Trauma
1 Capítulo 1- Anabelle 01
É só mais um dia comum.Eu acordo querendo voltar para a cama,tomo banho querendo voltar para a cama, escovo os dentes querendo voltar para a cama.É sempre assim.
O café da manhã também é o mesmo de todos os dias.Pego uma pílula do pote onde está escrito 'café', jogo dentro de uma xícara e vejo a água ganhar cor e sabor enquanto a pílula desaparece.Então, ainda querendo voltar para a cama, pego mais uma daquelas malditas pílulas.Desta vez,do pote onde está escrito 'bolo'.Mas essa não se dissolve ou se transforma em um bolo,então eu apenas a coloco na boca e mastigo.Droga,isso é aveia.Eu odeio bolo de aveia.Tomo um gole de pílula-de-café-dissolvida.Amarga.Dane-se.Açúcar só existe na casa dos filhinhos-de-papai. Termino meu café da manhã.Então lembro do meu tesouro.Ele está tão bem escondido e guardado para uma ocasião especial .Mas eu preciso.Estou cansada de pílulas.Preciso de comida.Mas um pedaço de pão é um luxo que eu não posso me dar.A única coisa disponível para a camada trabalhadora são essas pílulas estúpidas.Decreto do Governo.É isso ou morrer de fome.Não 'morrer' no real sentido da palavra.Essa era uma expressão que meus pais usavam. Você só morre se o Governo quiser. Tudo é tão estúpido.Eu deveria ter o direito de morrer.Mas perdi meus direitos quando meus pais e todas as gerações antes da minha foram mortos.Agora eu sou filha do Governo,e filhos do Governo não têm direitos,só deveres. Vou até o meu quarto e tiro um tijolo solto.Eu o cortei no meio,para sobrar um espaço na parede.E o meu tesouro ainda está lá,enrolado em um papel alumínio.Desenrolo e sinto o cheiro.Bolo de milho.Obrigada,Eli.Eli é um dos melhores boleiros que eu já conheci.Ele me lembra meu pai.Mas depois do que aconteceu, foi mandado para uma fábrica qualquer de pílulas e proibido de cozinhar.Semana passada,cheguei em casa e vi um pacote na mesa com um papel escrito 'Eli'.Era o meu tesouro. É tão bom.Lembra a minha casa.Lembra os meus pais. Termino de comer e agradeço ao Eli de novo.Então vou para o trabalho. Odeio meu trabalho.Lembro que a maioria das pessoas também não gostava dele quando eu era mais nova, mas por motivos fúteis. Eu estudei medicina.Queria estudar as pessoas e suas doenças.Eu queria ser útil.Mas agora ninguém fica doente por causa das malditas pílulas.Então, eu trabalho para um filhinho-de-papai.Talvez para o maior deles.Mas foi o mais perto de exercer a medicina que consegui.Ele é o responsável pela fabricação de todas as pílulas e eu o ajudo com isso.Talvez isso fosse bom, se acontecesse em outro lugar.Porque aqui eu o ajudo a roubar.As pílulas tiram das pessoas a comida,algumas até a morte.Odeio todas elas. Saio de casa.As ruas do bairro onde moro são de um metal feio e sujo,mas resistente.Sinto falta da grama e até do asfalto.Não dá pra ralar o joelho no metal.Os prédios residenciais, apenas uma rua que cresce em direção ao céu e volta ao chão depois de cinquenta andares,enquanto é devorada pela ferrugem. Caminho 15 minutos olhando para o nada e pensando em menos ainda.Acho que é efeito colateral das pílulas.Chego no metrô e coloco meu polegar no sensor.Minha digital é escaneada e o computador desconta o dinheiro da passagem na minha conta.Mais alguns centavos pros bolsos dos filhinhos-de-papai.Ótimo. Não há ticket para entrar no trem.Mas existem guardas.Se alguém tenta passar sem pagar a passagem, é pego e torturado ali.Não sei como eles sabem,só sei que sabem. Entro no trem e encontro uns poucos conhecidos no vagão.Duas garotas com olhos e cabelos marrons.A maior é Shen e a menor,Inya.Uma garota loira de enormes olhos azuis.Acho que estudei com todas elas.Mas não há motivo para conversar.Sobre o que falaríamos?'Ontem não me torturaram' ou 'Eu comi bolo e eles não descobriram'. Olho mais uma vez para as três.Logo desvio o olhar.Não preciso de lembranças boas.Elas machucam mais que as ruins.Passo o resto da viagem recontando meus dedos,brincando com suas junções e falanges,sentindo minha pulsação,observando minhas veias.Eu sempre gostei de senti-las pulsando. O trem para de repente.Então vem um som.Bomba.
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