Trapaças do Destino
39 Final
Notas iniciais

Nunca pensei que eu teria um irmão, muito menos que ele seria um tremendo pé de valsa. Mas Peter Quill, ou Senhor das Estrelas como adora ser chamado, é tudo isso e muito mais. Ele venceria um concurso de dança facilmente e eu o adoro e admiro mais a cada dia. Não só por causa disso, mas por tudo o que ele é. Um bom homem e um herói incrível.
É difícil para mim acompanhar o seu ritmo enquanto dançamos ao som de Hooked on a feeling, no meio de um salão de festas que eu nem sabia que existia na Torre dos Vingadores, mas sigo rodopiando à medida que meu irmão me guia e não posso negar que isso é bem divertido.
Tony Stark não se incomodou nem um pouco quando Peter se encarregou de selecionar a trilha sonora para a sua festa de aniversário. Aliás, Tony aprovou e muito o Mix Awesome parte 1 e 2 que meu irmão listou para J.A.R.V.I.S. baixar e reproduzir durante essa festa que já dura algumas horas e se estende noite adentro.
Todos os Vingadores estão aqui prestigiando o Homem de Ferro, exceto Bruce que teve algum imprevisto no laboratório, mas virá daqui a pouco.
Além de Steve, Clint, Natasha e Thor, Pepper Potts, Jane Foster, Darcy — sua amiga fofa que tive o prazer de conhecer há pouco —, Ian, o namorado dela, um físico chamado Erik Selvig, Jessica Fofa Wally, outros agentes da S.H.I.E.L.D. e alguns conhecidos de Tony, como o Dr. Christian Gato Patel, estão aqui. Ah! Josh e Amy também.
Isso mesmo, meus melhores amigos também foram convidados. Por um pedido meu ao aniversariante, é claro. Eles estavam loucos para conhecer o time de super heróis e, depois de tantas mentiras que eu contei aos dois durante a minha missão envolvendo Loki, eles mereciam um presente como esse.
Não preciso nem dizer que Josh está mais interessado em cercar o meu terapeuta do que em dar um confere no traseiro de Steve Rogers ou uma apalpada básica nos braços fortes de Thor, certo? Pois é. Da última vez que eu vi, meu melhor amigo e seu futuro boy magia estavam conversando em um canto do salão. Olhos nos olhos e uma discreta troca de sorrisos. Fofos!
Já Amy... Bem, digamos que ela ficou muito impressionada quando conheceu o meu irmão, mas depois que eu contei sobre a piriguete espacial que roubou o coração dele, ela parece ter desistido da ideia de se tornar minha cunhada e, pelo o que eu vi até agora, está tentando se distrair com as outras pessoas da festa.
Sim! Eu contei a ela e ao Josh sobre Peter. Não tinha como não contar. Foi difícil para mim porque eu precisei abrir todo o jogo, contar sobre minhas origens alienígenas por parte de um pai que eu não tenho ideia quem é, nem por onde anda, mas eu consegui.
Numa bela tarde de sol há algumas semanas, chamei os dois para uma sessão de filmes no meu cafofo — lê-se: obriguei meus amigos a assistirem ET — O extraterrestre comigo duas vezes seguidas —, e quando eles me questionaram sobre o que eu pretendia dizer com aquela tortura tão peculiar, eu respondi que só queria mostrar como os alienígenas podem ser fofos. E como eu posso ser fofa também.
Tive que ser mais direta e meus amigos finalmente entenderam o X da questão. Ambos ficaram chocados a princípio, é verdade, mas o importante é que eles me aceitaram e não ficaram me olhando como se eu fosse um ET, embora eu seja metade isso, convenhamos.
Josh, numa demonstração de extrema fofura, chegou a dizer que sempre soube que Olivia Mills não poderia ser deste planeta. Pelo menos, não totalmente. E junto com Amy me abraçou forte.
Resumo da ópera: o último mês foi um dos melhores que eu já vivi. Meu acerto de contas com o passado, a visita ao túmulo de minha avó, o retorno do trapaceiro irresistível, a descoberta de que eu tenho um irmão e poder ser sincera com os meus amigos acenderam uma esperança genuína dentro de mim. A esperança de que tudo vai dar certo de agora em diante, de que minha vida finalmente está entrando nos eixos e de que o vento está soprando ao meu favor. Sinto-me mais forte, mais disposta e, sem dúvida, mais feliz e completa.
Claro, nem tudo são flores. Eu ainda preciso comparecer às sessões de psicoterapia com o Dr. Patel uma vez por semana, bem como tomar meu antidepressivo, e ainda não decidi se aceito o emprego na S.H.I.E.L.D. ou não, pois estou avaliando os prós e os contras de tal escolha. Além disso, tenho estranhado o comportamento de alguns membros dos Vingadores em relação ao meu romance com Loki e não tenho gostado nem um pouco disso.
