Tratado dos Párias
15 Encontro com o malfeitor Parte 2
Entramos no carro e não trocamos palavra, ela não sabia que André era o meu malfeitor e eu não queria ela nervosa ao saber.
No meu silêncio enquanto seguíamos eu tentava analisar aquela situação. Então se André obedecia ordens do príncipe, tinha sido ele que era o autor daquela atrocidade? Ele que tinha mandado chacinar todas aquelas meninas?
Mas porque então que entre ele e Samuel parecia haver uma intriga? Ou era encenação? Tudo aquilo não passava de disputas por poder?
Assim que chegamos perto da rua do comércio ouvi a batida avisando que podia parar e assim que o carro parou descemos e os dois já estavam à porta esperando.
André sem olhar para mim falou enquanto seguíamos. — Senhora Diana se quiser comprar alguns vestidos extras posso lhe indicar um bom lugar ou mesmo tecidos se desejar. Há muitas costureiras dentro do castelo que ficariam felizes em criar belas peças para a senhora.
Sim eu tinha que me concentrar, sabia como funcionava na teoria o interior do castelo, mas ainda assim precisava ter minhas coisas à mão e nada como uma boa fazenda para confecção e algumas ervas que teoricamente seria para meus banhos particulares. Só rezava para que André não entendesse nada de botânica. Tudo seria preparado por Eva antes que eu fosse ao castelo, mas ainda assim poderia ser arriscado agora que tinham dois homens estranhos nos acompanhando e o pior, um deles era uma incógnita para mim.
Tinha a ordem de matar todas, mas me salvou a vida, tinha ordens de alguém que chamava meu senhor, então era o príncipe, tinha que ser, tudo se encaixava até mesmo a cena do baile batia com tudo, enquanto o rei intervia ele estava falando ao ouvido do príncipe e agora estava ali a mando dele me ajudando nas compras porque o príncipe tinha exigido minha presença no castelo não me permitindo noivar com Samuel. O que isso significava?
— Senhora?
André me tirou de meus pensamentos, não tinha percebido que não tinha respondido ele da primeira vez. —Sim me desculpe, estava perdida em planos para um vestido então como sugeriu vamos ver esses tecidos.
Ele assentiu humilde e seguiu para a rua do comércio, segurei a mão de Eva e o acompanhamos.
A rua para o mercado colorido era uma aberração de coisas, comercio aberto em tendas na frente das lojas atrapalhando a visão, pessoas vendendo seus itens esparramando pelo chão sem se preocupar de estarem atrapalhando a passagem. Vendedores ambulantes que faziam questão de anunciar seus itens em plenos pulmões, barracas com um único item vendia como se fosse a coisa mais importante para aquele povo.
— O que é isso naquela barraca?
— São preparos senhora.
— Preparos? Para o que seria esses pacotinhos?
Ele olhou enojado para a barraca. — Para deixar fértil.
Era óbvio que era isso, o comércio de crianças era o mais rentável e mesmo que na terceira casta até a quinta não admitissem, todos eles usavam isso nas escravas, para que engravidassem logo e as crianças viessem depressa para vender mais barato as castas inferiores. E esses depois de cuidar das crianças dividiam o lucro extra com os donos delas depois da entrega.
E ainda tinha aqueles que pagavam mensalmente uma miséria para algumas famílias que não conseguiam ter filhos, fornecendo o básico durante todo o tempo necessário até que as crianças completassem então quinze anos.
E então o vinculo empregatício com essas famílias acabavam, Pois o subsidio de todo o ano seria entregue a eles de uma única vez.
E o valor era muito maior, um direito ganhos apenas das duas castas superiores e ainda tinha aqueles que cuidavam dos filhos dos escravos, leiloando as meninas nas casas de diversão.
Respirei fundo, isso tinha que acabar, eu não conseguia mais segurar minha raiva, como se não bastasse ao lado da barraca um anúncio em uma placa enorme que propagava descaradamente que haveria um lote de garotas na casa de diversão, com um pequeno aviso abaixo que os lances iniciais seriam de 10 moedas de ouro começando o leilão com a mais velha até a mais nova que era a atração principal do leilão, ainda um recado sugestivo abaixo: "Não perca!"
Uma raiva daquele reino, dos humanos, do príncipe e do rei me tomou.
— Vamos sair daqui mãe, isso me dá nojo.
— Cuidado com o que diz filha.
— Não me importo, não quero mais ver isso simples assim. E assim seguimos em silêncio pela rua, chegando finalmente ao imenso portão em forma de arco, fiquei impressionada com o local, era uma rua coberta, parecendo uma casa com muitos cômodos pequenos aonde cada um deles oferecia os mais variados serviços.
— Senhora aqui é imenso, pode se perder.
