Trintero

9 Capítulo 7


—Zeus! Tales! – gritei me levantando, ficando apoiada contra a árvore, apertando o paletó contra mim e encarei aos olhos vermelhos que nunca me deixaram – Quantos anos você tem?

—Vinte e seis anos. Você fez dezenove anos, não é?

—Sim. – engoli em seco e ele tocou o meu rosto.

—Você é a nossa mãe viva... Bem, tem alguns traços do nosso pai, mas a maioria é tudo da nossa mãe. Eu puxei ao nosso pai, aos nossos antepassados. Meus olhos eram do nosso bisavô.

Olhei para ele, tendo que procurar algo entre nós parecidos. Eu sei que nossos olhos devem ser iguais quando eu me transformo... Mas ele tem mais de um metro e oitenta, é musculoso, nada de delicado. Apesar disso, tem o mesmo cabelo que o meu, em um corte curto e descontraído. Nossos rostos são ovais e o dele leva uma rala barba para fazer.

—Você tem o cabelo dele, mas os traços são da nossa mãe. – ele disse com um sorriso – Muito delicado e feminino e a altura dela. Nosso pai tinha quase dois metros e ela era bem baixinha em comparação.

—Acho que qualquer um seria baixinho em comparação a ele. – disse triste, me lembrando dele vivo.

—É eu acho. – ele disse dando um riso triste e me abraçou me pegando de surpresa – Eu estou tão feliz por te ver!

—Quem... Quem mais veio? – perguntei nervosa.

—Nosso avô. – ele se afastou devagar e olhou olho a olho – E alguns guardas.

—Quantos? – perguntei e o vi hesitar – Quantos?!

—Uma dúzia... Ou talvez duas...

—Quantos? – perguntei dessa vez mais brava, com um suspiro de cansaço.

—Vinte e sete guardas... Meio que foi surpresa para nós descobrimos sobre você e ficamos preocupados... Não pudemos analisar nada. Os guardas estão espalhados por todos os cantos. Eles não ficam em cima da gente. Só apenas uns três guardas. – ele falou, como se aquilo fosse me aliviar. Não me aliviou.

—Isso era para me acalmar? – perguntei incrédula.

—Sim?

Revirei os olhos e me afastei devagar.

—Vamos. Quero conhecer logo meu avô. – falei tensa e depois sussurrei para mim mesma – Ai depois vocês podem sumir do mapa e me deixar...

Apesar de falar isso, eu soube no mesmo instante em que o Caetano colocou a sua mão no meu cotovelo como se fosse para me proteger de uma queda, que...

“Eles não vão te deixar” – Zeus e Tales completaram.

Um pensamento único de todos nós.

Fechei os botões do paletó com medo que mostrasse algo.

Depois de subir o morro cheio de árvores e mato, ficamos andando mais uma meia hora, até chegar perto dos chalés. Depois de cinco minutos, chegamos ao meu, onde tinha um guarda na porta.

—Nosso avô deve estar lá dentro. Os guardas já devem ter o avisado. – ele murmurou para mim – Não se exalte com ele. Ele já está muito velho. Nem deveria ter saído do castelo. Completou mil e quinhentos anos ontem.

O olhei incrédula e subimos. Agora me pergunto...

—Até que idade nós vivíamos?

—Os dragões são imortais. – ele disse e eu fiz uma careta.

—Então porque nosso avô está “morrendo”?

—Ele sofreu um ataque e quase foi morto. Ainda está se recuperando... Ele parece ter não mais que trinta anos. Os dragões mais evoluídos, mais antigos, que nem ele, consegue controlar sua massa e modificar a textura da sua pele.

Parei na porta do meu chalé, do lado do guarda, em uma transformação de dragão e humano, uma mistura que eu já experimentei. Encarei meu irmão, desconfortada.

—Isso quer dizer que nós podemos controlar a idade que nós temos?

—Não. Isso quer dizer que dragões com mais de mil anos de vida podem controlar aparência da sua idade. – ele disse de forma brusca.

—Se somos imortais então, porque existem tão poucos de nós? – perguntei de forma acusatória – Existem poucos.

—Nós só conseguimos ter filhos com nossos companheiros de alma... Sim, isso existe. Para cada dragão, ou dragashion existe um companheiro exato e sem ele, você não consegue ter nenhum filhote. Raramente nós conseguimos ter um filhote com que não é o destinado.

—Então dá ou não?

—Sim, mas para isso os dois tem que se morder até tirar sangue na hora do ato e nem é assim é garantido. É tão difícil que só houve dez nascimentos assim.

—Mas não impossível... Agora companheiros? Como funciona isso?

—Quando conseguem achar o seu companheiro, são extremamente protetores em relação aos seus filhos, pois são costumados a serem perseguidos e extintos. Quando o casal tem filhos os pais precisam criar foco para conseguir controla-lo e transforma-lo em um dragão discreto mesmo quando filhote. Não contraímos doenças. Você saberá quando for seu companheiro... Simplesmente quando você encontrar irá saber. – ele abriu a porta e me puxou apressado – Anda logo, ele precisa voltar rapidamente.

Assenti, tentando assimilar todas as suas informações.

Assim que entramos, eu avistei dois guardas dragashion pelo que agora parecia um cubículo do meu quarto. Peguei um homem me encarando com curiosidade e olhei em seus olhos roxos, estranhamente familiares...

—Você tem os olhos do meu pai. – murmurei e senti algo em eu desabar.

Lembranças de olhos sorridentes e animados me jogando para o alto e me rodopiando no ar. Dos olhos amorosos quando me abraçava com força. Em um turbilhão de sentimentos, senti lágrimas involuntárias se acumularem em meus olhos até começarem a cair, mas eu não solucei, não fiz nenhum barulho. Passei minhas mãos rapidamente pelo rosto e me forcei a parecer fria e sem sentimentos, que nem ele.

