Meus pés ansiosos me guiavam pela calçada. Eu ultrapassava as pessoas com facilidade, já habituado a desviar de quem fosse mais lento. Quando algum farol me parava, eu tinha que fazer esforço para ficar quieto. Quando abria, eu me esforçava para recuperar o tempo perdido, quase correndo rua acima. Não importava para aonde eu ia, era importante chegar o mais rápido possível.

Às minhas costas, o sol subia pelo céu. O dia ganhava cor, mas continuava muito cinzento. Eu era iluminado, mas só sentia frio.

Mais rápido, mais rápido, mais rápido.

Ao chegar à faculdade, me perguntei a mesma coisa de sempre: O porquê eu queria tanto chegar rápido até lá. Me sentei no meu lugar de sempre, e esperei. Esperei, esperei e esperei. Todo dia eu esperava. Os outros chegarem, as coisas abrirem, a hora de ir embora para poder dormir – e todo dia eu sentia dor nas pernas para poder esperar mais essas coisas.

E em situações assim, eu fugia. Para algum lugar, qualquer lugar, bem no fundo da minha mente. Imaginava coisas, ouvia músicas, criava versos. Corria da realidade. Era uma defesa contra a chatice que me cercava. Contra a felicidade de mentira que jorrava a cada palavra de uma amiga minha.

Mas pouco a pouco as cores voltavam, e o dia não parecia tão ruim assim. Uma companheira minha logo chegava, e eu me sentia mais relaxado. Chegava meu raio de sol índigo. Meu raio de sol rubro. Minha princesa do outono. E às vezes, num dia de sorte, também minha borboleta.

As portas se abrem, e as pessoas começam a ir embora. E é quando eu a vejo, indo para a sua sala. É pequena, quase minúscula. Anda como se sua existência fosse um erro, e estivesse ocupando o lugar de alguém. Maquiagem preta e roupas mais escuras ainda. E ainda assim, tudo isso parece cair-lhe bem demais. Ela olha pra mim, como sempre. E sorri. E eu sorrio de volta. E a vejo ir embora, meus olhos grudados no seu corpo, meu coração mais acelerado e um milhão de perguntas entupindo minhas veias.

Ela é problema. Ela é delicada. Ela é tudo o que eu quero fugir.

E não há um dia que não pense nela, mesmo assim.

As coisas que amamos sempre nos destroem.

Sempre, sempre.

Meus sóis vão para o canto deles, e o mundo fica cinza mais uma vez. Subo para minha sala pensando em quantas formas diferentes eu tento me destruir. Eu entendo que procuro amar gente que não pode me amar da mesma forma. Sei que confundo tristeza com carinho, desprezo com amor. E não consigo ver uma coisa separada da outra, não importa o quanto eu tente separá-las. Percebo a apatia agarrada ao meu pescoço, fazendo com que minha voz fraqueje cada vez mais. Mas não consigo mudar nada. É como se todo esse saber não adiantasse de nada.

Sento no meu lugar e espero a aula acabar. Rezo baixinho para que me ignorem, para que não me perguntem coisas, para que me esqueçam. Não tenho vontade de sorrir. Evito olhar para o lado, aonde se senta quem eu quero que suma. Seria mais fácil assim. Para todo o mundo.

Saio da sala várias vezes durante a aula. Bebo água, caminho pela faculdade. Às vezes espero encontrar quem eu conheço. Às vezes quero só andar um pouco.

Ando tendo vontade de chorar a quase todo instante, como se tentasse evitar que vidro partido se espalhe pelo chão. Não consigo confiar em ninguém agora. Em mim, muito menos. A vida que construí não parece mais sustentável. Não consigo mais acreditar que eu vá conseguir manter as coisas como estão. Não sei como eu consegui por tanto tempo.

No fim do dia, consigo ver meus amigos de novo. Meu solzinho escuro, também. Ela me anima e me faz sofrer. Quero e não quero, avanço e recuo. É difícil não duvidar de mim mesmo nessas horas. Do que eu quero, do que eu sou, do que eu procuro. Nada mais parece ter valor quando reflito sobre essas coisas. Sobre ela.

Me sinto ruim.

Me sinto um lixo.

A hora da despedida chega. Às vezes volto sozinho, às vezes acompanhado. Quero dizer um monte de coisas, mas as palavras fogem, e eu aceito. Quero contar tudo o que acontece, mas sei que não é uma boa ideia. Não vai resolver as coisas, e isso só vai afastar quem eu quero por perto.

Quanto mais vulnerável fico, mais me isolo. Busco em algum lugar, em alguma coisa, algo que me faça me sentir mais firme, mas só consigo tropeçar. Chegando em casa, dormir parece uma boa solução. Ficar quieto por algum tempo. Depois que acordo, tento resolver o que é pendente. Tento desenhar, escrever. Simbolizar algo que eu não sei o quê.

Às vezes eu me arranho. Uso as unhas para marcar meus braços ou pernas. A dor me faz lembrar que eu vivo, pois todo o resto parece me fazer esquecer disso.

E na hora de dormir, penso em quem vou encontrar no dia seguinte.

Quando acordar, vou rápido para chegar cedo e não perder nenhum momento.

Mais rápido, mais rápido.

Tenho que andar mais rápido.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.