Trevo de Quatro Patas

4 A culpa (não) é do esquilo


Notas iniciais
Oi, gente Sextou com mais um capítulo para vocês. Boa leitura! õ/

Nico costumava odiar aquele barulhinho de notificação chegando ao seu celular. Mas, agora, ele praticamente saía correndo sempre que escutava, torcendo para que fosse Will. Eles estavam se falando por mensagens desde aquele dia em que haviam trocado os números.

No começo, Nico sentia-se nervoso sempre que uma nova mensagem chegava e passava vários minutos pensando em como responder da melhor maneira possível. Aos poucos, ele começou a sentir mais à vontade, mais relaxado e a conversa começou a fluir normalmente. Ele estava adorando poder falar mais com o seu vizinho, mesmo que o conteúdo das mensagens fosse estritamente voltado ao adestramento. Porém, Nico nem se importava, ele estava feliz em apenas poder falar com Will diariamente.

Os dois se viram pouco no decorrer daquela semana devido aos seus horários que não batiam, então as mensagens foram muito úteis. Por trabalhar em casa, Nico conseguia fazer o seu próprio horário, mas Will não tinha a mesma sorte por causa da faculdade. Então, eles resolveram deixar o adestramento para o final de semana. Porém, Will lhe passava “lições de casa” todos os dias.

Em teoria, parecia uma tarefa fácil; na prática, Nico acabou descobrindo ser muito mais complicado do que achara. Isso porque, sempre que fosse dar um comando para Cérbero, precisava dizer o nome do filhote antes e ele costumava chamá-lo de todos os nomes possíveis — bola de pelo, coisa peluda, pestinha, cão dos infernos, vira-lata etc —, exceto por seu nome verdadeiro.

O sábado finalmente chegou e eles teriam a “primeira aula presencial”. Nico sempre fora um bom aluno, tanto na escola quanto na faculdade, mas nunca havia ficado tão empolgado para uma aula antes! Mas ele também nunca teve um professor/adestrador como Will na vida — isso certamente teria o deixado ainda mais animado para as aulas na época de estudante.

Nico achou que eles iriam naquele parque de cães que ele fora da última vez, mas Will falou que lá teria distrações demais para Cérbero. Então eles tiveram que andar mais um pouco, até chegar a outro parque, com um vasto gramado em que as pessoas podiam parar para descansar, conversar e até mesmo fazer piqueniques.

— Ok! Vamos ver como anda o entrosamento de vocês. — Will falou, animado. — Começaremos pelo comando “sente”.

Usando boné, óculos de sol, camiseta azul turquesa, bermuda xadrez, tênis de corrida e uma pochete — para guardar os petiscos —, Will parecia mais um turista do que um adestrador. Um turista muito bonito, claro.

— Certo. — Nico assentiu e olhou para o cão que estava na sua frente. — Cérbero, sente!

Imediatamente, o filhote colocou o traseiro no chão, o rabinho batendo de leve na grama. Nico lhe deu um petisco como recompensa.

— Você não o elogiou — Will cantarolou.

— Preciso mesmo falar isso sempre? — Nico soltou um suspiro impaciente. Ele odiava falar coisas que não queria só para agradar os outros.

— Precisa. E, de preferência, com um sorriso no rosto. — Will colocou os dedos indicadores em cada canto da própria boca, fazendo um sorriso aparecer.

Nico revirou os olhos com a cena. Ele sabia como sorrir, só não gostava, era bem diferente.

— Bom garoto — ele deu dois tapinhas de leve na cabeça de Cérbero com um sorriso forçado no rosto, então olhou para Will por cima da armação dos seus óculos de sol. — Satisfeito?

— Muito! — Will riu. — Agora, repita.

Nico repetiu pela segunda vez. Terceira. Quarta. Repetiu isso tantas vezes que até se perdeu na contagem.

— Ok, agora solte a guia. — Will instruiu.

— Você ficou maluco? — disparou em voz alta. — Ele vai sair correndo!

