"Tem que espalhar em batidinhas..Batidinhas!"

A voz aguda de Naomi, explicando como passar a porcaria de um corretivo no rosto, ecoava na minha cabeça.

—Quer saber? Eu vou continuar com essa mesma cara de doente com, ou sem, essas batidinhas -larguei a porcaria do corretivo em cima da porcaria da penteadeira, que respingou na porcaria da parede

Por que não começar do começo, né?

Bem, meu nome é Florbela. "Ai que escroto". É. Eu sei. Meus pais são paisagistas, e quando a minha mãe ficou grávida de mim ela disse que queria ter uma filha com nome de flor, a flor mais bela.. Resumindo, ela não queria um nome comum e etc, inventou esse, eu até simpatizo sabe..

Não que a origem do meu nome e minha árvore genealógica não sejam importantes, mas pulando para a parte que talvez interesse a alguém: Hoje vai ter uma festa na casa do Maison. "E daí?" E dai que eu vou. "E..?" E... que não existe ninguém nesse planeta mais presa dentro de casa do que eu. Acho que meus pais faltaram a aula sobre o abolicionismo e todo aquele babado, vai saber.. "Ah, claro, então seus pais simplesmente deixaram você sair?" CLARO! que não. Eles estão viajando, um congresso sobre as plantinhas... nunca amei tanto o Reino plantae.

Naomi disse pra mim que quem não arrisca não tem história pra contar. Dai eu disse "e eu com isso?" e a gente começou a discutir e acabamos falando sobre as roubas que a gente ia usar. (Um fato: Naomi é bem persuasiva quando convém)

Então estava tudo planejado: Meus pais pegam o avião às cinco e meia da manhã, vou deixá-los no aeroporto, dou dois beijinhos em cada um e digo "vou sentir saudades". Mato aula e vou com Naomi ao shopping comprar roupas, um sapato e... por que não uns brincos? Volto pra casa e começa a operação "desenfeiamento de Florbela" (Naomi é fera nisso).

Acontece que eu não contava com uma coisa nesse plano: eu queria muito que desse certo, ou seja, não ia dar. Sempre assim, quando eu quero que algo dê certo, nunca dá. Ou seja, acordei as quatro da manhã, tomei banho, fiz café, comprei uns pães e fiquei esperando meus pais descerem com as malas. Ora e você deve estar pensando "Nossa, que filha atenciosa, seus pais devem ter amado o café da manhã" E aí que eu lhe digo: não. Meu pai disse logo: "Louise, pega um pão e um copo de café pra mim e pra vai comendo alguma coisa que a gente tá atrasado. Florbela, seus primos chegam às oito, não precisa ir deixar a gente no aeroporto, é melhor você ficar e arrumar a casa pra quando eles chegarem", me deu um beijinho na testa e acrescentou : " vou sentir saudades." Mas ora, ora, ora, parece que o feitiço virou contra a bruxinha né meu bem.

Ok. Tudo bem. Calma. Ainda vai dar certo. Lucas e Sam são dois malinhas, mas eu dou conta.. Errado!

Lucas é mais velho que eu um ano e meio, mas se acha o adulto. Sam é a menina mais mimada e nojenta que a idade de oito anos pode suportar. A verdade é que eles moram meio longe, e faz tipo uns..o que? cinco anos? que eu não os vejo — e por mim tava muito bom assim.

Resumindo a história ao máximo, foi isso que aconteceu. E agora eu tava tentando fazer uma porcaria de maquiagem descente, pra quando fosse à noite eu fingir que sei me maquiar, mas fica bem difícil quando você não sabe dar as porcarias das batidinhas.

A campainha toca. Legal. Desço as escadas com a cara toda melada de corretivo e abro a porta.