Trapped
4 Look How They Shine For You
Notas iniciais

Eu não sou perfeito
Eu cometo erros
Eu machuco as pessoas
Mas quando eu peço desculpas, é de verdade
– Unknown, Tumblr
Nada. Era isso o que eu entendia de tudo que acontecia ao meu redor. Sentada naquela cadeira desconfortável, com uma dor de cabeça infernal, além da aula de história que era sobre a revisão da revisão da revisão da aula rereretrasada. Eu sabia que nenhum ser normal estava prestando atenção na aula e alguns nem acordados estavam, mas nenhum aparentava pior do que eu.
Depois do Phil me deixar plantada na frente de sua casa fui para a minha querendo me trancar no quarto e dormir por séculos até esquecer daquele dia. Mas obviamente minha mãe tinha que me puxar para mesa de jantar onde meus pais e meus irmãos estavam na mesa conversando de quão maravilhoso foi o dia para eles. Pelo menos Nathan não falou nada do incidente dos doces ou do fato de eu ter levado um livro escondido (graças aos céus), nem meus pais ficaram puxando assunto comigo, o que aliviou bastante. Logo depois da "divertida" reunião em família corri para meu quarto e deitei na minha cama. Se eu pudesse desligar a minha mente aquele noite, eu sem dúvida faria, talvez desse jeito eu conseguisse dormir. Estava exausta mas minha cabeça recusava-se a relaxar.
Resumindo, devo ter dormido umas 3 ou 4 horas, sai atrasada para a escola, esqueci de pegar os livros que deveria, vesti qualquer roupa (estava parecendo uma sem-teto) e bati com a cabeça na porta da entrada ao sair. E agora tinha as duas últimas aulas, dobradinhas de história.
Eu nunca agradeci tanto (acho) quando o último sinal tocou. Antes de conseguir pensar em algo Norah apareceu na frente da minha carteira.
– Por que as aulas de história estão tão repetitivas e chatas?
– Talvez porque não há mais matéria para dar.
– Pfff, em história? Não acredito que sejamos a primeira geração neste mundo.
Eu sabia que ela estava brincando, mas era verdade. O nosso conteúdo em relação à conhecimento era limitado. E quanto mais antigo o assunto, mais superficial ele era. Não sabíamos quase nada de como surgiu nossa cidade, a não ser que estamos aqui por causa de uma guerra ou coisa parecida. Não se sabe nada de antes, ou do que havia lá em cima. Vivíamos num buraco gigante na esperança de que aquela vida desse certo.
– Acorda Ka! Você parece uma bêbada sem futuro.
– Nossa obrigada Norah, você sempre alegra o meu dia.
– Odeio seu sarcasmo, vamos. — disse puxando-me para fora da sala.
***
O dia estava nublado, mas nem tanto. O que me dava vontade ou de ficar no meu quarto e ler o dia inteiro, ou ir cavalgar, mas para isso teria que passar no celeiro perto da casa do Phil. Senti um aperto no peito só de lembrar dele. Já tinha o visto bravo o bastante para sentir medo e triste o bastante para sentir-se igual, mas em nenhum dos casos eu estava envolvida, eu não tinha esse sentimento de culpa e confinamento. Sabia que eu precisava esperá-lo acalmar-se um pouco, mas Phil era o meu chão e ele tinha sumido.
Cheguei em casa com Norah, que tinha fé que conseguiria me reanimar.
– Cheguei mãe!
Minha mãe, que deveria estar preparando o almoço na cozinha, estava de pé, na frente do hall da sala olhando-nos com um sorriso de orelha a orelha. Ou seja, era como ver um unicórnio voando no seu jardim num dia extremamente claro sem nuvens ou Sol (resumindo, bizarro).
– Mãe? Está tudo bem?
Ela apenas me entregou o envelope que escondia nas costas. Era um papel grosso, mas macio e leve, parecia bem caro, meu nome estava escrito nele. Virei-o e encarei o selo de vela dourada derretida e depois seca, uma coroa com galhos e folhas harmonizados e alinhados entre o objeto.
– É da Realeza? — perguntei tentando esconder meu temor.
Minha mãe apenas afirmou balançando levemente a cabeça. Norah conteve um grito e eu engoli seco.
– Recebemos dois, um com o seu nome e outro com o da Myra. — continuou minha mãe.
– Você o abriu? — perguntei.
– Claro que não! Nem o de sua irmã, estava esperando vocês chegarem. Achava que sua irmã chegaria mais cedo, mas acho que seu curso era mais tarde mesmo, temo que depois ela vai ter que ...
