Trinity
9 Se você aceita a derrota é só isso que vai conseguir - Parte 2
Notas iniciais
A coreana tentava entender o que aquele homem que a ajudou pouco tempo atrás estava tentando fazer, mas era algo meio ilógico para ela.
Desde o momento em que a “esperta” senhorita que pilotava a moto voadora saiu de perto das árvores o inferno recomeçou. O barulho dela partindo chamou a atenção do gigante de quatro braços, que provavelmente estava quase desistindo de procurar Yang-Mi e Dante. Como aquela coisa que voava estava exatamente sobre a árvore que ela se escondia, não foi muito difícil do monstro reconhecer a presença dela ali, e como todo bom gigante ele recomeçou sua caçada. Ele sequer percebeu a presença de um veículo voador que rondava o local, parecia focado somente em encontrar os dois caminhantes que outrora escaparam de ser seu almoço.
Infelizmente, dessa vez ele deixou Dante de lado e partiu na direção da garota.
A única reação que ela conseguiu ter além de correr desesperadamente pela própria vida foi a de entregar a mochila para o careca, no exato momento em que ele gritou.
Ele gritou
“Esse cara é idiota” – pensou. Justo no momento em que ele deixou de ser perseguido ele volta a chamar a atenção. Kim ficou preocupada com o rapaz, mas manter sua vida era mais importante naquele momento. Então, confiou que existia um plano naquele grito do rapaz e se pôs novamente a correr, mas sempre olhando para ele, certificando-se de que estava bem.
Dante parecia exausto, mas não da corrida. O condicionamento físico dele demonstrava que aguentaria bem mais do que isso, ele já parecia cansado mesmo antes de começar a correr.
As coisas começaram a ficar estranhas a partir do momento que ele abriu a mochila e colocou aquela luva, o que foi surpreendente de certa forma, pois ele fez todas estas ações sem parar nem diminuir o ritmo da caminhada. A garota era observadora o suficiente para já ter percebido que Dante era um tanto quanto atrapalhado, o mínimo que ela esperava é que ele tropeçasse em alguma coisa e desse de cara no chão, mas não aconteceu.
Quando ele finalmente colocou a luva por completo e apertou alguma coisa, Yang-Mi a viu brilhar. Desde que saíra de Atlântida não havia presenciado nenhuma manifestação de qualquer tipo de tecnologia, e só hoje já havia visto uma moto que voava...
... E uma luva que brilhava.
Ignorou isso e voltou a correr.
x-x-x-x
Dante sentiu a manopla brilhar ainda mais em sua mão.
Não viu, sentiu. Era como se o líquido que tinha acabado de entrar em sua corrente sanguínea passasse a se difundir para o resto dos tecidos de seu corpo, sendo que toda a energia incapaz de ser absorvida se movimentasse diretamente para a mão direita, se concentrando.
Ele não parou de correr, tudo bem que estava impressionado com sua mão que estava brilhando e com seu corpo que sofria variações de temperatura, mas se parasse de correr provavelmente morreria.
Ele se sentiu levemente mais rápido.
Era como se tivesse uma capacidade melhor de movimentação; mesmo que não conseguisse deixar de correr de uma forma atrapalhada, parecia que o corpo atendia mais facilmente aos comandos de sua mente.
Mas não era efeito do buff de velocidade, disso ele tinha certeza. Tal buff acelerava todo o metabolismo humano, da respiração celular até a pressão arterial, até os pensamentos se tornavam mais rápidos.
E nesse quesito Dante se sentia tão lerdo quanto antigamente.
Ele também descartou a possibilidade de ser efeito da regeneração, mesmo que este renovasse completamente o corpo e tornasse possível que ele voltasse a correr na mesma velocidade que começou sem nenhum esforço. Mas ele continuava a sentir o cansaço e a respiração ainda estava pesada.
O único que restara era força.
O homem se decepcionou com o resultado de certa forma; ele estava torcendo para que o líquido “sorteado” fosse o de velocidade, afinal, seria muito mais fácil pegar Kim e sair correndo dali do que enfrentar o gigante diretamente.
“Bom, não foi dessa vez” – pensou enquanto interrompia aos poucos sua corrida, ao mesmo tempo em que olhava fixamente para o chão, procurando qualquer coisa que lhe fosse útil naquele momento.
O buff de força desenvolvia as células musculares esqueléticas e consequentemente as tornava resistentes, mas existia um porém. Ele apenas esse tipo de célula que tinham sua resistência aumentada.
