Um grito abafado encheu meus ouvidos e resolvi verificar de onde vinha, embora não conseguisse sentir cheiro de vampiros por perto. Esgueirei-me pelas paredes escuras com algum tipo de musgo e na casa de onde se originava os gritos eu escalei até chegar perto de uma janela empoeirada e ouvi atentamente o que se desenrolava naquele cômodo.

— Já estou farta disso! Vou contar para todos! — ameaçava uma voz feminina.

— Faça. Você me excita quando fica assim, fale mais. — pediu uma voz masculina.

Ouvi barulhos de sucção e baques surdos de pele com pele. A menina gritou novamente, mas o som foi abafado. Mas sucção com choro seguido. Fiquei nervosa com aquilo, já tinha ouvido aquilo antes e já fui a menina que tinha o grito abafado.

Não sei por que senti aquele aperto, como se tudo dentro de mim estivesse retorcido, como se eu estivesse virando do lado avesso.

— Só falta você gemer para mim. — sussurrou o homem e eu explodi de raiva.

Adrenalina percorria todo o meu corpo, lembranças sujas e podres rodavam em minha mente, eu podia ouvir gritos ao fundo e foi só então que me dei conta do que estava fazendo. O pescoço do homem se encontrava em minhas mãos e eu o esmagava fraco o suficiente para que ele respirasse. A garota completamente nua e com chupões no corpo delicado estava num canto do pequeno quarto sujo e me observava com medo nos olhos, e eu apenas sorria pra ela.

Voltei minha atenção ao homem que se debatia com horror nos olhos tentando fugir das minhas garras.

— Você deveria morrer de forma lenta e dolorosa. — minha voz pareceu gutural — Mas vou respeitar o grande sofrimento dessa pobre garota.

Apertei mais a minha mão envolta de seu pescoço quando ouvi um gemido de nojo. Olhei para a garota e descobri que ela havia feito o barulho, ela me olhava admirada agora.

— Mate-o sem pressa, não me importo. — ela não desviava os olhos do rosto agora roxo do homem. — Por favor.

Sorri pela atitude da garota, mas não fiz o que ela pediu apenas por teimosia, não vou fazer algo só por que ela quis. Soltei o pescoço do homem que tentou fugir, mas antes que desse um passo eu o agarrei com minhas presas e pisei em seu joelho o quebrando, ele emitiu um som de dor e a garota sorriu.

Quando acabei soltei o corpo mole no chão e chutei para um canto, a garota havia se sentado na cama e esteve me observando por todo esse tempo, seus olhos brilhavam quando encontravam os meus. Seus cabelos eram de um bronze fraco, sua pele morena clara coberta por roxos e alguns machucados, seus olhos eram tão pretos quanto os meus. Ela percebeu que eu a observava e se ajeitou na cama dando uns tapinhas do lado. Aquilo me assustou, como uma garota daquelas poderia não ficar assustada? Balancei a cabeça negativamente e limpei minha boca coberta de sangue.

Sentei no chão e a observei por algum momento lembrando de meu passado e tentando entendê-la, até que suspirou e abaixou a cabeça.

— Meu nome é Julie. — ela disse com a voz fraca, se eu fosse humana não entenderia.

Engoli em seco, não entendia porque estava nervosa.

— Chamo-me Trissa. — respondi alto o suficiente para que ela entendesse.

Seus olhos se levantaram e procuraram os meus novamente admirados. Suspirei e ela levantou e correu até meu lado, mas antes que chegasse eu já tinha me afastado e estava sentada na janela.

— Tenho 17 anos. — informou sorridente. — Obrigada.

— Não vejo porque deve agradecer, não é culpa minha que tenha 17. — olhei para fora da janela, uma brisa quente espalhou meus cabelos. — Mas tudo bem. Só cuidado com quem você anda.

— Era meu pai. — sua voz tremia de ódio. — Ele tem feito isso desde que voltou para cá, minha mãe sai e ele me procura. Tenho nojo deste homem. — ela cuspiu no corpo sem vida.

Espantei-me pelo atrevimento de Jolie, mas logo caí na gargalhada.

— O que é tão engraçado? — ela fez bico.

Parei de rir e olhei fixamente para ela.

— Você não tem medo não garota?

— Do que eu teria medo? De morrer? Se você me matasse seria grata por ter me tirado desse inferno — ela disse convicta.

Surpreendi-me com aquela menina novamente, ela pensava como eu, parecia comigo e era tão ignorante quanto. Sorri novamente e me aproximei dela.

— Muito interessante. — eu ri e me sentei na cama e repeti seus movimentos.

Ela pulou na cama e encostou a cabeça no meu colo. Ficamos nos observando por algum tempo, até que ela levantou a mão e tocou meu rosto.

— Seus cabelos são ruivos, e seus olhos muito pretos. — ela observou.

Seu carinho era reconfortante, não sabia como agir diante daquilo, apenas inclinei meu rosto em sua mão e ronronei como um gato. Senti seus lábios macios em minha bochecha quando ouvi passos.

— Minha mãe. — ela me soltou e arregalou os olhos. — O que farei com a carcaça desse velho?!

— Eu dou um jeito. — agarrei o homem morto e joguei por cima de meus ombros. — Vou embora daqui. Boa sorte, Julie.

— Promete que volta? — ela segurou meu braço antes que eu pulasse a janela. Seus olhos pediam ardentemente junto com sua boca. Fiz que sim com a cabeça e ela se inclinou para me dar um beijo rápido na bochecha.

Pulei a janela atordoada e corri para dentro da floresta ainda com os olhos dela na minha mente.