Para falar a verdade eu não prestei atenção a nada que minha mãe disse depois de ela afirmar de onde viera a carta.
Depois de ela falar tudo que tinha (sobre qual não entendi nada), subi as escadas até meu quarto com Norah, ainda meio atônita e confusa.
– O que será que é?! — perguntou Norah assim que fechou a porta do quarto.
– Uma carta, não está vendo? — falei sem muito interesse.
– Gente como você está chata hoje! Abre logo isso!
Destaquei o selo com cuidado para não estragá-lo e tirei o papel que continha dentro.
– Agora lê em voz alta.
Norah estava sentada em minha cama com o rosto apoiado nas mãos e os cotovelos nos joelhos. Ela parecia estar explodindo fogos de artifício.
– "Cara Karine Odell Hollis, a senhorita foi convidada para passar a tarde nos Jardins Reais para um chá com o Rei e sua família real, na presença de família Hollis. Ás 15:00 a carruagem real estará ao seu dispor em seu lar a qual levará-os ao local marcado. Esperamos sua graciosa presença, Realeza."
– AI MEU DEUS! — exasperou Norah.
– Será que a presença é obrigatória, assim... De todos os parentes?
Norah me dirigiu o olhar mais frio e acusador que conseguia.
– Você não está pensando em desperdiçar essa oportunidade não é?
– Bem, talvez...
– “Esperamos SUA graciosa presença”! Pelo amor de Deus, Karine! — ela deu um pulo e segurou-me nos braços — Tem gente que NUNCA receberá um convite desse ou qualquer um da Realeza! Essas são coisas que não pode nem pensar em rejeitar!
– Não importa, eu não vou. — me soltei dela e fui em direção a minha cômoda.
Joguei o envelope na gaveta mais cheia e o mais fundo possível. Norah apenas expirou na tentativa de conter a paciência.
– Você está fazendo isso por causa do Phil não é?
– O quê? Claro que não.
– Então o fato de vocês se ignorarem o dia inteiro, o quê significa que vocês brigaram, não está relacionado a seu encontro com os príncipes e o ódio cego do Phil pela Realeza?
– Não.
– Não acredito em você.
– E vai continuar não acreditando porque não vou mudar minha resposta.
Ela pisou forte no chão emburrada. Norah era mais alta do que eu.
– Quer saber? Foda-se! Se você quiser desperdiçar uma oportunidade tão grande por causa de uma briguinha estúpida a culpa é sua. — disse decidida ao cruzar os braços.
Nisso ouvi um bater de cascalho na janela. Fui em direção a ela e a abri. No andar debaixo do lado de fora estava Phil com seu cavalo e ao seu lado Chavlier. Por um momento eu travei pensando que ele tinha esquecido da briga, ou que ela nem tinha acontecido e que era ilusão da minha mente. Mas não era. Eu lembrava perfeitamente.
Ele estava sério, mas tentando relaxar ao olhar para baixo.
– Vai lá se desculpar com ele pra você ir logo no --
– Shhh! Cala boca Norah. — alarmei enquanto já estava saindo pela janela.
Cheguei ao chão rapidamente por costume. Não estava com roupa para cavalgar, mas tinha a impressão que os cavalos eram só distração no momento.
Phil não disse nada, apenas me entregou a rédea. Cavalgamos para o morro, só que na parte debaixo, mais para perto do Bosque. Parecia haver uma parede de tijolos entre nós dois, não falávamos nada, havia apenas o som do cavalgar, dos vilarejos próximos e da mata do Bosque. Contudo, em geral parecia um silêncio torturador. Aos poucos desaceleramos até parar. O dia estava com Sol, porém havia um vento forte e frio que mudava a temperatura.
– Você sabia que você é a pessoa que eu tenho mais dificuldade em me desculpar?
– Isso por acaso foi uma tentativa de pedir desculpas? — dei uma risada curta.
– Claro que não. Não adianta apenas dizer "desculpas", tem que demonstrar que está arrependido, ainda mais com você.
– Por que eu sou a melhor amiga do mundo?
– Não, é porque você é teimosa e chata mesmo. — retrucou com um sorriso.
– Idiota.
– Fui mesmo.
– E quando foi que percebeu? — perguntei mais aliviada por poder falar normalmente com ele de novo.
– Quando contei pro Matt, ele quase me matou. Bem... Ele bem que queria. De qualquer forma recebi a maior bronca inesperada da minha vida e estou aqui para concertar o que fiz.
