Trouble Couple

1 Episódio 1 - Salvation


Notas iniciais
Espero que gostem. Porque eu realmente torcia para que a Xuan Ni tivesse tido um final feliz. Na série, a personagem Xuan Nu morre, mas aqui eu quis deixar ela viva porque depois de ela ter feito de tudo por aquele marido monte de bosta dela, ela merecia no mínimo, viver.

O sol já havia se posto quando eles atravessaram a fronteira entre os Reinos Celestial e Fantasma. Yan Zhi caminhava logo a frente carregando o gélido e frágil príncipe. A jovem princesa mal podia esperar para pôr seu plano de ressuscitar a criança em prática.

Ela havia estudado sobre o modo de cultivo de vida através da erva divina do Reino Celestial e estava decidida a fazer de tudo para restabelecer a vida ao seu pequeno sobrinho.

— Quando chegarmos ao Grandioso Palácio Ziming, você finalmente conhecerá sua mãe e seu pai, meu pequeno. – Ela disse sorrindo esperançosamente para o bebê inconsciente em seu colo.

Pouco atrás dela, vinha o Lorde Fantasma trazendo em seus braços Xuan Nu que desfalecida pelos ferimentos que sofrera encontrava-se adormecida. Sua cabeça recostada no ombro de Li Jing que podia sentir a respiração fraca, mas constante da esposa moribunda sob sua capa.

A decisão de traze-la novamente ao palácio havia sido uma surpresa até mesmo para ele, que meses antes, emitira o decreto onde permitia a execução da esposa.

Era confuso pensar que há apenas algumas semanas atrás, ele estava disposto a ceder ao pedido do Príncipe Herdeiro dos Nove Céus apenas para evitar uma guerra contra a Tribo Celestial. Entretanto, algo havia mudado depois de presenciar a peregrinação suicida de sua rainha para adquirir a potencial salvação para seu único herdeiro.

Seria possível que depois de setenta mil anos, ele finalmente havia conhecido a real essência de Xuan Nu? Li Jing não sabia responder, mas ocorreu a ele que, aquela mulher que se arriscou para salvar a vida do príncipe se parecia muito com a mulher que mergulhara na frente de uma espada para salvá-lo de uma condenação imediata.

Enquanto caminhava, ele percebia sob a luz do crepúsculo as marcas no rosto de Xuan Nu: duas grandes manchas avermelhadas em suas têmporas. Ele sabia que aquilo era resultado de seu autoflagelo por perder a aparência de Bai Qian. A aparência com a qual ele sonhava todas as noites há setenta mil anos.

Em sua mente, uma única pergunta se fazia presente: por que? Por que Xuan Nu se apegara tanto à aparência da raposa quando ela mesma possuía feições muito agradáveis?

Então, imediatamente, ele se lembrou das vezes em que a chamou erroneamente de A-Yin, das muitas ocasiões em que se recusou em estar com ela alegando que ela não era sua amada raposa de nove caldas.

Ele se lembrou de sua noite de núpcias quando confessou a ela que jamais a amou. Que ela havia entregue seu coração à pessoa errada; que ele poderia de três mil mulheres em seu harém, mas que nenhuma delas nunca chegaria ao pés de A-Yin.

O Lorde Fantasma parou de repente e observou a mulher em seus braços perguntando-se se alguma vez ele havia parado para percebe-la de fato. Não como uma interesseira que apenas queria uma posição distinta, ou como uma lunática que há trezentos anos permanecia cuidando de uma criança morta, tampouco como uma consorte enlouquecida pelo ciúmes, mas sim como uma mulher comum. Como a mãe de seu herdeiro.

Li Jing questionou a si próprio se alguma vez, ocorreu a ele que Xuan Nu poderia se sentir sozinha no Grandioso Palácio Ziming. Pelo que ele sabia da jovem, ela era a filha mais nova entre quatro irmãos, e havia sido destinada a se casar com um espírito de urso já muito ancião e que, após sua debandada para a Tribo Fantasma como consorte, havia sido completamente apagada dos registros familiares tendo laços afetivos e fraternos rompidos permanentemente.

Quais dificuldades ela não teria sofrido durante sua turbulenta gestação? Quantas noites ela passara em vigília gemendo com dores agonizantes enquanto ele restringia-se ao incessante desejo de reencontrar A-Yin?

