"... Há pessoas que só se sentem melhor sozinhas..."

O médico explicava pra mulher.

Era engraçado.

Vê-la ralhando para me curar de algo.

Que eu não tinha.

"... Ela não brinca, não come e vive assustada. Suas notas são altas, mas ela nem ao menos diz uma palavra..."

Era o que os senhores diziam;

A Assistente social, o diretor, os professores.

Eu consumia todo conteúdo posto na minha cabeça.

Precisaria de mais?

Sabe, eu não sou acostumada a responder as pessoas.

Sempre responderam por mim.

E estava bom.

Eu era a marionete perfeita deles.

Eu só precisaria mostrar que estava bem.

E por que, mesmo assim, eles continuavam brigando?

A ignorância que era exercita.

Só piorava.

E eu agüentava.

Ficaria pior de qualquer jeito.

Não mudaria em nada.

O laço que aquele lar tivera

Fora picado.

Os médicos dizem: "... Isso é trauma psicológico..."

Não ocorrera nenhum evento traumatizante.

Então, por que eu era assim?

Talvez, o trauma seja de falar.

Eu sou muda.

Mas tenho voz.

Eu sou cega.

Mas eu vejo muito bem.

Entende?

Quem eu sou?

Eu não sei.

Sou eu mesma?

Quem será o "meu mesma"? E quem ele foi?

Me dêem a mão.

Não uma crítica.

Sou sensível.

Por favor, me dêem a mão.

Por que me tranquei?

Eu não sei.

Não faço parte da "boa estrutura familiar"

Eles são meus parentes.

Eu não os conheço.

Nunca me levam para sair.

Eu posso estragar tudo.

Já está no meu sangue

Ser incoviniente, eu sou assim.

As vezes, se matar é o melhor.

Então eu penso, talvez eu tenha respondido o por que de ir aos médicos.

Sou traumatizada.

Mas eu não lembro como fiquei assim.

Como era antes.

Lágrimas são salgadas.

Mas sorrisos não tem gosto.

Eu não sei sorrir.

Não sei chorar.

Eu só sei

Que procuro a realidade num mundo de fantasia.

Mas esse mundo é tão escuro.

Será o meu trauma?

Porque eu sou a primeira e a última

Eu sou a venerada e a desprezada

Eu sou a prostituta e a santa

Eu sou a esposa e a virgem

Eu sou a mãe e a filha

Eu sou os braços de minha mãe

Eu sou a estéril, e numerosos são meus filhos

Eu sou a bem-casada e a solteira

Eu sou a que dá a luz e a que jamais procriou

Eu sou a consolação das dores do parto

Eu sou a esposa e o esposo

E foi meu homem quem me criou

Eu sou a mãe do meu pai

Sou a irmã de meu marido

E ele é o meu filho rejeitado

Respeitem-me sempre

Porque eu sou a escandalosa e a magnífica

Mas eu sou minha, só minha.

Publicado por Paulo Coelho, Hino a Ísis, século III ou IV. Descoberto em Nag Hammadi.

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