– Sabe de uma coisa? Você consegue as vezes ser um idiota fofo.
– Idiota fofo... Fui legal, peguei o cavalo, falei palavras inspiradoras e recebo esse elogio.
– Mal agradecido. — mostrei-o a língua.
Ele riu e olhou para as casas do vilarejo.
– Ka, você tem mais alguma coisa a me dizer? Hoje estou calmo, então melhor aproveitar. — disse ainda com um sorriso divertido.
Mordi o lábio inferior. Será que falava para ele? Contei rapidamente do convite e de como estava determinada a não ir. Ele franziu o cenho em dúvida.
– Você não quer ir?
– Nope.
– Nem um pouquinho.
– Nada.
– Dizem que o chá real é mágico e os torrões de açúcar são de ouro.
– Dizem não!
– Eu sei que não tonta, eu estava só te testando. – falou entre um riso.
– Mas você não ficaria... Chateado se eu fosse?
Ele respirou fundo.
– Ka, a vida é sua, eu não tenho direito algum de mandar nela.
– Eu sei, mas eu só queria saber..
– Bem eu acho que você deveria ir.
Franzi o cenho para ele.
– Sério?
– Aham.
– Mesmo?
– Sim.
– E por que esse sentimento de compaixão tão repentino?
– Não sinto nenhuma compaixão pela Nobreza, — ele virou os olhos para mim tão profundamente e senti até um calafrio — mas isso não quer dizer que você também tem que distanciá-los. Eles são uma chance para um futuro melhor para você.
– Virou meu pai agora?
– Não estou dizendo que você deve ir, só estou dizendo o que eu acho melhor.
– E se eu não fosse?
– Acho que não existe essa opção Ka com Dona Agatha.
– Verdade...
Apesar de minha mãe parecer fofa ela sempre consegue tudo que quer, pelo menos em relação aos seus filhos. O que é irritante, admito, mas o que eu posso fazer?
– Vem. — chamei Phil quando montei em Chavlier.
Um pouco depois de começar a cavalgar ouvi os trotes de seu cavalo atrás de mim. Precisava relaxar. Mas por que estaria nervosa? Me desculpei com Phil, ele até recomendou eu ir (ou apenas me lembrou desse fato irreversível)... Será que eu estava criando desculpas para mim mesma, apenas para não ir? Claro que qualquer um que recebesse um convite desses ficaria nervoso por dias, mas não a ponto de não querer ir, certo? Não era como se eu estivesse empolgada ou coisa do tipo.
***
A noite no jantar minha mãe não conseguia parar de falar dos convites (apesar de não se perguntar o porque de eu ter recebido o convite, já que o Encontro foi da Myra). Meu pai também deu um breve discurso de como estava orgulhoso, Myra estava com um sorriso de ponta a ponta sonhando acordada, Nath estava fazendo perguntas como sempre e eu estava quieta entretida em virar a comida com os talheres mais do que comer.
Quando voltei ao quarto coloquei minha camisola e me deitei. De uma certa forma eu concordava com o Phil. Odiava o fato de considerarmos a Realeza como Deuses ou algo do tipo, para mim eles eram uma família extremamente rica que governava um dos Valles da Capital onde moro, Westminster. Eles não tinham nada o que admirar na verdade. Bem... Verdade que a bondade e a compreensão de alguns deles me surpreendia. Para ser mais exata, as de Nicholas. O que é estranho porque para mim ele era apenas um príncipe propaganda em um cargo muito mais elevado que o meu e que nunca conheceria. Agora ele é apenas um garoto 1 ano mais velho que se veste bem. E que é generoso, atencioso, educado, divertido e que me convidou para um chá da tarde. Não seja tola! Ele não convidou você, e sim sua família. Por um momento pensei que eles talvez quisessem falar do meu comportamento na festa... Espero que não tenham punido Nicholas por me arrastar para o meio da multidão valsante. Segurei o travesseiro que minha cabeça estava deitada em cima e forçei a minha mente por um Segundo a parar de pensar, até cair no sono.
***
– Mãe! Você não precisa puxar tanto!
– Desculpe filha, mas beleza dói.
– Depende o quê você chama de beleza…
– Karine, Karine, sempre em contra tudo a sua volta. – interrompeu Myra ao se olhar no espelho pla centésima vez.
Minha mãe puxou mais uma vez o corpete e novamente arfei em busca de ar.
– Mãe, já deu!
Ela rapidamente fez um nó e soltou as amarras.
