A BMW prateada foi estacionada em frente à escola e desta desceu um Oliver com expressão cansada. A festa fora incrível, mas durara até tarde da madrugada e, infelizmente, ele não pôde faltar, pois teria aula de Física, matéria que o tinha ferrado no teste anterior e, portanto, precisava recuperar a nota no próximo. Odiava exatas, ao contrário de Niall, que apesar de preferir humanas, gostava de fazer cálculos e, estranhamente, dizia que isso o acalmava...

Na escadaria, Lauren e Fleur o esperavam sentadas, conversando sobre algum assunto aleatório. Ao vê-las, foi como se seu mau-humor por ter dormido pessimamente desaparecesse e, em seu lugar, surgissem um bilhão de piadas para fazer sobre como elas passaram a noite. Duas palavras: mesma cama.

— Foi prazeroso? – ele perguntou, ao se aproximar delas.

— Que droga, Ollie, nós fugimos da sua casa mais cedo para evitarmos isso. – Lauren disse, rindo. – Mas respondendo a sua pergunta: você não tem ideia...

Ela fez uma cara engraçada e pôs a mão na coxa de Fleur, que gargalhou alto.

— Finalmente desistimos de tentar lutar contra nossos sentimentos incontroláveis, priminho. – ela deu continuidade. – Estamos namorando até, não é linda?

Oliver cruzou os braços e forçou indignação ao dizer:

— Não acreditam que estão zombando do meu amor por esse otp.

Elas riram. A conversa durou até o momento em que viram o impossível de não reconhecer carro da diretora virar à esquina, já que constava nas regras da instituição que os alunos precisaram seguir para sua respectiva escola assim que chegassem, a menos que quisessem se envolver em encrenca. Quando ele passou pela porta principal de St. Joseph levou algum tempo para que percebesse algo errado. Os trogloditas que chamava de colegas de classe, como sempre, lhe lançaram olhares estranhos, mas o diferencial da vez foi que eles o seguiram pelo corredor. Tentou ignorar e falar para si mesmo que era apenas coisa da sua cabeça, porém, suas suspeitas se confirmaram quando eles o rodearam, impedindo que continuasse seu caminho. Ignorou o calafrio que percorreu sua espinha e soltou:

— Algum problema?

— Sim, senhora... – o “líder” do grupinho, Frederick Mckenzie, mais conhecido por seu sobrenome, debochou.

— Posso saber qual? – se manteve firme.

— Você sabe muito bem qual. – outro que ele não conhecia respondeu. – Não se faça de sonso.

— Ah, certo, é inveja. – riu. – Entendo vocês, não é todo mundo que consegue ser fabuloso como eu. – com certo esforço, conseguiu passar por eles, quebrando a “muralha humana” que eles haviam tentado fazer. – E, ei, gostaria de fazer um pequeno adendo, okay? “Senhora” ou qualquer tentativa de insulto que envolva me chamar no feminino não me ofende. Inclusive, me enobrece. As mulheres são incríveis!

Sorriu com a irritação provocada e mandou para eles alguns beijos no ar, enquanto seguia seu caminho. Até que seu pulso foi puxado e um Niall extremamente agoniado disparou a perguntar:

— O que diabos você pensa que está fazendo? Ficou louco, por acaso? Não pensa nas consequências?

— Ei, calma aí, do que está falando? – o olhou, sem entender absolutamente nada.

— De você! Que tipo de reação foi essa? – interpelou. – Pelo amor de Deus, Ollie, não mexa com eles...

— Eles mexeram comigo, Ni. – fez questão de corrigir. – O que esperava que eu fizesse? Abaixasse a cabeça e deixasse que eles zombassem? Nem pensar. Eu sou gay e me orgulho da minha sexualidade. Ninguém vai tirar isso de mim. Resta aceitarem.

Niall suspirou, estando claramente frustrado.