Sim eu tinha percebido isso, mas não disse nada apenas acenei e continuei olhando abismada para aquele monte de coisas em oferta. Lenços, fitas e fazendas de tecidos eram postos do lado de fora deixando um colorido bonito ao lugar, produtos dos mais variados trabalhos, tecidos grossos para fazer roupas aos criados e finos para as famílias abastadas ou mesmo tecidos mais rústicos para roupas de frio.
Barracas com ervas e especiarias para tintura e remédios, havia ainda mercados ao longe cheios de pedrarias, couros esticados em tiras coloridas como mostruário em outras, pequenas lojas com variados itens de tortura, chicotes, argolas e outras infinidades de coisas que eu sequer tive ideia para que servia.
Passamos por outra barraca com produtos afrodisíacos, com o anúncio: "Faça valer seu dinheiro gasto e use seu produto a noite inteira".
Balancei a cabeça e andei mais depressa, para não cuspir no letreiro.
O cheiro do lugar deixaria qualquer pessoa com o nariz sensível zonzo, mas para mim que tinha os sentidos um pouco mais apurados aquilo estava se tornando tortura, depois de uma hora precisava desesperadamente de ar puro.
Ar das terras dos sombrios, gelado de noite e fresco de dia, sem tanta mistura, ar de casa, de lar. Talvez o único lugar que uma mulher pudesse chamar de lar, sem precisar mendigar dignidade.
— Está bem filha?
Balancei a cabeça apertando a fronte. —Não me sinto muito bem, muita coisa, esses cheiros misturados, suor, comida perfume, ervas, está me deixando doente preciso sair daqui.
— A acompanharei até em casa senhora Diana. — Disse André. —Tenho certeza que sua mãe não se importará de terminar as compras, deixarei Uzias cuidando dela. — Ele se virou para Eva. — Senhora pode confiar nele, ele cuidará muito bem da senhora.
Eu estava em um dilema, não poderia dizer não, isso mostraria que eu desconfiava de André que tinha sido tão recomendado do príncipe, o que levantaria suspeitas sobre mim sobre não ser tão ingênua e mimada quanto aparentei esse tempo todo. E mais uma vez, estava ali uma mulher sábia me dizendo o que fazer nas entrelinhas.
— Vá descansar filha, ficarei bem e prometo escolher os mais belos ornamentos para combinar com as peças que compramos.
Dei um beijo em Eva e me deixei ser guiada por André para a saída daquele inferno de aromas e machismo. Não consegui respirar direito até sair das ruas que ainda tinham comércio.
— Quer pegar um carro senhora?
— Sim, por favor.
Poderia e gostaria de ir andando, mas queria chegar logo para avisar Dimitri que Eva estava sozinha no mercado. André fez sinal para um cocheiro que tinha uma carruagem fechada, dei graças quando ele me ajudou a entrar, mas fiquei alarmada quando ele entrou fechando a porta depois de ditar o endereço ao cocheiro, logo que a carruagem iniciou movimento ele me olhou nos olhos.
— Você está em perigo menina, que bom que viveu e voltou para descobrir o que aconteceu com você, mas não escolheu o melhor tempo para vir.
Meus olhos se abriram como pratos, ele sabia o tempo todo que era eu, então se ele sabia o príncipe também sabia, e tudo o que tinha dado errado era obra dos dois e pior, Eva corria perigo e eu não sabia o que dizer, muito menos o que fazer. Me apavorei ao me dar conta que Eva estava nas mãos de seu comparsa.
Com o coração aos pulos tentei abrir a porta da carruagem em movimento, mas ele me segurou antes que alcançasse a portinhola.
— Me escute, não sou seu inimigo. Não estou aqui para lhe fazer nenhum mal, sua mãe, ou seja lá quem ela for está segura. Mas precisa me ouvir.
Parei de tentar me soltar, e ele me soltou devagar, me sentei confusa com tudo aquilo.— Como sabe que sou eu? Como descobriu?
— Nunca iria esquecer a única menina que se salvou naquele maldito dia.
— Mas eu não sou igual antes eu mudei.
— Eu sei o que fizeram com você, conheço esse processo, era o que seria usado com as garotas quando elas chegassem lá para transformá-las em mulheres, eu sei menina, eu trabalho para o rei. — Ele me olhou sem nenhuma arrogância, não disse aquilo para se exibir apenas para constatar um fato.
— Porque não me denunciou ao príncipe? Ou me denunciou e todo aquele negócio de baile real é uma armadilha para me pegar?
— Não contei ao príncipe sobre você, seu segredo está guardado comigo desde aquele dia. Ninguém sabe que alguém sobreviveu.
Ainda assim aquilo não me cheirava bem, porque então ele estava ali e porque cochichava ao ouvido do príncipe e ele não tirava os olhos de mim no baile? Por mais que eu pensasse não conseguia encontrar uma resposta.
Ele continuou me olhando nos olhos. —Mas Samuel desconfia, na contagem dos corpos uma faltava.
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