– Prontinho. Linda, como sempre.
Inegavelmente aquele corpete valorizava meu corpo, mas poderia me sair muito bem se eu pudesse respirar.
– Ponha logo seu vestido Ka. — ela virou para mim com aquele sorriso perfeito — Não creio que a Realeza tolere atrasos, e eu não irei faltar por atrasos.
– Não exagere Myra, sua irmã está quase pronta.
Fisicamente, sim. Psicológicamente? Não.
Coloquei meu vestido e minha mãe ajudou a abotoá-lo atrás. Apesar de odiar vestidos, por não serem práticos, ele era lindo. O azul sempre foi minha cor favorita e por ser claro combinava por ser dia e as rendas o deixava delicado. Meu cabelo estava preso fazendo com que parecesse uma cachoeira de cachos castanhos e as franjas longas presas uma de cada lado da minha orelha. Minha mãe sempre foi atenta a detalhes e era ótima em fazer suas filhas bem arrumadas. Apesar da maioria ter uma ajudante para fazer isso, minha mãe insistia.
– Vamos porque a carruagem já deve estar chegando. — apressou minha mãe.
Corri para minha cômoda e peguei minha pequena caixa de jóias tirei de lá um colar que ganhei de aniversário de 15 do Phil. Era um coração prata que era coberto por ganhos formando um espaço oco dentro dele. O pus e fui me checar no espelho. Já estava pronta, mas precisava me acalmar. É simples, apenas seja educada, gentil e divertida. Soltei um suspiro cansada. Não vou conseguir, sei que no final vou deixar a guarda cair e fazer algo que não devia.
– Karine! A carruagem chegou! — gritou meu pai.
– Estou descendo!
Meu olhei rapidamente no espelho.
– Você consegue. — disse a mim mesma.
Desci as pressas, fechei a casa e entrei no transporte. Como eu queria que o Phil o a Norah estivessem aqui para me socorrer...
***
– Minha nossa! — exalou minha irmã mais velha.
Realmente a admiro naquele instante, porque estava sem palavras. Era lindo! Tudo naquele jardim era maravilhoso. As flores e folhas com cores tão vivas e o silêncio dos chafarizes respingando e pássaros voando.
– É com grande satisfação que vejo sua surpresa, cara jovem.
Me viro para uma mesa longa, não muito longe, coberta por arcos finos os quais estavam enrolados em folhas. O Rei estava sentado na ponta e ao seu lado esquerdo, a Rainha seguida por Edward, e ao direito Harold seguido por Nicholas. Do outro lado da mesa estavam o resto da minha família, incluindo Ellen, minha "querida" prima. Percebi placas na frente de cada prato, os lugares eram marcados.
– Vossa Majestade, estamos honrados em poder estar aqui hoje. — disse meu pai abaixando a cabeça em sinal de cumprimento.
– Por favor, fiquem a vontade para sentar-se.
Aparentemente não foi apenas eu que percebeu os lugares marcados. Havia 3 lugares vazios a direita e dois a esquerda separando minha família da Realeza. O lugar de Myra era ao lado de Edward, acompanhada pelo meu pai, já do outro lado estava Nathan, minha mãe e... Eu do lado do Nicholas. Gelei quando vi meu nome no lugar ao lado dele. Abaixei a cabeça e me sentei delicadamente. O fato de eu estar mais perto da Realeza pode aumentar minhas chances de estragar tudo. Fiquei encarando o prato por mais tempo que devia, tentando evitar qualquer comunicação.
– Acredito que esteja na hora de servir nossos convidados, querido. — sugeriu a rainha a seu marido graciosamente.
O Rei apenas levantou a mão e fez um gesto simples. Os criados por perto, antes parados, foram para longe.
– Sr. Hollis, sua família é encantadora.
– Agradeço deveras, majestade.
– Certamente, o senhor tem belíssimas filhas. Assim como sua esposa.
– Muito obrigada, vossa majestade. — falou minha mãe lisonjeada.
– Creio que temos muito para conversar. — disse o Rei entre um sorriso para meus pais.
Curiosa, tentei prestar atenção na conversa, como a mesa era oval, facilitava as conversas a longa distância. Contudo fui desconcentrada.
– Hey.
Virei-me para minha esquerda. Me arrependi. Ele estava olhando para mim com aqueles olhos de caramelo, no salão podia jurar que eram castanhos, mas á luz do Sol pareciam tão amarelos!
– Oi. — respondi.
Ele franziu a testa levemente.
