Trevo de Quatro Folhas
3 Oportunidade Única
Notas iniciais
Novamente a semana havia passado, Julieta estava pronta e animada para encontrar Aurélio e ter uma tarde feliz e relaxante ao seu lado. Entretanto, hoje as pessoas ao seu redor pareciam querer impedi-la de sair da residência Bittencourt. Era um problema atrás do outro, mantendo-a presa naquele lugar.
Primeiro Darcy informou que precisariam começar a agir imediatamente nos cafezais queimados, antes que não tivessem mais solução e a terra se tornasse completamente infértil. Alguns minutos se passaram e o Coronel Brandão veio até Julieta com informações de que Xavier esta negociando algumas fazendas importantes, aproveitando ainda para difamar mais a Rainha do Café. Olegário afirmava que providências mais gravosas deveriam ser tomadas a respeito de tal homem. Susana, por sua vez, além de proferir ofensas contra Olegário, insistia em querer saber qual seria o plano de Julieta para lidar com Xavier.
Julieta propôs algumas sugestões de atitudes que poderiam ser tomadas, porem, nenhuma era uma boa ideia. Já estavam conversando sobre o assunto e procurando soluções há várias horas, mas ninguém conseguia pensar direito, principalmente ela, já que sua mente insistia em pensar em Aurélio e no encontro marcado na cachoeira. Já haviam se passado vinte e cinco minutos do horário marcado para se encontrar com o filho do Barão, mas a Rainha do Café ainda estava presa na sala de estar da sua casa.
Todos falavam ao mesmo tempo agora, mas Julieta se manteve quieta, uma dor de cabeça irritante já tinha atingido-a fortemente e a impedia de pensar. Levantou-se do sofá que estava sentada e sem dizer uma palavra se direcionou para a saída da residência. Já não tinha mais paciência para escutar seus colegas, e além do mais, Aurélio não tinha tido nenhuma notícia dela, o que ele devia estar pensando? Seus passos foram interrompido antes mesmo de chegar na porta.
— Julieta, minha amiga, aonde vai? Estamos no meio de uma crise! — Susana disse estapafúrdia, fazendo com que a Rainha do Café revirasse os olhos e se redirecionasse para a sala. A sua sócia estava com aqueles olhos escuros arregalados, assustada com a maneira que Julieta havia se levantado, e saído em silêncio. Darcy, Brandão e Olegário também estavam atentos olhando para ela, esperando uma resposta. A mulher nunca tinha agido dessa maneira, sempre dava ordens e direções para seus colegas, jamais saia sem resolver um problema, quem dirá vários igual estavam tendo agora, era natural que todos estivessem estranhando.
— Susana, quando irá aprender que não devo satisfações a ninguém, principalmente a você? — As palavras duras saíram da boca da Rainha do Café e atingiram o seu alvo de forma certeira. Susana calou-se imediatamente e todos os outros desviaram o olhar, temiam que as próximas palavras fossem em suas direções.
Julieta retomou os seus passos e rapidamente saiu pela porta da casa antes que qualquer outro motivo a impedisse de ir ao encontro do filho do Barão. Tião já a esperava encostado no carro, e quando viu a patroa se aproximar imediatamente abriu a porta do veículo e a ajudou entrar.
Sentiu o veículo começar a se movimentar e finalmente pode voltar a respirar. Todos aqueles problemas pareciam a sufocar e impedir que o oxigênio chegasse ao seu cérebro. Ás vezes, tudo o que queria era poder voltar a ser uma criança, correr pelos campos com os cabelos soltos, brincar com outras crianças, andar a cavalo e sentir o vento bater em seu rosto, queria voltar a se sentir livre, leve e despreocupada, ou pelo menos queria poder se sentir feliz. Entretanto, Julieta havia crescido e a vida trouxe demasiados problemas, alguns que podem ser resolvidos, como por exemplo, os negócios no Vale do Café e outros que para sempre serão um problema em sua vida, como os traumas deixados por Osório Bittencourt.
Porem existe apenas uma hora em um único dia da semana em que a Rainha do Café poderia voltar a sentir feliz, leve e despreocupada e ela não perderia esse dia por nada. Não deixaria esse momento exclusivo de paz ser aniquilado pelo tolo do Xavier. As questões trazidas pelos seus amigos poderiam ser resolvidos depois. Na verdade, subitamente se deu conta de que talvez um desses contratempos poderia ser resolvido nesse encontro.
