Tratado De Sangue
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Larguei o corpo do homem gordo e careca num rio próximo para que fosse encontrado logo, mas antes mutilei seu rosto como se fosse o trabalho de algum urso, pelo menos seria difícil descobrir sua identidade assim. Segui a margem do rio pelo lado contrário da correnteza tentando assimilar o que havia acabado de fazer, minha vontade era de voltar até aquele quarto com mofo e trazer aquela garota até aqui e tentar entender toda aquela merda.
Joguei-me na margem do rio e olhei para lua no céu, havia algo errado. Virei-me rosto e chorei, senti-me vulnerável e fraca, eu quase não chorava. Passei a mão esfregando meus olhos e surpreendi-me com as lágrimas, aquilo fez com eu chorasse mais, um choro com muitos soluços.
Fiquei ali por horas até que consegui me controlar. Sentei-me e lavei meu rosto no rio. O sol já expulsava a noite quando me levantei e com um suspiro comecei minha corrida até Charles.
Não conseguia sentir nenhum prazer em minha corrida, nem mesmo nos ventos em meus cabelos. Eu estava preocupada, não sabia exatamente com o que, mas eu estava.
Joguei-me floresta adentro e embrenhei-me no verde, apertei meu passo e em poucos minutos eu estava na cabana agora sem a aparência da chacina ou o cheiro de sangue. O corpo do híbrido já não estava mais ali. Dentro da imunda cabana não havia vestígio de sangue, apenas um leve cheiro metálico no ar. Charlie estava na parte de trás da cabana observando fundo as árvores, quase como se pudesse ver o que havia dentro de cada uma. Aproximei-me dele e sentei-me ao seu lado.
— Algo errado? — minha voz soou atormentada.
Ele me observou por alguns segundos e suspirou, pegou minha mão e a envolveu fortemente. Puxou-me e alinhei minha cabeça em seu ombro, mas sem sentir nenhum conforto ou segurança.
— Ouvi alguns barulhos estranhos, mas achei melhor esperar você. — ele acariciou o topo da minha cabeça.
Afastei-me e levantei, bati minhas calças rasgadas e olhei para dentro das árvores como ele havia feito há pouco. Tentei ouvir algum barulho estranho, mas não me vinha nada.
— O barulho seguiu como se andasse numa linha reta. Acho que ia para algum lugar escondido por ali. — ele se levantou e agarrou minha mão novamente.
— Vista algo. — eu disse sem desviar o olhar.
Não fazia ideia do porque esse idiota não o havia feito ainda, e ele seria mais útil se seguisse o maldito barulho. Minha cabeça ainda girava pelos acontecimentos recentes, pensei sobre aquela menina e ri.
— Porque esta rindo? — Charles já estava vestido e acariciava minha bochecha.
Fui tomada dos meus pensamentos e fechei a cara.
—Vamos logo, talvez eu encontre aquele maldito. — arrastei-me para longe dele.
Charles nada disse, apenas assentiu e correu, eu o segui e ficamos assim por um bom tempo até que ele diminuiu as passadas e eu pude ouvir o som de passos. Fiquei alerta e pisei silenciosamente, parei de respirar e Charles fez o mesmo. Eu não sentia cheiro de humana, sangue ou qualquer outra coisa que eu pudesse conhecer, então não havia dúvidas de que era um híbrido. Olhei para Charles e ele sabia, deveria ter visto a fumaça que ficou quando o fogo terminou seu trabalho com o cadáver.
Escalei uma árvore de grande porte e segui o barulho por cima. Charles ficou no mesmo lugar. Meu corpo já vibrava pela sede de sangue de um híbrido, eu nunca havia sugado um, hoje seria um glorioso dia.
Pulei pelos galhos até que alcancei uma árvore grande, escalei até o topo e pude ver. O idiota corria numa clareira, nem Charles fugia correndo em local aberto! Mas meu instinto dizia outra coisa, talvez aquilo fosse fácil demais, talvez fosse uma armadinha. Pulei mais alguns galhos e pude vê-lo, se eu pulasse dali teria um bom ângulo para enfiar minhas presas nele, e foi o que fiz. Pulei, corri para preencher a distância entre nós e o alcancei. Cravei meus dentes em sua pele que mostrou resistência, caímos no chão e tentei uma segunda vez e finalmente pude sentir seu sangue em minha boca. Seu sangue era espesso, grosso demais e com um gosto nada agradável. O soltei e cuspi o sangue na cara dele que se retorcia e gemia de dor no chão.