— Não estou dizendo para que renegue seu amor próprio, ou algo do tipo, é só que... Talvez, se você não fizesse um grande show sempre, eles nem se incomodariam com a sua existência.

— “Grande show”? – Oliver repetiu em tom interrogativo.

— É. Você tem as suas peculiaridades e eu me apaixonei por você apesar e por causa delas, mas não são todos que lidam bem com esse tipo de coisa. Sua autenticidade os incomoda, porque no fundo eles sentem inveja do quão livre você pode ser e é. Se fizesse um esforço para ser mais discreto, eles não te incomodariam mais.

– Estou esperando a risada e o “é brincadeira, relaxe”. – avisou. Niall continuou o encarando, com total seriedade. – Fantástico. Você conseguiu me decepcionar um dia depois de fazermos as pazes.

Bufou irritado e apressou os braços, querendo sair de perto dele o mais rápido possível. No entanto, o garoto o seguiu.

— O quê? Como assim? O que eu fiz de errado?

Oliver deu uma risada sem humor e completamente sarcástica.

— E você nem sabe! Inacreditável.

— Ei, não faz assim... Explica, por favor. – tocou-lhe o ombro e o fitou. – Eu ainda estou aprendendo, você sabe...

Malditos olhos avelã. Sempre o convenciam!

— Você praticamente me disse para não ser eu mesmo, Ni.

— Não é verdade. Eu adoro quem você é. Nem seria louco de te pedir pra mudar a pessoa maravilhosa que é... – Niall contrapôs, sorrindo carinhosamente. – Eu apenas me preocupo com você. Eles são do clube de teatro e não atletas, mas ainda sim são uns babacas que não pensariam duas vezes antes de tentarem te machucar.

— Eu vou ficar bem. – assegurou. – E, caso algo aconteça, tenho você do meu lado, certo?

O de cabelos cacheados hesitou por um momento, mas assentiu e disse:

— C-Claro.

Ollie então o abraçou, para testar se seria afastado, mas Niall não o fez. Pelo contrário, sentiu os braços do mais baixo o envolverem e foi abraçado de volta. Ali, com o garoto pelo qual era apaixonado, ele se sentiu especial, completo... Será que havia esperança para os dois, no fim das contas? Quem sabe um dia, no futuro...

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O incômodo e a irritação de Cassie com a bizarra relação da melhor amiga com a prima de Oliver era evidenciada por sua expressão raivosa, que ela não fazia a mínima questão de esconder. Enquanto Fleur parecia se divertir com a situação, Lauren começava a se incomodar com a implicância. Para ela, as duas não se gostarem não fazia o menor sentido. Afinal, nenhuma tinha sentimentos por ela em um contexto romântico, certo? Ou estaria enganada? Seria se iludir demais considerar a possibilidade de que a ruiva, talvez, pudesse retribuir o seu amor da forma como gostaria?

— ‘Tá distraída hoje... – Fleur comentou, apoiando a cabeça no ombro dela. O professor de Literatura havia passado um trabalho em dupla e, a contragosto de Cassie, Lauren acabou a escolhendo, já que com exceção delas, a morena não tinha muitos amigos em St. Joseph. – Aconteceu alguma coisa?

Os lábios bem desenhados da loira se curvaram em um sorriso discreto. Admitia, embora seu coração pertencesse à Cassandra, tinha uma queda vertiginosa pela garota. No entanto, o que existia entre elas ia muito além do campo da atração e das brincadeiras. Eram amigas. De verdade. E por mais que Fleur pudesse ser uma pessoa mais fechada para emoções, não somente sabia que ela se importava muito, como podia ter a certeza de que, caso precisasse, ela estaria lá. Ainda que não tivesse com ela uma ligação tão profunda quanto a que compartilhava com Cassie, o nível de importância de ambas as amigas era equiparável.

— Depois eu te conto. – sussurrou, para que somente ela ouvisse. – É bobagem...

— É sobre a Ferrugem? – Fleur perguntou igualmente baixo. Lauren apenas assentiu. – Seria mais fácil se você fosse apaixonada por mim...