Com exceção de Bruce, que já deixou bem claro que só quer que eu seja feliz, e Thor, por motivos familiares óbvios, os demais Vingadores têm olhado torto para o meu boy magia sempre que têm oportunidade, fazendo questão de mostrar que Loki não é bem vindo em Midgard e que eles não estão felizes com o nosso envolvimento. Steve é mais discreto, mas Tony, Clint e Natasha não conseguem disfarçar.
E isso é loucura, sabe? Porque é como se a minha missão, tudo o que aconteceu durante ela, a mudança indiscutível de Loki e o que ele fez por mim tivessem perdido a importância subitamente. É como se o passado dele tivesse vindo à tona de novo, com força total, e se sobreposto a todo o resto.
Honestamente, eu não consigo entender essa birra dos Vingadores com ele, esse apego às águas passadas que não movem os benditos moinhos! Muito menos consigo aceitar que eles se intrometam nas minhas escolhas e sentimentos.
Por isso, tenho me feito de morta em relação ao assunto e me agarrado àquela esperança que tenho sentido ultimamente. De que vai dar tudo certo de agora em diante e nada nem ninguém vai estragar isso. Amém.
A música está terminando quando Peter me desperta de tais pensamentos:
— Liv, eu tenho que ir embora esta noite. — Paro no meio do salão, ouço aplausos ao longe, mas estou focada demais no meu irmão para ser simpática e agradecer. Apenas o ouço quando ele explica: — Eu preciso voltar e procurar as respostas que nós dois queremos. Mas eu prometo que venho te visitar aqui ou em Asgard. Eu não sei quanto tempo mais essa busca pelo nosso pai vai durar, mas eu não quero perder o contato com você, então não se preocupe, eu apareço. Apenas confie em mim, okay?
Engulo em seco, contenho certo aperto em meu peito, assinto algumas vezes e sibilo:
— Okay.
Depois de um abraço forte de despedida, Peter me encara por um instante a mais e encerra:
— Eu vou falar com os outros. Fique bem, maninha.
E então ele vai. Cruza o salão e começa a se despedir dos Vingadores, deixando-me sozinha com suas palavras. Principalmente com "as respostas que nós dois queremos."
Honestamente, eu não sei se quero mesmo saber quem é o nosso pai. Tudo bem, eu quero, mas o cara parece ser um idiota, apenas um procriador alienígena empenhado em espalhar seus espermatozoides turbinados por aí e eu tenho medo de me desapontar ainda mais se um dia conhecê-lo.
Pior, tenho medo que eu e Peter não signifiquemos nada para ele. Afinal, onde nosso pai está? Onde esteve esse tempo todo? Por que nunca veio atrás de nós? Será que ele sabe da nossa existência pelo menos? Quem é ele? Um anjo, como a mãe de Peter costumava lhe dizer? Na minha opinião, nosso pai está mais para outra coisa...
Seria mais fácil acreditar que ele está morto e ponto final, mas se eu e Peter herdamos a sua resistência e capacidade regenerativa, existe uma grande chance dele estar por aí, em algum lugar do universo.
Estou refletindo sobre tudo isso, como fiz durante todo esse mês aliás, quando Amy se aproxima de mim, segurando uma taça com um drink colorido, para ao meu lado, observa Peter por um instante e questiona:
— Você tem certeza que não existe a mínima chance de eu entrar para a sua família, Liv?
Lanço-lhe um olhar solidário e explico pacientemente:
— Sinto muito, Amy, mas a tal Gamora deve ter feito uma macumba poderosa para o meu irmãozinho. É melhor desapegar, amiga. Desse mato não sai coelho. Mas não fique triste por causa disso. A tampa da sua panelinha está em algum lugar deste planeta ou do universo. E mais cedo ou mais tarde, você vai esbarrar no bofe por aí, eu tenho certeza.
Inconformada, Amy se move até ficar de frente para mim, toma um gole generoso do drink e relembra:
— Você disse que essa tal Gamora é verde, certo? Uma mulher toda verdinha?
Por sobre o ombro da minha amiga, vejo o Vingador que faltava adentrar o salão, cumprimentar o aniversariante e seus colegas de equipe. Volto a me concentrar em Amy e confirmo:
— Isso mesmo. Pelo menos, foi o que Peter me disse.
Amy balança a cabeça negativamente em sinal de indignação, ri sem humor e debocha:
— Verde. Verde, Liv! Me explica como uma pessoa, em sã consciência, se apaixona por alguém verde?
Pensando no meu boy magia e trapaceiro irresistível, arrisco responder, mais para mim mesma do que para ela:
— Porque... Geralmente, se apaixonar não envolve consciência, nem cor ou raça, apenas dois corações até então solitários. É algo que...
Sem esperar a minha conclusão, Amy me entrega a sua taça e se afasta visivelmente chateada.
No fundo, eu sei que ela não está tão inconformada assim pelo meu irmão não ter lhe dado qualquer chance, ela não está apaixonada por ele. Na verdade, Amy só está como eu no começo dessa história maluca, querendo se apaixonar, encontrar a sua tampa, ser feliz.
