Capítulo 3

Um silêncio repentino toma a sala.
– Então? Por que parou a historia aí? Acredito que você tenha mais coisas pra contar – perguntei ao Norton que olhava para o nada com uma expressão descontente.
– Antes de continuar eu preciso saber se você vai me ajudar, só vim aqui por isso.
– Isso depende, eu queria, queria muito, mas eu precisaria entender melhor o caso antes de te dar a resposta.
– Depende? Não diga isso, você escreveu dois livros sobre sorte e azar, você é o único que pode me livrar da maldição.
– Vamos ver. Se o que esta dizendo não for verdade eu com certeza posso ajudar a tirar essa sua ideia de ser perseguido pelo azar. Se for verdade... Bom, isso torna todos os meus livros, e todo o meu conhecimento sobre o assunto inútil, pois cria um conceito de sorte e azar que vai contra tudo o que eu acreditava, portanto seria impossível eu te ajudar.
– Você diz como quem não acredita. Acha que estou louco?
– Louco não, convivi com loucos e sei que você esta longe de ser um. Equivocado ou exagerado talvez, mas não louco.
– Você não acredita em mim, talvez nem mesmo acredite que sou Norton Pacheco. E mesmo assim me manda continuar contando minha vida que na sua cabeça é só uma historia de fantasia. O que quer afinal, lucrar com essa historia?
– Acalme-se, não vou vender essa historia, é uma promessa. E eu não disse que não é verdade, disse que pode ser exagero, talvez todo esse “azar” na sua vida seja coincidência, Norton. Sim, eu acredito que você é quem diz ser. Eu não sei se conseguirei te ajudar, mas se conseguir eu vou, isso é uma promessa.
Dizer “Isso é uma promessa” foi o suficiente para ele se acalmar. Ele não sabia se eu ia realmente ajudar, aliás nem eu sabia, mas era a única esperança que ele tinha de se livrar da “maldição”. Com isso ele voltou a contar, mas de um ponto mais distante na historia:

“Primeiro ano do ensino médio. Quase sem fôlego ando pelos corredores até chegar na sala. Abro a porta interrompendo a explicação na metade e o professor me olha com cara de descontentamento.
– Desculpa professor Noli, eu tava vindo mas perdi o ônibus, eu ia pegar ele mas tropecei na lama e quando eu levantei ele já tinha ido. Eu vim correndo, dois cães me perseguiram no caminho...
Ta bom, ta bom Norton, parece plausível – me interrompeu com um tom de ironia – pelo menos conseguiu fazer o trabalho?
– Sim, fiquei até tarde fazendo... mas, acho que o senhor não vai conseguir corrigir. Lembra da lama que eu falei.
– É o seu futuro que esta jogando na lama Norton. Feche a porta e vá para o seu lugar.
– Sim senhor.
Eu poderia ficar horas me explicando, mas sei que não ia adiantar muita coisa.
Na hora do intervalo uma garota veio correndo atrás de mim me pedindo para esperar. Ela tirou o papel escrito 'chute-me' pregado das minhas costas, (devia ter desconfiado por estarem me chutando tanto) eu agradeci e ela se apresentou:
– Oi, meu nome é Sabrina.
– O meu é Norton.
– Norton? Como o antivírus?
– Será que todo mundo só sabe fazer essa piada? Que merda!
– Não precisa ficar com raiva, foi só uma brincadeira.
Não fiquei com raiva, mas acho que ela pensou isso pelo palavrão.
– Não, não fiquei com raiva, é que não sei me expressar muito bem com garotas, elas raramente vêm falar comigo. Isso é uma droga.
É incrível como as pessoas interpretam certas coisas de forma tão estranha, vêem ‘merda’ que é uma coisa natural como um palavrão horrível, e ‘droga’ que destrói tantas famílias como algo normal. Eu particularmente só falo ‘droga’ quando algo me deixa realmente irritado.
– Desculpa Sabrina, é que eu não sei me expressar bem.
– E também não tem sorte, pelo que eu percebi na sala – disse ela tentando segurar o riso.
– Você não viu nada, coisas piores acontecem comigo desde eu era criança. Não sei porque acontece isso.
– Talvez sejam suas escolhas, suas ações, suas roupas...
– O que tem de errado com minhas roupas?
– Nada, mas algumas cores podem te dar azar dependendo do seu signo. Sim, eu sou um pouco supersticiosa.
– Acha que pode me ajudar a me livrar desse azar?
Nesse momento uma bola de futebol bate na minha cabeça me fazendo cair. Sabrina se abaixa para me ajudar:
– Você esta bem? – Ela me pergunta, mas eu estava zonzo demais pra responder – Que idéia é essa de jogar bola no corredor – Ela grita pra direção em que a bola foi mandada, e vê um garoto de 10 anos correndo para pegar a bola de volta e respondendo:
– Foi mal aí Norton, não conta pra mamãe – Ele diz antes de ir para o outro corredor fazendo embaixadinhas.
