O amanhecer irrompeu deslumbrante, envolvendo o ambiente em um esplendor encantado, enquanto o canto suave dos pássaros preenchia o ar fresco da manhã. A equipe de bombeiros estava imersa em seus esforços, lutando contra um pequeno incêndio que se alastrava pelos matagais. No conforto de uma sala próxima, um sexteto saboreava um delicioso chocolate quente, enquanto um dossiê, repleto de provas criminosas feitos por Sr. Ampudia, repousava sobre a mesinha de centro.




— Parece que um rolo compressor passou por nós. Sinto muito, Mackenzie, por não ter agido mais rapidamente — confessou Belmonte, a culpa evidente em seu olhar.




— Não se preocupe, não foi sua culpa. Ele foi meticuloso demais — respondeu a loira com um sorriso suave, tentando acalmar o amigo, que, em um gesto gentil, acariciou o dorso da mão dela.




— O lado positivo é que esse pesadelo está prestes a chegar ao fim — suspirou Lina, aliviada, enquanto Bracho depositava um beijo suave em sua têmpora. Em seguida, todos se abraçaram, selando um gesto de união.




Levantaram-se e caminharam até a cozinha para lavar os copos e guardá-los no armário. Dedicar alguns momentos à análise do dossiê parecia essencial antes de retornarem à sala, onde Valentina descia as escadas.




— Sempre aprontando, não é, priminha? Mil desculpas por não ter recebido você e seus amigos; estava no décimo terceiro sono! — comentou ela, com um tom solene e sarcástico.




— Se não for para causar, nem quero! Não se preocupe, imagino que você estava muito cansada — respondeu Ivana, astuta como sempre, mas com uma simpatia cativante.




— Pessoalmente, entendo muito bem o quão exaustivo pode ser. Há dias em que estou tão cansado que minha mulher me faz companhia — começou La Vega, olhando carinhosamente para Triz. — Da próxima vez, faça um pouco menos de barulho — finalizou, com um tom enigmático.




Sem deixar espaço para Valentina se explicar, a loira acenou um tchauzinho para a prima, exatamente no instante em que José Miguel entrou na sala, e saiu do recinto acompanhada pelos amigos.




Dirigiram-se ao estábulo, onde os cavalos já os aguardavam, equipados com suas selas. Após dar um beijo suave na bochecha de Gavilár, a moça montou em seu Sargento, seguida pelos outros, partindo em direção à delegacia.




A uma distância segura, dois carros a acompanhavam, prontos para fornecer depoimentos cruciais.




Após cerca de vinte minutos, chegaram e adentraram o local. Uma voz áspera ecoou: “Pobre bonequinha, tenho certeza de que você me ama.” Enquanto entregava o dossiê ao pai, a moça caminhou calmamente com Dan e Will e, com um tom provocador, dirigiu-se ao seu algoz:




— Seus joguinhos acabaram, não há mais nada a ser feito. Terei o prazer de vê-lo definhar atrás das grades pelo resto da vida — finalizou, provocando a ira de Oscar, que, ao tentar agarrá-la, teve a mão quebrada por Dan enquanto ela se dirigia à sala de Toledo.




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**José Miguel – Ponto de Vista**




Os aspectos que meus pais sempre elogiavam em mim diziam respeito à minha sede de justiça e à minha perseverança; eu sempre soube que um futuro promissor era fundamental para a minha vida.




Acreditava de todo o coração que Valentina Vilaça era a dona do meu coração; nossa sintonia era verdadeiramente extraordinária. Compartilhávamos inúmeros interesses, e eu frequentemente participava de eventos em sua casa.




Quando conheci Ivana, ainda um bebê e prima de Valentina, uma onda de desespero tomou conta de mim ao segurá-la pela primeira vez; algo profundo e protetor despertou em meu ser.




Acompanhei de perto cada etapa de seu crescimento. Uma estranha sensação de angústia crescia dentro de mim. Ela compartilhou todas as suas descobertas, desde a alegria de fazer sua primeira amizade até seu primeiro namoro.




Era encantador observar seus olhinhos brilharem ao falar sobre um garoto que conhecera em um parque de diversões, junto à barraca de algodão-doce.




A relação começou com passeios ao ar livre, sempre repletos de tinta, espuma ou qualquer outra travessura divertida entre amigos.




Realizavam viagens supervisionadas pelos pais até que ela atingisse a idade suficiente para sair sozinha ou acompanhada. Sonhadora a loirinha acreditava que o amor deles era eterno.




Entretanto, uma tragédia discreta e misteriosa trouxe uma mudança drástica; o choro desesperado de Ivana, afundando na escuridão do sofrimento, partiu meu coração.