A viagem que fizeram ao Reino Celestial devia ter sido uma provação para ela. Rechaçada em público como uma traidora miserável sem nem ao menos possuir quem a defendesse ou estivesse ao seu lado para protege-la. Mesmo assim, Li Jing recordou como ela havia insistido para estar ao seu lado.

Enquanto a fitava, Li Jing considerou todas essas questões e perguntou a si mesmo a resposta para tais perguntas e sentiu-se infeliz ao perceber que para todas elas, as respostas eram negativas.

Em setenta mil anos, ele jamais havia considerado qualquer coisa além de seu desejo por A-Yin. Mas, naquela noite, seus olhos olharam para Xuan Nu e pela primeira vez, não enxergaram a deusa maior, mas sim sua esposa.

Seus olhos redondos; seus cílios longos; suas sobrancelhas grossas, seu nariz pequeno e arrebitado; sua pele pálida e finalmente seus lábios – agora vermelho escarlate por causa de todo o sangue de seus ferimentos internos – pequenos com um formato que a ele lembrou uma cereja madura.

Ele ainda a observava quando ela de repente abriu os olhos encontrando os dele.

— Majestade. – Ela sussurrou com dificuldade. – Onde está meu filho.

Ela respirava pesadamente e se encolhia cada vez que espirava. Ela sentia seus pulmões em chamas.

O Lorde Fantasma não hesitou em responde-la.

— Nosso filho está logo a frente.

Imediatamente, Xuan Nu esboçou um sorriso gélido.

Nosso filho.— Ela repetiu. – É a primeira vez que você se refere a ele como nosso e não apenas, meu.

Li Jing sentiu como se um soco o tivesse atingido em cheio quando ouviu Xuan Nu dizer tais palavras porquê de fato aquela era a primeira vez que ele sentia que a criança a qual sua irmã carregava nos braços era seu filho.

— Estamos quase chegando. – Li Jing mencionou. – Descanse.

Ele retomou a caminhada e após alguns minutos andando, a voz de Xuan Nu emergiu do silencio.

— Majestade – Li Jing olhou em seus olhos perdidos em dois grandes círculos roxos. – Você salvou minha vida. Como quer que eu o retribua?

— Não diga nada. – Li Jing pediu, mas a mulher continuou:

— Diga-me como poderei pagá-lo e assim que eu o recompensar, o senhor poderá cumprir com o decreto de execução. O senhor tem a minha palavra. Peço apenas que me conceda um último ato de caridade – ela respirou fundo enquanto uma lágrima escorria por sua face. – Permita que nosso filho viva. Permita que ele sirva o palácio como um criado qualquer, desde que eu tenha sua palavra de que ele será poupado, não me importo em ser punida com a morte.

Li Jing sentiu-se aflito com tais palavras. Ela ainda se lembrava do decreto que ele emitira para que ela fosse queimada juntamente com sua criança, ainda assim, ela considerava retribui-lo antes de ser entregue à sua sentença.

Porém o Lorde Fantasma já não tinha a intenção de condená-la. No momento em que se viu tão próximo de perde-la, não hesitou em toma-la nos braços e traze-la de volta ao Grandioso Palácio Ziming visando sua reabilitação.

— Conversaremos quando você estiver recuperada. – Ele pediu-lhe novamente. Seus olhos esforçando-se para segurar as lágrimas, mas eventualmente uma escapou caindo sobre a mulher. – Descanse.

Xuan Nu então fechou novamente os olhos cedendo ao cansaço e adormeceu.

Quando finalmente chegaram ao Palácio do Reino Fantasma, uma orda de soldados os esperavam na entrada do local. Muitos deles preparados para uma batalha. Quando reconheceram sua majestade se aproximando, curvaram-se em respeito a ele.

— Majestade. – Disseram os soldados em coro reverenciando o homem, depois, voltaram para a princesa e repetiram a reverencia. – Alteza.

O Lorde Fantasma sequer percebeu seus guardas e ordenou que lhe trouxessem um médico. Pouco atrás dele, o Qilin Flamejante o seguia atordoado com a visão de seu senhor carregando uma mulher ferida.

— Qilin Flamejante! – Ele chamou. A pequena criatura respondeu com urgência. – Cuide da princesa e garanta que um médico cuide do pequeno príncipe.

— Sim! – Respondeu a pequena criatura.

