Trigêmeos
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Tinha sido a pior semana de sua vida. Os dias se arrastavam lentos em agonia naquele escritório. Em sua sala fechada martirizava-se, afogado em sua própria dor. Amava-a como nunca havia amado nada, ninguém. Desejava-a, não só ao seu corpo, mas sua companhia, toda ela ao seu lado, em sua vida.
Necessitava ouvir sua voz todos os dias, senti-la, toca-la para ter certeza de que era real. Necessitava a ligação causada pela união de seus corpos, não só pelo prazer que podia proporcionar, mas para sentir-se parte dela. Abrigar-se e sentir que lhe pertencia de algum modo, que lhe era importante em algum nível.
Mas estava ferido. Mas que isso, desolado. Seu chão tinha sido tirado de debaixo de seus pés. Desejava mais que tudo em sua vida, uma família, um filho. Fora educado assim, sua mãe lhe implantara isso desde novo. Esse desejo, esse sonho. Sentiu-se traído.
Tinha sido o primeiro a compartilhar sua vida com ela, seus sonhos e planos, todos os seus desejos. Ouvira os dela, aqueles que ela quis compartilhar. O sentimento de traição tinha sido tão forte que tudo o que pode fazer foi se afastar, trancar-se dentro de si mesmo.
Errado, sim, mas o abalo o fez agir desta forma. Deveria ter falado com os irmãos, com ela. Agira como um tolo, verdade, mas estava mais que disposto a remediar seu erro.
Abriu a porta devagar, observando o quarto escuro com cuidado. Avistou Thais sentada ao pé da cama. Seus cabelos um pouco revoltos, cobrindo levemente seu rosto. Seus olhos brilhavam verdes esmeralda. Grandes e úmidos, avermelhados. Seu rosto pálido, abatido.
Sentiu o nó que se formou apertado em seu estomago. Doeu-lhe a imagem dela, debilitada, afetada, frágil. Doeu-lhe saber que era a causa. Seu sangue abandonou seu rosto, ficando fantasmagoricamente pálido.
Tinha sido a causa disso. De seu pranto, amostra pela ponta do nariz vermelho, os olhos úmidos e levemente inchados. Tinha agido como um adolescente traído, em juras de vingança, ao invés de agir como o homem que era. Como o homem que deveria ser para ela.
- Podemos conversar? _ Ele pergunta educadamente, sem querer impor nada, mas já caminhando para ela.
- Claro. _ Responde, sua voz baixa e débil, rouca pelo choro.
Thais encarava-o, sua expressão muito limpa, muito tranquila, incomodando-o. Seu coração batia forte contra seu peito em um repentino medo, medo de perdê-la, de ter feito um mal sem remédio. Sentou-se ao seu lado, muito calmamente, com gestos fluídicos e lentos, sem querer assusta-la, temendo que fugisse.
- Tenho agido como um idiota... _ Diz tentando ser direto.
- Sim. _ Ela concorda, surpreendendo-o.
- Sinto muito, eu... _ Ele toca seu braço, não conseguindo ficar longe dela, e a abraça.
- Eu sei. _ Ela o interrompe. – Ouvi a conversa de vocês.
- Ouviu? _ Ele geme inconscientemente contra seus cabelos.
- Difícil não escutar com vocês falando alto na porta do meu quarto.
- Me desculpe. _ Ele permanece com o rosto em seus cabelos, temeroso de lhe olhar nos olhos.
- Foi só um erro de comunicação. _ A voz técnica, impessoal, fez com que ele sentisse vontade de rilhar os dentes.
- Posso ficar com você essa noite? _ Sua voz não poderia estar mais implorativa.
- Claro. _ Ele lhe abraça, mas ela não retribui.
Daniel não se importa, puxando-a para ele, levando-a a se deitar na cama com ele. Abraçou-a fortemente, respirando em seus cabelos, sentindo o bater forte de ambos os corações.
