Notas iniciais
Hoje, Olivia Mills vai mostrar para vocês como reagir num momento de necessidade/aperto/ação/perigo. A personagem Jessica Wally, que cito em um momento, não me pertence. Ela faz parte da fanfic Perpétuas Mudanças, da Hunter Debora Jones, então os créditos são dela. Alguns diálogos deste capítulo não me pertencem também, são da Marvel, provenientes de Era de Ultron, ok? Boa leitura!

De acordo com o top model asgardiano, vitórias devem ser comemoradas. E já que a Hydra levou uma boa rasteira, nada mais justo que os Vingadores se reunissem para celebrar nesta noite, três dias após nosso retorno a Nova York.

Além dos heróis, de Loki e de mim, vários agentes e amigos estão presentes na Torre, entre eles: Sam Wilson, o Falcão — achei ele bem fofo e simpático, por sinal! — e James Rhodes, mais conhecido como Máquina de Combate — não entendi muito bem a piada que ele contou, mas ri mesmo assim para não deixá-lo no vácuo, coitadinho.

Também estão presentes a Dra. Hellen Cho — que conseguiu remendar o Gavião Arqueiro com sucesso e agora fica secando o Deus do Trovão com seus olhos apertadinhos —, Maria Hill — uma agente badass e figura importante dentro da S.H.I.E.L.D. —, a agente Jessica Wally — crush absoluta do Capitão América —, Phil Coulson e meus convidados especiais Josh, Dr. Christian Patel e Amy.

Esta última está atrás do home bar do enorme salão. Ninguém lhe pediu que fizesse isso, mas ela tomou conta do local e está preparando um drink atrás do outro há cerca de meia hora.

De certa forma, isso me faz lembrar da época em que a conheci. Amy trabalhava em um bar de Nova York e eu entrei para afogar as mágoas devido a um coração partido. Só depois, quando iniciei o curso de Publicidade e Propaganda, esbarrei com ela e Josh na faculdade e nos tornamos inseparáveis.

Feliz por Amy ter aceitado o convite para esta noite, me aproximo do balcão e digo:

Eu não acredito que você está aqui.

— E eu não acredito que há três dias eu e Josh estávamos presos numa base secreta da S.H.I.E.L.D. — Ela arqueia as sobrancelhas de um jeito acusatório e começa a preparar uma bebida.

Meio culpada, me justifico:

— Sinto muito por isso, mas foi necessário. Depois que o gafanhoto se passou por mim e a Hydra entrou em cena, eu fiquei com medo que algo desse errado e algum lacaio do mal fosse atrás de vocês para me atingir. Eu não me perdoaria se algo acontecesse com você ou com Josh por minha causa.

— Relaxa, eu estou brincando. Até que foi divertido.

— Sério? — indago, surpresa.

Amy sorri amarelo e desmente:

— Não. Foram as horas mais longas e tediosas da minha vida. — Indicando a festa ao nosso redor, completa: — Isso sim é divertido.

Ela empurra a taça com uma bebida vermelha na minha direção e eu provo o primeiro gole. Aprovo fazendo um joinha e depois mudo de assunto:

— Recordando a época de bartender, hum?

— Quem sabe eu volte a trabalhar com isso, agora que fui demitida da agência? — ela diz em tom divertido, mas sinto a preocupação tangível em suas palavras.

Lembrando que minha amiga perdeu o emprego ontem, devido à corte de despesas, segundo a agência publicitária onde trabalhava, prossigo solidária:

— Amy, eu sinto muito. Como você está lidando com isso?

Enquanto prepara um drink para si mesma, ela responde pensativa:

— Não era o emprego dos sonhos, mas pagava minhas contas e a faculdade. Se bem que outras oportunidades virão, certo? Espero que logo, afinal contas a pagar.