— Irmão! – A princesa fantasma manifestou-se. – Não se preocupe com a criança. Eu o manterei a salvo.

A garota então seguiu o Qilin Flamejante palácio adentro.

Li Jing estava apenas alguns metros dos antigos aposentos da rainha, mas seus pés o guiaram para o seu próprio quarto real onde nenhuma Consorte tinha permissão para entrar.

O aposento era majestoso. Possuía uma grande extensão de um tapete cor de oliva que ligava a entrada até o leito. Em um dos lados, estavam adornos e espreguiçadeiras onde Li Jing costumava sentar-se para apreciar um bom vinho.

No lado oposto, estavam os livros e escritos reais. Ao Sul, encontrava-se um belíssimo jardim de inverno de onde era possível observar as fases da lua perfeitamente.

Li Jing depositou cuidadosamente a mulher muito ferida sobre o colchão macio de sua cama. Ela, porém, não se moveu ou abriu os olhos causando aflição no Lorde Fantasma que imediatamente tocou-lhe os pulsos para certificar-se de que ela ainda estava viva e sentiu-se aliviado quando ele de repente suspirou.

— Você vai melhorar. – Ele sussurrou enquanto segurava sua mão.

Quando o médico chegou, fez uma breve reverencia ao Lorde e depois colocou-se a examinar a mulher.

O olhar do velho doutor parecia consternado ao ouvir como Xuan Nu havia conseguido tantos ferimentos.

— Ela vai melhorar? – Li Jing perguntou de uma forma muito aflita.

O médico real curvou-se ao responder:

— É um milagre excepcional que ela tenha sobrevivido. – Disse o médico. – Ela não é muito forte e não possui a áurea resistente de um nativo do Reino Fantasma, contudo, ela é uma imortal e isso pode tê-la compensado de alguma forma. Seus sinais vitais estão enfraquecidos, mas estáveis e, muito embora esteja bastante ferida, os danos não foram tão graves quanto poderiam ser se vossa majestade não a tivesse salvo a tempo.

Li Jing olhou novamente para Xuan Nu. Seu rosto estava brilhando pelo suor causado pela febre intensa.

— Ela deve fazer repouso absoluto, majestade. – Recomendou o médico. – Prescreverei alguns remédios que deverão ajuda-la na recuperação.

Enquanto o médico escrevia a receita do chá de ervas medicinais, os gemidos doloridos de Xuan Nu se intensificaram.

— Quanto à dor? – Li Jing questionou. – O que fazer para que ela não sinta tanta dor?

O médico olhou para o Lorde Fantasma e respondeu:

— A dor é um efeito colateral por ela ter entrado em contato com o veneno da quarta besta guardiã. Quanto a isso, não há nada que se possa fazer para amenizar.

— Nada?! – O Lorde Fantasma urrou assustando o médico que imediatamente se curvou pedindo para que sua vida fosse poupada – Como isso é possível? Eu também fui atingido pela quarta fera, no entanto não estou nesse estado!

— É um veneno que age apenas na áurea dos imortais, majestade. – Respondeu o médico temendo seu senhor. – Não há nada no Reino Fantasma que possa dar jeito nisso.

— E no Reino Celestial? Há?

— Temo que não, majestade. Contudo, é um efeito de curta duração. A senhora Xuan Nu deve livrar-se da dor ao amanhecer.

Xuan Nu? – Repetiu o Lorde, desconcertado. – Xuan Nu? Onde encontrou intimidade para se referir a ela dessa maneira?

O médico levantou o olhar e o baixou novamente. A expressão de Li Jing não era de compaixão quando o médico respondeu:

— Depois que o senhor emitiu o decreto de execução eu pensei que...

— PENSOU?! – Li Jing bradou furioso. – CONDENADA OU NÃO, ELA AINDA É SUA RAINHA!

— Majestade! Poupe-me! Eu lhe imploro! Não tive intensão de ofender vossa majestade! Poupe-me! Poupe-me!

O Lorde Fantasma estava tomado pela raiva, mesmo assim, mostrou-se benevolente com o médico real e mandou que ele se retirasse imediatamente.

Após sua saída, um eunuco adentrou os aposentos.

— Majestade. – Cumprimentou o homem. – Devo remover a rainha para seus aposentos reais?