- Me perdoe. _ Ele murmura, sua voz embargada de medo. – Me perdoe. _ Repetiu ao ouvir um soluço vindo dela.
Thais se virou e o abraçou, escondendo seu rosto contra o peito dele. Doía-lhe o peito, a cabeça, o corpo, o coração. A dor tão viva e tão entranhada, quase como uma segunda pele.
- Não acontecerá de novo, prometo-o. _ Ele diz incomodado com a falta de resposta dela, mas a firmando fortemente contra seu corpo, dolorido com cada soluço. – Diga que me perdoa, Thais. Por favor, preciso ouvir de você que me perdoa.
- Onde... Onde esteve? _ Pergunta se afastando e limpando o rosto com as mãos, escondendo-se dele, de seus olhos.
- No escritório. _ Ele a segura, erguendo seu rosto e secando as lagrimas com as mãos.
- Sim. _ Ela o olhou muito descrente.
- Juro-o. _ Lhe encara surpreso de que ela duvidasse. – Estive todo o tempo em meu escritório. _ Thais lhe olha atentamente, estudando sua expressão. – Pode perguntar a Fernanda, sabe que ela não lhe mentiria. _ Disse ele, relembrando as inúmeras vezes que sua secretaria, que fizera grande amizade com Thais, aconselhou-o a ir para casa e falar com Thais, sem nem mesmo saber o motivo de sua tristeza. – Mas preferiria que acreditasse em mim. _ Diz com uma ponta de tristeza. – Pensei que já tinha conquistado sua confiança.
- O que quer que eu pense, Daniel? _ Diz ela se levantando da cama, não aguentando estar tão perto dele estando tão magoada, tão ferida. – Tem me evitado, não me toca e não dormiu em casa. – Lhe encara de pé, já do outro lado da cama.
- Acha que te trai? _ Diz estarrecido. – O que...?! De onde...?! Thais! Eu jamais faria isso! Você sabe disso!
- Não sei! Não sei nada! _ Se afasta quando ele se aproxima. – Você não veio domingo, deixei de sair com o Danilo por causa do seu maldito domingo e você não estava aqui! Nem dormiu em casa! _ Ela se vira para olha-lo, depois de sua explosão, e da de cara com o peito dele.
- Posso ter agido como um tolo, ter te evitado e ter ficado trancado naquela maldita sala me lamentando como um adolescente, mas não te trai. _ Diz sério, quase aborrecido. – Não imaginei que pudesse pensar algo assim de mim. Sempre deixei bem claro como me sentia e quais são os meus princípios.
- Não sei nada sobre vocês... _ Murmura abaixando a cabeça.
- Já não pode usar essa desculpa. _ Cruza os braços. – Conhece-nos, e conhecemos você. Fomos claros em nossas intenções e desejos, discutimos cada ponto de nossa proposta...
- Palavras. _ Lhe interrompe. – Apenas palavras.
- Não sei com que tipo de homens vem lidando, mas minha palavra é mais que suficiente como garantia, é tudo. _ Descruza os braços, suspirando. – Não pode generalizar-nos, não pode tratar-nos como um, não o somos. Não digo por meus irmãos, mas por mim. Confio em você e preciso que confie em mim.
- Confio. _ Diz mortificada por saber que todo o tempo esteve duvidando de suas próprias conclusões a cerca dele. – Eu confio. _ Suspira dando as costas a ele, ainda sem olha-lo.
- Eu te amo... _ Ele lhe segura, impedindo-a de se afastar. – Você sabe.
- Sei. _ Lhe abraça quando ele o faz. – Sempre soube.
- Bom. _ Sorri beijando-lhe o rosto. – Perdoa-me?
- Sim, claro. _ Ri um pouco. – Só não faça de novo.
- Nunca. _ Lhe beija. – Prometo.
- Dan... _ Acaricia seu rosto. – Também te amo.
~OoO~
- Bom dia. _ Daniel aparece na cozinha sorrindo.
- Bom dia. _ Responde Danilo sorrindo também. – Esta tudo bem?