Com a força que tinha agora, Dante tinha a noção de que poderia facilmente desferir socos para derrubar inimigo. O único problema é que toda a força que ele aplicasse batendo no monstro voltaria para si mesmo e com toda certeza os ossos de sua mão esquerda não aguentariam o impacto. A mão direita estava revestida, sim, mas o revestimento interno da manopla também era feito de metal; os ossos ainda não aguentariam.
O careca nunca havia se importado com o fato da luva ser desconfortável, afinal ele nunca achou que seu uso seria realmente necessário. Mas a partir daquele momento ele pensou seriamente em passar a procurar alguém que entendesse de tecnologia o suficiente para, no mínimo, acolchoar a manopla internamente depois de que isso viesse a acabar.
O embate direto não era uma opção, mas ainda assim ele precisava encontrar alguma forma de enfrentar o gigante, que já estava bem próximo dele. Por isso o homem olhava para o chão; por mais que soasse um tanto quanto infantil, arremessar pedras era uma boa ideia no momento.
Dez metros.
Acontece que o bosque onde estavam não era um lugar muito rochoso, por outro lado: era úmido. A terra era plana e fofa, e as únicas coisas que se encontravam sobre o chão eram folhas e as próprias raízes das árvores, mas até elas tinham um tamanho e densidade desprezíveis para serem arremessadas.
Quando reparou isso Dante finalmente entendeu o motivo de não ter tropeçado até o momento.
Cinco metros.
Ele olhou novamente para dentro da mochila... nada...
Três metros.
O pé do gigante estava próximo demais para que o careca pudesse raciocinar em qualquer outra coisa.
Ele passou a agir por instinto.
Quando estava a um segundo de ser pisoteado o homem deu um salto para frente, ouvindo o gigante pisar o chão atrás de si. Ele havia reduzido um pouco a força aplicada nas pernas antes de saltar, mas mesmo assim o resultado foi exagerado. Dante pulou cerca de seis metros para frente e só desacelerou quando seu ombro direito foi de encontro a um pinheiro do bosque, a velocidade que o salto proporcionou o fez rodopiar no ar antes de cair de mau jeito no chão.
Ele sentiu menos dor do que normalmente sentiria, mas ainda assim sentiu.
Mesmo com a dor se levantou do chão rapidamente, ficar parado significaria morrer. Olhou para o pinheiro pontudo que o derrubara, com raiva.
Ironicamente a raiva o deu uma ideia.
Como a terra era fofa e úmida, provavelmente não seria muito difícil de arrancar aquela árvore do chão. Ele agarrou o pinheiro pela base e fez força para cima, como esperado conseguiu retirá-lo do chão sem muito esforço.
A árvore era jovem, mas ainda assim era uma das maiores daquele bosque. Tinha cerca de sete metros de altura, e estava marcada pelo impacto causado pelo ombro do careca, que rapidamente arrancou sua raiz e seus galhos maiores, a deixando com um aspecto mais liso e regular; Como se o pinheiro se tornasse um palito de dentes em tamanho colossal.
Dante segurava tal palito como seguraria sua lança.
A única diferença é que sua lança não tinha sessenta centímetros de diâmetro.
Muito menos sete metros de comprimento.
x-x-x-x-x
Vex olhava espantada para baixo.
Ela já havia visto muita coisa que ninguém iria acreditar, mas aquilo era novo.
Em resumo um homem segurava uma árvore pontiaguda, no mínimo quatro vezes maior do que ele e pelo menos oito vezes mais pesada. Ela poderia até não entender muito sobre o funcionamento do corpo humano, afinal, orgânicos eram complicados demais para ela, mas com certeza alguém que conseguisse segurar esse peso com uma aparente tranquilidade não era normal.
O careca brandia o pinheiro que segurava como se fosse uma arma, tentando afastar o gigante que o perseguia anteriormente. De alguma forma estava dando certo, ele se mantinha afastado, como se o movimento brusco do pinheiro em sua frente o assustasse.
Os “biuur’s” agora soavam um pouco menos ameaçadores.
Dadas outras as circunstâncias seria uma cena hilariante. O homem abaixo de si parecia uma pequena formiga, que segurava um palito de dentes para colocar medo em um predador muito maior: uma aranha.
A lança retrátil do homem não era mais a única coisa que despertava o interesse de Vex.
Agora ela também estava interessada na luva de ferro que ele carregava.
Agora ela também estava interessada nele.
x-x-x-x-x-x-x-x-x
Yang-Mi estranhou quando os estrondos causados pelos passos cessaram.
Será que Dante havia sido devorado? Se sim ela provavelmente estaria salva; demoraria um pouco até a criatura comer o careca completamente.
Estranhamente o pensamento de o ver sendo devorado causou um desconforto. Ele fora a única pessoa que se importou com ela desde sua saída de Atlântida. Não seria legal se ele fosse devorado.