—Você... É meu avô, certo? – murmurei logo que me recuperei.

—Sou. – ele disse e então me analisou como se decidisse algo – E você é minha neta.

“Será que podemos dormir? Estou cansado!”.

— Nós já vamos, se acalme.

—É verdade. Vamos embora logo. – disse meu avô e eu neguei.

—Não! Eu vou ficar aqui! Vou... – cortei-me rapidamente, pois eu não poderia falar que eu iria ficar apenas para fugir do Rei atual – Eu vou terminar meus estudos aqui. Como meu pai, e minha mãe desejavam.

—Depois você vira ao palácio? – ele perguntou e então negou – Você virá. Esse é o nosso acordo. Assim que terminar essa escola, você voltará para o palácio, da onde você nunca deveria ter saído.

—Mas se eu não estivesse saído, eu estaria morta, não é mesmo? – perguntei duvidosa.

—Bem, sim, mas... Como eu posso dizer? – ele coçou o queixo, onde tinha um pouco de barba – No final, como seus pais eram muito importantes... Você não iria ser morta. Eu só não acho que eles tiveram noção disso e acabaram se envolvendo com pessoas erradas, por esse mesmo motivo...

—Como assim? – perguntei confusa quando ele hesitou.

—Confiaram em mercenários, que depois foram contratados pelo...

—Calado menino! – disse meu avô bravo – Ela... Depois saberá disso! Depois você irá falar. Quando o momento for adequado, quando vocês estiverem sozinhos.

—Mas... – Caetano tenta falar, mas o olhar do meu avô foi mortífero.

—NÃO! Depois! Só depois. – ele disse e percebi que começava a suar – Por favor...

—Vô! – olhei para o Caetano que correu para ele e o impediu de cair – Você precisa voltar e ficar em segurança. Tomar seus remédios e ficar na cama!

—Sim... Sim... Eu preciso. – ele fala e começa a ofegar – Cuida... Cuida...

—Sim, vamos embora. Eu vou cuidar de você. Vamos!

—Não... Guardas... – ele tosse e algo em mim começa a ficar acelerado, minha respiração irregular e eu começo a sentir meu peito apertar – Vamos... Levem-me daqui! Você... Você fique aqui... Fique aqui e cuide da Sophie. Eu vou ficar bem.

—Veneno. – sussurrei e cai de joelhos no chão – Tem veneno circulando no sistema dele. Eu posso sentir. Eu posso sentir isso. Fonte na costela esquerda, dentro do osso.

—O que... – olho para o Caetano e então um sorriso enorme surge em seu rosto – Então já sabemos o que vai ajuda-lo! Leve-o para o palácio e faça uma cirurgia e de a erva dos dragões.

Os guardas assentiram e então saíram apressados do meu chalé. Olhei para meu suposto irmão, confusa e ele me ajudou a sentar na cama.

—Alguns familiares conseguem entender uns aos outros, sentir quando algo vai mal. – ele disse e acariciou meu cabelo – Nós dragões, conseguimos sentir o que o outro tem. Não que isso seja incomum ou raro, mas só duas pessoas da família pode entender o outro. Você e meu avô podem entender o que cada um está sentido de uma forma... Da saúde. Eu e minha avó somos assim. Isso acontece com dragashion facilmente.

—Todos os dragões são dragashion? – perguntei com medo – E isso ocorre com todos... Quero dizer, esse negócio de ligação?

—Normalmente, esse negócio de ligação, sim. – ele disse sorrindo – E a maioria é dragashion, sim. Mas poucos são dragashion puros, que podem até se transformar completamente em humanos. Os que conseguem fazer as três transformações são chamados de Puros. Como nossa família era parte da realeza e tem sangue dragashion puro, nós podemos nos transformar em humanos. Mas nossa mãe, tinha um toque de dragão no sangue e a parte fada dela era extremamente forte, o anjo dava mais poder a cura. Essas partes só acrescentaram e nos tornaram mais fortes;

—E o que seria Puro? – perguntei curiosa.

—Dragões que não se misturaram com nenhum tipo diferente de seres. Que nunca tiveram filhos que não seja um dragão puro. Alguém como o Demitre agora é considerado um dragão puro. Em uma vida passada ele deve ter sido um dragão, por isso pode aceitar a fera em si. E considerando que ele pode se transformar em um dragão, dragashion e humano ele deve ter sido puro. Os humanos que conseguem aceitar a chama dentro de si e se transformar, quer dizer que eles já foram dragões puros. – Caetano disse nervoso – O que apenas aceitam a chama, mas não se transformam, são apenas portadores da energia do dragões. E nossa mãe foi uma mistura, mas por ela ter um toque de dragão puro no sangue, não nos mudou.

—E os dragões que não se transformam?

—São os dragões. A origem. Os sem mágica... Os dragões que não tem completamente a mágica em si. Só os dragões mais fortes... Mais poderoso podem se transformar em dragashion.

—Então se um dragão for forte o suficiente, mesmo sem ser puro, ele pode se transformar em um humano?

—Sim... Mas o poder da mágica que ele necessita seria a de um dragão puro. Só aconteceu isso uma vez na história dos dragões. Um dragashion não puro se apaixonou por uma humana e ninguém sabe como, ele foi forte o suficiente para se transformar em um humano, mesmo não sendo puro... O que é incrível. E incrivelmente inexplicável!

Parei um instante e vi como o Tales estava inquieto e sorri.

—O amor é capaz de loucuras. O amor trás poderes que ninguém realmente pode explicar. – falei, estranhando como clichê isso soou e me levantei – Preciso descansar. Boa noite. Pode dormir aqui hoje. A outra parte da cama está livre, mas terá que dividir com nós três.