— É você? — ele me perguntou assustado. Pensei ter visto alívio em seu olhar.

Na caverna tudo estava escuro, mas pude enxergar com clareza. Seu rosto estava completamente sujo, parecia que não se alimentava há dias, suas roupas estavam rasgadas e sujas de mais terra. Ele mexia em um corpo de filhote de urso antes que eu chegasse.

— Vou acabar com seu sofrimento. — eu sorri enquanto me recostava no muco da parede.

— Não entendo... — ele disse dando um passo para trás, acho que tentando esconder a carcaça do bicho.

Ele me observava com curiosidade enquanto eu recostava e ajeitava meu cabelo, talvez ele estivesse olhando meu corpo todo sujo de sangue. Aproveitei sua distração e antes que piscasse eu estava atrás dele. O joguei no chão e pisei em sua nuca.

— Você irá me agradecer. — dei uma gargalhada e o levantei do chão já o empurrando contra a parede da caverna.

Ele continuou me olhando assustado. Não reagia de modo algum. Torci seu braço quebrando seu osso e ele uivou de dor, mas não revidava. Minha raiva cresceu, o soltei e aguardei que fugisse ou viesse para briga por si só. Mas ele só me observou.

— Reaja! — eu disse e o joguei no chão com uma banda.

O chutei com força nas costelas e pude ouvi-las se quebrando, sorri com o som e dei mais um com mais força. Ele cuspiu sangue, mas ficou imóvel no chão, nem tentava se proteger. O virei e joguei contra parede com tanta força que a montanha fez um estrondo. Segurei seu rosto e o soquei com toda vontade de sangue que eu tinha, seu rosto começou a sangrar. Arranquei um pedaço de seu ombro com uma mordida e lambi seu sangue que escorria, ele gemeu. Parei e o observei.

— Por favor, não pare. Se for isto o que deseja, continue. — ele disse por baixo de todo sangue.

Fiquei sem reação por um momento, esperei, talvez fosse um truque. Mas mesmo depois de quase meia hora esperando por alguma reação ele nada fez, apenas ficou me observando, esperando por algo também.

— Eu estava perdido, eu sempre fui perdido — ele deu um sorriso irônico. — Mas você apareceu um dia, e fez tudo aquilo comigo... Mesmo depois de toda dor que passei até a completa transformação, eu continuei a sentir a dor, você trouxe algo novo para meu mundo, uma oportunidade. Gostaria de compartilhar todo esse prazer com você, mas se prefere que eu não viva, eu não viverei. Sua sede de sangue é tão grande assim que me faz querer morrer só para que você sinta este prazer. — ele parou de falar e virou o rosto.

Não entendia o que ele queria dizer. Ele parecia desconfortável, e minha raiva crescia.

— O que quer dizer com isso, Charles? — perguntei e minha raiva vibrou pelo ar.

— Eu gostei da vida que você me introduziu. Gostaria de correr ao seu lado, se possível, mas parece que sua raiva veio para mim também. — ele abaixou a cabeça.

Uma ideia passou pela minha cabeça. Essa era uma ótima ideia! E seria de uma grande ajuda. Tratados de vampiros não eram normais, e eu poderia usar isso para minha vitória.

— Então você quer ficar comigo? — perguntei me aproximando depois de tanto tempo.

— S-Sim. — ele respondeu arregalando os olhos claros.

— Mas como vou ter certeza de que você fala a verdade? Que quer ficar ao meu lado? Que não vai me machucar? — fiquei de frente para ele, se eu botasse minha língua para fora tocaria seus lábios.

— Eu irei. — ele disse meio nervoso.

— Jure. — ele balançou a cabeça quase me beijando. — Com sangue.

Ele virou sua cabeça liberando seu pescoço, mas eu apenas o toquei de leve no queixo e trouxe sua boca até a minha. Mordi sua língua até que o doce sangue escorresse pela minha boca. O abracei enquanto o beijava ternamente.

— Jura que vai me ajudar e que ficará do meu lado? — eu disse entre os beijos.

— Juro que lhe ajudarei e ficarei ao seu lado, até que você queira. — desta vez ele me beijou e mordeu minha língua. Nosso sangue se misturou em nossas bocas.

O tratado estava feito. Agora Charles me pertencia, eu faria o que quisesse dele. Isso era melhor do que eu imaginei, ele me ajudaria com minha vingança, e seria o mais rápido possível, quando eu não precisasse mais, o mataria.

Ele já estava se recuperando graças ao meu sangue, mas continuava sujo quando me soltou ofegante.

— Venha. Basta de animais. — eu disse docemente. — Mas primeiro vá se limpar.

Ele balançou a cabeça e passou por mim pulando da caverna, quando cheguei à beira ele já estava correndo em direção à lagoa. Pulei e senti o vento batendo em meu corpo e soando fraco em meus ouvidos. Pousei e logo comecei a correr desviando das árvores à frente seguindo o som que Charles fazia com os pés ao correr.

Quando cheguei ele já havia se jogado na lagoa e esfregava o rosto com sua blusa completamente rasgada. Pulei na lagoa e nadei até ele, enrosquei-me em seu corpo e o ajudei a se lavar.

***

Deitei-me na margem da lagoa com Charles ao meu lado, ele estava completamente nu, o sol estava se pondo. Charles conseguiu ficar no sol comigo o dia todo graças ao meu sangue, e como ficamos debaixo d’água foi mais fácil. Ele era lindo desse jeito, tinha o corpo definido e era moreno, não tanto quanto quando era humano, mas meu veneno fez bem a ele. E meu sangue o fortaleceu.

Segurei sua mão, eu deveria fingir que gostava dele, e isso não era difícil para mim. Ele olhou-me e sorriu beijando meus lábios.

Charles parecia gostar da vida de vampiro, ele era muito inocente, se não tivesse utilidade para mim já estaria morto naquele projeto de caverna.

À noite eu gostava de caçar, e essa seria minha primeira vez com outro vampiro ao lado.

Levantei e procurei minhas roupas perto de uma moita. Coloquei-as enquanto ele me observava ainda deitado. A floresta estava quieta demais, o vento balançava as árvores e um uivo estranho veio aos meus ouvidos, os lobos já haviam começado sua noite.

As roupas de Charlie estavam completamente rasgadas, eu terminei de rasgá-las e fui partilhar meu feito com ele.

— Está sem roupas. — eu disse e o chutei.

— Estou sabendo. — ele riu e segurou a genitália.

— Suas roupas estavam um lixo e eu terminei de rasgá-las. — o chutei novamente na mão e quebrei alguns dedos.

— Ai! Como você rasgou? — ele colocou os dedos no lugar. — O que vou usar agora?

— Vamos ter que caçar para você. — levantei as sobrancelhas. — Pego qualquer otário e você pode ficar com as roupas.

— Ok. — ele se levantou e me abraçou por trás.

Senti que ele estava excitado com essa ideia e o afastei antes que tentasse morder meu pescoço.

— Vamos, precisamos ficar fortes, temos muito que fazer. — eu disse séria.

— O que você pretende? — ele ficou sério.

— Nós temos um tratado lembra? Não pode ser quebrado, apenas me siga. — mostrei minhas presas como ameaça para ele.

— Então vamos com isso. — ele nem se intimidou.

— Espero que cumpra nosso tratado de sangue. — eu disse e ele afirmou com a cabeça.

Agora, só precisávamos ficar mais fortes e logo os outros oito seriam meus troféus.