Depois de vários minutos o sono não chegava e sorrindo melancólica voltei minha lembrança aos dias passados com os três irmãos e Eva...

Uma semana tinha passado e eu ainda não conseguia ficar tranquila quando estava perto de Rael ou Dimitri, mas seus olhos já não me assustavam tanto.

Passava todo o meu tempo ao lado de Nicolae, em todos os meus pesadelos quando acordava assustada eu o via sentado na poltrona e ele me acalmava dizendo que estava ali e ninguém mais me machucaria, aos poucos eu estava me sentindo mais a vontade, mas ainda estava longe de me socializar com o resto da família.

Depois de duas semanas eu ainda não falava com os outros dois irmãos. Fazia tudo o que Nicolae pedia e então por pedido dele eu tinha decidido, ia participar de um jantar em família, apesar de quase toda a comida feita na casa ser pra mim e Eva todos se sentaram a mesa.

Rael encabeçou a imensa mesa de mármore negro, ao seu lado estava Eva e no outro lado Dimitri. Nicolae sentou ao lado de Eva e de frente pra mim assim eu ficava mais tranquila tendo no meu campo de visão as duas pessoas que não me deixavam nervosa.

Nicolae me preparava um prato farto de alimentos preparando um pra si em seguida, de viés eu vi que Rael e Dimitri também comiam. Eva olhava para mim com carinho e eu sorri pra ela quando a vi me incentivar com os olhos a comer.

A conversa era tranquila entre eles, eu ouvia atenta quando era Nicolae que falava e parava a colher de sopa no meio caminho quando era Dimitri ou Rael. Não me importunaram em nenhum momento, nenhum deles tentou puxar conversa comigo, apenas me deixavam ali comendo tranquila.

No outro dia logo de manhã todos estavam ali com a mesma formação da noite anterior, fiquei um pouco nervosa, tinha passado muitos dias comendo apenas com Eva na mesa, novamente agiram normalmente me dando bom dia mesmo sabendo que eu não responderia e não se importaram de eu não nem olhar em suas direções, apenas novamente continuaram agindo da mesma forma da noite anterior conversando animadamente enquanto beliscavam um pedaço de bolo ou tomavam um gole minúsculo de suco.

Sumiam depois disso e eu ficava apenas com Eva até quase escurecer e assim foi por vários dias.

No decorrer do fim de tarde até tarde da noite Nicolae me lia histórias na biblioteca, sempre com Dimitri ou Rael ouvindo também. Quando a leitura acabava eles comentavam sobre o tema dizendo qual personagem mais lhes agradava. Não me faziam perguntas diretamente, mas se viam que eu estava interessada, estendiam os pormenores da história. Eu queria dizer qual era o meu preferido, discordar quando não concordava que a parte comentada era a melhor, pela primeira vez eu queria dar opinião, mas não saia som e eu me mantinha calada.

Hoje conhecendo eles como conheço sei que eles sabiam que eu estava cada vez mais interessada nas conversas, cada vez mais a vontade com suas presenças, aquilo tudo foi para me dar confiança, me mostrar que não queriam me machucar, para eu me acostumar com suas vozes e seus olhos.

E então passaram a me acompanhar com Nicolae o tempo todo, mesmo em silêncio estavam conosco. Nicolae os incentivava a falar sobre qualquer assunto, mesmo coisas banais, suas vozes já me eram familiar, eu já lhes sorria sem jeito e ficava tranquila com eles por perto.

Uma semana depois de uma rotina intensa de convivência estávamos jantando quando Dimitri iniciou uma discussão com Rael sobre direitos de irmão mais novo. Ouvia atentamente e Nicolae parecia se divertir com a discussão dos dois.

Eu não teria ficado tranquila se não tivesse visto que ele estava se divertindo com a acalorada discussão.

Fiquei atenta a cada palavra, Rael estava perdendo a paciência e Dimitri insistia que como irmão mais novo tinha as feições mais belas e assim tinha que ser colocado em sua tumba Dimitri o belo, Rael o sábio e Nicolae o tranquilo. Rael não queria saber dessa conversa de títulos, Dimitri ainda insistiu quando Rael perdendo paciência lhe deu um croque na cabeça.

Não resisti, havia sido muito engraçado e cai na gargalhada assustando a todos, porque saiu som não era uma risada muda. Parei de rir na hora que percebi que todos me olhavam assustados e então todos vieram me abraçar muito contentes porque eu tinha soltado som, até mesmo Rael se mostrou carinhoso comigo, e ele era o mais enérgico e sisudo.

