Trapézio

1 Kherlakian e Carter


Notas iniciais
Dedico este capítulo a Lua Reyna, pois foi ela a primeira a me incentivar a escrever esta história.

Parecia mais uma simples penumbra anunciando o dia, quando na verdade era o sinal verde para a liberdade. Vítima ou não, já não importava mais, só importava o dia que se acordava aos poucos. Era o último dia para se vir o sol nascer quadrado e, dentro de duas horas já seria possível despir aquele trapo imundo no qual muitos insistiam em chamar de roupa.

Os dias passaram vagarosamente, as noites faziam transcender uma solidão por toda aquela cela. Quando voltasse para sua casa, a primeira coisa que iria fazer – claro que depois de tomar banho tranquilamente sem a sensação de que a qualquer momento alguém possa apalpar sua bunda – seria investigar com cautela o caso que a fez parar naquele lugar imundo.

– Pronta para voltar ao circo? – Uma voz debochada se proferiu no canto daquela cela imunda e fria.

– Você devia guardar seu sarcasmo para mais tarde – alguém retruca de cima do beliche. – Em poucas horas a bonequinha de pano vai estar do lado de fora e nós iremos continuar aqui, ensaiando a nossa apresentação.

– Emily Kherlakian! – exclama alguém por fora das grades. – Me acompanhe, por favor!

Sem hesitar, Emily acompanha a senhora corcunda de pernas curtas, deixando para trás suas duas companheiras de cela, que fediam a laranja com mofo. Os corredores ainda se encontravam vazios e silenciosos, as esperanças ainda dormiam, talvez nem acordassem tão cedo. Ainda não era exatamente sua hora de sair, provavelmente havia uma dezena de formulários para preencher. O cheiro de xixi vencido estava impregnando o corredor perto do gabinete do delegado Lupe e, foi ali mesmo no gabinete que ela se acomodou.

– Espere ai bonequinha, o delegado virá falar com você. – Figg, a mulher corcunda, como era conhecida, cuidava de quase todos os serviços ali existentes. – Só não vá tentar seduzi-lo novamente.

– Me deixe em paz, Figg! – exclamou Emily enquanto limpava os olhos com o lenço que achou em cima da escrivaninha. – Não comi nada a noite passada de novo, você podia arrumar um chocolate ou um pãozinho crocante?

– Serviços exclusivos não são permitidos aqui, senhorita Emily Khiiiielakan, – gaguejou o delegado em tom de desprezo – portanto, trate de largar o meu lenço e de calar a boca enquanto eu preencho essas ordens o mais rápido possível.

Obviamente o delegado não era a pessoa mais querida deste mundo, mas não fazia a mínima questão de ser educado com Emily, por conta de coisas toscas que aconteceram no passado.

– Vou poder voltar a trabalhar? – Perguntou. E se arrependeu na mesma hora, mas com certeza arrependimento era tudo que ela sentia todos os dias, um arrependimento a mais não faria diferença.

– Isso não é um problema meu, senhorita Khiiiielakan – retrucou de forma fria. Aliás, ser frio era sua especialidade.

– KHERLAKIAN! Senhor arrogância, você pode me responder devidamente, com mais respeito e menos desdém? – Emily perdeu o controle de si. Sabia que para Lupe seria uma boa notícia se sua carreira tivesse sido encerrada.

Mas nenhuma palavra foi dita, nenhuma dúvida esclarecida, só mais um papel assinado e foi só. O delegado fez sinal para um guarda acompanha-la e era assim que Emily iria deixar a cadeia: irritada, com medo de ter sua carreira encerrada e cheirando a mofo, ou melhor, laranja com mofo. O guarda pediu para liberarem a saída, entregou alguns papéis a ela e a mandou sentar em um banquinho na recepção.