Seu coração apertou ao lembrar-se de Aurélio. Provavelmente o homem estava achando que ela não apareceria mais por lá, talvez, nem mais a estivesse esperando. Por um momento, a mulher fechou os olhos e silenciosamente orou, pediu arduamente a Deus que o seu ponto de paz ainda estivesse lá, com aquele sorriso e olhos encantadores.
A cachoeira era ainda mais afastada da cidade e por isso demoraram vinte minutos para chegar ao local. Tião estacionou no lugar habitual e a Rainha do Café imediatamente desceu do carro, dessa vez pediu que o motorista a esperasse. Hoje infelizmente ela não poderia ficar muito tempo, já que o período de duração do encontro já estava quase esgotado, e também existia a possibilidade do botânico nem estar mais lá.
Segurou com as mãos a barra do seu vestido e se pôs a correr na trilha. As suas botas com pequenos saltos tornavam a corrida um pouco mais difícil e até mesmo perigosa, alguns galhos tocavam a pele do seu rosto e os grampos dos seus cabelos caíram, deixando-os completamente soltos, mas nada disso importava, pois tudo o que Julieta queria era poder ver mais rápido possível o futuro Barão, aquele que a fazia agir dessa maneira. Assim que a trilha acabou ela já o avistou, isso fez com que parasse de correr. O homem estava sentando na grama, no mesmo lugar que sempre se assentavam, a cesta estava ao seu lado. O seu coração disparou de alegria por saber que ele ainda estava ali.
— Aurélio! — Julieta gritou. A voz saiu ofegante, mas surpreendente feliz. A maneira com que ela chamou o seu nome deixou-o preocupado, nunca tinha ouvido a Rainha do Café tão esbaforida. O botânico levantou-se rapidamente e virou-se em direção da mulher que o chamava.
A imagem que estava em sua frente era ainda mais linda do que a paisagem que os cercava. Julieta estava segurando a barra do vestido, as madeixas morenas estavam soltas, livres e um pouco rebeldes, os fios eram ondulados e caiam como uma cascata sobre os seus ombros, emoldurando perfeitamente o rosto da mulher, de uma maneira absurdamente deslumbrante. Havia um sorriso esperançoso nos lábios dela, as bochechas estavam rosadas por conta da corrida e os olhos estavam iluminados e mais castanhos, como nunca tivera visto antes. Era como se estivesse vendo uma obra de arte pintada com extrema delicadeza e perfeccionismo.
Antes que pudesse reagir ou falar qualquer coisa, a Rainha do Café andou rapidamente até a direção do botânico, praticamente correndo novamente. Quando estava a centímetros de distância ela jogou os braços ao redor do pescoço de Aurélio e apoiou o queixo no ombro dele. Os franzinos braços apertavam o pescoço do homem, o abraçando como se não fosse soltar nunca mais, o pequeno nariz que estava próximo ao pescoço puxava desesperadamente o perfume do homem, como se quisesse inalar toda a essência dele e os olhos estavam fechados, permitindo-se apenas aproveitar o momento.
Aurélio passou o braço direito ao redor da cintura fina da mulher e o esquerdo estava envolto um pouco mais acima, perto dos ombros, encaixou o rosto na curvatura do pescoço de Julieta e assim como ela, inalava desesperadamente o seu cheiro. Segurou-a fortemente e nunca queria deixá-la ir, queria para sempre tê-la em seus braços, sentir os seu cheiro e principalmente, sentir o corpo dela contra o dele.
Esta tarde quando chegou à cachoeira, o filho do Barão ficou preocupado ao não ver Julieta, pois nos dois encontros anteriores ela tinha chegado antes. Entretanto, resolveu sentar-se e esperar pela mulher pelo qual estava apaixonado, provavelmente algum imprevisto havia acontecido, pelo menos, era isso o que ele queria acreditar com todas as suas forças. Longos minutos se passaram e a Rainha do Café não chegava, a frustração, decepção e tristeza já estavam sob a alma de Aurélio, assim como todas as esperanças tinham ido embora.
