Trapaças na Noite Escura
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu não devia ter matado Hugh Nikolaieivitch. O pensamento me ocorreu assim que comecei a procurar pelos diamantes. Cadê os diamantes, cadê… Eu percebera a trama, mas já era tarde demais: todos já tínhamos caído nas teias do desastre e, como insetos, fomos devorados impetuosamente pela aranha em seu sorriso sádico. Achávamos que éramos intocáveis, indestrutíveis. Quase como uma espécie ainda desconhecida de deuses ou heróis, mas como reles mortais, nós caímos. E a queda foi longa e dura para todos nós. Quero dizer…
Deixe-me começar por quando eu, Petrus, Hugh e Dimitri ainda estávamos no mais alto patamar dos deuses, elevados a quase criaturas imortais. Devo confessar que nossos negócios e maneiras de ganhar a vida não eram dos mais honestos, mas normalmente estávamos chapados demais ou isentos de culpa para nos preocupar. Como já disse, também achávamos que éramos espertos demais, jovens demais… Atrevo-me a dizer que foi pela nossa arrogância que a queda veio, tolos em demasia para aceitar um perigo iminente até que estivesse em nossas caras pronto para pingar seu veneno em nossas bocas como uma ardilosa serpente cheia de veneno.
Chamávamos-nos de Baralho do Diabo por vezes. E todos conheciam o Baralho do Diabo nos bares mais escuros, sujos e mal frequentados de Moscou. Tínhamos trabalhado duro para sermos reconhecidos e conquistamos nosso merecido respeito.
Poucos sabiam nossos verdadeiros nomes embora também não nos importássemos em esconder os rostos.
Mas suponho que seja mais fácil temer o desconhecido do que pessoas com rosto e mais, ou talvez simplesmente precisassem de um motivo para o apelido que recebemos sem que nenhum de nós pedisse por isso.
Hugh Nikolaieivitch Ivanov era chamado de Às de Ouros. Corria a lenda de que ele podia esfregar duas moedas e fazer surgir uma terceira. Às vezes eu quase acreditava neles. Era Hugh que cuidava das finanças do grupo e nunca falhou conosco. Não era exatamente bonito, mas grande e forte o bastante para causar medo nas pessoas certas. Tinha um rosto anguloso e lábios que nunca aprenderam a sorrir e que conheciam apenas um irônico riso que por vezes podia ser tomado por um suspiro, ou uma bufada. Era rápido com as ideias, e os gestos costumavam acompanhar os pensamentos, principalmente se tinha uma arma disponível. Preferia um serviço rápido e silencioso, é verdade, mas nunca o vi hesitar ao puxar um gatilho. Permanecia calado a maior parte do tempo, mas às vezes eu achava que era o mais esperto de nós. Pelo menos via mais do que qualquer um dos outros, disso estou certa. Nunca disse o que fazia antes de começar a sociedade com Petrus, mas nós também nunca tivemos coragem de perguntar, temendo talvez que nosso trabalho fosse fichinha perto do antigo de Hugh. Ou era isso que as cicatrizes ao longo de seu corpo levavam a crer.
Dimitri Armanevich Volkov era o mais novo. Não apenas porque se juntara a nós por último, mas também porque aparentava ter acabado de sair da adolescência e era um tanto imprudente demais. Um jovem de sorriso fácil e mãos leves era conhecido por Valete de Paus, embora eu soubesse que algumas garotas costumavam gemer outro nomes em sua cama. Um conquistador nato, ele conhecia mais do mundo das mulheres que dos negócios, e mesmo que não fosse capaz de segurar uma moeda furada no bolso, era bom em conseguir o dinheiro que caia em nossas contas. Petrus o considerava um gato malandro, desses que sai a noite inteira, mas que sempre volta para casa enquanto lhe deem comida. Passava alguns dias sem que se tivesse notícias dele, mas enquanto fosse útil para os negócios e não nos atrapalhasse, o que fazia de sua vida pessoal não nos interessava.