Emily parou-se admirando seu reflexo na porta de vidro, que dava direto para a rua, apesar de estar totalmente desarrumada, ainda se mostrava uma moça agradavelmente bonita. Seus cabelos castanhos e oleosos puxados para trás, revelavam um rosto magro e pálido, encantador mesmo assim. Seus olhos pesados, bem definidos dentro de suas órbitas, assistiam com entusiasmo as ruas que ela se sentiu desconectada por tanto tempo. Sua cicatriz se estendia desde o canto do seu olho esquerdo correndo em direção ao seu pescoço e terminando em seu peito. Ainda que muito fraca e pouco perceptível, sua cicatriz a incomodava, talvez por deixar uma lembrança realmente desagradável de um circo de horrores.

Os acontecimentos do último ano não foram nada agradáveis e, talvez tivessem provocado o fim da sua carreira, pois pensando bem, quem confiaria em uma detetive que ficou presa por oito meses? Ainda mais quando se é acusada de matar uma bailarina. Oito meses parece pouco para tamanha acusação, mas há sempre algo por trás de tudo, há sempre uma história a ser contada.

– Senhorita, o delegado me mandou entregar essa pasta a você, – um dos policiais entregou uma pasta vermelha lacrada – ele disse pra analisar, mas aconselha que você não insista em continuar o caso. Sua irmã já acertou tudo que precisava e, ela está esperando por você lá fora.

Ela não falou nada, apenas assentiu e sorriu miseravelmente com desprezo. Não entendia o porquê, mas sentia receio do mundo lá fora. Consequentemente, não estaria livre ao cruzar aquela porta de vidro, mas sim quando pudesse se libertar daquele medo. Mas quando cruzou a maldita porta, pôde sentir seu estômago revirar, só havia sentido aquela sensação uma única vez na vida, foi quando a corda do trapézio partiu e tudo veio abaixo, literalmente. Logo viu o seu amado C3S18 parado a sua espera, aproximou-se dele e entrou.

– Emily! – Alguém a envolveu em um abraço apertado aconchegante. – Eu senti tanta falta de você na minha vida, não aguentava mais ver você somente em horários de visitas. É tão bom ter você de volta.

– Ah Poll, é bom ter você por perto. – Emily acaricia os cabelos loiros de sua irmã e a envolve confortavelmente em seus braços. – Também senti muito a sua falta, sabia?

O mundo parou ali mesmo naquele abraço; só restava o coração de Poll pulsando vorazmente em meio aquele silêncio. Emily engoliu tudo o que queria chorar, sim, doeu! Mas era a hora de sorrir e fingir que estava tudo bem.

– Deixa que eu assumo o volante. – Emily beijou a testa de sua irmã delicadamente. – Nós vamos para casa agora e eu vou estar com você, ok?

Poll apenas assentiu com um aceno e sorriu.

Era difícil estar saindo da prisão e, ainda mais difícil saber quem acreditava em sua inocência ou não. Seria uma tarefa difícil estar em meio à sociedade novamente, se relacionar com as pessoas, continuar sua carreira. Investigaria a fundo aquele assassinato, aquelas sapatilhas, o lago dos cisnes, o balé, a melodia, o sangue frio, o equilíbrio e o último suspiro.

– Fawn esperou por você este tempo todo, – comentou Poll de repente – ele acredita em sua inocência.

Emily freia o carro de repente e faz seus xingamentos ao motorista da frente em voz baixa.

– Filho da mãe! – Ela afunda o pé no acelerador e o ultrapassa com uma buzina ensurdecedora. – Não vamos falar do Fawn, por favor, Poll!

– Sinceramente Emily, eu não sei o que você tem com ele...

– Chega, Apolline! Eu tenho outros assuntos mais importantes a tratar, – interrompe ela cheia de fúria – aliás, vou direto para a casa do Carter. Se tem alguém com quem eu preciso resolver algo, esse alguém é o Carter.

Seu companheiro, Tom Carter, foi quem levantou as provas que a incriminaram. Provavelmente sua carreira estava no auge depois de colocar sua própria parceira atrás das grades.

– Me desculpa Poll, eu não queria me irritar com você. – Emily estaciona o carro em frente a uma casa branca e azul acinzentada. – Não vamos falar do Fawn agora, por favor. Você sabe mais do que ninguém o quanto eu me machuquei.