– Está tudo bem? — perguntou Nicholas.
– Sim, está sim. — parei de olhar para seus olhos.
– A senhorit-, quero dizer, você parece... Nervosa.
– Que? Não, não, estou ótima.
– Sei... — ele se aproximou da minha orelha e enrubesci de leve.
– Qual é o livro proibido dessa vez, Amante de Livros? — sussurrou.
– Nenhum.
– Não é uma boa mentirosa, não é verdade? — disse sorrindo.
– Ok, ok, você me pegou. — falei brincando — Comecei a ler "Orgulho e Preconceito".
– Apenas os melhores, não é?
– Você pode ler livros proibidos?
– Não, mas você não é a única que sabe como dar um jeito.
– Karine?
Me virei ao chamado de meu pai.
– Deixe que ela converse livremente. — insistiu o Rei.
– Ela não se importa, não é querida?
– Não, claro que não. O que quiser, majestade. — voltei a realidade meio tonta.
– Estava perguntando a seu pai a seu respeito. — disse fixando seus olhos em mim — Disse que é uma dama inteligente e doce. Diga-me, jovem Karine, o que é de maior interesse a senhorita?
– Eu gosto de ler. — respondi sendo sincera.
– Verdade? Creio que sabe de várias coisas então.
– Bem, apenas o que está nos livros. — sorri.
– Sim, sim, claro. — confirmou entre uma risada.
– Adoro cavalgar também. — me arrisquei um pouco.
– Karine. — meu pai falou baixo em alerta.
– Cavalgar? — o Rei exalou surpreso — Creio que também é uma dama cheia de surpresas, não é mesmo? Nicholas, devia levá-la um dia desses ao nosso estábulo.
– Ele não conseguiria. — cortou Harold — Ele tem pavor de cavalos, recorda-se? — disse em um deboche ao seu irmão ao lado.
– Harry. — dessa vez seu irmão Edward o alarmou.
– O que há irmão? — pergunto em um sorriso sarcástico — Não é a verdade?
Nesse momento, felizmente, os criados chegaram com os bules, os pacotes com as ervas e os lanchinhos da tarde. Apesar do incômodo do seu irmão, Nicholas não parecia irritado, mais cansado, acho que ele tinha costume de ouvir essas coisas de Harold.
– Bem, — comecei — você sabe que qualquer coisa eu posso te ajudar, quero dizer, tentar te ajudar. — falei apenas para o Nicholas.
Quem eu pensava que era para alguém da Realeza precisar da minha ajuda?
– Eu adoraria. — disse com um sorriso charmoso.
Peguei um pão antes que minhas bochechas começassem a queimar.
A tarde foi ótima, depois disso. Nenhuma intriga ou briga ameaçou aparecer. Já eram por volta das 18:30 e o pôr do Sol ia começar.
– Pela companhia confortante, convido-os a ver o pôr do Sol e conversar com minha família em meu jardim. — convidou o Rei.
– Aceitamos agradecidos, majestade. — disse minha mãe.
Fomos a um lugar mais alto onde pudéssemos ver o espetáculo natural. Porém, antes de conseguir ir ao tal lugar alguém me puxou para trás da moita.
– Shh. — avisou-me, Nicholas.
Logo segurou em minha mão levando-me para outro lado.
– O quê está fazendo? Nossos pais foram para lá. — sussurrei.
– Eu sei, mas há um lugar onde é mais alto e melhor para ver.
Apenas me calei e o segui. Por algum motivo confiava nele, talvez seja pelo seu charme, seus olhos, seu sorriso, mas também o jeito que ele se entusiasmava em ver alguém que também não seguia as regras tão perfeitamente.
Fomos a uma "torre" larga em que o andar superior estava a 4 metros do chãos. Ao subirmos entendi porque ele preferia ali. Era aconchegante com as folhas e flores cobertas com os últimos raios de Sol do dia. Certamente eram mais alto, podíamos ver nossa família um pouco adiante. Me debrucei na beirada da sacada e senti os raios quentes do Sol da primavera, junto da brisa que sobrou do inverno. O pôr do Sol é rápido, por isso quando eu e Phil combinamos de ir cavalgar e ver o Sol sumindo na Colina, temos que sair antes e mesmo assim passa bem depressa. Mas esse não. Esse estava durando cada segundo que tinha. Cada flor que começava a se abrir e cada folha que crescia, demorava. Como aquele pôr do Sol em que Nicholas estava ao meu lado debruçado também na sacada. Demorava. E não só demorava como me fazia pensar que não estávamos nos Jardins Reais, ou que ele era filho do Rei, ou que eu era da Nobreza e que logo teríamos que cada um voltar para seu devido lar. Era só eu, e ele, dois jovens vendo o Sol descer numa tarde fresca. Depois de minutos, que pareceram horas, o Sol sumiu e o céu estava com um tom rosado e alaranjado junto com o azul que escurecia acompanhados com estrelas, mas ainda claro.