De repente, lembro de uma coisa e tenho uma ideia. Animada, exponho no mesmo instante:

— Ei! Eu posso falar com o Tony. Talvez aquela vaga que ele me ofereceu, na assessoria de criação e marketing das Indústrias Stark, ainda esteja disponível. Ou talvez tenha surgido outra coisa.

Para minha surpresa, Amy recusa a oferta no ato, justificando-se:

— Não, Liv, nem pensar. Eu agradeço, mas não quero um emprego por indicação. Devem haver pessoas mais qualificadas, e eu não quero passar na frente de ninguém, pegando o caminho mais fácil.

Incrédula, busco confirmação:

— Sério?

Então minha amiga toma um longo gole da bebida que preparou e confessa meio envergonhada:

— Não. Tudo bem, fale com o Sr. Stark. Eu agradeço muito, estou desesperada. — Após uma pausa, ela ergue o dedo em riste e faz questão de deixar claro: — Mas diga que ele é livre para declinar, caso perceba que eu não me enquadro ou não sou qualificada o suficiente para o cargo.

— Eu posso até falar, mas quem vai determinar a sua contratação ou não será a Srta. Potts. Acho que ela manda mais na empresa do que aquele tolinho enlatado. — Rio um pouco disso e concluo: — De qualquer forma, eu tenho certeza que você é capacitada, Amy. Vai dar tudo certo e...

De repente, vejo algo pela minha visão periférica e paro de falar. Olho na direção da entrada e vejo o Vingador que faltava aparecer, cumprimentar alguns amigos pelo caminho e se aproximar meio distraído do home bar, enquanto Amy ajeita alguns copos e taças na parte interna do balcão.

— Virgem Santa! — Arregalo os olhos.

— O que foi, maluca? — Ela ri e leva a mão ao peito, recuperando-se do susto que levou com meu berro.

Neste momento, Bruce para ao meu lado e só então vê minha amiga atrás do balcão. E só então Amy o nota também. Um longo e intenso momento de silêncio se instala. De repente, sinto que estou sobrando. Porém não arredo o pé, pois quero descobrir o que vai acontecer agora, me julguem.

Tomo um gole generoso do drink, enquanto o alter ego do Incrível Hulk coloca as mãos nos bolsos da calça e desvia o olhar por um instante, lindamente tímido. Amy, por sua vez, o observa com um olhar semicerrado, parecendo intrigada com algo nele.

Por fim, Bruce a cumprimenta:

— Olá.

— Oi — ela responde. Após mais um momento o analisando, finalmente expõe o motivo de sua curiosidade: — Ei, isso não é uma cantada, mas o seu rosto não me é estranho. Eu tenho certeza que te conheço ou já te vi em algum lugar.

— Festa de aniversário do Tony, há alguns meses — Bruce relembra no ato, deixando claro que também não esqueceu do rosto dela.

— Certo, isso mesmo. — Amy sorri, de certo recordando aquela noite também. — Desculpe por ter esbarrado em você daquele jeito, geralmente eu não sou tão estabanada...

Ela para de falar, esperando que meu amigo diga o seu nome, mas ele parece meio lento, como se tivesse levado uma panelada na cabeça e continua olhando para Amy de um jeito indecifrável.

Considerando que não posso revelar que ele é o Gigante Esmeralda — apelido inventado pela própria —, adianto-me e faço as devidas e oficiais apresentações:

— Dr. Bruce Banner, cientista e amigo de longa data dos Vingadores. Bruce, esta é Am..

— Eu sei, Amelia Prescott — ele interrompe, deixando-me surpresa. Então, com o olhar fixo nela, acrescenta quase sem perceber: — Sua melhor amiga, antiga bartender e colega de faculdade, futura publicitária, irmã mais velha do Josh, fã de Friends, chocólatra, vocês se conhecem há anos, se reúnem aqui de vez em quando e...

Por fim, Bruce percebe que está falando demais. Acho que as sobrancelhas levemente arqueadas de Amy o fizeram concluir isso. Sem graça, ele limpa a garganta e explica:

— Olivia fala muito de você.