Tinha ficado apavorada com aquela aproximação exagerada, mas o carinho deles mesmo me assustando tinha alcançado meu coração, nunca antes alguém me abraçou daquele jeito.

O primeiro abraço familiar que recebi foi deles e eles não sabiam o quanto me fez bem aquele gesto e o quanto dormi feliz naquela noite. Eva dizia a verdade eles eram bons. No dia seguinte eu falaria pela primeira vez.

Nicolae tinha acabado de ler uma história curta onde tinha uma bruxa e duas crianças que tinham se perdido na floresta, eu queria pedir para que lesse de novo, mas ele estava fechando o livro e Rael e Dimitri se levantavam para sair, então coloquei a mão no livro fino ainda aberto.

— De novo, por favor.

Nicolae agiu normalmente voltando na primeira página. — Claro Diana, se quer ouvir de novo lá vamos nós.

Dimitri e Rael tinham se virado atentos a voz diferente e não se mexeram, quando viram que Nicolae agiu com tanta naturalidade.

Voltaram a se sentar para ouvir tudo de novo, e aí então começaram a debater o tema e Nicolae então pela primeira vez meu deu voz ativa no debate me perguntando o que tinha mais gostado. Feliz eu consegui dizer o meu personagem favorito, consegui dar minha opinião e achei o máximo eles escutarem e me incentivarem a continuar dizendo o que achava.

Foi a primeira vez que me senti uma pessoa de verdade, a primeira vez que senti que tinha algum valor e com o peito inflando de orgulho assenti quando disseram que Eva me esperava para o banho e que no outro dia iam querer saber novamente minha opinião porque eu era muito inteligente.

Naquela noite Eva puxou assunto enquanto me ajudava no banho. —Está gostando daqui Diana?

— Sim — Sorri, estava feliz realmente.

— De quem deles você gosta mais?

— Nicolae, não... Todos eles.

Ela sorriu e sorri de volta. Era difícil escolher qual gostar mais, mas era difícil não pensar primeiro em Nicolae.

— Acredita agora que nenhum deles lhe fará algum mal?

— Sim confio.

— Então vamos botar a roupa e dormir que amanhã teremos um longo dia.

No dia seguinte respondi ao bom dia e me sentei à mesa, sempre um deles me fazia alguma pergunta, eu respondia meio envergonhada, mas não com medo e então depois de dois dias Rael sentou ao meu lado no sofá da biblioteca, meu lugar favorito da casa, não me encolhi, não senti medo algum, apenas um pouco de vergonha. Sempre sentia um pouquinho de receio, era ainda muito cedo para me sentir totalmente à vontade.

— Diana, precisamos conversar sobre um assunto delicado esta bem?

— Sim, precisa saber o que aconteceu naquele dia no celeiro.

— Consegue falar sobre isso sem que lhe afete muito? Precisamos saber o que aconteceu para encontrar os culpados e os fazer pagar por isso.

Não diria a ele que me afetava, só de saber que alguém faria Samuel e André pagar por todos aqueles assassinatos eu aguentaria qualquer lembrança, falaria qualquer detalhe que me lembrasse e assim eu fiz. Não resistindo ao final da narração e chorei.

Rael me abraçou com carinho e ali eu fiquei chorando por um longo tempo.

Era como se eu precisasse chorar com som, puxando o ar ruidosamente, com soluços e até mesmo gritos que nunca pude dar desde o celeiro. Expurguei boa parte de meus pesadelos naquele choro, curei boa parte da minha desconfiança com todos naquelas lágrimas e então quando me acalmei ele falou com energia porque sofreu comigo enquanto eu chorava.

— Nada mais de ruim vai acontecer com você aqui nessa casa, nunca passará por perigos novamente e lhe prometo que se depender de nós, nunca mais chorará com tanta dor como hoje.

Terá sempre três homens para te proteger e uma mulher para cuidar de você, essa é uma promessa, confia em nós?

— Confio senhor Rael.

— Não me chamará de senhor, apenas de Rael, agora você faz parte dessa família e então Diana, confia em nós?

— Sim Rael, eu confio, não confio em mais ninguém além de vocês e nunca mais confiarei.

Sorri já sonolenta ao lembrar dessas palavras porque desde então eles foram as únicas pessoas que confiei, nem mesmo nos servos mais fiéis além de Eva eu conseguia ter plena confiança, os coitados não mereciam isso, mas era mais forte que eu, um laço familiar que só foi crescendo durante esses pouco mais de dois anos , adormeci enquanto estava perdida em meus pensamentos.