Estranho.
Ela estava começando a se importar com alguém?
A coreana voltou seus olhos para a esquerda, direção para qual o homem correu e atraiu o gigante. Acima das árvores ela pode ver a cabeça de seu predador; Era estranho, ele não estava mais com os dentes à mostra, nem rosnando. Ele parecia assustado.
De toda forma ela se sentiu feliz por não ver nenhum corpo ou sangue em sua boca; isso queria dizer que existia alguma possibilidade de Dante estar vivo.
Olhou um pouco mais alto no céu, cerca de trinta metros acima do chão e encontrou o que procurava. Quase que camuflada entre as nuvens, a moça que rasgou as roupas pairava.
Agora ela estava silenciosa. E parecia observar o que estava logo abaixo de si, mas seus olhos não focavam o gigante. Focavam outra coisa.
Por algum motivo que nem ela mesma entendeu, Kim mudou a trajetória de sua corrida.
Não estava mais com medo.
Dessa vez ela quem foi na direção do gigante.
x-x-x-x-x-x-x-x
Seria mesmo tão difícil comer alguma coisa naquele mundo?
O gigante só se sentia com fome. Desde que os animais grandes partiram do bosque não havia muito mais o que comer ali. Mesmo que tivesse perdido a capacidade de raciocinar, o seu organismo ainda era o de um humano.
Só que muito maior.
Desde que começou a crescer demais, os animais grandes ficaram assustados e começaram a migrar dos locais onde o homem colossal passava a frequentar. Para ele era impossível comer qualquer outra coisa se não carne. As árvores eram grandes, sim, mas seu organismo não poderia digerir celulose. Frutas e legumes eram pequenos demais para saciar sua fome.
Ele passou a ser exclusivamente carnívoro.
Com a falta de animais o problema já estava agravado. Ele não sabia, mas já haviam se passado quatro meses desde sua última refeição. A única coisa que seu corpo era capaz de sentir era justamente a fome.
Finalmente, naquela manhã, as suas esperanças de comer novamente se reacenderam. A princípio uma luz refletiu em seu olho. Quando voltou seus olhos para a direção da luz que cortava a neblina, viu a careca de um homem, que brilhava com o céu da manhã.
Era sua presa.
Junto com ele havia uma garota. Ela não parecia muito apetitosa, mas com toda certeza saciaria parte da monstruosa fome.
O jantar era em dobro.
Infelizmente o homem da careca inverteu a cadeia; ele deixou de ser a presa para se igualar ao predador. Os instintos do monstro sabiam que um homem que brandia uma árvore com a mesma facilidade que levantaria uma lança era estranho.
Os instintos prezavam a sobrevivência. Aquele pinheiro apontado contra o seu rosto não proporcionava um sentimento semelhante ao de sobreviver. Pela primeira vez em muito tempo o monstro criado pela radiação sentiu-se assustado.
Seu corpo considerou a possibilidade de sair dali, deixar suas presas de lado e procurar outras em outro lugar. Quem sabe em qualquer outro lugar seria mais fácil para ele sobreviver.
Mas era tarde demais.
O pequeno homem aos seus pés avançou com fúria. Era rápido, considerando seu tamanho com relação ao do monstro, mas lento o suficiente para que o gigante pudesse desviar.
Mas não desviou; o medo não permitiu qualquer tipo de movimento.
Ele sentiu quando a ponta do pinheiro foi forçada contra sua perna esquerda; um segundo depois sentiu uma força maior sendo aplicada sobre a mesma ponta, tal força foi o suficiente para fazer com que a madeira seca e pontiaguda perfurasse sua epiderme e alcançasse o tecido muscular.
Ele sentiu dor.
Dor suficiente para se contorcer, abaixar seu corpo e mudar a expressão no rosto.
Dor suficiente para gritar.
x-x-x-x-x-x
Kim parou de correr depois daquele barulho.
O silêncio do bosque foi quebrado; E quando o mesmo foi retomado a ausência de sons parecia ensurdecedora.
x-x-x-x-x-x
Sem pensar duas vezes o gigante desviou o seu foco do homem, que acabara de espetar sua perna com uma árvore, e se virou para sua coxa. Rapidamente retirou a madeira que atravessou todo o músculo.
A dor foi pior do que a que sentiu quando a mesma madeira entrou, mas ele não gritou dessa vez.
Com raiva nos olhos, voltou a ser o predador. Olhou para o chão em busca de sua caça, mas ele havia perdido o homem de vista.
Ele estava acima de si, mas não conseguiu vê-lo.
Não conseguiu ver mais nada.
Só conseguiu ver o feixe azul antes de despencar morto no chão.

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