— Se isso acontecer, você vai chamá-lo e ele irá voltar.

— E se ele não voltar?

— Então nós iremos atrás dele. — Ele respondeu, dando de ombros.

Nós?

Em outra situação, Nico teria adorado ouvir que Will se referiu a eles no plural, mas não agora. Será que seu vizinho ainda não tinha percebido como Nico era sedentário e não dava conta de correr por mais de cinco minutos nesse sol escaldante sem ficar com falta de ar?!

— Por sua conta em risco — Nico avisou, abaixando-se para soltar a guia da coleira.

— Relaxa! — Will colocou a aba do boné para trás, fazendo seus cachos loiros moldarem seu rosto de um jeito jovial e meio fofo. — Agora, dois comandos: fique e junto.

Nico já havia treinado esses comandos várias vezes com Cérbero em casa, mas dificilmente dava certo: ou o cão não ficava parado, ou não corria na sua direção quando chamado.

— Cérbero, fique! — ele fez sinal para o cachorro esperar e foi dando passos lentos para trás. O filhote ficou paradinho, olhando para ele.

Certo, isso era um avanço.

— Mais um pouco — Will pediu, observando atentamente o garoto e o cão. Nico deu mais alguns passos. — Ok, chame-o agora.

Nico parou e, fazendo uma prece silenciosa, instruiu:

— Cérbero, junto!

De início, Cérbero não se mexeu e Nico achou que aquele era o seu fim. Mas então, como se tivesse ficado com dó do garoto, ele resolveu levantar-se e saiu trotando na sua direção.

— Bom garoto! — Nico não pôde evitar sorrir, enquanto acariciava a cabeça do cachorro e lhe dava um petisco.

— Cara, isso foi muito bom! — Will chegou perto deles, com a palma da mão direita erguida. — Toca aqui!

Nico ficou olhando para a mão de Will, sem saber o que fazer. Ele não era do tipo que fazia hi-five. Na verdade, ele evitava tudo que envolvesse contato físico com outras pessoas.

— Qual é! Minha mão está ficando cansada — ele disse de forma dramática enquanto um biquinho surgia nos seus lábios carnudos. Nico bufou, mas acabou dando um tapinha de leve na mão dele. — Isso!

No fim das contas, Will sempre conseguia o que queria. Nico não conseguia dizer não para aquele rostinho bonito.

Will abaixou-se e colocou a guia em Cérbero para que ele não fugisse. Ele então tirou os óculos de sol e engatou na gola da camiseta, fazendo com que o decote abaixasse um pouco a ponto de Nico ver seu peito mais alguns centímetros. Havia algo desenhado no lado esquerdo do seu peito. Espera... Will tinha uma tatuagem?!

Nico estava completamente vidrado no belo corpo do vizinho tentando desvendar o desenho da tal tatuagem que nem o ouviu lhe chamando.

— Ei! — Will estalou os dedos na frente do seu rosto, tentando chamar a sua atenção. — Terra chamando Nico!

— Hm?! — murmurou, agora focando nos olhos do vizinho. — O que você disse?

Inferno! Será que seu vizinho havia percebido alguma coisa?

— Eu disse para descansarmos um pouco. — Ele sorriu ao responder, mas Will sempre estava sorrindo, então era difícil saber. — Depois, podemos treinar novamente.

— Ah, sim — Nico assentiu. Mas então se lembrou de uma das mensagens do vizinho. — Mas já se passaram 20 minutos.

Will dissera que os filhotes perdiam o foco facilmente e esse tempo era mais do que suficiente por um dia.

— Não tem problema, Cérbero ainda parece totalmente focado. Vamos aproveitar, não é todo dia que podemos treinar no parque. — Will disse e, como sentiu que Nico ainda não estava totalmente convencido, acrescentou: — Eu pago a sua bebida. O que você quer?

Uau, Will estava tentando comprá-lo com comida? Pois ele estava completamente... certo em fazer isso!

— Coca-cola.

