão grande? – Perguntei olhando para Kiba que, para minha decepção, só deu de ombros.

Olhei de novo para Akamaru que continuava na mesma posição e franzi o rosto. Um cachorro, não uma pessoa. Estava ficando enferrujada.

- Como você sabia que tinham duas pessoas te seguindo? – Kiba perguntou. – Algumas pessoas conseguem sentir quando estão sendo seguidas, mas nunca vi alguém saber quantas pessoas estão atrás dela.

- Intuição – respondi um pouco rápido demais e retomei o meu caminho para o hospital de Konoha, onde acreditava que poderia encontrar a Sakura.

Desabei na primeira cadeira vaga que cruzou o meu caminho depois de pedir pra uma enfermeira ir atrás de Sakura. Exausta era um eufemismo. Kiba se sentou ao meu lado e Akamaru se deitou sobre os seus pés.

- Você não tem uma missão para se preparar? – Perguntei olhando para ele que sorriu para mim.

- Estou me certificando que a líder da missão esteja em condições de ir a uma missão. Acho que isso é um bom modo de me preparar, não acha? – Bufei.

- Haine! Você voltou – disse uma voz antes que eu pudesse responder alguma coisa para Kiba. Olhei por cima do ombro e vi a kunoichi de cabelos rosados.

- Olá, Sakura – sorri. – Voltei faz pouco tempo.

- E aposto que tudo que você mais quer é a sua cama.

- Exato – confirmei e ela riu.

- Nesse caso, serei rápida – ela disse enquanto já cuidava dos hematomas na minha perna. – Então, Kiba, o que faz aqui?

- Só acompanhando a Haine.

- É mesmo? – Ela perguntou olhando para mim.

Sakura já tinha arrumado uns três encontros para mim com alguns ninjas da vila. Ela achava que eu precisava de um namorado, o que era meio hipócrita da parte dela, já que ela não tinha namorado. O que não fazia o menor sentido, já que Sakura era linda, engraçada, uma excelente kunoichi e incrível médica. Quem não gostaria de uma garota assim?

- Ele é o meu carcereiro – respondi. – Tsunade-sama o mandou atrás de mim, ela achava que eu não viria atrás de você por vontade própria.

- E você viria?

- Provavelmente não, mas se eu não venho atrás de você, você vem atrás de mim.

Enquanto Sakura continuava cuidando de mim, ela e Kiba conversaram sobre pessoas de quem eu nunca tinha ouvido falar, então nem me incomodei de contribuir com a conversa.

Olhei para Akamaru e percebi que ele estava adormecido. Fiquei morrendo de inveja. Nunca na minha vida fiquei com inveja de um quadrúpede, mas acho que existe uma primeira vez para tudo, não é?

Sakura terminou de cuidar de mim e disse com um sorriso que eu "já estava pronta para outra". Seja lá o que aquilo signifique, não parecia muito bom.

- Então estou livre? – Perguntei olhando primeiro para Sakura e depois para Kiba.

- Está – responderam juntos.

- Oh, finalmente! – Levantei rapidamente. – A única barreira restante entre mim e a minha cama é um chuveiro. E esta, senhora e senhor, é uma barreira que eu superarei com enorme prazer.

- Cama? São três horas da tarde, Haine – disse Sakura.

- Devem ser três horas da manhã em algum lugar – dei de ombros. – Kiba, esteja no portão da vila amanhã ao nascer do sol.

Virei de costas e fui embora antes que qualquer um deles pudesse me impedir. Eu queria mesmo a minha cama.

Notas finais
E ai? Gostando?
Antes que perguntem, apenas os meus personagens originais vão narrar a história. Isso significa que só vamos ver o ponto de vista da Haine e de mais alguns outros que ainda vão aparecer.

Espero que tenham gostado e nos vemos no próximo capítulo.

- BeaRheaSonenclar
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.