Tremor
3 Epicentro Ambulante
Notas iniciais
O sol despontava imponente, refletindo os pomposos raios amarelados pela avenida. Nada senão uma ou duas aves solitárias sobrevoavam os arredores da base. Havia dias que a agente Garza havia chegado à base e ainda não tinha nenhuma ideia sobre como encontrariam Skye. Parecia que tudo havia sido apagado. Bancos de dado, câmeras de segurança... Skye estava fazendo um ótimo trabalho se esgueirando pelas beiradas e ficando fora dos radares.
– Bom dia, pessoal... A agente Skye está em apuros.
Garza segurava um tablet nas mãos e uma xícara de café preto na outra, entrando meio impaciente no laboratório.
– Diga algo que ainda não sabemos. – May respondeu séria, soltando os braços ao lado do corpo. – Não podemos ficar sentados aqui esperando sabe-se lá o quê acontecer.
– Skye não está sendo tão cuidadosa quanto pensávamos. – Sarah continuava. – Já viram as últimas notícias?
– Que notícias?
– Claro que não... O governo abafou o caso... Por sorte, meu laptop está configurado pra receber essas informações no momento em que chegam à imprensa. – ela dizia, digitando rapidamente no minicomputador – Claro, ser a namorada do jornalista estagiário facilitou muito a minha vida.
– Você namorou com o estagiário pra conseguir hackear o canal de notícias? – Jemma perguntou um pouco surpresa.
– Ele era até gatinho – Garza parou de digitar e encarou a cientista por alguns instantes. – Mas era cem por cento profissionalismo.
– Agente Garza – Coulson lançou um olhar apressado para ela. – As notícias.
– Bem... Não sei como isso parece pra vocês, mas foi registrado um terremoto sem explicação e completamente fora de época a oeste de Chicago, duas horas atrás.
– Como assim, sem explicação? – Fitz a olhou enquanto mordia uma caneta, apreensivo. – Os técnicos não encontraram o foco do Tremor?
– É aí que entra a parte de que Skye está em apuros.
Todos pararam o que estavam fazendo e encararam Sarah, sentindo seus pulmões congelando de repente.
– Cientificamente – a garota continuou, sentindo a pressão dos olhares que a observavam. – O terremoto tem sua origem no hipocentro, ou seja, bem dentro da Terra. O epicentro é a parte na superfície terrestre de onde se propaga o tremor. Esse ponto pode ser calculado facilmente, e nesse momento, os técnicos já devem ter descoberto...
– Que o epicentro é... Ambulante? – Jemma arriscou.
– Exatamente. – Garza confirmou, olhando séria para ela. – Sua amiga está em apuros, agente Simmons.
– Se as autoridades descobrirem que é ela que está causando isso...
– Eles vão coloca-la em quarentena, Coulson. – Melinda completou o raciocínio do diretor. – E não fazemos ideia de como eles irão detê-la.
– Olha, rapidinho – Garza levantou a mão, pedindo a palavra. – Por experiência própria – ela mostrou as mãos e apontou para os olhos. – Não é uma boa ideia assustar uma hacker inumana que acabou de descobrir que tem poderes e mal sabe como usá-los. Vão por mim, prendê-la num contêiner de metal não vai impedir que ela destrua meio quarteirão.
– Foi isso que aconteceu com você? – Fitz perguntou, com uma ponta de indelicadeza.
– Oh, não! Pelos céus, não! – ela deu um sorriso de alívio. – Eu fui capturada pela S.H.I.E.L.D, não pela SWAT. Estou apenas dizendo que, se precisam conter a garota, isso tem que ser feito pelas pessoas em quem ela confia, não por trogloditas que não entenderão ela. Eles podem machucá-la e ela pode machucar eles por não saber como se defender direito ainda.
– Okay, pelo menos agora podemos rastreá-la pela... pela...
– Energia liberada pelos sismos. – Simmons ajudou.
– Isso. Pela energia que é liberada pelos sismos. – Fitz virou-se na cadeira e pegou seu tablet, animado.
