O Embate final
A Queda de Saraah

Alana passou o dia em casa com sua mãe, nem abriram a loja. Hoje seria o dia do festival, o dia em que Alana enfrentaria um mal poderoso e desconhecido. E ela deveria confiar em seus instintos na hora de agir. Ela sabia que na hora da batalha, cada palavra que saísse de sua boca, seriam as palavras certas, assim como suas ações, que também seriam certas.

Ela passou o dia em meditação, pedindo forças dos espíritos de luz, dos guias espirituais. Orou a Deus e a Jesus para que eles pudessem ampará-la e guiar seus passos.

Às 19h, ela vestiu um vestido branco, deixou os cabelos soltos, passou um óleo com perfume de sálvia que sua mãe havia lhe dado e ela em um primeiro momento ao ganhar, achou estranho, mas agora ela entendeu a intuição que sua mãe teve.

— Alana, – Lúcia chama a filha — Você tem certeza que está pronta minha filha?

Alana olha para si mesma no espelho e encontra a força que precisa dentro de seus olhos.

— Sim, mãe, estou pronta – afirma.

— Mãe..., – Alana fala com voz suave — Eu precisarei de você. Mas, quero que você fique longe e só se aproxime, quando meu amor chamar o seu, ok? – Alana diz a frase meio confusa, mas sua mãe a entende perfeitamente.

— Sim, minha filha – diz sua mãe a abraçando apertado — eu estarei lá, pronta para enviar meu amor para ajudar no que for preciso.

Alana sorri para sua mãe e estende a mão e diz.

— Então, vamos!

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O festival foi montado em uma parte afastada do centro da cidade, em uma região cheia de árvores, como se fosse uma pequena floresta.

O lugar estava todo cheio de luzes, barracas, pessoas passando com bandejas de pães e doces, oferecendo gratuitamente ao público ansioso para se divertir e se fartar. E no palco, lá estava Saraah Gio, com um vestido vermelho justo na parte de cima do corpo e descia abaixo do quadril em babados que se moviam como se tivessem vida. Seus olhos amarelados estavam em destaque com uma bela maquiagem e seus lábios cheios com um batom vermelho forte.

No palco, ela cantava uma canção em espanhol, deslumbrando e hipnotizando as pessoas ao redor. Tony, no fundo do palco, olhava com diversão e malicia as pessoas hipnotizadas e seduzidas por Saraah.

Alana diz a mãe.

— Mãe, quero que a senhora fique bem no início do festival. Não coma, não beba, não cheire nada que estiver a venda ou lhe for oferecido. Só venha quando sentir— diz Alana sabendo que sua mãe havia entendido a mensagem – a senhora vai saber quando.

Lúcia olha para a filha, que parecia que a cada segundo que passava crescia mais e brilhava mais. Uma luz tão forte no olhar que encantava e assustava ao mesmo tempo. Com o coração cheio de orgulho de sua pequena, Lúcia diz:

— Pode confiar, meu amor, – Lúcia diz, – estarei pronta e segura.

Alana e sua mãe se abraçam e a energia vibra e flui entre elas. Alana toca no rosto da mãe e se afasta.

Durante a caminhada, Alana começa um cântico que ela não sabe de onde veio ou de onde aprendeu, só que estava saindo de seus lábios. O cântico ficava cada vez mais forte, acompanhado de um vento que varria o festival. A noite antes de céu limpo e estrelado, passou a formar nuvens. O vento aumentava mais e mais, derrubando barracas, pratos, bandejas, tudo indo ao chão.

Depois veio a chuva, chuva forte e pesada.

As pessoas começaram a gritar e correr, todas fugindo da chuva e indo embora do festival. Ninguém reparou na moça que caminhava em direção ao palco sem que uma gota de chuva caísse sobre si.

Saraah, paralisada no meio do palco, olha a jovem que se aproxima e sente a centelha de Ionela que há décadas é um ponto minúsculo, vibrar um pouco mais a cada segundo, começando a se agitar dentro dela.

Tony, começa a se aproximar de sua mestra e vê a jovem parar em frente ao palco e os olhar fixamente, sem medo.

— Quem é você, e como usa interromper nossa festa? – Tony grita do palco.

— Está falando comigo, cachorrinho? – Alana diz irônica — Tsc. Tsc, sua dona precisa melhorar seus modos – ela sorri e acena com a cabeça.

Tony avança pronto para tentar agredir Alana e ela estende a mão e ele paralisa.

— O que está acontecendo? Saraah, o que está acontecendo? – Tony paralisado grita.

Saraah olha a jovem na sua frente, inclina a cabeça de lado e sorri maliciosa.

— Ah, você é aquela que a outra garotinha disse que iria “acabar comigo?” – diz ela sorrindo fazendo aspas no ar, rindo.

— Estão mandando suas ovelhas cada vez mais jovens, esses tais espíritos de luz, bando de covardes, se você me perguntar. – diz Saraah balançando a cabeça com arrogância.

Alana sente dentro de si uma centelha pequena, que se aloja em seu coração e suspira.

— Ionela...

Saraah ao ouvir isso, enrijece.

— O que você disse? – seu rosto belo retorcido.

Alana sente a centelha crescer e fala.

— Eu disse... IONELA!!!

Neste momento, Saraah paralisa e sente o pequeno ponto que era Ionela, crescer dentro dela, brilhando e tomando espaço, empurrando sua alma de dentro do corpo da moça e grita.

— Não, ela é minha! É minha há centenas de anos e será para sempre!

Alana se aproxima mais e diz com voz suave.