Com um discreto sorriso, minha amiga replica:

— E pelo visto você andou prestando bastante atenção no que ela disse.

Bruce parece meio zonzo. Já eu, estou me divertindo com o desenrolar do diálogo. Como uma expectadora bastante interessada, tomo mais um gole da minha bebida e vejo Amy se apoiar no balcão na direção dele. Então, inclinando um pouco o rosto, ela o chaveca:

— Alguma chance de saber o meu horóscopo para hoje também? Não que eu acredite muito em astrologia, mas dependendo do que ele me disser para esperar do sexo oposto, talvez eu fique interessada.

Quase engasgo com a bebida. Tenho certeza que algumas bolhas vão parar no meu nariz. Tento disfarçar que meus olhos estão vermelhos e ardendo, enquanto Banner se atrapalha ao responder:

— Eu... O quê? Desculpe, eu não quis... parecer um stalker...

Compadecida e ao mesmo tempo encantada com o seu embaraço, Amy decide parar com a tortura e muda de assunto, pegando duas garrafas e oferecendo:

— Aceita um drink, Dr. Banner?

Antes que o Vingador fofo dê um jeito de recusar educadamente e sair pela tangente, bato em seu ombro e respondo por ele:

— Ele aceita sim, mas é claro! Como não? — Levanto-me rápido e digo: — Sabem, eu acabei de lembrar que tem um gafanhoto solto por aí. Tenho que ir, fui!

Dou as costas para os dois, mas ainda ouço parte da conversa enquanto me afasto:

— Apenas Bruce, Srta. Prescott.

— Desde que você me chame apenas de Amelia.

— É justo.

Olho para trás e vejo que Bruce agora ocupa o meu lugar no balcão e que Amy sorri constantemente para ele. Quando volto a olhar para a frente, esbarro em cheio em Josh, que me segura e ri.

— Tudo bem, gata? Você parece uma barata tonta zanzando por aí. O que houve?

Dou um passo para trás e me recomponho. Em seguida, replico:

— Foi você que surgiu de repente. Para onde estava indo, chuchu?

Apesar de estranhar um pouco meu argumento, ele responde:

— Me despedir da minha irmãzinha. Por quê?

Querendo dar algum tempo para Amy e Bruce se conhecerem melhor, arrasto meu amigo pelo braço para bem longe do home bar ao mesmo tempo em que me comprometo:

— Pode deixar, eu digo para ela que você foi levar o Dr. Patel no aeroporto.

Josh parece confuso com a minha atitude, mas não protesta. Ao invés disso, suspira meio triste e lamenta:

— Uma semana em Londres em mais um Congresso. Como eu vou sobreviver sem aquela delícia por aqui?

Paro de caminhar e fico de frente para o meu melhor amigo. Então sugiro:

— Ora bolas! Vai com ele, criatura! Algumas faltas na faculdade não vão te matar.

Josh me encara com certa incredulidade, mas depois parece ponderar a opção, já que um sorriso animado surge em seu rosto. É então que me lembro de uma coisa importante e mudo de assunto:

— Ei, por acaso a Amy não descobriu quem o Hulk é, certo?

Josh desmancha o sorriso apaixonado e garante:

— Não, como você pediu, eu não disse uma palavra sobre isso. Para todos os efeitos, eu também não sei que ele é o Dr. Bruce Banner. Algum dia você vai me explicar por que eu estou mentindo para minha própria irmã?

Sorrio amarelo e argumento:

— Acredite, eu também não entendo. Acontece que o Bruce prefere assim. Mas acho que agora é uma questão de tempo até que ele mude de ideia.

— Tomara. — Josh revira os olhos por um instante. — Porque, honestamente, eu não aguento mais ouvi-la falando sobre as conversas com ele ao telefone e cada vez mais curiosa ao seu respeito. Às vezes, eu acho que vou bater com a língua nos dentes, mas sempre me controlo, é claro. — Após uma pausa, anuncia: — Bem, eu tenho que ir.