Altas madrugadas em festas duvidosas tornaram-se rotina, e passar o dia inteiro no hospital passou a ser comum. Houve um episódio em que o excesso de álcool gerou uma ruptura entre nós.




A situação começou a melhorar quando ela ingressou em uma faculdade renomada e, ao longo do tempo, concluiu três graduações em áreas diferentes. As visitas em casa tornaram-se escassas e, nesse intervalo, eu havia iniciado um relacionamento com Valentina.




Nos reencontramos muito tempo depois; meu relacionamento com sua prima estava sólido e, embora ainda existisse um vínculo entre nós, nada era como antes. Ivana estava perigosamente próxima de Toledo naquela época.




Quando surgiu uma excelente oportunidade para a filha de LeBlanc em outro país, não houve despedidas. Soube da partida apenas enquanto me ocupava com os preparativos para meu casamento.




Fui feliz em meu matrimônio por um longo período, mas as notícias sobre a loirinha tornaram-se raras. A crescente distância da minha esposa começou a ser visível, e a ausência que sentia dela pesava cada vez mais em meu coração.




Não conseguia entender muito bem por que esta inquietação brotava só de imaginar outros homens disputando ao menos uma chance com Ivana no exterior, sendo que nunca a vi de outra maneira; apenas como uma irmãzinha. Repetia para mim mesmo que era apenas carência.




Como fui tão cegamente tolo ao não perceber os sinais deixados pelo canalha do Ampudia? A tensão cortante quando ele ficava perigosamente perto dela, o modo protetor que ativava nela sempre que ele abordava o Adam de forma intimadora, quando aparecia com algum roxo ou corte e desconversava quando perguntavam. Os seguranças sempre vigiando cada passo dele.




Finalmente, tê-la perto de mim depois de longos dois anos trouxe uma calma inexplicável; seus cabelos sedosos cobriam seu rosto angelical, fingindo normalidade, pois não era todo dia que uma arma, não uma, mas duas, eram apontadas em sua direção. Fiquei surpreso quando ela dormiu em meu colo; eu e LeBlanc velamos o sono dela e de seu grupo, enquanto Dan e Will faziam a ronda.




Nem tive tempo de matar a saudade na manhã seguinte, pois ao descer as escadas ouvi algo insinuante: minha loirinha enviava um beijo para a prima, ainda minha esposa, e logo se dirigiu para seu compromisso com os amigos, desaparecendo sem deixar vestígios.




"Amor, me perdoa, não fiz por querer. Você sempre tão ocupado com seus negócios na fazenda; que tal recomeçarmos? Não quero te perder." Essas foram as palavras da minha amada, e confesso que desejava que minhas suspeitas não se confirmassem de maneira tão dolorosa.




Deixando-a falando sozinha, peguei meu rumo e montei em meu cavalo, pois jamais permitiria que Toledo tivesse alguma chance com Ivana.




E assim foi feito. Era possível ouvir as gargalhadas que o delegado arrancava dela; o cabelo molhado indicava que ela havia nadado no riacho. Ele não perdia a chance de tocá-la, e o pior é que ela não o afastava.




Aproximei-me rapidamente o suficiente para ouvir a doce voz dela. O patife nem se abalou com minha presença e continuou perto dela.




— "Obviamente que não, vou adorar ter você prestigiando minhas obras em Lisboa." — dizia, passando a mão delicada pelo braço dele.




— "Fiquei realmente feliz em te rever. Com licença, vou ali tirar algumas dúvidas com o Sr. LeBlanc." — o delegado teve a audácia de beijar o canto de sua boca antes de se afastar.




— "É bem abusado, por sinal, deveria ter dado um basta nessa palhaçada!" — não consegui conter o ciúme. Ela me encarava, tentando conter uma risada de escárnio.




— "Alto lá, meu querido, diminua a crista. Não aja como se tivesse algum controle sobre mim ou sobre minha vida. Lembro bem do modo como agiu quando, em um estado de loucura, com alto teor de álcool no sangue, tentei te beijar de qualquer maneira. Sou solteira, meu bem, posso ficar com quem eu quiser." — Sem tirar nem pôr, suas palavras me atingiram como um murro afiado. Mas a última parte me fez ferver; puxei-a para mais perto, colando nossos corpos. Como era possível que aquela bebê, tão fofa, se tornasse tão petulante? me questionei, antes de fazer o que eu pretendia.




— "Tem razão, minha jujubinha. Não deveria cobrar algo como se fôssemos namorados. Não pode negar que sou o seu porto seguro, tanto ao ponto de você dormir no meu colo. Me perdoe, mas preciso fazer isso." — tomando coragem, sentindo meu coração disparar, beijei seus lábios. Ela até tentou me empurrar, mas acabou se rendendo.




Era como uma droga viciante, um suave veneno.