- Perfeito. _ Responde Daniel. – Conversamos durante boa parte da noite e esclarecemos tudo, todos os pontos.
- Ótimo. _ Diz Dante friamente.
- Ela estava achando que eu tinha outra. _ Riu, ignorando o mau humor do irmão.
- Mas você esclareceu tudo? Está tudo bem agora? _ Pergunta Danilo preocupado.
- Sim, não se preocupe. Esta tudo como antes, até melhor. _ Sorri.
- Bom dia. _ Diz Thais entrando na cozinha.
— O que é isso? _ Pergunta Dante, apontando para a mala que ela deixara logo na entrada.
- Minha mala. _ Encara a mala por um instante, depois volta a olhar os irmãos. – Vou voltar para minha casa.
Dois pares de olhos muito negros e de cenhos franzidos encararam Daniel. Recusou-se a olha-los. Estava muito mais preocupado com seu mundo que se despedaçada pouco a pouco com aquela nova informação.
- Por quê? _ Pergunta Daniel, sua voz baixa e grave. – Pensei que tínhamos esclarecido tudo, que estávamos bem.
- Estamos bem. _ Diz Thais. – Não estou deixando vocês, só vou para a minha casa.
- Mas por quê? _ Pergunta Danilo, sua voz magoada.
- Eu preciso de um tempo comigo mesma, Dan. _ Ela lhe sorri. – Não estou indo para o outro lado do mundo, só para outro lugar. Um lugar que vocês sabem onde é. _ Se aproxima e põe um molhe de chaves sobre a mesa. – E tem as chaves.
- Se quer terminar é melhor que diga ao invés de ficar inventando desculpas. _ Dante lhe encara, cruzando os braços sobre seu peito.
- Não quero terminar. _ Ela se aproxima, se pondo a frente dele. – Amo-os. _ Ela lhe sorri.
Dante lhe encara, seus olhos buscando sinais de mentira, de piada. Seus irmãos só não sorriram porque o temor de perdê-la os impedia. Ambos já tinham falado de sentimentos com ela. Já tinham se declarado e sido correspondidos. Mas duvidavam que Dante chegasse perto de qualquer coisa relacionada, logo era uma surpresa uma declaração por parte dela. Ainda mais na frente deles.
- Não pode esperar uma resposta quando está indo embora. _ Responde Dante, depois de um instante de silencio. Seu cenho franzido em desagrado.
- Não espero nada de você. _ Ela responde sem se abalar. – Vocês podem ir a minha casa se quiserem me ver, ou me ligarem se quiserem sair. _ Ela percebe que Dante esta se afastando. – Não vai ficar para se despedir?
- Para quê? _ Ele não a encara. – Nada mudou, certo? Você só esta indo pra outra casa. _ Caminha para fora da cozinha. – Só esta nos deixando para trás...
- Não se preocupe com ele, sabe como ele é. _ Danilo lhe acaricia o braço.
- Eu sei. _ Responde ela.
- Vai ser só por um tempo? _ Daniel se pronuncia, sem se aproximar.
- Sim. _ Se aproxima dele. – Eu não menti, Dan. Amo você.
- Você sabe que também te amo, sempre soube. _ Ele lhe abraça. – Não precisa ir. _ Sussurra contra a boca dela. – Pode ter seu tempo aqui. Damos-te o espaço que precisa...
- Dan. _ Ela ri.
- Eu sei. _ Ele lhe beija os lábios levemente. – Estou sendo patético, eu sei, mas não posso evitar. _ Lhe aperta em seus braços. – Não posso evitar.
- Eu volto. _ Era tudo o que podia prometer.
- Tem que voltar. _ Danilo lhe abraça quando Daniel lhe solta. – Precisa voltar pra nós.
- Eu vou. _ Lhe beija. – Prometo. _ Lhes sorri.
- É bom mesmo. _ Dante lhes surpreende murmurando aborrecido, já saindo da cozinha novamente.
Notas finais
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