— Boa viagem — digo para deixá-lo ainda mais tentado a seguir o meu conselho.

Josh me puxa para si, beija minha testa e se despede:

— Se cuida, gata.

Observo ele se afastando até encontrar meu terapeuta lindo já próximo da saída. Aceno para o Dr. Patel e os dois logo desaparecerem de mãos dadas.

***

Instantes depois, estou caminhando entre os convidados quando reconheço a voz do gafanhoto no centro de uma rodinha:

— E foi assim que eu, Loki de Asgard, ajudei os Vingadores a capturarem o inimigo e a salvarem esse pequeno e frágil planeta azul dos seus planos. Sem a minha inegável natureza estrategista, óbvia inteligência e imensuráveis poderes de manipulação, certamente todos vocês estariam perdidos.

Nossa Senhora! Alerta de confusão!

Apresso o passo e vejo as expressões fechadas de Tony, Steve, Jessica Wally, Clint, Natasha, Maria Hill, Coulson, Falcão, Máquina de Combate e alguns agentes. Todos o fuzilando com olhares nada satisfeitos, para não dizer mortais.

Mesmo Thor parece transmitir um recado silencioso com o olhar, tentando dizer ao irmão para pegar leve na autopropaganda ou terá que acertá-lo com o Mjölnir.

Mas Loki simplesmente o ignora, para no centro da roda, abre os braços, sorri cheio de si e sugere:

— Eu acho que agora seria um bom momento para vocês se ajoelharam, mortais.

— Papagaio! — exclamo, puxando-o pela mão antes que o tempo feche de vez. — Vem comigo!

Por sorte, o deus trapaceiro não reluta. Limita-se a soltar uma risada vitoriosa e convencida, enquanto seguimos para um dos elevadores. Praticamente o empurro para dentro da cabine metálica e aperto o primeiro botão que vejo. Logo, estamos num andar mais silencioso e acima da festa. Saio e caminho até um tipo de sacada. Não demora muito e ouço seus passos atrás de mim.

Controlo a vontade de rir, pois no fundo achei o que Loki fez muito engraçado — impróprio, porém engraçado —, viro-me em sua direção e critico seu comportamento do jeito mais sério que consigo:

— Que coisa feia, gafanhoto. Ficar se gabando assim? Acredite, todo mundo lá embaixo sabe da sua contribuição e importância para o sucesso da missão Sokovia.

— Que bom. — Loki coloca as mãos para trás e endireita a postura como um pavão. — Mas eu faço questão que nem um deles esqueça disso tão cedo.

— Bem, eu nunca vou esquecer o que você fez — asseguro, orgulhosa. — A diferença é que você não precisa ficar me lembrando.

Minha confissão gratuita surte um efeito imediato no Deus da Trapaça. Ele me analisa atentamente por alguns segundos e deduz:

— Você parece grata.

Saio da defensiva de vez, me aproximo com passos lentos e posiciono os braços ao redor do seu pescoço.

— É porque eu estou, cara pálida.

Com tangível interesse, Loki me incentiva a ir mais longe:

— O quão grata você está, Olivia?

Para provocá-lo, faço-me de desentendida:

— Oh... Você e sua óbvia inteligência não perceberam ainda? — Fixo meu olhar no seu e esclareço: — Muito grata.

Ele então sorri de um jeito displicente, desliza suas mãos travessas pela minha cintura até parar no limite do quadril e insinua:

— Disposta a demonstrar essa gratidão de alguma forma?

Calor. Calor. Calor. Calor define. Quase perco o foco e deixo minha piriguete interior tomar conta da situação, atacá-lo, arrancar suas roupinhas asgardianas cafonas e eitcha lelê! Porém, acabo me lembrando do que o deus abusado e convencido fez há pouco na festa e recuo:

— Talvez. Mais tarde, quem sabe? Antes eu preciso entender uma coisa. Esclarecer, melhor dizendo.