— Isso não faz bem para saúde. — Will franziu a testa. Nico revirou os olhos com o comentário. — Ok, ok! Já volto.

Will saiu correndo para alcançar o homem que passava na entrada no parque com um carrinho. Nico aproveitou o momento para caçar um banco que ficava na sombra de uma árvore. Ele botou os óculos no topo da cabeça e passou a mão na nuca, sentindo os pingos de suor escorrendo para dentro da sua camiseta preta do Ramones. Como ele odiava o calor! E isso era apenas o começo, pois ainda era primavera.

Inclinou a cabeça para cima, com o pescoço apoiado na beirada do assento de pedra e fechou os olhos. Ficou assim por um tempo, até que algo gelado tocou sua testa.

— Mas que porra?! — ele xingou, enquanto se esquivava para o lado e abria os olhos. No processo, seus óculos caíram atrás do banco.

— Te assustei? Desculpa — Will perguntou, lhe entregando o refrigerante, mas o sorrisinho travesso no seu rosto mostrava que havia feito isso de propósito.

— Não. Só estava gelado demais — ele se defendeu, dando de ombros.

— Claro. — Will assentiu em um tom irônico e pegou os óculos de Nico na grama, colocando ao seu lado no banco.

Ele despejou água com gelo em uma tigela que trouxe de casa para Cérbero — que estava devidamente amarrado agora no pé do banco — e depois se sentou ao lado de Nico, bebendo seu suco de cor amarelada. Abacaxi? Maracujá? Não dava para ter certeza.

O celular de Nico emitiu um som e ele franziu o cenho ao ver o nome do pai na tela.

— Não se preocupe comigo, pode responder — Will falou.

— É meu pai, depois eu vejo — ele deslizou o dedo para o lado, fazendo a notificação sumir da tela, e guardou o celular novamente no bolso.

— Pode ser algo importante.

— Não, não é — bufou. — Ele só queria notícias do cachorro, como sempre.

Hades nunca havia sido o tipo de pai que se interessava muito pela vida dos filhos. Mas ele obviamente se importava muito com Cérbero a ponto de mandar várias mensagens por dia perguntando como o vira-lata estava.

— Ah, então Cérbero é dele? — Will parecia surpreso e Nico não entendeu de imediato o motivo da sua reação. Então, lembrou-se que nunca havia dito a quem o cão pertencia. O garoto balançou a cabeça em concordância. — Ele está viajando?

— Sim, por isso estou cuidando do pestinha.

Will riu.

— Cérbero não é um pestinha — ele pegou a cabeça do cão com as duas mãos, dando um beijinho no focinho dele. E continuou com aquela voz que as pessoas usavam exclusivamente com cachorros e bebês: — Você é um bom garoto, certo? Claro que é!

Maldito Cérbero sortudo que havia ganhado um beijo do garoto que ele gostava. Espera, Nico estava mesmo ficando com ciúmes de um cachorro? Inacreditável!

— Fique com ele por um dia inteiro e depois conversamos — Nico sugou com força o canudinho do seu refrigerante.

— Não seria nenhum sacrifício para mim! — ele riu. Então olhou para o relógio no pulso e levantou-se. — Ok, nosso tempo acabou.

— Ainda não terminei. — Nico não se moveu. Sua latinha ainda estava pela metade.

— Tudo bem, não precisa ter pressa. — Will jogou o seu copo na lixeira ao lado do banco, fazendo uma cesta perfeita. E nem mesmo gabou-se por isso. — Eu vou brincar um pouco com ele.

Will desatou a guia do pé do banco e saiu correndo pelo parque com Cérbero. Nico colocou os óculos de sol novamente e fingiu checar seu celular, mas seus olhos estavam presos observando seu vizinho favorito e o pestinha brincando pela grama.

Não tinha como nada estragar essa perfeita tarde de sábado.

***

Nico havia falado cedo demais. Com o azar que ele tinha, era óbvio que algo ruim iria acontecer.

