Trechos De Insanidade
3 Quem
Dois homens estão numa sala mal iluminada. Um deles está sentado em uma cadeira, amarrado a ela. Ele sua frio, treme de terror. O segundo homem está de pé, em frente ao homem sentado. Ele tem uma expressão calma, tranquila, como a de um garoto admirando o céu em uma noite estrelada.
- Quem... é... você? – o homem sentado pergunta com a voz cheia de terror. Ele sabe que não conseguiria gritar, pois o homem em pé não era lento em manejar seu punhal de prata.
- Quem sou eu? – o homem em pé repete a pergunta com um tom curioso, parece se deliciar com a situação. – Ora, mas essa é uma pergunta muito vaga, caro amigo. Ela pode se referir a tantas coisas, respondidas de tantas formas e interpretada de várias maneiras.
“A pergunta Quem é você? sempre pareceu errada ao meu ponto de vista. Posso ser vários; posso ser alguns; posso ser apenas um; posso ser ninguém. Claro que uma pessoa sempre é alguma coisa, mas a pergunta não é O que é você? , o que eu acho que seria o mais correto de se perguntar.”
“Ora, meu caro amigo, quem sou eu de fato? Bom, depende do ponto de vista, já que julgamos as pessoas no primeiro minuto que a vemos. Para você eu sou um assassino cruel, um psicopata, um monstro, um demônio. Talvez até o próprio Diabo, estou certo? Sim.”
“Mas vejamos, se imaginarmos que em algum lugar, em algum minuto, uma pessoa desejasse a sua morte. Ora, o que eu seria para essa pessoa? Um justiceiro? Sim, é claro. Levemos para o lado religioso. Imagine que alguém, em suas orações pediu que o Deus, o pai celestial que reina sobre todos nós, matasse o senhor. O que eu seria então? Um anjo cumprindo as ordens do chefe? Posso ser, posso ser.”
“O que estou tentando lhe dizer aqui, caro amigo, é que não importa quem eu seja, pois sou diferente para cada pessoa. Um anjo, um demônio, um justiceiro, um assassino, um psicopata, um vilão, um herói, Deus e o Diabo. Eu sou todos eles e ao mesmo tempo nenhum.”
- Um... louco... – sussurrou o homem sentado.
O homem em pé soltou uma gargalhada.
- Isso meu amigo, você já tem uma resposta. Pra você eu sou somente um louco. Um louco que vai lhe tirar a vida que você tanto lutou para ter. Uma vida cheia de mentiras, traições, assassinatos, estupros. Tantas horas usufruindo do luxo dentro do seu pequeno império construído pelo suor e sangue de tantos inocentes.
“E mesmo assim, no final, você é uma figura decadente que vai ser morta por um louco. Mas espere... esqueci-me de lhe dar a minha resposta não? Desculpe a minha falta de educação, na excitação de explicar-lhe o quão inútil foi a sua pergunta esqueci-me de dar a inútil resposta para ela.”
O homem em pé se aproxima do que está sentado. Ele puxa o punhal e o perfura o peito. O homem sentado grita de dor, porém sua voz em segundos vai desaparecendo...
Com sua voz calma, o homem em pé sussurra no ouvido do outro: “Sou seu fim.”
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