Riram.

— Eu meio que sou... – a “confissão” veio, mas é claro que nenhuma das duas se surpreendeu. Era o óbvio.

— Sei disso, linda. – afirmou calmamente. – Só não do mesmo jeito que é por ela...

— Sim...

— Mas eu menti. Você sabe, ‘né? – disse, divertida. – Se fosse eu, seria muito mais difícil.

— É verdade. – Lauren sorriu, mais uma vez. – Você já amou alguém? Sabe, romanticamente falando. Não no sentido familiar, ou de amizade...

— Não. – Fleur foi sincera. – Não consigo me apegar muito às pessoas que fico. Sei lá...

A loira suspirou.

— Eu meio que entendo. Sempre que conheço alguém e tento me envolver, acabo percebendo que não sinto por essa pessoa a mesma coisa que sinto por ela...

Seus olhos caíram sobre Cassie, que estava de costas para elas. Por mais que tentasse, nenhuma outra conseguia manter seus pensamentos longe de sua melhor amiga. Semanalmente se perguntava os famigerados porquês. “Por que ela?”, “Por que a pessoa mais inalcançável?”, “Por que ela está com Bryan Butler?”, “Por que não eu?”, dentre outros questionamentos. Tudo o que queria era entender. Quando costumavam ficar, mesmo com a interferência de garotos idiotas, tudo era tão perfeito... Como haviam chegado àquele ponto, de fingirem que os beijos e toques nunca tinham acontecido?

“Os dois pares de olhos estavam fixos um no outro. Os acinzentados fitavam os verdes e as bochechas de Cassie adquiriam aos poucos certo rubor, devido à intensidade com que Lauren a encarava. As duas sorriam bobamente, deitadas de lado, com os olhares se cruzando. Algo ali dava a entender que o que faziam era mais do que simples treinos para impressionar algum menino estúpido.

— Estamos ficando realmente boas nisso. – declarou Cassie, completamente ruborizada. Já havia algumas semanas que as duas ficavam e, por mais que a ex-loira, que na época experimentava as madeixas azuis, estivesse sempre falando de algum rapaz, não adiantava: Lauren estava se apaixonando, mesmo sem querer.

— É verdade. – seria mentira se dissesse algo diferente. Quanto mais beijos compartilhavam, mais perfeitos eles eram. E, também, mais forte seu coração batia. Sabia que não deveria se permitir amá-la, mas como seria capaz de evitar?

Cassie sorriu, pela vez que Lauren contou como sendo a sexta em menos de meia hora. Como não criar esperanças? Como saberia que não era correspondida? Se ela mesmo negava, por que a amiga não o faria?

— Por que você é tão linda? – a pergunta veio e a atingiu em cheio. Seu coração disparou.

— Você é muito mais... – foi a resposta de Lauren, que ainda sentia-se um tanto afetada pelas palavras da outra. Era difícil guardar tudo o que sentia para si. Felizmente, havia conhecido um garoto gay recentemente, um aluno de St. Joseph. Mal imaginava ela que Oliver se tornaria uma das pessoas mais importantes de sua vida.

A futura ruiva murmurou um “não sou não”, antes de colar seus lábios de novo, com uma delicadeza apaixonante.”

— Odeio ser a pessoa a te contar isso, mas ela também gosta de você. – disse Fleur, quando a aula acabou e Cassie ficou esperando por elas, na porta da sala.

Lauren, que recolhia seus materiais sobre a mesa, parou o que fazia e a olhou, com certa surpresa e, é claro, muita empolgação.

— Sério?!

— Sim... – a morena pareceu meio triste, o que Lauren não compreendeu muito bem. Então, prosseguiu: – A maneira como ela te olha, os ciúmes que ela sente... É bem óbvio que essa garota te ama. Acho que ela só tem medo de lidar com isso. Até porque, tem aquele paspalho do Bryan no meio disso tudo.