Olhei em volta da clareira e não havia nenhuma emboscada, mesmo que houvesse eu acreditava que Charles daria conta. Esse imbecil de olhos claros e sangue ruim era bem idiota mesmo, sorri e agachei-me perto dele.
— Olá, vou fazer umas perguntinhas e é bom que me responda ok? — eu disse e ele tremeu. — O que faz aqui? Quantos mais rondam? Porque seu amiguinho me atacou?
Ele tremeu mais uma vez. Ele tremeu tanto que saía sangue de sua boca. Seus olhos se reviraram quando ouvi passos atrás de mim, era Charles, seus rosto estava com uma expressão assustada. Quando me alcançou os olhos do híbrido se arregalaram num reconhecimento, estranhei aquilo e o sacudi exigindo minhas respostas. Charles tocou meu ombro e rasguei sua pele, eu precisava de repostas e ele não me impediria.
— Onde está Max? Eu sei que vocês sempre sabem onde nós estamos. DIGA-ME! — o balancei com mais força e seu dedo apontou para o sul antes que se desfizesse em minhas mãos.
O larguei com nojo e chutei para o lado.
— Começaremos por ali. — levantei apontado para o sul.
— Como assim? E se for uma armadilha? Você tem que pensar antes de fazer algo...
— Eu vou até lá, e você também. Jamais se esqueça do tratado. — lambi meus lábios que já estavam secos. — Você me segue. Sem palpites ou gracinhas. Entendeu? — apontei para o peito dele com força e raiva vibrava através de mim.
Nos olhamos por eternos segundos quando o olhar dele se suavizou e suspirou olhando para a floresta.
— Sim. Claro. — sua voz estava dura.
— Só vamos procurar um lugar por hoje, estou cansada. — olhei para o sol a pino e decidi — Vamos procurar um local para ficar antes que os efeitos do sol recaiam sobre você. Quando anoitecer, saímos.
— Mas as árvores bloqueiam a luz do sol e...
— Está opinando? — o interrompi com raiva.
Ele apenas balançou a cabeça e correu para as árvores de novo. Sentei-me e observei o mundo ao meu redor. Um local tão bonito, tão cheio de luz e vida, mas a noite carregava toda podridão do escuro, onde eu e minha espécie sentíamos-nos confortavelmente seguros. Mas não mais, não quando todos queriam destruir-te.
Charles chamou-me pouco tempo depois para me mostrar um buraco entre umas pedras perto das árvores frondosas, bem entranhadas na mata. Sentei-me junto a ele aproveitando a escuridão precária que tínhamos a essa hora. O silêncio nos rodeavam e quando eu achei que Charles tinha dormido deixe minha mente vagar.
Julie tomou meus pensamentos com um grande peso. Eu estava preocupada, será que ela estava bem? Fora julgada pela morte daquela escória?
Não. O corpo ainda não fora achado. Julie era suficientemente esperta para desviar provas, se tivesse. Xinguei-me mentalmente, eu deveria ter encoberto melhor o corpo, queimá-lo talvez, mas eu estava muito perturbada para pensar racionalmente. Eu agora precisava vê-la, saber o que ocorreu quando fui embora, e cumprir minha promessa antes que eu viajasse para longe. O pensamento de não vê-la novamente fez com que eu me arrepiasse. Isso tudo deixava-me muito confusa, talvez ela tivesse respostas. O pior é que eu sabia que isso era apenas uma desculpa para vê-la novamente.
Levantei-me agachada na escuridão do buraco e me aproximei de Charles. Sua respiração estava lenta, prova de que já havia adormecido. Tendo certeza saí de fininho do buraco para a luz do dia e embrenhada pelo verde novamente, corri o mais rápido que pude. Eu a veria novamente, eu precisava disto.
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