Quanto a mim? Chamavam-me de Dama de Copas no que creio ser melhor do que dama da noite, mesmo que nunca tenha me importado. Afinal, creio que não posso me ofender com verdades, e minha vida nunca foi das mais corretas. Costumava ser uma prostituta antes, ganhando dinheiro fácil ao deitar. Mas quando descobrir que haviam outros jeitos de conseguir dinheiro também fácil, larguei minha antiga profissão e deixei bem claro que nunca mais me deitaria por qualquer dinheiro que fosse, pois tenho certeza que Dimitri não hesitaria em abrir a carteia se eu abrisse as pernas e o deixasse me possuir. Tinha a mania de me vestir dramaticamente em vermelho ou preto e sei o que os homens diziam as minhas costas, mesmo que não se atravessem a mexer comigo, sobre o risco de acordarem mortos, ou pior, sem as bolas na manhã seguinte. Acho que era bonita, apesar de ter sido feia durante a adolescência com os cabelos castanhos bagunçados e bons quilos mais gorda. Suponho que tenha aflorado mais tarde, pois podia agora sentir os olhos devoradores dos homens sobre mim e não havia nada da antiga Ania Petrovna Korolenko na mulher fatal que eu me tornara, a não ser pela maldita cicatriz que tenho embaixo da orelha, no pescoço.
E o líder do nosso grupo era Petrus Sachavish Gorbatchev. Alguns diziam que tinha o poder de decidir entre a vida e a morte, e que com algumas palavras podia fazer o que quisesse. Não sabíamos exatamente como a lenda surgira, mas acabamos por manter as aparências em público, o que só tornava-nos mais temidos. A verdade é que quando estávamos sozinhos ninguém tratava Petrus como um deus, e ele estava no mesmo patamar que o resto de nós, sorrindo e fazendo piadas, planejando nossos próximos movimentos do mesmo jeito que qualquer um do grupo. Mas fora procurávamos assumir uma postura de “se o chefe falou, então assim tem que ser”, apenas para aumentar o medo. Por isso ele recebeu o apelido de Rei de Espadas, o temido Rei de Espadas. Para mim, ele não era assim tão temido, pois eu via nele um pouco mais do que a simples figura de um homem frio e sem escrúpulos. Petrus era para mim o mais próximo de um amigo de verdade que eu tivera durante toda a minha vida. Não posso negar que sentia uma conexão com todos daquele estranho grupo, mas fora Petrus que eu conhecera primeiro, e era Petrus com quem eu mais conversava sobre assuntos fora dos negócios. Não podia, também, negar a beleza em seus traços. O nariz longo e reto, lábios um tanto finos, os cabelos finos e loiro, compridos o bastante para que fossem presos em um rabo-de-cavalo. Usava uma barba rala no queixo e gostava de se vestir elegantemente em ternos caros que apenas o deixavam mais lindo e o faziam parecer estranhamente perverso.
Foi, porém, Petrus, esse homem tão sem sentimentos, que começou tudo. Quando ele anunciou que estava namorando uma garota chamada Irina Yurievna, eu sabia que alguma coisa cheirava mal. Se fosse Dimitri com uma namorada eu entenderia, mas Petrus? Petrus nunca demonstrara qualquer sinal por outra garota…
Certo dia, combinamos de ir até o bar que costumávamos frequentar, todos nós. Estávamos planejando um novo golpe, mas não tínhamos um plano tão bom ainda, e Dimitri dissera que conhecia alguém… Ou teria sido Hugh que conhecia? Não importa. O fato é que nós três já estávamos no bar, apenas esperando Petrus, que se demorava em chegar mais do que o habitual.
Justamente naquele momento Hugh se levantara para ir ao banheiro, deixando-me sozinha com Dimitri. Normalmente não tínhamos muita intimidade, e ele apenas olhou um pouco constrangido para mim, talvez tentando pensar em um assunto que não me ofendesse, diferente das conversas sujas que ele não importava em falar quando havia outros homens por perto. Não me sentia nenhum pouco tentada a começar um assunto, então simplesmente esperei que ele falasse qualquer coisa. Dimitri olhou para trás, em direção à porta, talvez buscando inspiração.
Segui o seu olhar.
E foi quando a vi entrando. Uma mulherzinha esquisita, baixa e pouco arrumada.
– Ela é bonita, não? – perguntou, indicando a mulher com a cabeça, que acabara de virar o rosto em nossa direção, – Acho que está olhando para mim. – ele disse, arqueando as sobrancelhas para ela.
Mas, não muito depois, Petrus entrou no bar também e lado ao lado com a mulher, ele andou até nós, apenas para apresenta-la como sua nova namorada, já conhecida por nós através de suas palavras.
Ela não era bonita. Tinha uma cara de rato, o nariz arrebitado na cara amassada, as orelhas um pouco grandes tentando se esconder no cabelo castanho e quebradiço. Usava também uma pele nos ombros que apenas lhe trazia um ar mais ratinheiro.
– Pessoal, quero que conheçam Irina Yurievna. – disse Petrus para nós, com a mão cuidadosamente apoiada no ombro dela, quase com certo receio, preocupado também em não parecer tão próximo dela e evitar as brincadeiras de Dimitri mais tarde.