— O que eu devo fazer?

— Isso, linda, eu não faço ideia. – deu um leve sorriso, antes de vir até ela e beijá-la na testa. – “Sentimentos” não é minha área de maior conhecimento, lembra?

Lauren olhou para Cassie – que ainda as esperava – e sorriu. A expressão da ruiva, que antes esboçava raiva, suavizou e ela sorriu de volta, fazendo sinal com a mão para que ela viesse. Assim ela o vez, sendo seguida por Fleur, que as acompanhou.

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Oliver subiu a escadaria, chegando ao segundo andar de St. Joseph, seguindo então até a sala de artes plásticas. Ainda faltavam alguns minutos para o começo da aula, mas ele queria mesmo se adiantar, para poder adiantar a lição de Geometria, que seria corrigida no próximo horário. Ser humilhado pelo complexo de superioridade do senhor Stevens, seu professor da terceira idade que se considerava a criatura mais sábia do planeta. Um verdadeiro babaca.

Ao passar pela porta, o moreno se surpreendeu em ver o novato sentado em uma das carteiras do fundo, aparentemente desenhando em um caderno sem margens. Se sentindo estranhamente feliz em vê-lo ali, decidiu cumprimentá-lo:

— Garoto da pizza! Oi...

O entregador, no entanto, permaneceu concentrado no que fazia, deixando Ollie um tanto chateado e ofendido, até reparar que o mesmo usava fones de ouvido. Tomando cuidado para não assustá-lo, se aproximou devagar, por fim tocando-lhe o ombro.

— Ah, oi! – o loiro exclamou, tirando os fones e olhando em sua direção com um sorriso simpático. – ‘Tá aí há muito tempo?

— Não, não, cheguei agora. – sorriu também. – Posso ver o seu desenho?

Hm, poder pode, mas não garanto que está muito bom. Ainda estou aprendendo. – disse, lhe entregando o caderno.

Assim que bateu os olhos no desenho, eles se arregalaram. Oliver estava impressionado. Não sabia de onde vinha a aparente modéstia do garoto, mas era completamente injustificada. A máscara quebrada do Darth Vader exibia o rosto de Anakin Skywalker pela metade, em um traço belíssimo. Além da textura, da cor e do sombreamento que serviam como o complemento perfeito.

— Você ‘tá brincando, ‘né?! – questionou, com certa indignação. – Esse desenho está maravilhoso! Sério!

— Acha mesmo? – pareceu verdadeiramente incerto e Ollie apenas assentiu. – Nossa... Obrigado. Fico feliz que tenha gostado. Eu me esforço, mas sou meio inseguro com isso...

Continuaram a breve conversa e, no fim das contas, acabou que a aula de Artes começou sem que Oliver desse início à tarefa que queria. Nem fez muita diferença, pois ao final daquele horário, Niall o chamou, para que matassem aula batendo papo. Oferta que, obviamente, foi muito mais tentadora do que o estudar o teorema de Pitágoras.

Como uma conversa sobre séries se transformou em uma sessão de amassos, é que ele não soube explicar. Ou melhor, até sabia, mas foi de fato algo inusitado. Em um momento, debatiam, tentando entrar em um consenso sobre qual a melhor temporada de The Flash e, no outro, o dos cabelos encaracolados fazia comparações até que fofas entre eles e casais gays da ficção. Com isso, ele acabou não se contendo:

— Talvez devamos repensar aquela nossa decisão de sermos só amigos.

Ao escutá-lo, o rosto de Niall se iluminou e, no mesmo instante, um lindo sorriso apareceu.

— Achei que não namorasse pessoas no armário...

— E não namoro. – riu. – Estou disposto a me arriscar com você, mas ainda não é um relacionamento. – deu ênfase ao “ainda”. – Precisamos, primeiramente, testar e ver como o “nós” vai funcionar. Por enquanto, vamos nos considerar amigos com benefícios. Tudo bem por você?