Sabrina me pergunta sutilmente:
– O Otávio é seu irmão?
– Sim. Sei que é difícil acreditar, mas é. Dá pra perceber qual irmão ficou com a inteligência e qual ficou com a sorte né?!
– Ah sim, a gente tava falando sobre sua sorte... Quer dizer, a falta dela. Não se preocupe, depois da aula vá a Rua das Aves, 205. É em frente a uma farmácia.
– Hã?
– É a minha casa. Pode ir lá que eu te ajudo, tenho vários livros de superstição.
Ela se despede e volta pra aula. Me perguntei se aquilo seria um encontro, se sim a minha sorte estava começando a mudar. Bom, pelo menos foi o que eu disse antes de duas pessoas tropeçarem em mim. Eu devia ter levantado.
Chegando em casa eu começo a me arrumar para ir a casa de Sabrina e meu irmão aparece brincando com uma bola de futebol:
– E aí, cara!? – Me cumprimentou enquanto equilibrava a bola na testa.
– Afaste esse demônio de mim!
– Quem?
– Essa bola, ela já me derrubou hoje, não quero isso de novo!
– Ok, ta bom, vou para com ela. Onde você ta indo?
– Na casa daquela garota que você me viu conversando hoje.
– Sério? Se você não fosse o Norton eu ia perguntar se ela era sua namorada.
– Muito engraçado. Quando a mamãe chegar fala pra ela que... AAAIII MINHA CABEÇA! Droga, Otavio! Você disse que ia parar com a bola!
– Foi mal, agora é sério, parei!
Otávio pegou a bola e guardou em baixo da galeria de troféus (todos dele).
– Enfim, fala pra mamãe que eu fui fazer um trabalho na casa de uma amiga.
Me despedi de meu irmão e fui com um sorriso confiante no rosto. Tinha o endereço em mente e o convite, nada poderia dar errado. No caminho quase fui atropelado duas vezes, mas cheguei são e salvo no endereço que ela me passou. Rua das Aves, 205. Era ali mesmo. Bati no portão e esperei alguém responder. Enquanto aguardava escutei de dentro da casa alguém dizendo algo como ‘esses vendedores malditos’. Um homem de quarenta e poucos homens atendeu, com uma cara de quem não estava de bom humor, então tentei fazer as piadas que faziam pra mim pra ver se ele se alegrava um pouco.
– Quem é você? – perguntou ele de um jeito um pouco hostil.
– Sou Norton, como o antivírus.
– Que negócio é esse de antivírus, você é médico por acaso?
– O que? Eu não tenho idade pra isso.
– Então age ilegalmente?! Sabia que esta brincando com a vida de outras pessoas?
– Calma, senhor, eu só vim aqui por ajuda!
– Aqui? Esta falando do Brasil? Você é um desses médicos cubanos malditos não é?! Volte para o seu país, não precisamos da sua ajuda, seu miserável.
Eu realmente já estava quase indo pra Cuba, até escutar uma voz feminina de dentro da casa gritando o meu nome.
– Papai, espere — veio correndo para o portão — Esse é o garoto que eu disse mais cedo que vinha. O nome dele é Norton.
– Ah, então você conhece ele? – disse olhando pra ela – Mesmo assim eu tô de olho em você – Disse olhando pra mim.
O pai dela voltou pra sala e voltou a assistir TV. Sabrina me convidou pra entrar e eu fingindo que não tava morrendo de medo aceitei. Ela me ofereceu água, biscoito, café, mas eu recusei. Não por educação, mas para não quebrar nada. De repente sou surpreendido por um ser irritante, baixinho e barulhento mordendo minha perna. Depois que eu parei de chorar feito criança, Sabrina tirou o Shih Tzu da minha perna, pediu desculpas por não ter avisado que tinha um cachorro em casa e disse que ele geralmente não atacava. Eu não disse nada, mas sabia que o problema era comigo, afinal era sempre comigo. Por que o azar me adorava tanto e a sorte me odiava?
– Norton, vem pro meu quarto, eu quero te mostrar uma coisa.
Bendito seja o azar que finalmente me deixou em paz e foi procurar outra pessoa pra atormentar. Dentro do quarto ela me entregou uma camiseta branca com um número oito nas costas dizendo que era um presente. Vesti ali mesmo por cima da blusa que eu já estava usando. De acordo com ela, o número e a cor traziam sorte, quando perguntei á Sabrina como ela tinha certeza, ela respondeu que uma camiseta exatamente igual dava muita sorte pro namorado dela. Namorado? Porra, azar, seu zoero filho da puta!"