Trouble.
35 Quites.
Notas iniciais
Eu definitivamente não deveria ter saído tão cedo de casa, consequentemente, agora teria que esperar tempo demais até o inicio das aulas. Solto um suspiro e sigo na direção onde meu armário se encontra, caminho lentamente pelos corredores vazios, olhando ao redor para não ter que esbarrar com ninguém e dar explicações do porque estava ali antes do horário.
Coloco força no cadeado para que ele abra fazendo um estrondo horrível. Já estava mais do que na hora de trocarem esse ferro velho, que além de ser minúsculo, não deixando com que mais de cinco livros coubesse ali dentro, também não era a coisa mais segura do mundo. Bastava um forte tranco que o pedaço de lata se abria todo, por isso eu só deixava meus livros ali e uma blusa extra.
Fechei a porta de metal com força, e quase morri do coração ao ver a pessoa ao meu lado.
— Que susto caramba – exclamo irritada.
— Desculpa – o garoto ao meu lado vira o rosto para o lado, baixando os olhos – Vim falar com você.
— Poderia ter feito isso em casa Jared – tento soar descontraída, mas acaba soando pior do que eu pensava.
— Vi você sair com pressa, então vim atrás – ele dá de ombros e se cala. Espero que ele fale logo, mas ele não o faz, apenas fica com os olhos no chão de boca fechada.
— O que você quer falar? – algo dentro de mim se anseia, e espero de coração que não briguemos, afinal somos irmãos e não podemos ficar nos ignorando o tempo inteiro, fingindo que não existimos dentro da própria casa.
— Aqui não, vem comigo – ele sai andando na frente e o acompanho silenciosamente, me perguntando o que seria de tão importante que não poderíamos conversar num corredor vazio. Sigo-o até o ginásio, onde sentamos na arquibancada, lado a lado, ainda em silencio.
— Então? – pergunto, não conseguindo segurar a curiosidade.
— Dá uma olhada nisso aqui – ele pega o celular no bolso. Na tela de bloqueio, uma foto bem fofa dele com Avallanah, os dois sorriem abertamente, e não consigo evitar um sorriso também. Ele abre as imagens e clica na primeira. Olho a foto sem entender muito bem o que vejo, tentando reconhecer as duas pessoas que se beijam no clique.
— Quem são eles? – pergunto para meu irmão. Ele não responde, apenas passa para a próxima foto, que por um momento me choca.
— Scott?
Faço a pergunta para mim mesma, mas meu irmão assente com a cabeça. Pego o celular de suas mãos e dou um zoom, e não há como negar, é Scott, e para piorar, com Samantha. Sinto uma mistura de nojo e raiva, ao mesmo tempo tenho uma forte sensação de desapontamento.
Vou passando as fotos e descubro que existem várias delas, algumas borradas, outras sem foco, mas as essenciais estavam mais do que nítidas. Scott e Samantha aos beijos. Eu não tinha nem como não acreditar, as provas estavam na minha frente.
— Como você conseguiu isso? – tento não parecer chocada demais, mas saber que meu maior amigo estava com a garota que não era a minha favorita, me deixou fora de transe por uns segundos.
— Eu que tirei – olho espantada para ele – Na festa da Sam. – Sam. Que intimidade era essa?
— Explique-se – exijo.
— Eu estava andando pela casa, procurando a minha namorada, ai achei os dois, então pensei que você deveria saber. – ele dá de ombros, e sua voz é carregada de uma sinceridade familiar. Isso também era um pedido de desculpas por me tratar mal e não acreditar em mim. Ele queria dizer que sentia muito, mas não era corajoso o suficiente para tal ato – Você também estava lá, e não é legal ser traída de baixo do próprio nariz.
— Porque não disse antes?
— Fiquei com medo de você me enxotar como tem feito com todo mundo.
Uma coisa que sempre admirei em Jared era exatamente isso, sua sinceridade, não importa a situação, ele sempre foi capaz de dizer palavras verdadeiras, embora nem sempre elas fossem as mais belas.
— Obrigada – abraço-o forte pelo pescoço, e sei que ele sabe que isso também é um pedido de desculpas.
***
— Então, o que vai fazer? – Jared está ao meu lado, enquanto caminhamos de volta para os corredores, que a essa altura já devem estar cheios.
— Por enquanto vou fazer o simulado que a gente tem agora – ele ri nasalado com a minha resposta – Depois eu falo com o Scott, apesar de que, eu não sou a namorada dele.
— Mas vocês vivem juntos para cima e para baixo – ele me olha de soslaio e quase tenho vontade de contar para ele sobre o beijo que troquei com Dylan, mas resolvo guardar esse segredo. Não queria que ele soubesse de algo que poderia causar um distúrbio maior.
— Somos muito amigos – o que não deixa de ser verdade, mas seria mentira se eu dissesse que não estava incomodada com a situação.
— Sei.
— Jared?
— Sim?
— O que você acha da Samantha?
Ele ergue as sobrancelhas surpreso, desvia os olhos dos meus, querendo evitar a resposta que possa gerar uma possível briga.