— Não. – Respondeu Li Jing. – Xuan Nu ficará comigo essa noite.

— Sim. – Respondeu o eunuco. – Vou ordenar as criadas para que cuidem da rainha para que o senhor possa descansar...

— Não. – O Lorde se antecipou causando uma expressão de surpresa no eunuco. – Não quero ninguém aqui além do médico. Traga-me água quente, panos limpos e vestes novas para a rainha.

— Sim. – O eunuco respondeu e depois, obedientemente providenciou o que havia sido solicitado voltando pouco tempo depois com duas criadas que traziam os pedidos.

— Podem se retirar. – Ordenou o Lorde Fantasma.

Sem questionar, todos os subordinados saíram do quarto real de maneira muito silenciosa.

Li Jing voltou-se para Xian Nu que agora, já não estava tão febril, mas que ainda gemia com as dores.

O homem apanhou um dos panos limpos, mergulhou-o na água e depois passou sobre o rosto da mulher delicadamente. Ela suspirou por um momento, e Li Jing continuou até que o sangue emplastrado em sua face tivesse sido removido.

Mas, embora seu rosto estivesse lindo, seu corpo ainda estava coberto por sangue e secreções das feras que a feriram. O Lorde então colocou-se a remover as roupas danificadas de Xuan Nu.

De maneira muito cautelosa, ele desatou o cinto que lhe prendia a saia e puxou a bainha de seu robe para cima, em seguida, desfez o nós que o fechava, revelando uma fina camada de seda branca que escondia sob sua superfície acetinada os seios da mulher.

Enquanto a despia, Li Jing tomou nota de que aquela era a primeira vez a que ele se lembrava de tocar-lhe tão intimamente, pelo menos, estando sóbrio o bastante para diferenciá-la de A-Yin.

Mesmo ela estando ferida e cheia de hematomas que começavam a surgir, Li Jing não pode deixar de notar como sua pele era macia.

Ele hesitou um pouco antes de remover por completo o robe de seda, mas quando o fez, tentou não se fixar em um desejo inconveniente e sequer prendeu-se aos belos seios que ela possuía, porque bem abaixo deles, um grande ferimento marchava-lhe a pele de vermelho.

Deve ter sido aqui que a quarta besta a atacou. Pensou ele.

O Lorde então apanhou novamente o pano úmido, e começou a limpar a pele de Xuan Nu, tomando cuidado para não interferir nos ferimentos, mas parecia que a cada toque, um novo hematoma surgia como se a pele dela interpretasse o toque suave e cauteloso de Li Jing como um ataque brutal.

Depois de limpa, ele a vestiu com uma túnica nova e a cobriu com uma manta. Ele ainda segurava sua mão quando ela finalmente despertou.

— Majestade. – Ela sussurrou, cansada. – Majestade...

— Estou aqui. – Ele respondeu.

— Estou com sede...

— Eu vou trazer-lhe um pouco d’água. – O homem respondeu.

Ele então se inclinou até o jarro e despejou um pouco de água em uma taça e ofereceu a ela que bebeu com dificuldade.

— Majestade... – ela disse novamente, — Onde está nosso filho?

— Ele está bem. Yan Zhi está com ele. Não se preocupe.

Ela suspirou e respondeu:

— Eu preciso alimentá-lo...

— Xuan Nu... – Li Jing baixou o olhar imaginando como seria terrível para a mulher se o plano de sua irmã falhasse. – Yan Zhi cuidará bem dele. Amanhã você poderá ve-lo.

— Promete?

— Prometo. – Ele respondeu, tentando expressar serenidade para a esposa. – Concentre-se em si mesma por alguns dias. Sua saúde está frágil e você ...

De repente, ela o interrompeu:

— Majestade, por que me salvou? Há poucos dias o senhor me queria morta e agora, no entanto, me trouxe de volta ao palácio...

— Não vamos falar disso...

— Por favor. – Ela pediu.

— Por que essa necessidade em saber porque eu a salvei?

Xuan Nu suspirou mais uma vez e disse:

— Porque eu preciso ter certeza de que me resgatou apenas por piedade, dessa forma eu não alimentarei falsas esperanças quanto ao nosso casamento.

Li Jing não soube o que dizer. Então Xuan Nu se sentia tão menosprezada a ponto de supor que ele a salvara por piedade? Essa entretanto, era uma questão a qual ele não sabia como responder.