– Ah, – ela disse – por favor. Me chamem só de Irina.
Quando ela falou, quase cuspi toda a bebida que tinha na boca. Acontece que Irina Yurievna não tinha apenas uma cara de rato, ela também falava com uma terrível voz anasalada que talvez apenas a fizesse parecer mais com o animal.
Eu não tenho certeza do que Petrus viu nela. Mas o que quer que tenha sido, pareceu-me que Dimitri vira o mesmo, os olhos claros voltados para a mulher com a mesma expressão que eu já vira olhar para tantas mulheres mais bonitas – o olhar do caçador. Quando Hugh finalmente voltou a se juntar a nós, e Petrus fez novas apresentações, percebi que Hugh achara a mesma coisa que eu sobre Irina Yurievna, mas não tentou disfarçar os olhares para a mulher. Quando todos nos sentamos, desta vez acrescentando uma cadeira a mais a nossa mesa de usuais quatro lugares, todos olharam de Petrus para a namorada, sem saber se devíamos discutir sobre os nossos negócios na presença dela, ou se era mais prudente deixar a conversa para depois.
Nesse ponto, felizmente, Petrus foi sensato. Começou a conversar sobre qualquer coisa que não envolvesse nossos negócios, sempre brecando Dimitri discretamente quando percebia que ele estava indo longe demais. Descobrimos que não era nada fácil conversar sem envolver nossos negócios, os quais estávamos acostumados a discutir tão livremente quando nos reuníamos. Mas felizmente eu tinha certa pratica em falar sobre assuntos aleatórios para distrair os homens quando me deitava com eles, preocupada que não percebessem que eu estava ali apenas pelo dinheiro e fingindo que havia algum prazer em ficar com eles. Hugh, como sempre, foi o que menos participou da conversa, mas deve ter observado tanto quando eu que os olhos grandes demais de Irina Yurievna sempre corriam entre eu, Hugh e Dimitri, dificilmente se voltando para Petrus, que parecia um tanto constrangido em ter-nos conversando com a namorada que até então ele se preocupara em esconder, e eu soube que ela estava ali apenas por insistência própria.
Quando a noite terminou, eu gostava bem menos de Irina Yurievna do que quando a conheci. A mulher se mostrou superficial e burra, e secretamente comecei a desejar que Petrus terminasse logo com ela, assim Irina Yurievna não teria motivos para continuar frequentando os mesmos lugares que eu e iria embora, como todas as mulheres que já haviam se aventurado por aquela parte da cidade faziam.
As mulheres apareciam, divertiam-se e iam embora, sempre de coração partido ou com uma bala no coração. Apenas eu ficava, vendo enquanto cada uma delas chegava e se ia, algumas sem que ninguém nem mesmo tivesse a oportunidade de saber seu nome.
E eu sinceramente esperava que isso acontecesse com Irina Yurievna. Se não fosse namorada de Petrus, e portando intocável, eu já teria acertado uma bala bem na testa dela.
Mas, procurei não me irritar muito com isso. Petrus não era nenhum romântico apaixonado, logo voltaria à razão fria e perceberia que uma namorada não fazia bem aos negócios, os quais eu sei que prezava muito.
Vários dias se passaram sem que nenhum de nós se encontrasse novamente. Não sei exatamente o que cada um deles fez durante esse tempo, e nem nunca me interessei muito em saber, mas eu me mantive no meu apartamento a maior parte do tempo, descendo apenas algumas vezes para tomar um drinque, e aproveitei para comprar um vestido vermelho de grife novo, cuja saia abria do lado esquerdo, deixando boa parte da minha perna à mostra, mas sem que mostrasse nenhuma outra parte que valesse muita pena olhar.
Eu estava morava em um apartamento consideravelmente grande, mas não muito limpo ou decorado. Julgava que poderia fazer aquele lugar ganhar vida novamente colocando um grande lustre de cristal na sala, arrumando a iluminação sempre falha e me assegurando que não o dividia com ratos, baratas e outros animaizinhos nojentos, mas prezava demais meu dinheiro para tomar qualquer uma dessas providencias. Na verdade me sentia muito mais confortável gastando com roupas e joias, que eu poderia facilmente levar de um lugar para o outro, caso houvesse a necessidade de uma fuga rápida, do que o conforto de um lar elegante.
