Tratado De Sangue
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Depois da minha pequena parada para o lanche eu fiquei mais forte, eu estava tão obsecada por acha-lo que deixava para me alimentar depois. Mas era idiotice minha, pois quando eu o achasse, eu deveria estar mais forte do que nunca. Minha vantagem é que eu podia suportar, mesmo que pouco, o sol. Eu não fazia ideia do porque esse idiota fugiu, mas minha certeza de que ele precisava ser morto crescia com sua atitude. Ele seria perigoso se sumisse, essa era a regra de um vampiro, você deve matar seu criador para que possa ficar mais forte. Mas eu não sabia disso até matar o meu. Kevin era um dos meus nove criadores. Lembrar-me deles me dava nojo e raiva, se aproveitar de uma menina ao invés de matá-la e poupá-la da dor.
Kevin era o que minha parte humana, se é que eu tenho uma, mais sente nojo. Minha vida humana era uma desgraça, minha mãe forçou-me a trabalhar como prostituta desde pequena para que ela pudesse gastar em um bar qualquer. Num dia desses, ainda forçada ao trabalho sujo por minha mãe imunda eu estava indo de encontro ao meu próximo “cliente” quando Kevin apareceu. O rapaz mais branco que já havia visto em toda minha vida, e muito atraente com seus olhos escuros e cabelo loiro, ele fez um gesto para que eu me aproximasse e eu fui curiosa e quase em transe por ver um homem tão lindo e me chamando. Fiquei contente, depois de tantos anos como puta eu pelo menos teria um cliente daqueles, quase como uma prostituta de luxo.
Ele nada falou, apenas fez um gesto para que eu o seguisse até um beco muito escuro, eu fui como uma boa prostituta, não sabia o que me esperava lá. O breu me preencheu e senti as mãos geladas do Kevin passando pelo meu corpo, fechei os olhos e deixei-o, quando ele rasgou com suas unhas a minha coxa eu quis gritar de dor, mas mais duas mãos se apossaram de meu corpo e uma tapou minha boca. Desesperei-me e a única coisa que podia fazer era sentir eles me tocando e me rasgando para lamber o sangue que escorria, como uma brincadeira. E mais mãos foram aparecendo, e me arranhando, recebi uma mordida forte no pescoço no mesmo instante que alguém se apossava do meu corpo da mesma forma que os bêbados se apossavam de mim desde pequena. Fiquei ali apenas sentindo a dor alucinante das várias mordidas e sentindo tudo o que faziam, ouvindo suas risadas arrepiantes, esperei apenas pela morte, mas eles me deixaram viver, ou esqueceram-se de me matar quando acabaram o trabalho. Fiquei dias incontáveis sofrendo uma dor agonizante até que desmaiei, quando acordei eu me sentia mais forte e minha primeira vítima foi minha mãe.
Balancei a cabeça para voltar para o presente. Pensar sobre aquilo fazia meu sangue ferver. Voltei a me concentrar na busca, isso manteria minha mente ocupada até que eu o achasse.
Seu rastro seguia até uma montanha. O sol já começava a aparecer e ele teria de se esconder por ali mesmo, essa seria minha chance, eu consigo suportar o sol mais do que ele.
Corri o mais rápido que pude até chegar a floresta que seria minha ponte até as montanhas que espalhavam seu cheio pelo ar. Meu corpo pareceu ficar mais forte apenas em saber que mataria uma cria minha pela primeira vez.
Minha velocidade praticamente dobrou, nunca corri tão rápido em toda minha vida. O vento batendo em meu corpo doía, como se todas as minhas células estivessem sendo levadas. Reflexo também estava muito superior, eu desviava das árvores como se previsse o futuro. Atravessei dez quilômetros da floresta em poucos segundos.
No meio do caminho, aconteceu o que eu temia, um animal surgiu do nada na minha frente forçando-me a pular por cima dele. No ar, estava vulnerável, não podia esquivar-me de nada e acabei batendo em uma árvore. Irritada, voltei até onde o maldito animal estava. Com um soco quebrei a costela urso que rugiu alto o suficiente para afastar os pássaros. Logo depois chutei o pobre animal que rolou alguns metros, mas não estava morto. Por mais que fosse uma vingança desnecessária, eu apreciava cada momento. Juntei minhas mãos e esmaguei seu crâneo. Só depois que o urso já estava morto que percebi que meu pescoço estava fora do lugar. Com um movimento rápido, eu coloquei o osso em sua devida posição para que não se regenerasse de forma errada. Assim que me virei, acabei me deparando com um homem gordo com a cara de que precisava de um barbeador. Com sua espingarda, acertou-me um tiro e depois disparou vários. Vários buracos abriram em meu tronco, acabei ficando fraca por alguns segundos então me joguei no chão fingindo de morta para fazer algum drama e aproveitando para minha regeneração ficar mais rápida. O caçador não acreditou que matou uma mulher, mas estava tão desesperado em ver que ela podia matar um urso com as próprias mãos que não receou em atirar. Ele se aproximou, percebeu que ainda estava viva, pois minha regeneração era rápida.
Não conseguia ficar parada, apesar da dor insuportável que era as células se multiplicando com aquela velocidade, eu estava sentindo-me muito bem, isso não levou mais do que meio segundo. O prazer tomou conta do meu corpo e não consegui segurar uma risada tão assustadora que até eu fiquei surpreendida. Pulei em cima daquele homem gordo que acabou errando o tiro. Arranquei a sua carne do pescoço com os dentes. O sangue doce mostrava que o homem era diabético, então não viveria muito tempo de qualquer forma. Arranquei seu braço, ele gritou então enfiei minha mão em seu peito atravessando um de seus pulmões. Sem conseguir mais realizar sons, mordi novamente seu pescoço aberto. Enquanto cortava o único pulso que ainda lhe restara, derrubei-o no chão e arranquei sua perna direita. Eu bebi mais de seu sangue doce antes de tirá-lo no chão. Acima de minha cabeça, conseguia segurar aquele homem com o triplo do meu peso e sem dó, abri meus braços com toda a minha força. E facilmente o dividi ao meio. O sague espalhou-se pela floresta, aquela cena era maravilhosa, órgãos voando e tudo em volta ficando vermelho. Joguei as partes para o lado. Satisfeita, voltei meu foco para o principal. Voltei a correr em direção às montanhas. Aquela vontade de matar voltou, cada célula do meu corpo implorava por chacina.
As mortes na floresta era apenas o começo de um dia inesquecível. Apressei-me e com grandes saltos escalei a montanha rapidamente. O cheiro originava-se de dentro de uma caverna escura e úmida. Eu tremi enquanto via um homem se aproximando. Mas não era uma tremedeira de medo ou remorso, estava ansiosa, excitada, queria ver seu corpo sem vida no chão. Meus caninos não aguentavam mais ficar guardados, tive que mostrá-los.
– Nos reencontramos? Acho que meu trabalho não acabou ainda — eu disse dando uma gargalhada, enquanto Charles levantava de sua posição agachada mexendo em algo a sua frente e me encarava atordoado.
Fale com o autor