– Melhor irmos. — avisou Nicholas.
– Sim, vamos. — concordei ainda meio atordoada.
Descemos e antes de irmos nos encontrar com nossos pais e segurou levemente no meu braço.
– Karine.
Meu nome parecia tão claro vindo dele.
– Apenas um... Presente.
Ele me entregou um livro. Estranhei no começo ao ler "Tudo o quê se precisa saber sobre Westminster". Era um livro que eu recebi no 1° ano do colegial de história.
– Tudo que vemos é uma perspectiva, não a verdade.
– Marcus Aurelius?
Ele sorriu em afirmação.
Abri o livro na primeira página onde estava escrito "A trágica estória de Hamlet, príncipe da Dinamarca, por William Shakespeare". Cobri minha boca surpresa.
– Gostou?
– Meu Deus, eu... Mas como você... Amei, amei... Obrigada. Puxa, e eu não tenho nada para te dar...
– Sua companhia foi o meu presente.
– Mesmo assim... — olhei ao meu redor e pensei em algo.
Fui ao arbusto do lado e peguei a flor que ali desabrochava.
– Aqui.
– Uma flor?
– Não é uma flor qualquer, é uma Ausland, que em alemão significa estrangeiro, apesar de ser uma flor inglesa.
– Além de gostar de ler, cavalgar, também sabe sobre flores.
– Não, não só sei dessa mesmo. — ri mas logo parei — É uma flor muito comum, mas sempre apareciam as que eram rosas claras perto da casa de uma amigo meu. Quando era pequena ficávamos brincando com elas, tirando as pétalas para ver quem achava uma que tinha mais.
– Coitadas.
– Eu sei. — disse sorrindo — Éramos pestinhas... Só que depois e um infortúnio, a morte da mãe de meu amigo, elas não cresceram mais, não naquele local.
Eu parei e ele me olhava coma atenção, preocupado.
– Mas ela nunca deixou de ser minha favorita. E eu não vejo a séculos uma igual aquelas, com a mesma cor. — olhei para a flor que estava o entregando — Até agora.
– Obrigado.
– Queria que você tivesse algo para lembrar de mim.
– Você não precisa se preocupar com isso. — disse sorrindo — Bem, sinto ser estraga prazeres, mas é inevitável que essa flor não dure para sempre.
– Eu sei, e não é para durar.
Olhou para mim confuso, com a testa franzida.
– Olhe, essa flor é para você lembrar de mim certo? Um presente. Assim como o livro que você me deu. Quando a flor morrer, que irá acontecer, será hora de encontrarmos novamente para que eu te dê algo mais... Digamos, durável.
– É uma ótima ideia.
Sorri em retribuição.
– É melhor irmos agora, já gastamos muito tempo.
– Espere.
Me virei.
– Obrigado.
– Não precisa me agradecer de novo.
– Não pela flor.
– Pelo o quê então?
– Não sei. — ele olhou para baixo e riu, olhou para cima novamente — Não estive tão feliz a um bom tempo, acho.
***
Não escrevo diários, não gosto da ideia de minha vida estar em um livro que posso perder ou alguém ler. Então, para não esquecer as coisas, exercito minha memória. Cheguei a um ponto em que escrevo o que quero lembrar e depois jogo o papel no fogo, para poder estar apenas comigo, e não em um papel qualquer. Essa noite, depois do chá escrevi. E muito, tive que jogar três folhas inteiras, frente e verso, na lareira. Escrevi sobre o Encontro de minha irmã, de ser flagrada lendo pelo Nicholas, de dançar com ele, de brigar com Phil, do Phil me dizendo que ele quer o melhor para mim, de quase não conseguindo respirar no espartilho, de não conseguir olhar de primeira naqueles olhos de mel, de ver por uma eternidade do seu lado, dos presentes trocados e promessas feitas. Tudo isso, agora, queimando junto com a lenha ás brasas, até virar cinzas. É curioso com as cinzas são tão mórbidas, não tem cor, são facilmente perdidas ao vento e não podem virar mais nada do que já são, cinzas.
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