— Não, Saraah Gioa, Ionela não é sua. Ela é nossa.

Saraah começa a tremer e perder o controle de seu corpo, enquanto isso, Alana começa outro cântico, um suave, como uma canção de ninar de uma mãe para uma filha. Começa baixinho e o volume vai aumentando mais e mais, que começa a ecoar como ondas em toda a floresta.

Saraah cai de joelhos e seu corpo começa a mudar. Seus traços vão envelhecendo mais e mais rápido, ela vai diminuindo de tamanho até estar em sua verdadeira forma. Uma velha tão maltratada, feia, com a pele que parece quase em decomposição e seus olhos vermelhos de fúria.

E a seu lado, uma luz brilha, brilha, brilha e começa a tomar forma de uma bela jovem, com um vestido simples, com um corpete bem feito e couro amarrado, longos cabelos encaracolados soltos e belos olhos verdes. Ela olha atordoada ao redor e seu olhar fixa na jovem em frente ao palco.

— Mãe? – diz Ionela com voz trêmula e cheia de esperança.

— Sim, meu amor, – diz Alana com lágrimas escorrendo por seu rosto — Um pouco diferente e jovem, mas sou eu.

Ionela começa a chorar e diz

— Eu só queria que a dor passasse, eu só queria paz – chorando copiosamente.

— Eu sei, minha filha – diz Jenica/Alana — Agora você terá paz, meu amor, agora você terá muita paz.

Neste momento, Ionela sorri e uma luz azul e lilás a envolve cada vez mais forte e brilhante. Ela olha para sua mãe.

— Mãe, obrigada por me salvar, obrigada por seu amor, obrigada por não desistir de mim, eu te amo tanto – Ionela diz sorrindo e sumindo.

Alana sorri largamente e se despede de sua filha.

— Até breve meu amor, até nos encontramos de novo, eu te amo.

E Ionela se vai, junto com a luz.

Alana levanta os braços aos seus e começa um forte cântico, cheio de vigor e força, sua mãe aproxima-se por trás e coloca a mãe em suas costas. E de repente, vozes se juntam a ela, dezenas de vozes. Todas se tornam uma só voz e Saraah no meio do palco começa a se debater violentamente, e dela, começa a sair centenas e centenas de pequenos pontos brilhantes e o mesmo acontece com o paralisado Tony, pontos brilhantes começam a sair dele, almas sendo libertas, almas enfim encontrando a paz.

Silêncio cobre a pequena floresta e Alana se aproxima de Saraah que está caída de joelhos no palco,

— O que foi, pequena Saraah, sua escuridão a abandonou, foi? – Alana diz ironicamente sorrindo.

Saraah a encara com olhos vermelhos embaçados e diz para Alana: — Acha que é meu fim? Eu tenho milénios, criança, você não é nada! – ela cospe.

— Tem certeza? – Alana diz e se levanta.

Caminhando até Tony, que está prostado e fraco, só pele e osso depois de perder as almas que o mantinham jovem e forte.

— Você, pequeno, minúsculo Tony, vai virar pó! – Alana diz e sopra sobre ele. Tony vai endurecendo e tornando-se uma pilha de cinzas.

Ela ergue as mãos, inicia um cântico e vem um vento e o destrói. Tony nada mais era agora que pó, destinado ao esquecimento.

Saraah, tenta se arrastar para longe, mas não consegue.

Amon, Clara e todos os espíritos de luz se aproximam de Alana, eles dão as mãos e rodeiam Saraah. Começam um cântico baixinho, todos no mesmo tom, no meio do círculo, Saraah começa a gritar. O cântico fica mais alto, mais forte, com mais poder, e Saraah em agonia pede misericórdia, mas não há misericórdia para ela. Ela escolheu o caminho do mal, ela escolheu ir ao encontro dele e lá viver pela eternidade. Com um último grito alucinante...

Saraah Gioa explode.

Alanna cai de joelhos e sente o poder que estava dentro dela se esvair. E também sente a paz, o amor e o alivio de ter conseguido salvar a alma de sua filha. Porque sim, para Alana, não importa a vida, Ionela era sua filha.

Amon, coloca suas mãos nos ombros de Alana e a levanta.

— Alana Souza, você é uma mulher especial e fantástica. Hoje, libertou milhares de almas do destino mais triste – a voz de trovão de Amon ressoa pela floresta.

— Amon, eu só tenho uma pergunta agora, por que eu? – Alana olha para ele emocionada.

— Porque para quebrar uma maldição desse tamanho, para lutar contra esse tipo de força, só o amor de uma mãe que esperou reencarnação após reencarnação. Que evoluiu e lutou com um só propósito: Salvar sua filha. Esse tipo de amor, é o mais poderoso que existe. – diz Amon.

Alana o abraça e tem mais uma pergunta.

— Então... ainda vou ter esses poderes? – diz ela sorrindo.

Amon e os seus companheiros gargalham felizes e aliviados e ele responde: — Alguns, que já eram seus, e ficará acima de tudo, a sabedoria, e a certeza, que o amor, é o sentimento mais forte do mundo.

Alana se afasta e procura sua mãe, e ao vê-la, corre para seus braços.

— Ah, minha criança, estou tão orgulhosa de você. – Lúcia diz chorando suavemente.

— Eu te amo, mãe. – Alana diz para sua mãe — Tanto, que acho que nem tenho palavras.

— Eu também, – diz Lúcia — vamos para casa.

Alana vira para se despedir de Amon, mas, todos os espíritos de luz já se foram. Ela sorri e diz para o céu

— Obrigada, Senhor Trovão!