Os momentos que passaram juntos atravessavam a mente do homem e ele tentava descobrir o que tinha feito de errado. Será que em algum momento a afrontou? A desrespeitou? Será que alguma de suas palavras ou ações a deixaram desconfortável? Tais perguntas o atormentavam e a falta de respostas o deixava angustiado. Mas ele esperaria por ela até o último minuto e se preciso fosse esperaria até a noite, até o momento em que tivesse a certeza de que ela não chegaria.
Contudo, para a sua imensa alegria, Julieta veio. Todos esses minutos de aflição e de espera valeram a pena, pois agora a sua amada estava em seus braços, permitindo-se ser abraçada e, principalmente, o abraçando-o. O coração de Aurélio transbordava em alegria e em amor.
Ficaram perdidos no abraço e no cheiro um do outro por algum tempo, tempo este que nenhum dos dois sabia determinar, pois estavam muito ocupados absorvendo e aproveitando o momento. Vagarosamente Julieta se afastou e olhou para Aurélio, arrastou as mãos até os ombros do homem e ali as manteve enquanto as do homem agora seguravam graciosamente a cintura da mulher.
Ela fitava aqueles olhos azuis tão profundos, os cabelos loiros charmosos e o cavanhaque perfeitamente desenhado. O homem abriu um sorriso cheio de alegria e exibiu os dentes brancos e alinhados, isso fez com que a própria Julieta exibisse um sorriso, correspondendo-o da mesma maneira.
— Aconteceram alguns imprevistos que fizeram com que me atrasasse. Eu achei... Eu pensei que você não estaria mais aqui. — Julieta disse com um sorriso grato em seus lábios. Suas mãos apertaram levemente os ombros do homem, como forma de agradecimento. Nesse momento era impossível esconder o entusiasmo. — Obrigada por me esperar, Aurélio.
O filho do Barão arrastou lentamente as mãos pelos os braços da morena, sentindo o calor do corpo dela emanar pelas rendas do vestido. A palma da mão direita encontrou a bochecha do rosto dela e ali repousou, acariciando morosamente com o dedão. A mão esquerda por sua vez, deslizou pelos cabelos sedosos e macios, apreciando cada fio do cabelo ondulado.
— Eu sempre te esperarei, Julieta. — Afastou delicadamente uma mecha morena que caíra sobre a face da mulher. — Eu te esperarei pelo tempo que for necessário.
Ele abriu um sorriso amoroso, enquanto os olhos dele transmitiam paz e paixão, de uma maneira atraente, isso fez com o próprio sorriso de Julieta aumentasse ainda mais e os seus olhos ficassem marejados com a intensidade do carinho que o filho do Barão nutria por ela. Ambos sabiam o real significado das palavras pronunciadas por Aurélio.
Olharam-se por alguns segundos, e a Rainha do Café permitiu-se apenas apreciar as caricias que o homem fazia em seus cabelos e em sua face. Queria poder se permitir ser cuidada e apreciada dessa maneira pelo resto dos seus dias, entretanto, a vida dela não era assim e por mais que quisesse arduamente ser amada, ela não conseguia, os medos e traumas do passado ainda insistiam em prendê-la e em a impedir de ser feliz. Nesse momento, o seu coração que até então estava cheio de alegria, ficou repleto de medo, tudo o que a morena queria era fugir dali antes que se machucasse e principalmente, antes que machucasse Aurélio por não conseguir amá-lo e corresponde-lo da maneira que este merecia.
Tais pensamentos fizeram com que voltasse para a realidade, Julieta tinha questões a serem resolvidas e umas delas poderia ser solucionada pelo homem a sua frente, entretanto, não podiam tratar de negócio com tal intimidade.
Retirou de maneira delicadas as mãos que a tocavam com tanto carinho e respirou fundo, em uma tentativa de se recuperar de um momento tão profundo. Jogou os cabelos soltos para trás, tirando-os do seu rosto e corrigiu a postura, tornando-se mais séria, mas ainda não era a habitual postura da Rainha do Café, sabia também que não havia a necessidade de ser tão dura para tratar de negócios com o loiro. Quando o homem viu ela mudar abruptamente o modo de agir, sabia que a empresária tinha algo importante a tratar, por isso aguardou silenciosamente.