– Oh, céus... Precisarei de umas amostras de sangue. Pretendo estudar como ela consegue produzir ondas sísmicas sem a interferência de convergências internas. Quando ela chegar aqui... – Simmons não pôde evitar a ideia.
– Simmons – May a olhou, meio impressionada. – Creio que essa não é a prioridade no momento.
– Claro, May – Jemma corou instantaneamente. – Precisamos encontrar Skye.
– Ótimo, já temos por onde começar. – Coulson deu um meio sorriso para os cientistas. – Voltarei para o escritório com a May, precisamos enviar uma papelada da agente Garza para a Hill. Vocês três, já sabem o que fazer.
– Sim, senhor. – Fitz-Simmons responderam ao mesmo tempo.
– Pode deixar, A.C.
Coulson já estava saindo quando parou bruscamente ao ouvir Sarah chamá-lo daquela forma. Seu coração não pôde evitar falhar em uma ou outra batida.
– “A.C.”? – ele virou-se em direção a Sarah.
– O quê? Não gostou? – Garza já esboçava um pedido de desculpas dramático. – Desculpa, diretor... Não queria faltar com respeito, só...
– Não foi nada... Só... – ele voltava ao normal aos poucos. – Outra pessoa costumava me chamar assim...
(...)
– O que está fazendo? Ponha-me no chão, agora!
– Não!
– Eu não tenho culpa se você...
– Não. Termine. A frase. – a garota o segurava pelo pescoço com apenas uma mão.
– Tudo bem, tudo bem – o homem mexia as pernas, já ficando vermelho pela falta de ar. – Apenas me coloque no chão e poderemos conversar civilizadamente, sim?
– Eu nunca fui muito civilizada, idiota.
– Mas eu não posso te ajudar nessa posição. – ele tentava argumentar.
– E quem disse que eu quero sua ajuda? – ela o olhou, seus olhos flamejando com a raiva que crescia desesperadamente dentro de si. – Você não pode me ajudar, de qualquer forma.
– Se você me matar, não terei valor nenhum pra você! – ele se debatia, a beira de um colapso.
– E vivo? – ela deu um sorriso insano. – Você não é absolutamente nada para mim.
Ela o prendeu à parede com mais força, seus olhos tremiam. Não muitos segundos depois, as veias do seu pescoço ficaram rígidas e pequenas faíscas corriam pela superfície de seus braços, como pequenos circuitos elétricos tomando conta de suas veias. Um grito seco e desesperado liberou a descarga elétrica, transformando o homem em um boneco de carvão preto. A garota caiu de joelhos no chão, cobrindo os olhos com as mãos que ainda faiscavam. Lembrou-se de duas semanas atrás. De como era mais fácil matar quando se era um ser humano normal. De como havia conhecido Travis. Lembrou-se de Grant. Mais um grito rasgou sua garganta e ela encostou-se à parede, batendo a cabeça com força no reboco mal acabado da venda de frutas. Ser uma máquina mortífera quando preciso nunca a incomodara de fato, mas aquilo já era outro nível. Seus cabelos dourados adquiriram uma enorme mecha azulada no lugar da franja, e suas mãos pareciam tatuadas com uma espécie de circuito.
– Hey... O que aconteceu aqui?
A garota chorava desolada ainda sentindo as mãos dormentes quando a voz desconhecida fez com que olhasse para cima.
– Wow. – a mulher continuava. – Parece que alguém aqui andou irritando você.
– Não me enche. – a mais nova permaneceu no chão, agora levantando as mãos na direção da mulher que a estava encarando com um pouco de tédio. – E se ficar por aqui muito tempo, vai acabar como ele. Então, se manda!
– Na verdade, eu acho pouco provável, mocinha. – a mulher estendeu a mão para levantá-la do chão. – Vamos, você precisa sair daqui antes que alguém veja o corpo e tente machucá-la.
– Eu não vou a lugar algum com uma estranha.