— Acho que não poderemos mais voltar naquele parque — Nico disse quando eles já estavam voltando para o prédio.

— Não mesmo! Você viu a cara do jardineiro? — Will soltou uma gargalhada maravilhosa, daquelas que dava vontade de rir junto com a pessoa. — Eu achei que ele ia atirar lasers pelos olhos quando viu as flores pisoteadas.

— Eu avisei que ele poderia fugir.

— A culpa não foi minha! — Will defendeu-se, colocando as mãos para cima em sinal de rendição. — Cérbero estava se comportando muito bem até aquele ser maligno aparecer na frente dele!

— Solace, era apenas um esquilo. — Nico respondeu, tentando manter a expressão neutra para não rir, enquanto lembrava-se mentalmente da cena.

Tudo aconteceu muito de repente. Uma hora, Will estava tranquilamente brincando com Cérbero no gramado; na outra, o filhote estava correndo descontroladamente pelo parque, dando latidos indignados, enquanto tentava pegar o pequeno esquilo. Foi aí que aconteceu: o esquilo enfiou-se dentro dos arbustos para fugir e o cachorro o seguiu. Porém, aquela área estava molhada porque o jardineiro havia acabado de regar o canteiro. Quando enfim pegaram Cérbero, ele não estava ferido, mas estava sujo de lama das orelhas ao rabo. Infelizmente, as flores não tiveram a mesma sorte.

— Esquilos são pequenos demônios disfarçados! Eles parecem fofinhos e amigáveis, mas adoram atormentar as pessoas e animais, atirando nozes do alto das árvores, ou mostrando aqueles dentinhos grandes e mortais. — Will curvou as mãos, imitando um esquilo comendo uma noz.

Nico pressionou os lábios, tentando conter o riso e mudou de assunto:

— De qualquer forma, vamos ter que achar outro parque para treinar.

— Tirando o parque de cães, esse era o mais perto. — Will soltou um longo suspiro. — Os outros são muito longe para ir a pé. Veja só, menos de meia hora de caminhada e você já está todo suado!

— Hm, bem, você também está — retrucou, olhando de relance para o vizinho. Mesmo com o cabelo desgrenhado e todo o suor, Will continuava lindo.

— Porque eu corri atrás dele, lembra? — Will ergueu uma sobrancelha.

Nico não respondeu. Afinal, Will havia feito um enorme favor ao correr sozinho atrás do cachorro para resgatá-lo. Então, ele apenas assentiu em resposta.

— Agora nosso amiguinho precisa de um belo banho na banheira. Certo, Cérbero?

Inclinando a cabeça para o lado, o cachorro olhou para Will assim que ouviu seu nome, como se tentasse entender se a palavra “banho” era algo bom ou ruim.

— Hm, eu não tenho uma. — Nico admitiu.

— Como assim não tem? — Will parou e olhou para ele, incrédulo.

— Apenas não gosto — deu de ombros, como se não fosse nada de mais. E, para ele, realmente não era.

— Ah, você não sabe o que está perdendo! Chegar em casa depois de um dia cansativo e aproveitar uma banheira de espumas é relaxante demais. — Will explicou, com um sorriso no rosto. — Mas não se preocupe, eu empresto a minha para o Cérbero!

— O quê? — Nico arregalou os olhos, entendendo onde Will queria chegar com essa conversa. — Ah, você não precisa…

— Imagina, esse é o mínimo que posso fazer! — Will o interrompeu. — Afinal, ele se sujou por minha causa.

— Pensei que a culpa era do esquilo — Nico o provocou.

— Ah! Certo. — Will coçou a nuca, admitindo. — Mas eu tive uma pequena parcela de culpa nisso. Além disso, vai ser bem mais rápido com duas pessoas.

— Du-duas pessoas? — Nico quase se engasgou com a própria saliva.

Will parou abruptamente e colou as mãos na cintura.

— Você não achou que eu ia lavá-lo sozinho, não é?