— Como eu lhe disse anteriormente, me atrasei por conta de alguns imprevistos que ocorreram, e um desses infortúnios são os cafezais queimados que adquiri a alguns dias atrás. — Julieta pronunciou tais palavras com muito profissionalismo e ética, parecia que ambos estavam em uma reunião de negócios e não em um momento de lazer. — Darcy disse que é necessário agirmos imediatamente nas terras antes que se tornem completamente inférteis. — A empresária gesticulava com as mãos enquanto explicava a situação para o homem a sua frente que a ouvia atentamente. — Como o senhor é formado em botânica, visto também que está desempregado no momento, eu pensei em lhe oferecer a vaga para cuidar dos cafezais queimados e torná-las férteis novamente.
O botânico ergueu as sobrancelhas e arregalou um pouco os olhos em surpresa, mas o seu coração se encheu de alegria quase que imediatamente. A Rainha do Café tinha pensado nele para cuidar dos cafezais queimados, isso quer dizer que estava conseguindo mudar a sua imagem de inútil que ela disse que nutria por ele em um dos seus primeiros encontros. Entretanto, Aurélio não sabia se poderia aceitar tal convite, visto que não tinha experiência na área e já fazia anos que havia se formado.
— Eu adoraria! Porem, antes que me contrate, preciso que saiba que não tenho experiência no ramo. — Mesmo precisando muito do emprego o viúvo não se permitiria mentir ou ocultar as suas preocupações, e isso era umas das características que Julieta mais admirava nele, a sua honestidade. — Eu continuo a me manter atualizado, estudando e lendo todos os livros possíveis, e também cuidei dos cafezais de meu pai, mas não tenho nenhuma recomendação ou experiência em outras fazendas.
— Tenho ciência disso, e realmente não será um problema. Afinal, para adquirir experiência é necessário que haja a primeira oportunidade de emprego, não é mesmo? — A Rainha do Café exibiu um sorriso entreaberto. Ela não se preocupava com tal fato porque acreditava na capacidade dele em recuperar os cafezais e também porque sabia que tudo o que ele precisava era de uma chance. — Aliás, os cafezais da fazenda Ouro Verde são muito bem tratados e cuidados, mais um fato que me faz acreditar que o senhor irá desempenhar um ótimo trabalho. — Novamente o botânico exibiu um sorriso aberto, a alegria e o ânimo que ele sentia contagiou a mulher em sua frente, que também abriu um sorriso.
Julieta Bittencourtt era uma muito influente e conhecia diversos contatos, poderia muito bem ter escolhido alguém de sua confiança, com mais experiência para cuidar das terras queimadas, contudo, era ele quem ela havia escolhido para cuidar de um assunto tão delicado e isso fez o coração de Aurélio se iluminar. Além de provar que não é um completo inútil, poderia ver claramente que estava começando a conquistar a confiança da mulher que amava.
— O senhor também terá direito a uma tarde ou manhã de folga durante a semana, como preferir, para cuidar dos seus negócios pessoais, visto que, muitas vezes o comércio fecha antes do expediente acabar. Concedo a todos os meus funcionários este beneficio, já que todos possuem uma vida fora do trabalho. — A empresária disse, queria deixar claro para o botânico que ela não o estava privilegiando-o de maneira alguma e que ele seria tratado como todos os demais funcionários, tendo os mesmos deveres e as mesmas obrigações.
— Eu certamente escolherei as tardes de quarta-feira, senhora, para que assim eu possa aproveitar bastante a minha folga ao lado de uma boa companhia. — Aurélio levou os braços atrás de suas costas, inclinou o rosto para a mulher a sua frente e exibiu um sorriso brincalhão, mas dessa vez Julieta não reagiu de maneira humorística. A morena o olhou de um modo distante e profissional, apesar de internamente estar segurando-se para não corresponder o sorriso.
— Senhor Aurélio, eu entendo a sua confusão, todavia, não poderemos mais nos encontrar aqui quando o senhor começar a trabalhar para mim. — A Rainha do Café falou firmemente. O seu coração doeu ao ver a expressão do loiro se transformar em completa confusão, e foi atingida por um sentimento de agonia ao saber que mais uma vez iria machucá-lo com suas palavras.
— Com assim? — Aurélio franziu a testa e as sobrancelhas, as suas mãos agora estavam na própria cintura. O filho do Barão não estava entendendo, Julieta havia chegado e o abraçado de uma maneira tão íntima, tão cheia de sentimento, de toques, e agora estava lhe dizendo que não poderiam mais se encontrar apenas pelo fato dele trabalhar para ela. Isso não fazia qualquer sentido. — Por que não poderemos mais nos encontrar?