— É um começo... – disse Niall, ainda sorrindo. – Irei te mostrar dia após dia que esse “nós” do qual tanto falamos vale a pena.

Assim, antes mesmo que se tivesse tempo de respondê-lo, sua boca foi tomada com urgência. O mais baixo o beijava com paixão, como se quisesse passar toda a felicidade que sentia em terem uma segunda chance através daquele contato. Os braços de Niall envolviam seu corpo, o trazendo o mais perto que lhe fosse possível. Era como se ele não quisesse soltá-lo nunca mais e, francamente, Oliver não tinha nenhuma objeção quanto a isso.

O que teve início como algo puramente romântico, se intensificava cada vez mais e ali, onde ninguém os veria, se sentiam protegidos. Após alguns passos para trás, o do aspirante a ator sentiu as costas tocarem a parede e as mãos do Anderson começaram a se comportar de maneira um pouco mais ousada, descendo até sua bunda, fazendo com que sorrisse malicioso em meio ao beijo.

– Safado... –murmurou, contra os lábios de Oliver, que riu.

— A culpa é inteiramente sua por ser tão gostoso. – “justificou”, voltando a beijá-lo em seguida.

Se questionados a respeito, não saberiam dizer por quanto tempo ficaram ali... Quando o ar faltou, precisaram se separar e Niall o fez, deixando Oliver com uma expressão decepcionada. O cacheado sorriu, dando-lhe um selinho demorado. No instante seguinte, o sinal ecoou pela escola, indicando o final de mais um horário. Se a próxima aula não fosse de Física, o mais alto teria continuado ali, por tempo indeterminado. Infelizmente, era.

— Você vai estar livre esse final de semana? – o Parker inquiriu, ficando repentinamente acanhado.

— Pode ter certeza! – piscou. – Te vejo mais tarde, Ni...

— Até mais tarde, Ollie... – sorriu, bobamente.

Desse modo, Oliver seguiu para a sala, assobiando alegremente. Durante a aula, mesmo com muito esforço, não conseguiu se concentrar. Sua mente insistia em levá-lo de volta aos minutos anteriores, enchendo seu peito com uma felicidade singular, que não imaginava que voltaria a sentir com Niall tão cedo...

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Oliver deveria ter pensado melhor antes de se convencer de que nada estragaria o seu dia. Deveria ter imaginado que não havia como tudo ser assim tão perfeito ou, pelo menos, tomado mais cuidado com suas expectativas. Se bem que, o que viria seguir, era algo bastante imprevisível... Afinal, como poderia sequer cogitar a possibilidade de sair de St. Joseph e encontrar seu carro completamente destruído?

Assim que viu o para-choque, o capô amassados, as janelas quebradas e a palavra “bicha” pichada em vermelho em uma das portas, também cheia de arranhões, levou algum tempo até que seu cérebro processasse a nova informação. Olhou para os pneus e os viu destruídos. Suspirou, contendo a vontade de chorar ao ver, do outro lado da rua, os mesmos imbecis de mais cedo, rindo como um bando de hienas. Frederick Mckenzie o notou e apontou em sua direção, em deboche. Revirou os olhos.

— Merda! – praguejou, enfurecido. Não queria dar aos idiotas a satisfação de o verem afetado, mas não conseguiu evitar. Os malditos fizeram questão de escolher justamente um dia em que tinham um horário a menos que as meninas, para que ele fosse obrigado a esperá-las, enquanto afundava em sua própria humilhação.

Ele sabia que, ao se sentar na escadaria, de cabeça baixa, estaria dando sinal verde para que novas provocações acontecessem. Com isso em mente e, também, se deixando levar pelo impulso, foi até onde eles se encontravam, vociferando:

— Isso não vai ficar assim. O que vocês fizeram é crime!

Frederick olhou-o de cima abaixo, com desprezo.

— Boa sorte com isso. Até onde eu sei, não tem como provar que fomos nós.

