31 de Outubro,2014 ( Narrativa de Nick Clark )

Era noite de Halloween, memórias de infâncias para uns e para outros, se aproveitar de garotas assustadas, admito que a segunda alternativa descreve muito bem a minha noite do dia 31.

Estávamos todos numa fábrica abandonada aproveitando uma rara festa rave que acontecia em nossa cidade. Havia tinta neon, a música fazia o chão vibrar, bebida e curtição á vontade. A rua deserta favorecia tudo, não tinha nenhum vizinho chato para chamar a polícia.

Eu estava sentado num dos bancos do bar improvisado. Observei meu reflexo no copo de vidro: dezessete anos, olhos azuis e cabelos castanho-claro.

Atrás de mim, surgiram Daniel e Sabrina, meu melhor amigo e uma garota que vivia dando em cima de todos os caras da escola.

–Eu já lhe falei Nick, você ficaria muito melhor se cortasse essa sua franja. A época Justin Bieber já passou!- reclamou Sabrina com seu sotaque sulista.

–Deixa ele em paz Sabrina!- interrompeu Daniel balançando seus longos dreadlocks enquanto falava- E aí cara?

–Beleza?-cumprimentei-o.

–Agente estava pensando em ir para uma cidade vizinha, aonde está acontecendo uma balada maneira, essa festinha aqui está muito desanimada...-comentou ele olhando ao redor com seus olhos castanhos escuros quase pretos.

–Boa ideia...vamos embora então!- disse.

Saímos pela rua afora. O vento balançava loucamente os cabelos negros de Sabrina. Sempre a achei bonita, seus olhos levemente puxados devido á sua descendência asiática, mas nunca senti nada por ela.

Do outro lado da calçada havia uma mansão abandonada. Havia uma escadaria em sua entrada, janelas no andar de cima, porém quebradas. Troncos de árvores anexas aos lados da mansão, como braços de um ser vivo. A porta, diferentemente das janelas do andar térreo, jazia fechada. Na varanda, uma velha, deprimente e solitária cadeira de balanço.

–Está com medo Sabrina?-zombou Daniel.

–Nada a ver...-retrucou ela.

–Aposto você entrar na mansão.- disse Daniel.

–Mas Daniel temos que ir logo...-replicou Sabrina.

–Sinto cheiro de medo em você... e aposto que não é seu novo perfume da Victoria’s Secret...-zombou novamente Daniel.

–Está bem! Mas o dois espertinhos vão ter que entrar comigo lá.- respondeu ela, aceitando a aposta.

–Mas o que eu fiz para você me enfiar nessa?-perguntei.

–Um por todos e todos por um cara!- disse Daniel.

O interior da mansão conseguia ser pior que o exterior, mas para não demonstrar medo, os acompanhei. Num canto havia um piano quebrado e no outro um sofá empoeirado, um lustre velho de velas balançava sinistramente no teto, uma escadaria que levava ao andar superior e finalmente uma lareira cheia de poeira como o resto do local.

–Vamos?-perguntou Daniel.

–O que?-questionou Sabrina.

–Subir ué?- respondeu ele.

–Cara, acho que não é seguro...olha o estado dessa escada .-comentei.

–Então quer dizer que vai amarelar?-perguntou ele.

–Não...é só que...- então me calei.

–Ótimo!- disse ele por final.

Por onde caminhávamos nossos passos ficavam marcados. Subimos á barulhenta escadaria caracol de madeira velha. Metade do corrimão nem mesmo existia mais. De repente vultos pretos apareceram em nossa direção.

–Ah!-gritou Sabrina.

–São só morcegos sua tonta!-explicou Daniel.

Então a nuvem de morcegos seguiu seu caminho mansão afora e nós, seguimos nosso caminho em direção ao coração do lugar.

O andar de cima era um espaço vazio praticamente, porém havia uma sala, com sua porta trancada.

–Deixa que eu resolvo isso- anunciou Daniel antes de arrombar a porta, talvez mais tarde ele tivesse se arrependido disso...

Algo completamente mórbido, mais mórbido do que qualquer coisa, uma caixão. Um caixão velho e simples estava no centro do cômodo, fechado, como a porta, segundo antes.

–Duvido você abrir o caixão Sabrina.- disse Daniel.

–Já chega Daniel. Vamos embora daqui curtir uma balada.- falou Sabrina.

–Então eu abro- anunciou ele.

–Chega! Vou embora!- respondeu ela.

Em questão de segundos ele empurrou a tampa do caixão.

Um silêncio se fez. Era possível ouvir o barulho da rave do outro lado da rua.

Havia uma garota mais ou menos da nossa idade deitada ali.

–Ai meu Deus!- exclamou Sabrina tapando os lábios para não soltar um grito, e eu tentava me acalmar para não fazer o mesmo.

–Droga! O que é isso?- falou ele-Estão vendo? Tem uma faca na barriga dela!

–Minha nossa!- respondi.

Caminhei lentamente até o caixão, mesmo com o medo corroendo minhas entranhas. Tirei a faca da barriga da garota, surpreendentemente jovem que não estava em decomposição.

Seus olhos se abriram e um suspiro esvaiu de seus finos lábios.