— Olha Líd – começa ele – Sam é realmente legal, você devia tentar conversar com ela.
— Mas?
— Porque acha que tem um, mas?
— Sempre tem Jared, você não ta falando o que quer, eu não vou brigar com você, perguntei por que quero saber.
— Não culpo Sam por te beijado o Scott, ele é um cara bacana – e ex namorado dela caso você não saiba, e tecnicamente meu atual amigo colorido – Dylan merece um chifre, vai ser bom para ele.
Rio com o comentário, afinal, Dylan merece mesmo, por ter traído tantas garotas por ai, inclusive euzinha aqui.
— Mas o problema não é esse Lídia, você se afastou de todo mundo, só vive com a Blythe e para piorar, vive em pé de guerra com uma pessoa que nunca fez nada para você.
Suspiro derrotada, isso não deixa de ser uma meia verdade. Mas não posso voltar atrás agora, ainda mais se Samantha estivesse traindo Dylan. Não que Dylan fosse o motivo principal disso tudo, e sim aquela coisa que ele chamava de namorada, nunca fui capaz de engolir Samantha e não seria agora também.
— Olha, não conta para ninguém sobre isso, deixa que eu resolvo meus problemas, sei que você está tentando ajudar, mas não se envolva mais nisso Jar, não quero brigar com você novamente.
Sua expressão é de quem quer continuar a conversa, mas ele sabe que de nada vai adiantar, então apenas concorda com a cabeça, tirando assim um enorme peso das minhas costas.
***
Scott estava me esperando do lado de fora como sempre, dessa vez Craig estava ao seu lado, provavelmente esperando Taylor. Aproximei-me depressa, antes que ela chegasse e o arrancasse dali o mais rápido possível.
— Oi – tento não soar irritada, mas é difícil. Olhar tão de perto para Scott e saber que ele me esconde coisas. Craig me dá um abraço rápido, alegando que Taylor não quer que ele fique perto de mim, fico um tanto triste ao saber disso, afinal, ela não pode querer afastar todos de mim só porque não nos falamos mais. Me pego pensando que ela fez exatamente a mesma coisa com Blythe tempos atrás, quando as duas definitivamente terminaram a amizade.
— Tudo bem Líd? – pergunta o garoto ao meu lado. Balanço a cabeça que sim, enquanto penso numa melhor maneira de abordar o assunto que me incomodou a manhã inteira. Scott passa seu braço esquerdo ao redor dos meus ombros, mas desvio rapidamente, evitando qualquer tipo de contato físico que possamos ter. Ele franze o cenho com a minha reação, sabe que tem algo de errado. – Está tudo bem mesmo?
— Não. – digo de supetão.
Ele ri e balança a cabeça. Droga, porque eu não consigo sentir raiva dele?
— O que foi que aconteceu?
Paro de andar e ele faz o mesmo. Fico encarando aqueles olhos cor de mel por um longo tempo, antes de finalmente contar para ele sobre as fotos. Enquanto vou falando, observo seu semblante adquirir um tom rosado, como se ele sentisse vergonha pelo o que fez. Ambos sabíamos que não era aquilo, ele estava apenas envergonhado por eu ter descoberto por outra pessoa a não ser ele.
— Desculpa. – ele sussurra. Seu rosto agora está num vermelho intenso, e suas orelhas parecem queimar. – Foi mais forte que eu.
— Não estou brava por isso – na verdade eu estava, bem lá no fundo, mas ele não precisava saber disso, afinal, eu não tinha feito uma coisa muito diferente com Dylan. O que mudava entre nós, é que eu havia sido sincera, enquanto ele decidiu esconder de mim – Porque não me contou?
— Pense bem – começa ele – Eu vou à festa da minha ex-namorada com a minha melhor amiga – então eu era a melhor amiga dele, bom saber que agora tínhamos um rotulo – uma amiga que eu considero muito, mas a ex-namorada vem falar comigo – ele faz uma careta de desgosto – e eu não resisto e beijo ela, enquanto essa minha amiga está por ai na festa sozinha, sendo que eu deveria estar com ela, ao invés de me pegar com a Samantha. Detalhe importante. O atual namorado dela estava na festa também.
— Ai Scott, você é tão burro às vezes.
— Você ia ficar brava e contar para o Dylan – me acusa – Você detesta a Sam.
— Para de chamar ela de Sam – rebato.
— Caramba Lídia, qual é o problema dessa vez? – olho para trás e me deparo com Avallanah, Jared, Dylan e ninguém menos que Samantha. Minha amiga tem uma expressão fechada, quase como se estivesse nervosa. Olho para meu irmão em busca de ajuda, mas ele parecia perdido igual a mim.
— Nada – respondo por fim.
— Bom, não era o que parecia – Samantha tenta manter a voz tranquila, mas sua expressão a denuncia. Ela está irritada, e me dou ao luxo de observar aquela reação nunca vista antes.
— Eu gostaria muito de contar para todos, mas acho que a Samantha deveria fazer as honras. Deixo o assunto especialmente para você Sam.