Enquanto Loki luta para esconder a frustração e também certa apreensão sobre o que eu tenho a questionar, afasto-me um pouco, cruzo os braços e simplesmente prossigo:

— Você pode dizer o que quiser para os Vingadores e agentes lá embaixo, usar o que quiser para justificar suas últimas atitudes para com este pequeno e frágil planeta azul, se preservar atrás de mentiras sutis e muita propaganda de si mesmo. Mas eu preciso ouvir a motivação verdadeira. A principal. O que te levou, realmente, a fazer o que fez.

— Aonde você quer chegar com essa conversa, tormento? — indaga, afastando-se também e apoiando as mãos na sacada.

Tenho certeza que Loki sabe, contudo decido ser mais explícita e clara para que ele não banque o sonso. Ansiando por uma confissão sua, paro ao seu lado e intimo pausadamente:

— Diga a verdade, gafanhoto. Nada disso era problema seu. Então por que você se envolveu com os Vingadores? Por que aceitou ajudar?

Mesmo de perfil e com a pouca luz ao nosso redor, percebo como sua expressão está impassível. Ou o quanto ele luta para que ela pareça estar. No fundo, sei que está travando uma batalha consigo mesmo, com receio de se expor, mas percebendo que eu quero mesmo ouvir a verdade. A pura verdade. O que ele sente.

Sua resposta demora, mas finalmente vem:

— Porque... porque era importante para você. — Loki aperta o beiral da varanda e me olha de um jeito que me deixa arrepiada e ansiosa. — E o que é importante para você, de alguma forma, se tornou importante para mim.

Minha garganta está seca. Meu coração, acelerado.

O olhar de Loki muda drasticamente, para algo mais incisivo, quando ele conclui:

— E porque tudo aquilo que te assusta, que é uma ameaça para você ou para o seu mundo, merece ser destruído.

Sabe o chão? Estou nele.

Tudo bem, no fundo, eu desconfiava que esta criatura só aceitou mesmo a parceria com os Vingadores por minha causa, mas é muito bom ouvir isso com todas as letras e da forma como ele disse. Me vejo sem palavras diante da sua confissão. E devo estar com cara de retardada também, já que, algum tempo depois, ele estreita o olhar e pergunta:

— Era isso que você queria ouvir, Olivia?

— Algo assim — murmuro, meio engasgada.

Mais um longo momento de silêncio se passa, e Loki inquere:

— Você vai me dizer o que está pensando agora?

Solto a respiração presa em minha garganta, finalmente volto a mim e respondo com um sorriso malicioso:

— Pensando em como eu estou ainda mais grata. E que talvez eu fique até de joelhos.

Um sorriso torto e igualmente sugestivo surge nos lábios do deus trapaceiro. Sem pensar duas vezes, parto para o ataque e me lanço em seus braços. Agarro o danado e o beijo como se não houvesse amanhã. Com fogo e paixão, como naquela música do Wando.

Em virtude do bonde que arrasta por mim — rá! —, o gafanhoto corresponde à altura e faz minhas pernas ficarem trêmulas quando me aperta contra o seu corpinho esbelto e convidativo. Depois, morde meu queixo com segundas intenções e me segura pelos cabelos, deslizando sua boca levada pelo meu pescocinho cada vez mais arrepiado.

Lembrando-me de onde estamos, pego-o pela mão e saio da sacada aos tropeços. Precisamos ir para um lugar mais reservado urgentemente — aquela carinha.

Se bem que, quando avisto uma enorme mesa de reunião neste andar mesmo, decido que aqui está ótimo. Sem querer profanar o móvel em si — pelo menos, não agora —, abaixo e me arrasto para debaixo dele, engatinhando.

