Travelling in times
1 Prólogo
17 de Maio,1985.
https://www.youtube.com/watch?v=vCBpwezQM54 (ouvir enquanto lê)
Recordo-me daquela noite como se fosse ontem, o ambiente abafado pelos cigarros e o disco da Divinys tocando a música Ring Me Up. Havia adolescentes por todo o lado bebendo e se beijando, aquilo era uma loucura, principalmente para mim, era a primeira festa de Colegial que havia ido. Nunca fui uma adolescente muito social, era praticamente invisível de se ver nos corredores.
Vestia uma camiseta lilás de bolinhas de alça, uma jaqueta de couro preta, uma calça jeans e calçava sandálias plataforma. Meus cabelos negros caíam em ondas ao redor de meu rosto moreno.
O odor da fumaça cinza ao meu redor me causava náuseas, tive um ataque de tosses. A asma havia atacado novamente. Levei automaticamente a mão ao bolso da calça e tirei a bombinha, dirigindo-a aos meus lábios.
-Está tudo bem Sam?- perguntou Brenda, minha melhor amiga surgindo ao meu lado.
-Sim.- respondi ajeitando os óculos em meu nariz.
-Fiquei feliz que veio.- anunciou ela com um sorriso animador se afastando.
Brenda sempre foi a festiva e eu a que evitava ao máximo sair de casa, eu a que estudava demais e ela quem eu tinha de ajudar nas tarefas. Ela a branquela e eu a morena.
Meus olhos percorreram o escuro lugar, achei então eu canto vazio na escada. Caminhei e cheguei ao terceiro degrau forrado de carpete, então sentei. Sentia-me completamente deslocada naquela festa. Devo ter ficado uns vinte minutos sentada na escada, minha bunda já começava a tomar o formato do degrau.
Ao olhar para o lado, levei um susto. Entre as grades do corrimão, o rosto de um garoto. Cabelos loiros encharcados de gel penteados para trás, jaqueta e calça de couro.
-E aí gatinha? Vai uma cerveja aí?- disse ele.
-Não!- respondi revirando os olhos.
-Que tal um beijinho para refrescar então?-perguntou ele fazendo biquinho para mim.
-Sai fora seu idiota!-exclamei levantando e saindo da casa, mas o babaca me seguiu.
Ele veio e me agarrou. Pelo canto dos olhos pude ver os amigos dele na janela rindo, provavelmente era uma aposta. Peguei um copo vermelho de plástico cheio que jazia em cima de uma mesinha na varanda e joguei o conteúdo nos olhos dele. Enquanto ele levava as mãos ao rosto e reclamava como uma velha caminhei apressadamente pelo jardim da casa de Brenda tentando me afastar o possível do barulho da festa.
Sentei na grama úmida e olhei para o céu nublado. Conseguia ouvir o barulho dos grilos e das cigarras, das corujas e dos cachorros da vizinhança.
Aquilo era horrível, Brenda sempre insistia para que eu fosse em suas festas e ela nem havia me dado a mínima atenção quando realmente concedi aos seus pedidos.
Um barulho nas árvores um pouco distantes dali acordou-me de minhas reclamações mentais. Meus instintos me diziam para sair dali, voltar para a aglomeração de adolescentes e ficar na minha, mas não sou daquelas que ouvem seus instintos.
Algo se aproximava, rapidamente. Já não dava para seguir o conselho de minha própria consciência. A tal coisa se aproximou de mim em segundos, então senti uma dor horrível, não me lembro nem de ter visto o que era a tal coisa . Então desmaiei.
18 de Maio,1985.
Acordei na varanda de Brenda com o barulho de sirenes ao longe. Meus olhos ardiam, não conseguia ao menos olhar para a luz do sol, porém sentia-me forte. Alguém devia ter me drogado só podia ser, pensava eu. Ao olhar ao redor, fiquei confusa e horrorizada ao mesmo tempo. Ao redor de mim, havia uma poça de sangue e por todo o canto da varanda. Corpos sem vida e de olhos ainda abertos.
Aquilo só podia ser algum tipo de trote. Não era real. Alguma brincadeira idiota de adolescente. Quem dera...
Levantei-me e caminhei até a janela da casa, ali presenciei uma das piores cenas que havia visto até aquele momento, Brenda, sem vida e também sem sua cabeça. Aquilo foi como um soco em minha barriga.
Eu era o único ser vivente naquele lugar e ao invés de tristeza e melancolia, só conseguia sentir uma imensurável sede. Sede de sangue.
Samantha Vanderwood
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