— Eu vou dar um jeito! – afirmou – Acham que podem me intimidar?

— Isso foi um ultimato, garoto. – o Mckenzie falou, olhando para os amigos. – Certo?

Os outros exclamaram “sim!” em uníssono e ele prosseguiu:

— Cara... Se é que posso te chamar assim... Não odeio gays nem tenho preconceito contra a sua... Gente. É só que não é algo natural e eu sou cristão, assim como é o nosso colégio. Quer tanto assim ser viado? Beleza, seja, mas longe da gente e sem tentar mudar as pessoas normais...

Oliver revirou os olhos.

— Ah, com certeza. Porque o meu objetivo de vida é fazer com que todos os héteros se tornem gays, para acabar com a humanidade.

— Não deboche de mim, Anderson! – Frederick bradou, pegando-o pela gola da camisa e o jogando agressivamente contra a parede. – Não haja como se o que eu estivesse dizendo fosse menos que a verdade. Você já fez isso antes. Atacou o Niall, querendo transformá-lo.

— O que acha que eu sou? Um lobisomem? – riu, olhando nos olhos cheios de ódio do garoto. – Se o Ni é gay, bi, pan ou hétero não é da conta de vocês, mas saibam: o que ele for, não fui eu quem o “transformei” ou alguma bobagem parecida. Sexualidade não é uma escolha, ou alguma doença contagiosa, seus babacas!

— Sei... – um dos “comparsas” de Frederick resmungou. – Ninguém nasce viado, não vem com essa não.

— É isso aí! – outro, igualmente incomodado, deu continuidade. – Você nasce homem, ou nasce mulher.

— Meu Deus... – Ollie disse, sentindo a força do aperto das mãos do bully aumentar.

— Não diga o nome d’Ele em vão! – Frederick se irritou ainda mais. – Já não basta desrespeitá-lo todos os dias com as suas escolhas nojentas...

— De nós dois, quem mais desrespeita os ensinamentos de Jesus é você, fofo. – não pôde deixar de mencionar. – Ele disse “amai ao próximo” e não “amai o hétero”. E quanto ao “não julgueis, para que não serdes julgados”, hm?

— Cala a boca! – o Mckenzie berrou. – Quem você pensa que é para discutir comigo sobre a minha religião?

Ollie pretendia respondê-lo, contar a ele uma novidade interessante: que ele também era cristão e que ser gay não invalidava sua fé. Contudo, percebendo o quão assassina estava a expressão do rapaz à sua frente, não conseguiu. Sentiu medo. Por mais que quisesse discutir, argumentar e esfregar na cara dele e dos outros o quão ignorantes eram, apenas se calou, apavorado, ouvindo os amigos de Frederick atrás dos dois clamando: “Acaba com ele, Fred”.

E, de acordo com o que lia em seus olhos, Mckenzie pretendia seguir a sugestão dada. Porém, não foi uma decisão nada esperta acrescentar isso a seus planos em plena luz do dia. Logo, uma nova voz se fez presente:

— O que pensam que estão fazendo? Larga ele!

Era o novato, o “garoto da pizza”. Ao ser ignorado, tentou se aproximar, sendo bloqueado pelos outros babacas. Sem dar importância a eles, os empurrou, puxando Frederick pelos ombros, para que o soltasse. Conseguiu libertá-lo, mas acabou se tornando o novíssimo alvo do grupinho. Raivosos, os quatro rumaram em direção ao loiro, que acabou sendo derrubado por um soco no estômago, dado pelo “líder” deles.

— Que tal cuidar da sua vida agora? – questionou Frederick.

Oliver viu o entregador se levantar, acertando um soco no nariz do mesmo, que grunhiu de dor, fazendo com as mãos um sinal para que os outros lidassem com a situação. Como os bons cachorrinhos que eram, o obedeceram. Entretanto, as namoradas de dois deles, que provavelmente haviam decidido matar o último horário para vê-los, chegaram, mandando-os parar. Envergonhados, eles se retiraram, sobrando apenas Mckenzie e o que argumentara que “você nasce homem, ou nasce mulher”.