— Não é apropriado que uma patroa se encontre com o seu empregado em um lugar ermo, como este, tão pouco que compartilhem tamanha ínt... — A empresária imediatamente parou de pronunciar tal palavra. Seus olhos se fecharam enquanto ela procurava outra linguagem que fosse mais apropriada. — Que compartilhem uma amizade tão... próxima. — Ela suspirou desejando arduamente que ele não se atentassem a frase que iria ser dita anteriormente. — Muitas vezes, senhor Aurélio, a amizade atrapalha os negócios.
O filho do Barão nada disse, ficou em silêncio enquanto a observava. A Rainha do Café pela primeira vez se viu inquieta e ansiosa esperando por alguma reação, e suas mãos demonstravam isso, já que ela esfregava uma na outra rapidamente. Sentia-se nervosa pela maneira com que aquele olhos azuis a olhava tão profundamente, como se pudesse ver todos os seus segredos e medos, como se ele soubesse e a conhecesse mais dela do que ela mesma sabia de si própria.
— Agradeço pela oferta de trabalho, Rainha do Café. — O botânico exibiu um sorriso educado e Julieta aliviou-se ao saber que o homem iria aceitar e trabalhar para ela. — Entretanto, não poderei aceitar.
Os olhos de Julieta se arregalaram e a boca se abriu, demonstrando a surpresa que a resposta dele havia causado e internamente Aurélio segurou-se para não rir da imagem a sua frente. Dessa vez, era a mulher quem estava confusa, ela tinha certeza de que o filho do Barão aceitaria, afinal, ele precisava urgentemente começar a trabalhar para que assim pudesse se sustentar. Além do mais, o seu primeiro emprego seria na sua área de formação, mesmo após anos de formado e sem nenhuma experiência, isso era um privilegio para poucos. Como ele ousa estar desperdiçando uma oportunidade dessas?
— Como é que é? — As palavras da Rainha do Café saíram duras e afiadas, mas ainda demonstravam resquícios de surpresa.
— Não poderei aceitar a oferta de emprego. — Afirmou o loiro novamente, exibindo aquele sorriso atrevido nos lábios. Isso fez com que a empresária se sentisse irritada e ele sabia exatamente que seria esse o sentimento que despertaria nela, mas era por uma boa causa. — Não aceitarei o emprego, pois, não poderemos mais nos encontrar caso eu trabalhe para a senhora. — A Rainha do Café franziu a testa ao saber o motivo pelo qual o homem não aceitaria o serviço.
— Aurélio, isso é loucura! É loucura rejeitar tal oportunidade! — Julieta procurou palavras que pudessem expressar melhor o que sentia, mas não as encontrou. Era inaceitável que ele recusasse uma oferta de emprego apenas por não poder vê-la mais nas quartas-feiras, ali nessa cachoeira.
— A senhora tem razão. Lhe farei uma proposta. — O botânico a olhou pensativo. — Eu aceitarei o emprego com a condição de continuemos a nos encontrar aqui nas quartas-feiras, e que quando estivermos aqui, deixaremos o trabalho de lado e seremos apenas nós. — Disse sério e isso fez com que Julieta soltasse uma risada sarcástica. Quem era ele para lhe estar impondo condições? Ele era a única pessoa em uma situação desfavorável, o único que precisava de estabilidade financeira e não ela.
— Aqui a única que faz as condições sou eu. — A Rainha do Café disse friamente, seus olhos castanhos transmitiam autoridade e superioridade. — E isso não está em cogitação.
— Então, lamento, não poderei trabalhar para a senhora. — Apesar de Julieta lhe lançar um olhar furioso e frio, o homem não mudou a sua postura afrontosa. Sabia dos riscos que corria, sabia que ela ficaria irritada e provavelmente iria embora, mas Aurélio estava determinado a manter suas palavras, como nunca tivera antes. — Quando estiver pronta para lanchar comigo, eu estarei sentado lhe aguardando.
O filho do Barão virou-se e começou a andar em direção ao lugar que sempre se sentavam. A Rainha do Café não podia acreditar na tamanha audácia do homem, isso era um disparate. Ela estava oferecendo uma oportunidade única e ali estava ele, a afrontando, achando que poderia lhe impor condições, jamais homem algum colocaria condições sobre a vida dela novamente. Chegou a conclusão de que Aurélio estava agindo de maneira tola e irresponsável, sem pensar na situação financeira que se encontrava, sem pensar na filha e no pai que agora dependiam dele e consequentemente sem pensar no quanto precisava desse emprego.