Gostava também de ir até a sacada para fumar, observando todo o movimento do alto do nono andar, acompanhando enquanto os homens e mulheres tentava ganhar a vida naquele bairro estranho, e era o que fazia naquele momento. Via claramente uma mulher loira com a roupa rasgada e maquiagem borrada conversando com um homem negro e alto que apenas olhava para os peitos dela enquanto procurava alguma coisa na carteira de couro; dois homens usando chapéus enquanto discutiam alto, provavelmente de gangues inimigas, um deles com uma arma já em mãos; um velho tocando um saxofone em uma esquina e algumas pessoas que passavam ocasionalmente lhe dando alguma moeda. Traguei com vontade o cigarro, saboreie a doce fumaça antes de soltá-la pela boca, a fim de se juntar ao resto da poluição que já cobria a todos nós como um manto pouco desejado, mas que nos mantinha aquecido mesmo assim.
O telefone tocou lá dentro. Não me mexi. O telefone continuou tocando nervosamente. Joguei o cigarro no chão, apagando-o com uma pisada do meu salto, e entrei no apartamento, indo até a cozinha de luz fraca e atendendo ao telefone.
– Alô? – disse quase em um sussurro, ainda muito irritada por algum ter a capacidade de interromper meus momentos de tranquilidade.
– Ania? – veio a voz do outro lado, uma voz que eu não identifiquei no começo, mas que logo ficou bem claro a quem pertencia. – Terá um jogo no McMills hoje. Quer vir? É sua vez de jogar.
Balancei a cabeça, mesmo sabendo que ele não podia ver meu gesto, e logo depois confirmei com palavras:
– Claro, Hugh. – falei, – Não comecem sem mim, estou chegando.
O bar McMills era tão perto do prédio onde eu morava que não compensava pegar um carro. Simplesmente vesti um casaco preto de meio corpo e então comecei a andar, sustentando-me em meus saltos altos e segurando uma bolsa com um maço de cigarros dentro. Cassinos não eram mais permitidos em boa parte da Rússia, mas nada impedia que o McMills tivesse alguns jogos de tempo em tempo, sempre com uma grana alta apostada. Os jogadores normalmente tinha preferencia por pôquer, mas algumas vezes também jogamos blackjack, elêusis e tantos outros jogos de cartas.
Quando eu estava quase chegando encontrei Petrus, que seguia para o mesmo destino que eu, abotoando as mangas do terno, sem perceber eu que o estava olhando. Porém, quando finalmente olhou para frente, seus olhos verdes inteligentes me viram e ele andou em minha direção, com um sorriso malioso no rosto.
Observei enquanto ele se aproximava, sem parar de andar, diminuindo o passo para que me alcançasse. Aproveitei para abrir a bolsa com os meus dedos teimosos, que pareciam um pouco rígido sem que eu soubesse o porquê, e pegar um cigarro do maço que tinha, colocando-o na boca e então falei para Petrus, sem olhar para ele.
– Tem um isqueiro?
Ele não disse nada, apenas enfiou a mão no bolso e me virei para ele, colocando a mão em concha envolta do cigarro e deixando que ele o acendesse. Ofereci-lhe um cigarro também, enquanto dava uma profunda tragada no meu, mas Petrus recusou com um aceno de mão. O loiro tinha os cabelos loiros em um rabo-de-cavalo e usava um chapéu cinza sobre eles, que me fazia lembrar estranhamente da noite em que tínhamos nos conhecido. Olhei de relance para ele, tirando o cigarro da boca e soltando a fumaça lentamente. Eu ainda era uma prostituta quando havíamos nos conhecido, e ele fora um dos meus clientes. Lembrava-me ainda claramente quando acordei na manhã seguinte, antes de Petrus, e encontrei sua carteira, cheia demais para que eu a ignorasse. Estava pronta para levar todo o dinheiro, deixando o homem adormecido para trás, quando Petrus acordara e me pegara abrindo a porta do quarto de motel que estávamos. Mas, ao invés de achar ruim e chamar a polícia ou tentar pegar o dinheiro de volta a força, como eu achei que faria, ele simplesmente riu, pegando um papel qualquer e anotando um endereço antes de sair do quarto, dizendo que se quisesse mais dinheiro devia encontrá-lo lá ao meio-dia, e me deixando com o que tinha roubado.
Claro que a atitude do homem me deixara curiosa e, mesmo suspeitando de uma armadilha, segui até o endereço que me passara, apenas para encontrar um prédio velho, onde conheci também Hugh, já que mais tarde descobri se tratar de seu apartamento, e me juntei à sociedade que eles haviam acabado de formar, interessando-me instantaneamente na ideia e sendo bem aceita tanto por Hugh quando Petrus.