– Qual é, garota! Eu não tenho o dia todo. Ainda tenho que passar no veterinário e buscar a Chewie, então, facilite as coisas.
– E quem me garante que não é uma roubada?
– Bem – a mais velha repousou a mão sobre a cintura e deixou o peso do corpo pender para o lado esquerdo. – Se considerarmos o último ocorrido, você meio que completamente já está em uma roubada, garota. – ela olhou para o corpo carbonizado ao lado dela. – Mas se você não quer minha ajuda, tem quem queira. Boa sorte na próxima.
– Não, espera. – a garota estendeu a mão, chamando-a de volta. – Eu não tenho ninguém.
– Agora sim estamos conversando. Tá vendo só? É só dar um gelo que as pessoas rastejam atrás de você... É o maior clichê da humanidade. – ela encarou a garota que tinha os olhos marejados. – Anda, não precisa chorar, é só pegar a minha mão.
A mais nova levantou-se sem ajuda, receosa de que pudesse eletrocutar sua benfeitora. A loira mais velha apenas cruzou os braços e fez uma expressão dramática.
– Vem cá, eu tenho cara de mentirosa ou alguma coisa do tipo?
– Ninguém tem cara de mentiroso até aprontar uma com você. – ela respondeu séria, abraçando o próprio corpo, como se estivesse frio por ali. – Mas você não me parece tão má.
– Nossa, obrigada. – ela despejou com sarcasmo. – Mas vamos lá, deixa eu te perguntar uma coisa... Tu eletrocutou o homem por quê, mesmo?
– Você viu? – ela a olhou, temerosa.
– Pior. Eu senti. Estava voando pelas redondezas quando a sua energia começou a se propagar. Infelizmente não consegui absorver a tempo.
– Absorver? Voar? – a menor franziu a testa assustada.
– É. São algumas coisas que eu faço, me esqueci de mencionar essa parte.
– Sério?! Me mostra!
– Agora?
– É!
– Preciso mesmo...
– Voa!
– Oh droga... Devia ter mencionado isso mais tarde.
Ela apenas deu uma volta simples pelo galpão escurecido que ficava ao lado da banca de frutas, sob o olhar impregnado da garota que não podia acreditar no que via.
– Uaaau! – a mais nova exclamou atônita. – Como você faz isso?
– Digamos que eu estou nesse ramo a mais tempo do que você. Mas você não respondeu a minha pergunta inicial. Por que matar o cara?
– Eu estava com raiva.
– Ah, crianças... – ela soltou um suspiro cansado. – Se eu matasse uma pessoa sempre que estivesse com raiva, já teria despachado a China para outra dimensão.
A mais nova a estudava, procurando algum traço suspeito no seu tom de voz.
– Não sei como isso começou. Só sei que eu me transformei nisso. – ela abriu a palma da mão e mostrou a corrente elétrica que viajava pelos circuitos. – Foi assustador.
– Olha, você me parece uma boa garota, no duro. Tá afim de se juntar aos mocinhos? Essa cidade está prestes a virar um caos e precisaremos de boas pessoas que nos ajudem a salvá-la.
– Pode ser. Mas não sei se sou tão boa assim.
– Você não é tão diferente de mim.
– Quem é você, afinal? – a garota cruzou os braços e a encarou com uma expressão curiosa.
– Meu nome é Carol. Carol Danvers pra ser mais exata.
– Sem chance – a garota perdeu a fala. – Você é a... Capitã Marvel em pessoa?!
– É isso aí... Parece que você me descobriu.
– Bem... É... Uma honra Capitã! Vai ser uma honra trabalhar com você.
A garota paralisou e ficou estátua olhando pra ela.
– Hey – Danvers passou uma das mãos em frente aos olhos dela, tentando acordá-la de uma espécie de transe. – Essa é a hora que tu fala teu nome, guria.
– É... Desculpa – a garota sorriu envergonhada. – Eu sou Samantha. Samantha Hill.
– Muito bem, Sammy... Vamos chutar alguns traseiros.
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