Na verdade, Nico pensou que Will estava apenas oferecendo a sua banheira emprestada, não que ele iria ajudar também. Os dois sozinhos dentro de um banheiro... Céus, seu coração já começava a acelerar só de pensar nisso.

— Hm, claro que não — Nico respondeu, tentando disfarçar sua surpresa.

De repente, Will pegou Cérbero no colo e voltou a andar. Eles estavam a poucos metros do prédio agora.

— Ei, o que você está fazendo? — Nico apressou o passo para alcançá-lo.

— Você quer levar bronca do Sr. D por estar sujando o piso de lama? — Will lançou um olhar desafiador para ele. — Porque eu não quero.

Sr. D era o síndico do prédio, um sujeito baixinho, gorducho e muito mal-humorado. Sua principal especialidade era gritar com os moradores e chamá-los pelo nome errado. Ele sempre o chamava de “Nicholas”, mesmo que o garoto já tenha o corrigido várias vezes dizendo que seu nome era mesmo Nico.

— Não. Mas, sua roupa… — Nico apontou, vendo que a camiseta do outro estava toda suja de lama.

— Ah, relaxa, é só lavar depois! — ele disse de forma despreocupada.

Eles chegaram ao prédio e pegaram o elevador em silêncio. Nico pensou que estava começando a abusar demais da hospitalidade do seu vizinho e sentiu-se culpado por isso.

— Você tem shampoo para cães na sua casa? — Will disse, tirando Nico de seus pensamentos.

— Acho que sim.

— Ok, então eu vou na frente para encher a banheira. Deixarei a porta destrancada, você pode entrar sem chamar.

Nico ainda estava achando essa ideia ruim, mas pensou que tentar dar banho no filhote no pequeno box do seu banheiro seria ainda pior, então ele apenas assentiu em resposta.

As portas do elevador se abriram e cada um foi para o seu apartamento. Nico despejou o conteúdo da bolsa floral no chão para achar mais fácil o que precisava. Além do shampoo, encontrou também uma toalha felpuda com ossinhos coloridos estampados. Colocou o resto de volta na bolsa e saiu apressado. Então parou ao colocar a mão na maçaneta do 705, sentindo-se nervoso de repente. Essa seria a primeira vez que ele entrava no apartamento de Will.

Nico respirou fundo, então entrou, olhando tudo em volta. Em questão de estrutura, os apartamentos eram exatamente iguais, mas ele sentia como se tivesse parado em outra dimensão. Will tinha uma ótima decoração, tudo parecia tão limpo e organizado, nada ali lembrava o apartamento de Nico com poucos móveis e toda aquela desordem.

Nico, é você? — a voz de Will ecoou ao longe.

— Sim! — Ele respondeu, em um tom de voz mais alto, andando em direção ao banheiro.

Nico empurrou a porta entreaberta, encontrando Will sentado na beirada da banheira. Ele havia arregaçado as mangas da camiseta para cima, deixando seus bíceps torneados à mostra. Pelos Deuses...

Enquanto isso, Cérbero estava deitado no chão com a língua de fora, parecendo extremamente tranquilo. Por pouco tempo.

— Feche a porta, não queremos que ele fuja de novo, certo? — Will deu um sorriso torto e Nico assentiu, fechando a porta. — Você achou uma toalha também, que maravilha! Enfim, a banheira já está cheia. Podemos começar.

Nico tirou a coleira do pescoço de Cérbero e Will o colocou na banheira. Assim que a água tocou em suas patas, o filhote começou a se remexer, tentando fugir.

— Ei, calma, amiguinho! Isso é para o seu próprio bem — Will tentou tranquilizá-lo.

— Acho que ele não concorda com isso — Nico observou. Will lançou um olhar que dizia “você não está ajudando” que o fez ficar quieto.

Com um pouco de paciência, Cérbero finalmente aceitou entrar na banheira. De vez em quando, a mão de Will tocava na sua sutilmente. Nico sabia que não era de propósito, seu vizinho estava focado em dar banho no filhote e parecia nem ter percebido isso. Mas o garoto sentia-se estranho sempre que aquilo acontecia, como se faltasse ar nos seus pulmões.

