22 de Maio,1985.

Caminhava pelas ruas completamente solitária, a cada poste havia um cartaz com a minha foto com título: “Desaparecida”. Depois da festa desastrosa de sexta-feira, as sirenes iam se aproximando cada vez mais e temia que o que quer que tivesse ocorrido fosse minha culpa. Então, não voltei mais para casa e desde sábado venho vagado pelas ruas.

A sede praticamente me matava. A luz do sol, literalmente queimava minha pele, tinha que me esconder durante a luz do dia e caminhar durante a noite. Meu corpo se sentia cansado. Decidi entrar numa lanchonete e pedir um pouco d’água, provavelmente me dariam de graça.

Continuei andando por cinco quadras. Finalmente achei uma lanchonete aberta. O letreiro vermelho dizia “Johny’s Burguer”, uma placa de aberto jazia na porta de vidro do lugar. Empurrei a porta e entrei.

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Sentei num dos banquinhos do balcão. Olhei ao redor para verificar se havia alguma pessoa familiar. Não, não havia. O aroma de batatas fritas pairava no ar e a música Downtown de Petula Clark tocava no jukebox. Haviam sofás e mesas. Então apareceu um garçom e perguntou o que eu desejava.

–Uma água, por favor-pedi.

Pessoas devoravam seus hambúrgueres e bebiam seus refrigerantes calmamente. Minha sede aumentava a cada segundo. Pequeninas gotas de suor escorriam por minha pele morena e minhas mãos tremiam.

Finalmente o garçom voltou com um copo simples de vidro com água. Tomei-o da bandeja e bebi num só gole rápido. Não havia funcionado. Minha sede continuava lá, me matando.

–Você poderia colocar mais água para mim?-perguntei.

–Claro, senhorita- respondeu o garçom.

Do outro lado do balcão uma moça jovem de cabelos ruivos cortava uma cebola. Seus olhos verdes salpicados de sardas ao redor estavam lacrimejados. Ela então olhou para mim e sorriu. Depois voltou novamente sua atenção para a cebola e percebeu que havia se cortado. Um pequeno corte no dedo indicador. Um pouco de sangue saiu do minúsculo ferimento.

O odor de ferrugem invadiu minhas narinas. Cheiro de sangue era como um perfume que me revigorava. “Eu preciso...”, pensava desejando aquele líquido. “Mas o que está acontecendo comigo?”, perguntava-me.

Era como minhas pernas tivessem vida própria. Em segundos saltei o balcão e ataquei a pobre moça, a joguei no chão e abocanhei seu pescoço. “Ah...isso sim é água!”, peguei-me pensando. Os gritos da mulher se sobressaíram á música bonitinha que tocava, deixando o clima macabro.

O garçom voltou e quando se deparou com a cena, deixou cair a bandeja com o copo. Ele saiu correndo.

Os gritos dos clientes de desespero se juntaram ao da mulher, porém era como se meus ouvidos estivessem tampados, a sede e o prazer eram muito grandes para que eu desse atenção ao que ocorria ao meu redor.

Sangue escorria da minha boca e corria pelo meu pescoço. Aos poucos ao ruiva parou de gritar, então quando o sangue finalmente acabou, seus olhos estavam abertos virados na direção da cozinha. Ela estava morta.

Quando tirei meus lábios molhados de sangue do liso pescoço da mulher foi que percebi meus caninos. Eles haviam aumentado de tamanho. Também percebi o estrago que tinha feito. Havia matado uma jovem. As lágrimas começaram a arder em meus olhos, mas antes que pudessem ao menos saírem de minha linha d’água, sons de sirene tomaram conta da rua.

Meu coração acelerou. Corri o mais rápido possível para a cozinha á procura da porta dos fundos, caso houvesse alguma. Para minha sorte, havia uma passagem para a rua de trás do comércio, onde ficavam latões de lixo.

Escapei e corri em direção ao bosque. Minhas pernas pareciam flutuar de tanta velocidade. Fui então, afastando-me das sirenes.

Minhas sandálias tocavam a grama e de vez em quando meu braço raspava em alguma árvore. Parei somente quando cheguei ao coração da floresta. O som de corvos e corujas me rodeavam. Ao longe, uivos de lobos.

Sentei encostada em um tronco abraçada ás minhas pernas. Uma tristeza tamanha tomou conta de mim. Era como se um vazio aumentasse dentro de meu coração. “Eu matei quase trinta pessoas” era a frase que se repetia em minha mente.

As lágrimas que antes não haviam tido chance de escorrerem, escorriam naquele momento. Aos poucos, fui parando de chorar, não por deixar a calma me conduzir, mas por falta de lágrimas.

O sono me alcançou finalmente.