— Aurélio! Você esta agindo como um tolo! Está agindo como um mimado! — Julieta se pôs a andar atrás do homem, os seus passos eram fortes e demonstravam toda a irritação que sentia no momento, por conta da petulância do botânico. — Essa é uma oportunidade única e é estupidez rejeitá-la por um motivo tão bobo! Será que não é capaz de perceber isso?! — A voz da empresária estava alterada e nervosa.
Não sabia porque ainda estava insistindo para que ele trabalhasse para ela, já que poderia contratar outros profissionais com experiência que conhecia. Os passos do botânico diminuíram e ele se virou para ela, fazendo com a morena que parasse também. Os corpos estavam frente a frente, com pouco espaço de distancia.
— Não Julieta, é você quem não é capaz de perceber. — Aurélio disse com determinação e a mulher estava pronta para responder, mas antes que ela pudesse falar qualquer coisa ele continuou. — Você que não é capaz de perceber que não aceitarei o emprego porque prefiro compartilhar as minhas tardes com a doce e feliz Julieta, do que com a renomada e implacável Rainha do Café que não se permite sequer ser amiga do seu empregado. — O loiro a fitava com olhar cheio de sinceridade e persistência. Julieta novamente estava confusa com as palavras dele. — Então, sim, eu vou perder essa oportunidade única. E também agirei como um tolo e um mimado, porque para mim vale mais eu te ter ao meu lado sorrindo, brincando e me contando sobre os seus livros favoritos apenas uma vez por semana, do que te ter ao meu lado todos os dias e não poder te ver feliz, te ver sorrir ou saber quais são as histórias que mais te encantam. — A morena o fitou sem qualquer reação, a verdade é que estava assustada com tal confissão. Olharam-se por alguns segundos intensos, e ao ver os olhos assustados de Julieta, ele se arrependeu instantaneamente de ter dito o que disse. Aurélio respirou fundo, e percebeu que ela precisaria de espaço para poder meditar sobre tudo o que ele havia lhe falado. — Irei me sentar, fique a vontade para se juntar a mim quando se sentir pronta. — Aurélio imediatamente se virou, caminhou mais alguns passos e sentou-se na grama. Abriu a cesta que havia levado, retirou uma pêra e passou a comê-la.
O filho do Barão arrependeu-se das palavras que havia acabado de proferir, pois, não sabia qual seria a reação de Julieta. O medo de que Julieta saísse correndo dali era grande, já que ela não conseguia lidar com tais emoções. Todavia não conseguiu segurar os sentimentos dentro de si, necessitava dizer que apreciava ter a companhia dela nas tardes de quarta-feira, que queria a ver sorrindo e feliz, e quando se deu conta já havia dito todo aquele discurso cheio de afeição e a deixado assustada. Respirou fundo e tentou conter a ansiedade dentro do peito.
Julieta, por sua vez, continuava parada no mesmo local, ainda sem reação, sem se movimentar, sem expressão. Nunca ninguém havia dito palavras tão carinhosas para ela, falado que queria a ver sorrir ou sequer se importado com os livros que gostava de ler. Não sabia como agir com tal demonstração de sentimentos, de afeto. Essas coisas que Aurélio havia falado a atingiu ainda mais do que os beijos que ele insistiu em lhe dar. Ele a notava, prestava atenção em tudo, em cada detalhe nela e era por isso que não queria aceitar o emprego, porque queria conhecê-la ainda mais. Essa era a maior demonstração de carinho e admiração que alguém já havia lhe demonstrado. Sentiu algumas lágrimas escorreram pelo seu rosto, e pela primeira vez em muitos anos não eram lágrimas de tristeza, mas sim lágrimas de alegria de quem se sentira amada como nunca havia sentido antes. Com as costas das suas mãos ela secou a face e respirou fundo, recuperando-se do seu momento.
Após passar alguns minutos e se sentir estabilizada emocionalmente, Julieta caminhou até onde estava Aurélio e se sentou na grama, ao lado dele. Pegou uma fruta que o botânico havia deixado ali ao lado para ela e comeu. Ambos sentaram-se em silêncio, apenas observando a paisagem ao redor, pois, nenhum sabia o que dizer.