Nico aproveitou a deixa para observar melhor o vizinho de perto. Reparou que ele tinha pequenas sardinhas salpicadas pelo nariz e nas bochechas. E também tinha furos nas duas orelhas — nunca tinha visto Will usando brinco, com certeza se lembraria disso! —, mas não usava nada, ao contrário dele que tinha uma argola na orelha esquerda. Seu olhar desceu para os ombros largos e então para os bíceps que se flexionavam enquanto esfregava o pelo do cão. Céus, que corpo!

— Não! Não! — Will exclamou de repente.

Nico estava tão perdido em pensamentos que só percebeu que Cérbero ia se chacoalhar quando já era tarde demais. Will só teve tempo de virar o rosto para o lado, mas Nico não teve a mesma sorte.

— Droga! — Nico xingou, balançando a cabeça agora molhada.

— Tudo bem? — Will rapidamente limpou as mãos em uma toalha limpa e inclinou-se na direção dele, prestes a tocar no seu rosto com uma das mãos. — Pegou no seu olho? Deixe-me ver.

— Estou bem! — Nico se esquivou, dando um passo para o lado, esquecendo-se que o piso estava escorregadio por causa da espuma.

Felizmente, Will conseguiu segurar Nico antes que ele caísse com a cara no chão.

— Te peguei! — ele sorriu vitorioso. Nico não sabia se suas pernas estavam tremendo pelo susto ou por Will estar com os braços em volta da sua cintura. — Ah, tem espuma no seu cabelo. Espere. — riu, passando a mão no cabelo bagunçado de Nico. O garoto não conseguiu se mexer, apenas acompanhou o movimento com o olhar, até os olhos dos dois se encontrarem.

Seu coração estava batendo tão forte naquele momento que ele temia que seu vizinho pudesse ouvir.

— Hm, valeu... — Nico pigarreou, desviando o olhar.

— Sem problemas. — Will engoliu em seco, o soltando devagar. Nico percebeu que as orelhas do vizinho estavam ficando vermelhas. — Eu termino aqui. — Ele virou-se, pegando uma toalha limpa em cima da pia e jogou para Nico.

Nico assentiu e andou em direção à saída. Parou antes de tocar na maçaneta e olhou para trás, encarando as costas de Will. Ele estava quieto enquanto enxaguava o filhote para retirar o que havia sobrado de espuma e não olhou para trás em nenhum momento.

Ele saiu do banheiro e soltou um palavrão mentalmente, se odiando por fazer papel de bobo na frente do vizinho novamente. Costumava ser uma pessoa muito racional e sempre pensava bem antes de agir, mas, quando estava perto de Will, sua mente ficava em branco.

Felizmente, Nico havia se molhado pouco. Ele enxugou os braços e esfregou a toalha nos cabelos que pingavam um pouco. Enquanto andava pela sala, reparou em uma série de fotos espalhadas pela parede formando um mural. As fotos da parte de cima eram de Will por volta de 1 ano de idade: chupando bico, as bochechas bem gorduchas, os cachinhos dourados e os olhos extremamente azuis faziam ele parecer um pequeno querubim. Nico não era muito fã de bebês, sempre os achava todos iguais, mas era obrigado a admitir que Will foi um bebê extremamente bonito, daqueles dignos de propaganda de fralda que a gente sempre via na televisão. As próximas fotos ele já era criança: brincando de bicicleta, no jardim ou na piscina. Era incrível como ele não havia mudado praticamente nada, o sorriso enorme nos lábios e o cabelo bagunçado ainda eram os mesmos!