Bato a cabeça no tampo e xingo baixinho. Mas esqueço a pontada de dor quando sinto as mãos do trapaceiro irresistível abrindo o meu vestido...

Algum tempo depois

Quando o gafanhoto e eu por fim voltamos para a confraternização, descobrimos que ela praticamente terminou. Depois que saímos do elevador, noto que a maioria das pessoas já foi embora, restando apenas os Vingadores, Maria Hill e Amy.

Minha amiga e Bruce continuam conversando no home bar, enquanto o restante do grupo está esparramado num grande sofá e em algumas poltronas, fazendo uma espécie de disputa ao Mjölnir.

À medida que nos aproximamos, o top model asgardiano ergue seu martelo mágico de uma mesa ao centro e triunfa todo pomposo:

— Vocês não são dignos.

Todos riem com deboche diante de tanta modéstia, inclusive eu — apesar de ter pegado o bonde andando. Mas o momento de descontração é interrompido bruscamente, quando um zunido estridente e incômodo ecoa por toda a parte.

Antes que alguém pergunte o que diabos causou isso, uma voz sombria e meio robótica chega até nós:

— Dignos? Não. Como seriam dignos? Vocês são assassinos.

Neste momento, sinto que algo de errado não está certo, como diria minha saudosa avó. Quando todos se levantam apreensivos, atraídos pela misteriosa voz, paro de pensar nela e sigo o olhar do grupo. Não faz muito sentido, mas uma das armaduras de um programa de contenção de Tony — intitulado Legião de Ferro e que também ajudou na missão Sokovia — está no mezanino abaixo de nós, zanzando de uma forma bizarra, parecendo consciente de alguma forma.

— Stark? — o Capitão América intima o amigo, querendo entender o que está acontecendo, bem como todos nós.

— J.A.R.V.I.S.? — Tony aciona a Inteligência Artificial, porém não obtém qualquer retorno.

Enquanto todos se entreolham confusos, a armadura andarilha continua falando:

— Perdão? Eu adormeci? Ou estava sonhando acordado?

O Homem de Ferro mexe no tablet em suas mãos e orienta J.A.R.V.I.S.:

— Reinicie o programa, temos um traje com defeito aqui.

Novamente, ninguém lhe responde. Mais uma vez, o robô abaixo de nós prossegue com o falatório sem sentido:

— Tinha um barulho terrível e eu estava preso por cordões. Tive que matar o outro cara. Era um cara legal.

— Você matou alguém? — Steve questiona.

— Não era minha primeira escolha. Mas no mundo real temos que enfrentar escolhas cruéis — a armadura responde, provando que está mesmo pensando por conta própria.

— Quem o enviou? — Loki indaga, tomando sutilmente a minha frente.

Como resposta, o robô maluco aciona um botão em sua armadura e todos ouvimos a voz de Tony Stark como numa gravação:

“Eu vejo uma armadura ao redor do mundo.”

Chegando a uma conclusão, Bruce Banner nos deixa mais perdidos do que cegos em tiroteio quando nomeia a criatura com precisão:

— Ultron.

— Em carne e osso. — A bizarra Inteligência Artificial confirma, porém, em seguida, examina a sua própria aparência e emenda com certo desgosto: — Ou não, ainda não. Não nessa crisália. Mas estou pronto, de qualquer forma, e estou numa missão.

Em alerta, Natasha inquere:

— Que missão?

Ultron ergue a cabeça em nossa direção e profetiza:

— Paz para a nossa época.

Tudo acontece tão rápido que não tenho tempo de reagir. Mais duas armaduras surgem de repente, perfurando a parede atrás do mezanino e vindo em nossa direção a toda velocidade, disparando raios propulsores para todos os lados, estilhaçando móveis e janelas pelo caminho.

Loki me protege com seu corpo e me empurra para debaixo de uma das mesas. Por um momento, penso que vai rolar repeteco, mas então lembro que agora não é o momento de Olivia Piriguete Mills vir à tona de novo. Quando dou por mim, o gafanhoto desapareceu.