— Desculpe por chamá-lo de tolo e mimado, eu não quis dizer isso. — Julieta exibiu um sorriso envergonhado nos lábios, fazendo com que Aurélio a olhasse estranhamente, nunca a ouvira pedindo desculpas. — Muito menos queria lhe magoar com as minhas duras palavras,
— Está tudo bem, Julieta. — O filho do Barão exibiu um sorriso compreensível e lentamente arrastou a mão sobre a dela, apertando de maneira reconfortante, para que a mesma soubesse que ele não estava bravo ou magoado. Percebeu também que a morena havia chorado, pois o nariz os olhos estavam avermelhados, isso fez com que o coração dele doesse. — Eu também agi de manei...
— Eu aceito a sua proposta. — Julieta o interrompeu antes que pudesse continuar a frase, afinal, ela sabia que o homem pediria desculpas por algo que não era culpa dele. — Mesmo que trabalhe para mim continuaremos a nos encontrar aqui. — Afirmou a empresária. — Agora só me resta saber se senhor aceita o emprego. — A Rainha do Café esticou a sua mão para apertar e esperou ansiosamente pela resposta.
— Aceito! Começarei amanhã mesmo! — Aurélio exibiu um sorriso aberto e animado em seus lábios e apertou a mão de Julieta, como se fossem dois negociantes fechando um contrato. Mal podia acreditar que pela primeira vez havia conseguido convencer a empresária a mudar de opinião. — Será uma honra trabalhar para a senhora. — Isso fez com que a própria Julieta abrisse um sorriso animado e mais uma vez ambos apenas se observaram por alguns segundos. O botânico estava hipnotizado pela maneira com que os cabelos soltos dela a deixavam ainda mais bela, desejava poder vê-la mais vezes assim.
— Bem, eu tenho que ir. — Julieta interrompeu o silêncio e levantou-se. — Ainda restam algumas questões a serem resolvidas. — Ela disse enquanto alisava o vestido para que qualquer resquício de sujeira saísse dele.
— Antes que vá eu preciso lhe entregar uma coisa. — Aurélio remexeu na cesta, retirou um livro, colocou-se rapidamente de pé e em entregou para a morena. — É um presente, espero que goste.
Ao pegar o livro em mãos Julieta leu atentamente o título delicadamente gravado em cima da capa: ''Orgulho e Preconceito de Jane Austen''. Imediatamente os seus olhos se encheram de lágrimas novamente e os seu coração de alegria, reuniu todas as forças possíveis para não chorar ali. Olhou para Aurélio que exibia um sorriso esperançoso e amoroso nos lábios e voltou a olhar para o livro. Passou delicadamente a mão em cima da capa do livro já antigo, parecia ser de coleção, de alguém que já o tinha a muitos anos. Ela havia comentado que era o seu livro favorito e que não havia mais encontrado em nenhum lugar para comprar, e agora ali estava ele, lhe dando uma cópia daquela obra literária maravilhosa. Mais uma vez se sentiu tão amada e encantada por Aurélio Cavalcante, mas não poderia aceitar tal presente.
— Aurélio, eu adorei! — A voz dela estava embargada, por conta de tamanha emoção. —Mas... Mas não posso acei...
— Minha mãe me ensinou que é deselegante rejeitar um presente. — O filho do Barão a interrompeu. Ele já esperava tal reação da mulher, então não estava surpreso. Entretanto, não esperava que ela se emocionaria tanto com o presente, apesar de tentar disfarçar, ele podia ver que os olhos dela lacrimejavam. — Sendo assim, não há o que discutir. Julieta, este livro é seu de agora em diante.
— Eu... Eu... — Julieta procurava palavras e expressões, mas as emoções haviam tomado conta de todo o seu ser e arrancado qualquer sentido dela. Aurélio não fazia ideia de como este livro era importante para ela e como ele tinha sido parte essencial da juventude da morena. — Eu não sei nem o que dizer! — Ela pronunciou tais palavras em meio ao riso cheio de emoção. — Obrigada, Aurélio! Muito obrigada!