Também tinham fotos dele adolescente — sem espinhas ou acnes no rosto, a pele absolutamente perfeita! — com um grupo de garotos que deveriam ser seus amigos da escola. Depois, ele na faculdade, com os colegas no pátio ou usando jaleco durante alguma aula prática. Porém, a foto que mais lhe chamou a atenção foi uma em que Will estava na formatura do Ensino Médio: usando beca e capelo, ele segurava o diploma com um sorriso enorme do rosto; com os braços ao redor do seu ombro, estava um cara que se parecia muito com Will.

— Prontinho! Cérbero já está de banho tomado e devidamente seco! — Will surgiu na sala com o filhote no colo. Ele havia trocado de camiseta, estava usando uma branca agora. Nico não pôde deixar de notar como a cor realçava sua pele bronzeada.

— Valeu. Já pensou em trabalhar em um Pet Shop? — brincou. — Você leva jeito com isso.

— Não seria uma má ideia, pena que não tenho tempo para um trabalho parcial. — Ele riu, soltando Cérbero no chão. — Eu adoro animais! Principalmente cachorros.

— Então por que você não tem um? — quis saber.

Will olhou para Cérbero. O filhote estava se esfregando na perna dele como se quisesse dizer: “Ei, humano, que tal uma coçadinha na minha barriga?”.

— Ah... — ele sorriu, mas seu sorriso parecia um pouco diferente do normal, parecia mais... triste. — Eu queria muito ter um. Seria ótimo ter uma companhia peluda me esperando em casa, sempre pronto para me recepcionar com um abanar de rabo. Mas também penso que não seria justo deixá-lo sozinho no apartamento o dia todo, sabe? Seria muito solitário e entediante.

Nico adorava ficar sozinho no seu apartamento, mas imaginou que para um animal tão elétrico e sociável como um cachorro isso deveria ser mesmo ruim.

— Verdade... — assentiu, sem saber ao certo o que dizer.

— Então, achou alguma foto incriminadora para me zoar depois? — Will mudou de assunto.

“Só se o crime fosse excesso de beleza!”, Nico pensou.

— Infelizmente, não. — Ele fingiu estar chateado. E então acrescentou: — Mas ainda não vi todas as fotos.

Will riu e apontou para a última foto que Nico havia olhado.

— Duvido você adivinhar quem é ele.

— Seu irmão? — Nico chutou.

— Não. — Ele soltou uma risadinha. — Meu pai.

— Pai?! — Nico perguntou incrédulo. Ele olhou novamente para a foto, o rapaz parecia ter apenas alguns anos a mais do que Will. — Impossível!

— Ele parece incrivelmente novo, não é? Bem, ele é mesmo. Tinha apenas 17 anos quando eu nasci; minha mãe, 16. — Ele explicou. — E eu vou fazer 25 daqui uns meses, então faça as contas.

Nico não fez as contas, ele claramente era uma pessoa de humanas e tinha preguiça de fazer cálculos matemáticos de cabeça. Mas pelo menos agora sabia que Will tinha 24 anos, assim como ele.

— Uau. — Foi tudo que Nico pôde dizer.

— Eles se conheceram no Ensino Médio. Meu pai era o cara popular e minha mãe tocava na banda da escola, ele disse que se apaixonou pela voz dela antes mesmo de ver seu rosto. — Will continuou, rindo. — Parece até o roteiro de um daqueles filmes adolescentes, não é? Eu sei.

Sim, realmente parecia um filme clichê de romance. Com direito a um filhinho adorável de brinde no final.

— Você é muito parecido com ele — Nico disse. Agora ele sabia de onde Will havia puxado tanta beleza!

Will assentiu e deu uma risadinha, como se ouvisse isso com muita frequência. Bem, provavelmente ouvia mesmo.

— Ah. E você acredita que ele me proibiu de chamá-lo de pai? “Eu já disse para você me chamar só de Apolo. Toda vez que você me chama de pai, um cabelo branco nasce na minha cabeça!”. — ele revirou os olhos, mas estava sorrindo.

— E a sua mãe? — Nico não conseguiu conter a curiosidade.

— Hm… — Will correu os olhos pelo mural, procurando por algo, então apontou para uma foto. — Aqui.