Peguei no pulo. Agora todo mundo ia saber a farsante que a Samantha era, e iam me agradecer por ter descoberto toda a verdade.
— Do que você ta falando Lidia? – pergunta Dylan.
— Pergunte para a sua namorada o que ela fez na própria festa. – minhas palavras vêm carregadas de veneno, quero que ela sinta todo o meu desprezo. Isso é definitivamente o primeiro ataque de uma guerra que está por vir.
Dylan olha sugestivamente para Samantha, que parece com um ratinho encurralado pela ratoeira. Bingo! Dessa vez tudo vai por água a baixo e Samantha finalmente vai perder a cara de boa moça.
— Você entendeu tudo errado Lídia – ela solta um suspiro e abaixa a cabeça. Sinto o que uma mentira está por vir da boca dela, dizendo que nada daquilo aconteceu que tudo não passou de engano. Típico de gente que não sabe esconder o que fez.
— O que está acontecendo? –pergunta Dylan visivelmente irritado. Ele odiava quando mentiam para ele, ser feito de bobo não era algo que ele costumava admitir.
— Amor, me desculpe por não ter contado antes – a voz da garota é sutil, um poço carregado de mentiras – Mas no dia da festa, algo aconteceu... Scott me beijou.
— Você o que? – pergunta ele para Scott, que tem a boca aberta, descrente com a situação. Samantha estava destorcendo a historia para que tudo ficasse a seu favor.
— Samantha, eu não acredi... – mas sua frase foi cortada no meio com o gancho de direita que Dylan tinha acertado em seu maxilar. – Seu cretino, porque você me bateu? – ele tinha a mão no lado esquerdo do rosto, sem saber como reagir à situação. Scott não era uma pessoa muito propicia para brigar, já que ele era muito zen e pacifico para isso, a verdade mesmo, era que Scott não tinha a menor noção de como se brigava com alguém.
— Você agarrou a minha namorada enquanto estava com a minha ex? – todos olhavam para Dylan, tentando entender aquela frase desconexa.
— Você está tentando defender quem? Samantha ou Lídia? – retruca Scott. Corro para perto dele, o ajudando a ser levantar.
— Vamos embora. – digo apreensiva. Tinha sido uma má ideia falar sobre aquilo com Dylan por perto.
— Agora você quer ir embora? Está fugindo? – pergunta o outro alterado.
— A única pessoa que foge aqui é você.
Dylan dá um passo para trás, como se minhas palavras o tivessem atingido como um soco. Era muito fácil irritá-lo, fazer com que ele perdesse o controle.
— Chega Dy – Samantha pega em sua mão e o mesmo parece se acalmar. Tal reação me deixa irritada, pego Scott pela mão e o puxo para longe dali.
***
Depois de deixar um Scott alarmado em casa, vou a rumo da minha, ainda pensando na estupidez de ter falado na cara dura sobre aquilo. Ela tinha me desmentido na frente de todo mundo, e ainda tinha saído por cima. Abro e fecho a porta com força, gritando para todos que eu havia chegado.
Vou em direção ao meu quarto, passando pela sala, e dou de cara com um Dylan de pernas cruzadas e expressão rude.
— O que ele tá fazendo aqui? – pergunto para Jared.
— Vim falar com você – responde para mim. Solto um suspiro e parto para meu quarto. Não preciso olhar para trás e saber que Dylan me segue, ele faz questão de bater os pés enquanto sobe as escadas.
— O que você quer Dylan? – pergunto.
— Seu irmão me contou que Samantha me traiu.
— Parabéns pelos seus chifres amigão, agora vaza.
— Sempre muito agradável Líd. Precisamos conversar, e sério. – ele senta sem a menor vergonha na minha cama, me limito a revirar os olhos.
— Fala logo e vai embora.
— Porque você sempre persegue a Samantha? – a pergunta me pega desprevenida.
— Eu não a persigo – vamos apenas dizer que eu vejo coisas que não posso provar – apenas disse a verdade hoje.
— Não? – ele se levanta e vem na minha direção – Qual é o seu problema com ela? É ciúmes? – ele caminha cada vez mais na minha direção, me encurralando contra o armário.
— Lógico que não – respondo. Minhas costas batem no armário, e Dylan está próximo o suficiente para impedir uma provável fuga.
— Ah não? – seu rosto fica de frente para o meu, e sinto sua respiração bater no meu rosto. – Você não fica irritada quando ela está perto de mim? –sua voz é um sussurro quase inaudível — Diz para mim que você não quer me beijar nesse exato instante.
Não sou capaz de responder, Dylan já está pressionando os lábios dele nos meus antes mesmo de eu conseguir formular uma resposta. Tento não me mexer, mas a tarefa se torna impossível quando Dylan passa um braço ao redor da minha cintura, me puxando para mais perto dele. É inevitável, eu não consigo não sentir nada, eu anseio por mais, queria que as coisas terminassem naquela cama, como elas tinham começado numa noite meses atrás. Tão rápido como começa, o beijo termina. Dylan segura meu queixo e dá um selar demorado.
— Estamos quites Lídia, isso não vai acontecer novamente.
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