– Me perdoa, eu não devia ter tocado no Fawn agora. – Poll sorriu marotamente. – Você vai mesmo falar com o Carter? Eu acho você está se precipitando demais.

Emily não respondeu, apenas desceu do carro e fitou aquela casa. O ódio transbordava em seu olhar e suas pernas pareciam não poder mais sustentar seu peso. Engoliu de seco e seguiu em frente até o portão; Poll seguiu logo atrás. Já conhecendo bem o caminho e sentindo-se à vontade, ela abriu o portão e entrou sem hesitar, passou pelos trilhos de pedras ao lado da casa e se dirigiu até a porta dos fundos onde imaginava, pelo horário, que Carter estaria fumando. Sim, realmente ele não havia perdido seu costume, lá se encontrava Carter, sentado em sua cadeira de balanço verde. Deu um gole em seu café amargo e descansou a xícara em cima da mesa, depois mais um trago e a velha mania de falar de falar sozinho. Emily cruzou os braços e pigarreou, só então Carter notou sua presença.

– Emily? – Tom não sabia como reagir ou o que falar, apenas esperou que Emily começasse a gritar histericamente. – Eu sei que você não vai me ouvir, então pode começar.

Ela puxou um banquinho e se acomodou. Poll continuou de pé, encostada perto da mesinha de café e apenas ficou observando.

– Eu fui presa por um crime que não cometi. Tudo isso por sua culpa. – Emily pega um cigarro de Carter e sorri ironicamente. – Acho que quem me deve explicações é você.

– Havia quinze suspeitos, entre eles, você e eu. Era nosso dever investigar e, não foi minha culpa se eu achei provas que a incriminavam. – Bebericou seu café mais uma vez el levantou-se de sua cadeira. – Emily, eu sei que você não matou ninguém, eu passei esses oito meses procurando algo que a inocentasse, tentando descobrir uma brecha, um detalhe ou uma prova que tivesse sido deixada para trás. Eu sei mais do que ninguém o quanto você foi injustiçada e que não havia provas o suficiente para incrimina-la, mas sua liberdade não dependia de mim. Saiba que eu estou do seu lado e eu acredito em você. Ainda somos uma boa dupla e, eu não vou conseguir trabalhar sozinho sem você.

– Queria dar um tabefe na sua cara para aliviar a minha raiva.

– Eu ajudei a Poll a pagar sua fiança. – Tom deu a volta na mesa e jogou o resto do seu cigarro no cinzeiro. – Me desculpa, mas o vilão da história não sou eu. Se não fosse por mim, talvez você passasse muito mais tempo naquele lugar.

– Eu ainda não entendo, Tom. – Emily joga o resto do seu cigarro no cinzeiro também.

– A única coisa que você tem que entender, é que alguém conspira contra você – retrucou Poll – e esse alguém não é o Tom.

– Emily, vá para casa, descansa um pouco – sugeriu Tom delicadamente. – Vamos discutir amanhã sobre Kherlakian e Carter. Eu entendo perfeitamente se você não quiser mais trabalhar comigo, eu só não quero que você tenha ódio de mim por algo que eu não tive culpa.

Poll deu dois tapinhas nas costas de Tom e puxou Emily para ir embora. E agora assumiu o volante. Emily percebeu que Poll estava aborrecida e decidiu não falar mais nada. Ainda não sabia o que fazer, não sabia como trabalharia sem Tom Carter, mas também não sabia se era confiável continuar com a Kherlakian e Carter. Talvez Poll tivesse razão em dizer que havia alguém conspirando contra. Mas quem? E por quê? Não entendia também o que aconteceu quanto a fiança, pois ainda assim precisou cumprir oito meses de pena. De tudo isso, só pôde deduzir uma coisa!

– Poll, o circo não acabou! Ainda estou no trapézio.

Notas finais
Muito obrigada a quem teve a disposição e boa vontade de ler. O segundo capítulo sai... algum dia que eu não sei. Beijos ;*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.