Na foto, estava uma moça muito bonita tocando violão. Will, que deveria ter uns 12 anos na época, estava ao lado dela no sofá.

— Ela é muito bonita. — Nico comentou e não estava dizendo isso apenas por educação. Agora, olhando bem para os pais dele, conseguia saber exatamente o que Will havia puxado de cada um.

— Sim. Sinto muito a falta dela... — Ele olhou para a foto de um jeito muito carinhoso. E então olhou para Nico ao explicar: — Ah, não me entenda mal! Ela apenas passa boa parte do ano viajando em turnê. É cantora.

Nico assentiu.

— Seu pai a acompanha?

— Não, eles não estão mais juntos.

— Oh, sinto muito... — Nico sempre tinha o dom de ser indelicado.

— Tudo bem! Na verdade, eles nunca foram casados. Apenas namoravam quando eu nasci e continuaram assim pelos próximos anos, mas depois resolveram terminar e cada um seguiu seu caminho. — Will não parecia incomodado com isso. — Eles se dão muito bem, continuam amigos.

Will tinha sorte, seus pais podiam não estar mais juntos, mas pareciam bem presentes ao longo do seu crescimento. De repente, Nico sentiu um aperto no coração. Ver todas essas fotos o fez lembrar-se da sua mãe, sentia muito a falta dela, mesmo que não conseguisse mais lembrar direito do seu rosto.

— Ah, melhor eu ir. — Nico mudou de assunto, percebendo que já estava ficando tarde. Olhou em volta, mas não viu o filhote. — Cadê o Cérbero?

— Fazendo reconhecimento da área. — Will riu e deu um assobio, Cérbero veio correndo da cozinha. Nico abaixou-se e pegou a guia.

— Valeu, Solace. — Nico disse, sentindo-se um pouco constrangido. Ele não era do tipo que agradecia com frequência, mas sabia reconhecer quando alguém o ajudava. Will parecia um pouco confuso, então ele tratou-se de explicar: — Por me ajudar no treinamento, por pegá-lo quando fugiu, pelo banho… Enfim, tudo.

— Não precisa agradecer, eu me diverti hoje. — Will sorriu. “Eu também me diverti. Muito”, pensou Nico. — Vou procurar outro lugar para treinarmos e te aviso.

Nico assentiu e andou em direção da porta.

— Ei, não está se esquecendo de nada? — Will perguntou, quando Nico já estava prestes a sair.

O garoto virou-se e olhou para ele, confuso.

— Eu já peguei o cachorro.

— Não. — Will riu, tirando o shampoo e a toalha de trás das costas. — Isso.

— Ah, certo, valeu. — quando Nico foi pegar as coisas, os dedos de Will roçaram levemente nos dele sem querer e isso foi suficiente para ele quase deixar tudo cair. — E-eu preciso ir. Tchau!

— Ei, espera...! — Will o chamou, mas Nico saiu apressado do apartamento sem olhar para trás.

Ele só parou quando já estava são e salvo em seu apartamento. Deixou a guia cair de sua mão e o filhote saiu correndo pelo apartamento.

Nico apoiou as costas na porta e deslizou por ela até sentir o piso gelado. Jogou as coisas no chão sem prestar atenção e botou a mão no peito, sentindo o coração acelerado.

Foi então que percebeu que ainda estava com a toalha que Will havia lhe emprestado em volta do pescoço. Havia saído praticamente correndo do apartamento, como se fosse um foragido, que até mesmo havia se esquecido de devolvê-la. Droga!

Se Nico continuasse tendo essas reações sempre que ficasse muito próximo de Will não demoraria muito para sofrer um infarto.

Notas finais
Finalmente esses dois estão ficando mais próximos! O que acharam da aula de adestramento e a cena da banheira? Rs. No próximo capítulo, não tem adestramento, mas Will vai poder mostrar seus conhecimentos médicos. O que será que vai acontecer? Até sexta que vem!