Mais uma vez a Rainha do Café foi tomada pela emoção e em um ato súbito, sem ao menos se dar conta, enrolou os seus braços em volta do corpo de Aurélio, o abraçando pela segunda vez naquela tarde. Fechou os olhos e se sentiu ainda mais feliz e emocionada quando os braços fortes do botânico seguraram a cintura dela, transmitindo-a paz e segurança. Era incrível como aquele homem conseguia a fazer sentir uma explosão de sentimento, a deixava irritada, mas logo em seguida, fazia com que o coração dela fosse inundado por amor e alegria, era algo inexplicável. Dessa vez o abraço durou menos tempo, e logo a Rainha do Café se desprendeu dos braços do filho do Barão.
— Eu realmente preciso ir. — Julieta disse com um sorriso que carregava um pedido de desculpas nos lábios. O botânico também sorriu e balançou positivamente a cabeça. — Novamente, muito obrigada! — A Rainha do Café disse enquanto se afastava. — Até amanhã! — Ela pronunciou tais palavras antes de desaparecer em meio a trilha.
Aurélio Cavalcante estava com um sorriso bobo e aberto nos lábios. Apesar dos imprevisto que haviam acontecido esta tarde, tudo tinha saído bem, até mesmo melhor do que nos outros dias. Afinal, Julieta Bittencourt havia o abraçado duas vezes, permitiu que ele acariciasse o rosto e os cabelos dela e ele também conseguira a emocionar e a proporcionar grande alegria quando entregou o livro da Jane Austen, que era da sua falecida e amada mãe. O filho do Barão juntou a cesta do chão e se dirigiu alegre para a casa de Brandão, iria se preparar, poism amanhã começaria a trabalhar. A trabalhar do lado da Rainha do Café.
Assim que Julieta adentrou no carro e sentiu que o mesmo começou a andar, permitiu que o choro a atingisse. As lagrimas se misturavam com o sorriso que estava em seus lábios e ela continuava a acariciar a capa do livro com as pontas dos dedos. Nunca ninguém havia se dado ao trabalho de tentar entendê-la e de fazê-la feliz com Aurélio Cavalcante estava fazendo Este homem conseguia quebrar todas as suas barreiras e por um momento fazia ela esquecer os seus medos e traumas. Quem sabe, a vida a estava dando uma oportunidade dela ser realmente feliz, e talvez, apenas talvez, ela daria uma chance a si mesma de ser feliz. Afinal de contas, seria uma tola se desperdiçasse essa chance única, não é mesmo?
Assim que o veículo estacionou em frente a sua fazenda, ela tratou de secar as lágrimas, amarrou os cabelos em um coque bagunçado e tentou se recompor da melhor maneira possível. Caminhou vagarosamente até adentrar na residência, sentia-se mais leve. Carregava o livro em suas mãos e um sorriso em seus lábios. Todos ainda se encontravam ali na sala de estar, discutindo soluções para o problema.
— Meus caros, um dos problemas já esta resolvido. — A Rainha do Café anunciou enquanto se aproximava da sala de estar. Todos a olharem de maneira estranha e confusa, por sua aparência completamente bagunçada e também pelo semblante feliz que carregava. — Aurélio Cavalcante é botânico e cuidará dos cafezais queimados. — Disse enquanto se sentou no sofá e se serviu um xícara de café, ignorando os olhares sobre si. Todos ali presente continuavam confusos, com exceção de Brandão, que exibiu um sorriso torto, pois sabia que o filho do Barão era apaixonado pela empresária e agora começara a acreditar que existia chances do amigo ser correspondido.
— Mas Julieta! — Começou Susana com os seus discursos intermináveis, fazendo com que a empresária revirasse os olhos e respirasse fundo. — Este homem não tem capacidade de cuidar de tal assunto, além do mais...
— Susana. — A Rainha do Café interrompeu e utilizou aquele tom frio que causava arrepios em qualquer um. — Por que não se preocupa em resolver problemas que ainda não foram resolvidos do que ficar achando defeitos naqueles que já foram solucionados?
Susana engoliu seco, todos na sala ficaram desconfortáveis com a situação. Darcy imediatamente interrompeu a conversa para que um clima estranho não piorasse na sala. Eventualmente, voltaram a discutir os problemas, sua equipe estava preocupada e atordoada com todas as questões. Julieta por sua vez, agia completamente ao contrário, mantinha o sorriso e o semblante feliz, pois apesar dos problemas o seu dia tinha sido perfeito, e a tendência era melhorar.
Fale com o autor