Mas aquilo se passara três anos antes, e eu tinha amadurecido muito desde o meu primeiro encontro com Petrus em um motel barato, então eu sabia tantas coisas que nunca nem sonhara quando era apenas uma prostituta. Como, por exemplo, que jogos de carta podiam ser muito lucrativos.
Quando finalmente alcançamos o McMills, eu e Petrus nos dirigimos até os fundos do bar, onde normalmente aconteciam os jogos. Além de Hugh e Dimitri, lá já se encontraram dois homens. Todos nos sentamos e começamos a jogar. Eu sabia o que devia fazer, sabia como fazer, então comecei a jogar de um jeito não honesto, sabendo que com aquelas trapaças iria vencer. Dimitri, Hugh e Petrus apostando altos valores, incentivando os outros a apostar também, mesmo que os três primeiros soubessem que iriam perder, eles também sabiam que no final todo o dinheiro que eu conseguisse seria dividido entre nós quatro. Deixei que um dos homens ganhasse a primeira jogada, e na segunda, quando confiantes e começando a se embebedar com os drinques que eram pedidos com uma frequência cada vez maior, eles apostaram valores mais altos ainda. E foi nesse ponto eu que dei meu bote, deixando que eles mostrassem as cartas primeiro e então sorrindo tranquilamente ao mostrar as minhas.
Um Royal Flush de Copas.
Ouvi as exclamações dos homens, alterados pelo álcool, mas mesmo assim levamos todo o dinheiro deles, pedindo uma rodada de bebida em comemoração.
Quando finalmente fomos embora, deixando o dinheiro por conta de Hugh, que mais tarde dividiria tudo, todos nós voltamos para casa, eu, Petrus e Dimitri (que morava no mesmo prédio que Petrus) fazendo o caminho de volta lado a lado até tivéssemos que seguir por ruas diferentes. Estava quase pronta para convidá-los para ir até a minha casa e jantar por lá, quando Petrus mencionou alguma coisa sobre como estava ansioso para voltar para casa e para Irina Yurievna. Abri a boca, pensei novamente no que ia dizer e então perguntei se com isso ele queria dizer que eles estavam morando juntos. Petrus riu e logo depois disse:
– Ela apenas vai passar a noite comigo – os olhos verdes me encarando com tanta intensidade, que era quase como se pudessem se pregar em mim como balas. – Para um ex-puta não devia ser tão inocente, Ania, sabe o que quero dizer com isso.
Sim, eu sabia, mas não pude deixar de me sentir chocada. Petrus não tivera uma única namorada desde que eu podia me lembrar, apesar de saber que às vezes se deitava por um pouco de prazer, mas também sabia que nunca levava nenhuma das mulheres que conhecia para casa. Poderia Irina Yurievna ter feito uma lavagem cerebral nele ele?
Dimitri sorriu para ele, dando-lhe alguns tapinhas, mas o jeito com o qual ele não fez nenhuma brincadeira me foi estranha, apesar de ter soltado a irônica frase:
– Só procurem não fazer muito barulho. Pretendo dormir essa noite, chefe! – ele disse, visto que morava no andar abaixo de Petrus.
O loiro pareceu um tanto constrangido, procurando apoio e olhando para o chão. Petrus normalmente não ficava tão constrangido tão facilmente, mas parecia que quando o assunto era amor, ele não sabia exatamente como lidar com isso publicamente.
Não mencionei nada sobre minhas ideias de jantarmos juntos, afinal não queria ter apenas Dimitri na minha casa e sabia que Petrus recusaria, já que Irina Yurievna o esperava. Acabamos nos despedindo e seguindo caminhos diferentes, cada um voltando para nossos respectivos apartamentos, e enquanto eu andava pelas ruas cada vez mais geladas e escuras eu agradecia por ter colocado um casaco. Abracei meu próprio corpo, tentando me proteger do frio e ouvindo meus saltos batendo no chão e ecoando pelos meus ouvidos, o único barulho da noite a não ser pelo alarme de um carro longe dali.
Quando entrei finalmente em casa naquela noite, aliviada por chegar ao conforto do meu lar, deitei-me rapidamente, livrando-me das minhas roupas e substituindo-as por uma camisola branca. E eu dormi assim que coloquei a cabeça no travesseiro, incapaz de sentir qualquer remorso sobre as trapaças e desonestidades que tinha cometido naquela noite e também bloqueando qualquer pensamento sobre qualquer outro integrante do Baralho do Diabo e quem poderia estar aquecendo a cama deles naquela noite.
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