— Oxente! — exclamo confusa, pronta para ir atrás dele.

Faço menção de sair de onde estou, mas cacos de vidro caem ao meu redor como uma chuva mortífera, me fazendo recuar imediatamente, colocar minha viola no saco e ficar bem quietinha. Limito-me a dar um giro e observar tudo em volta.

Num desses momentos, vejo Bruce cair sobre Amy atrás do home bar, tentando protegê-la dos disparos destrutivos de Ultron. Pergunto-me se é agora que ele vai ficar verde e minha amiga descobrirá a verdade.

Aparentemente, não foi desta vez. Bruce parece estável. Alerta como todos, porém controlado no que diz respeito ao Hulk vir à tona.

Paro de olhar para eles, quando o escudo do Capitão América cai perto de mim, destruindo uma das armaduras e prendendo-a contra o chão. Tentada, estico a mãozinha para tocar, e talvez afanar por alguns instantes, o frisbee poderoso do herói patriota, mas ele é mais rápido e o pega de volta. Recuo novamente.

Ouço tiros a minha volta enquanto vejo Clint disparar suas flechas sem descanso. Outras armaduras de Ultron surgem por todos os lados e percorrem a já destruída sala. Thor trabalha constantemente com o seu Mjölnir, Tony com seu traje de Homem de Ferro e Loki luta como o trapaceiro e ótimo estrategista que é, desaparecendo nos momentos oportunos, surpreendendo as armaduras diabólicas quando menos esperam que ele apareça e as destruindo com agilidade, força e maestria.

Admirada e, ao mesmo tempo, tensa, demoro a perceber que metade de um traje de Ultron se arrasta até mim de forma ameaçadora.

Por instinto, tiro uma das sandálias do pé e acerto vários golpes na cabeça do mequetrefe de platina, como se ele fosse uma enorme e inconveniente barata cascuda. Não funciona muito bem, então parto para outra estratégia de ataque. Chuto o desgraçado com o máximo de força que consigo reunir, ao mesmo tempo em que grito a plenos pulmões:

— Die, bitch! Die!

Surpresa, observo seus olhos, até então brilhantes num tom azulado, apagarem-se enquanto ele desliza pelo chão a toda velocidade e se choca contra a parede, a vários metros de mim, ficando completamente destruído com a força do impacto.

Não sei se estou feliz por ter funcionado ou confusa com o poder descomunal que existe dentro de mim. Talvez as duas coisas.

Quando a situação parece sob controle, deixo a mesa para trás e me levanto. Uma rápida e panorâmica olhada, e constato que todos estão bem apesar do perrengue todo. Ufa!

Entretanto, ainda há um Ultron remanescente. E ele soa muito determinado e ameaçador quando diz:

— Isso foi dramático! Desculpem, eu sei que vocês têm boas intenções, mas não pensaram direito. Vocês querem proteger o mundo, mas não querem que ele mude. Como a humanidade será salva, se não for permitido que ela evolua? — Ele pega uma das armaduras destruídas do chão e, enquanto a esmaga ainda mais, protesta: — Com isso?! Essas marionetes?! Só existe um caminho para a paz: a extinção dos Vingadores.

Neste momento, Loki se materializa atrás dele e separa sua cabeça de bagre do corpo metálico com violência, largando-a no chão logo depois.

Os olhos de Ultron, por fim, apagam-se. Porém, algo nas expressões de Tony e Bruce me fazem apostar que este pesadelo está apenas começando. Algo me diz que o babado é forte.

Notas finais
Sim, o babado é forte! Ultron na área! Corram para as colinas, mas antes... reviews? Gostaram de Bruce e Amy frente a frente? E de Lokivia embaixo da mesa? Mas e as câmeras? Oi? E a barata cascuda? Ahahahahah eu me diverti muito escrevendo este capítulo e espero que tenham gostado. Bjs!