Por que ele a havia salvo? Era por desencargo de consciência apenas, por benevolência genuída ou por algum outro tipo de sentimento?

Ele então considerou suas opções: Desde que traiu a confiança de A-Yin, ele havia aprendido a conviver com a culpa, de modo que não era de seu feitio amenizar seus pesos. Crescendo no Grandioso Palácio Ziming e vivenciando a crueldade e impetuosidade do Reino Fantasma, benevolência não lhe era um atributo tão presente quanto era na princesa Yan Zhi. Restava a Li Jing a terceira possibilidade: a de que por outro tipo de sentimento ele a tivesse salvo, mas qual?

Isso tudo pareceu confuso ao Lorde Fantasma, afinal, em todos os anos de casado, ele jamais havia se prendido à afeição de Xuan Nu, nem mesmo a reconhecia como mulher, mas algo havia mudado, ou melhor, algo havia se revelado.

Ele olhou para a mulher deitada na cama. Seus olhos danificados, desviavam-se da luz. Foi então que ocorreu a Li Jing que ele a tivesse salvo por gratidão, afinal, para o bem ou para o mal, ela havia estado ao seu lado durante todo esse tempo. Mesmo quando sua amada irmão o abandonou, Xuan Nu permaneceu ao seu lado, alimentando-se apenas da miserável condição de esposa que sequer era desejada pelo marido.

Mas não poderia ser apenas gratidão porque quando Li Jing a viu desfalecer em seu braços na praia, foi como se ele sentisse que um pedaço de si mesma estava prestes a ser arrancado.

Que sentimento seria esse? O de sentir-se estranhamente perdido apenas pela possibilidade de perder alguém com a qual você conviveu por tanto tempo?

O Lorde fantasma então, tentou processar essa questão quando de repente, se lembrou de uma ocasião quando sua mãe lhe falou sobre um sentimento diferente que mistura gratidão, afeição, desejo, dependência e uma série de outras sensações. Mas, honestamente, ele não poderia afirmar se era de fato desse sentimento que se tratava, contudo, ele se lembrou do que sua mãe lhe dissera milênios atrás:

— Li Jing, é um sentimento que nasce lentamente.

— E quando ele nasce, mamãe? – Perguntou o jovem Li Jing.

— Geralmente quando você admira algo em alguém.

— Como o que?

— Qualquer coisa. – Respondeu a mãe, sorrindo. – É o seu coração que escolhe o que vai admirar.

— O que o seu coração admira, mamãe? – Perguntou o jovem Li Jing.

A mãe pensou um pouco e respondeu:

— Meu coração admira muitas coisas, mas a maior delas é a inocência.

— É por isso que a senhora ama o meu pai?

A mulher sorriu.

— Não, meu pequeno. É por isso que eu amo você. E você? O que seu coração mais admira?

— Eu admiro a coragem, mamãe.

— Então, quando seu coração reconhecer a coragem em alguém, ele iniciará automaticamente a admiração e se você a cultivar, dela nascerá o amor.

Eu admiro a coragem”

O Lorde fantasma lembrou-se de si mesmo dizendo isso há muito tempo. E ocorreu a ele que mesmo depois de crescido continuava a admirar a coragem nas pessoas.

Não fora esse o ponto que o fez encantar-se por A-Yin? Sua audácia em ser uma mulher em uma montanha apenas para homens? Sua coragem em proteger o corpo de seu mestre por centenas de anos?

E, agora, olhando para a mulher a sua frente, ele admitiu o quanto Xuan Nu fora corajosa em todos esses anos. Uma coragem mortífera era fato, mas ainda sim, coragem.

Coragem para lutar por ele mesmo sabendo que seu coração pertencia a outra; coragem se colocar entre ele e uma espada para pedir por sua vida; coragem para aceitar o julgamento de todo o Reino Celestial em relação à sua conduta; coragem para desistir de tudo para segui-lo, e finalmente, coragem para enfrentar quatro feras dividas apenas pela pequena possibilidade de conseguir reviver seu filho.

A coragem era um ponto notável em Xuan Nu, mas que Li Jing só estava percebendo com clareza agora.