— Com dois, eu consigo lidar, podem ter certeza. – o loiro asseverou, cruzando os braços. – Que tal darem o fora daqui?

— Só vou porque não quero me atrasar. Mas saibam que isso não acabou! Da próxima vez, trarei mais amigos... Uns que não sejam uns viadinhos que aceitam ser controlados pelas namoradas. – disse Frederick, passando pelo mais alto e seguindo até seu próprio conversível, infelizmente intacto.

Assim que ficaram sozinhos – e seguros – Oliver disse:

— Obrigado pela ajuda... Não são muitos os caras que se preocupariam em interferir.

— A maioria de nós homens é idiota, convenhamos. – ele reconheceu. – E não precisa me agradecer, eu só fiz o certo. Quatro contra um é totalmente injusto. Bem... O que eles queriam com você, afinal?

Ollie suspirou longamente. Temia que, se contasse a verdade, o garoto que vinha sendo tão simpático deixasse de ir com a cara dele. Mesmo assim, optou por ser sincero:

— Eu que vim confrontá-los, na verdade. Eles destruíram o meu carro, por causa da minha orientação sexual e porque acreditam que eu transformei o meu... Alguma coisa...

Ah... – o loiro se surpreendeu um pouco, mas julgando pelo sorriso que veio em seguida, a nova informação não pareceu perturbá-lo. – Imaginei mesmo que você fosse gay. É bem legal, sabe, ser corajoso o suficiente para assumir, principalmente em uma escola conservadora como a nossa.

Diante dessa reação, Ollie não teve como não sorrir de volta.

— Já conversamos duas vezes e eu ainda não sei o seu nome...

— Brooks. Austin. Austin Brooks, eu quero dizer. – coçou a nuca, adoravelmente. – E o seu?

— Oliver Anderson. Mas pode me chamar de Ollie, se quiser.

— Tudo bem, Ollie. – Austin falou, pondo as mãos na cintura. – Espero que eu tenha chegado a tempo deles não conseguirem te machucar. E... Creio eu que BMW detonada ali do outro lado seja o seu carro, que disse que eles destruíram.

— Chegou sim, não se preocupe... – sorriu de novo. – E, sim, acertou em cheio. – olhou em direção ao seu carro, tristemente. Não gostava da ideia de que os pais lhe tinham dado aquele veículo como forma de compensação pela falta de presença, mas admitia, meio que tinha se apegado a ele. – Agora tenho que esperar a aula em St. Mary terminar, para pegar carona com minha prima e minha amiga.

Austin ergueu ambas as sobrancelhas, antes de dizer:

— Não precisa disso, ainda falta quase uma hora para o sinal tocar. Eu posso te dar uma carona...

Se fosse outro “quase desconhecido”, Oliver teria recusado educadamente. Todavia, algo naquele garoto o transmitiu certa confiança... Seria graças ao fato de ele ter acabado de salvá-lo, ou quem sabe outra coisa? Não tinha certeza. Ainda assim, aceitou sem questionamentos. Ligaram para uma oficina que Austin disse ser do seu tio e, quando o caminhão-guincho levou a pobre BMW arrebentada, os dois seguiram até uma rua mais afastada e entraram em uma caminhonete vermelha, pertencente ao entregador. Como este já sabia o caminho, não demoraram a chegar à residência dos Anderson’s.

— Está entregue.

— Obrigado mais uma vez. – Oliver se sentiu na necessidade de dizer.

— Eu já disse: não precisa me agradecer. – ele repetiu, sério. – Seria muito estúpido da minha parte vê-los ali te intimidando e não fazer nada.

— Preciso, sim. Muitos não teriam a mesma coragem que você... – insistiu, já de fora do carro. – Até amanhã, Austin.

— Até...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.