— Xuan Nu. – Ele sussurrou, mas ela já havia adormecido novamente, mesmo assim ele continuou. Era melhor que ela não estivesse consciente para ouvi-lo dizer aquelas coisas. – Eu a salvei porquê...porque você era o certo a se fazer e também porque eu admiro sua coragem em lutar mesmo quando as circunstancias não são favoráveis. Eu a salvei porque você é mãe do meu filho e porquê...porque eu acho que não queria vê-la partir. Quero dizer, eu cheguei a desejar que você morresse em muitas ocasiões, mas quando chegou perto de se concretizar, a única coisa a que eu desejei ardentemente foi que você não me deixasse.

Ele então tocou o rosto da mulher.

— E eu não sei dizer o porquê de não querer te ver partir, mas eu só sei que naquele momento em que você quase morreu , senti como se eu estivesse morrendo também. Não sei explicar...eu senti isso quando A-Yin desapareceu, e agora, senti com você. – Naquele momento, uma lagrima sorrateira desceu pela face do homem e caiu sobre a pele ferida de Xuan Nu. Li Jing então fechou os olhos – Eu falhei com você, Xuan Nu. Desde o princípio eu fui sua ruína e não percebi o mal que te fiz em todo esse tempo. Eu nunca deveria tê-la trazido comigo. Este palácio te danificou. Eu devia ter previsto que a áurea negativa do Reino Fantasma não faria bem a você, uma imortal. No entanto, eu a trouxe e depois, não fui capaz de reconhecer sua devoção para comigo. Eu fui um péssimo marido e um péssimo pai. Eu não estava com você quando deu à luz; eu a rejeitei na nossa noite de núpcias e a coloquei em uma situação humilhante de ter de mendigar meus sentimentos. Eu falhei.... No fim das contas, A-Yin tinha razão quando disse que sou o tipo de homem que peleja para conseguir algo e depois que possui, não se preocupa mais com o que desejou. Eu te objetifiquei. Me entreguei a um desejo momentâneo onde eu estava tentando me curar de um coração partido e não me dei conta de que eu mesmo estava partindo o seu. E no fim de tudo, eu ainda a condenei a morte quando deveria defende-la no mínimo em consideração a toda a trajetória que tivemos. Eu sou um fracasso como homem, amante, pai e rei.

Li Jing agora estava prostrado sobre a esposa. Suas lágrimas escorriam como se fosse um dia chuvoso. Ele realmente se sentia arrependido e amargurado.

De repente, sentiu dedos enredando-se em seus cabelos. Ele então levantou a cabeça e encontrou Xuan Nu acordada. Havia lágrimas em seus olhos cegos o que demonstrava que ela havia escutado boa parte do monólogo de Li Jing.

No início, ela achou que estivesse delirando por causa da dor e da febre, mas quando Li Jing tocou seu rosto com delicadeza e ternura ela sentiu que era real.

— Li Jing... – ela chamou tocando-lhe o rosto. Suas mãos ávidas por senti-lo contornavam todas as curvas de sua face: as bochechas, a testa, os chifres, o nariz e finalmente os lábios. Lábios os quais ela sempre desejou ardentemente, mas que em setenta mil anos só haviam sido seus em raríssimos momentos, geralmente, quando Li Jing estava bêbado demais para evita-la.

O Lorde fantasma então inclinou-se sobre ela, e mesmo que não pudesse vê-lo, Xuan Nu podia sentir que ele estava se aproximando. De repente, ela sentiu um toque suave em seus lábios.

O beijo começou de maneira tímida, como se fosse o primeiro e de fato era. O primeiro desde que haviam tido uma noite intima há quatro mil anos. Mesmo assim, Li Jing não se lembrava de como era beijar sua esposa.

Na verdade, antes, ele sequer sentia o gosto dela porque mesmo quando a beijava, eram os lábios de A-Yin que ele imaginava. Entretanto, agora era diferente. Ele podia sentir como os lábios de sua esposa eram macios mesmo que estivessem ressequidos pela febre; ele sentia como era se entregava a ele em um beijo constante, intenso, quente e molhado, mas aquele não era um beijo apenas repleto de desejo. Era também um beijo que pareceu a Xuan Nu, um beijo de reconciliação.

Quando o beijo cessou, ele fitou o rosto pálido da esposa percebendo que ele não se parecia com o da rainha das raposas e pela primeira vez em sua vida, Li Jing ficou feliz porque era Xuan Nu e não A-Yin.

Notas finais
Obrigada por ler ♥