Nossos motivos são diferentes, é claro, pois eu, ao contrário de Amy, estava negando para mim mesma que eu corria o risco de me apaixonar pelo gafanhoto e depois que eu já estava apaixonada. Então, eu tentei me apaixonar por outra pessoa para fugir da verdade. Por isso eu ataquei o Steve e o Bruce.
Ao pensar nesse último Vingador, ergo meu olhar e o vejo cruzando o salão, caminhando por ele, provavelmente para vir me cumprimentar.
Contudo, eu também vejo Amy. E ela está seguindo na direção de Bruce. Distraída com alguma coisa que viu no celular, de cabeça baixa, olhos fixos na tela, como um zumbi moderno.
Aceno para Banner e ele retribui, acenando de volta, e com isso se distrai do percurso por um instante. Por um único e fatídico instante.
E então, no instante seguinte, seu corpo se choca com o de Amy e os dois se desequilibram um pouco. Ela mais do que ele.
O Vingador fofo a segura de um jeito gentil e firme ao mesmo tempo, sorri sem graça enquanto se desculpa e a encara um tanto intrigado em seguida.
Amy está de costas para mim, o que me impede de ver o seu semblante de onde eu estou, mas não importa. Eu não preciso ver o seu olhar para saber que ele está fixo no de Bruce Banner. Fixo demais.
Franzo o cenho, surpresa com uma possibilidade que surge em minha mente diante de tal cena, termino o drink de Amy, coloco a taça vazia na bandeja de um garçom que passa por mim e saio pela tangente depois de concluir a minha resposta:
— Simplesmente acontece.
Decido que é melhor cumprimentar Bruce em outro momento e caminho pelo salão, olhando para cada rosto, mas sem enxergar realmente. Até que um deles chama a minha atenção em relação aos outros, me faz realmente olhá-lo e deter o passo automaticamente. Profundamente intrigada.
Okay, o babado é o seguinte. Esse não é o meu filme favorito do Denzel Washington, mas eu acabei de ter um déjà vu muito forte. Tenho certeza que já vi essa pessoa a alguns metros de mim antes.
É um homem branco, de terno, que deve ter uns cinquenta anos no máximo e possui olhos claros, mas não consigo identificar qual tonalidade exatamente de onde estou. Seus cabelos são bem curtos e castanhos. Ele tem uma postura firme e uma expressão gentil ao mesmo tempo.
Seu olhar cruza com o meu rapidamente. No momento seguinte, ele se despede de Tony Stark com um tapinha no ombro e depois caminha na direção dos elevadores.
Não sei por que, mas o sigo sem pensar duas vezes, esbarrando em algumas pessoas pelo caminho para abrir espaço, ao mesmo tempo em que busco em minha memória de onde eu conheço aquele rosto.
Quando chego ao hall dos elevadores, o sujeito acabou de entrar em um deles e a porta dupla se fecha antes que eu consiga alcançá-lo.
Irritada, solto o ar com força e chamo outro elevador. Assim que entro na cabine, digo:
— J.A.R.V.I.S.? Na escuta, lindo?
As portas metálicas se fecham e a voz simpática da inteligência artificial ressoa pelo elevador:
— Boa noite, Srta. Mills! O que eu posso fazer por você?
— Eu preciso de uma informação, por favor — anuncio, ansiosa e tentando me lembrar daquele homem.
— Se estiver ao meu alcance fornecê-la, será um prazer ajudar.
— O sujeito que entrou no elevador ao lado... Quem é ele? — questiono. Alguns segundos se passam e eu olho ansiosa para os botões diante de mim, sem saber qual devo apertar. — J.A.R.V.I.S.?
— É o Sr. Phil Coulson, Diretor da S.H.I.E.L.D. — a inteligência artificial finalmente informa.
— E para onde ele está indo? — indago.
— Para a garagem A1.
Aperto o botão que me levará até o topo da Torre, onde fica aquela garagem, me recosto no fundo do elevador e agradeço:
— Valeu, J.A.R.V.I.S. Você é muito fofo, viu?
— Ãn... Obrigado, Srta. Mills. Sempre às ordens.
Quando as portas se abrem, eu já sei de onde conheço o tal sujeito e as peças do quebra-cabeça se encaixam todas de uma vez em minha mente. Um mistério é resolvido. E eu não gosto nem um pouco da sua conclusão.
Avisto o sujeito caminhando entre os carros dos outros convidados, até que para diante de um Corvette vermelho. Apresso o passo, paro a poucos metros, ouço ele desativar o alarme, o vejo abrir a porta e finalmente tomo coragem para me pronunciar:
— Não é o Tony muito menos a Pepper quem têm pagado as minhas sessões com o Dr. Patel. É a S.H.I.E.L.D. Certo... Coulson?
Após um longo momento completamente imóvel, o tal diretor fecha a porta do carro, se vira em minha direção, coloca as mãos nos bolsos e responde com a maior naturalidade do mundo:
— Correto, Srta. Mills. — Em seguida, ele caminha até mim, me estende sua mão e me cumprimenta ainda mais calmo: — À propósito, é um prazer finalmente conhecê-la. Stark e Fury me falaram muito de você.
Olho da mão dele para o seu rosto algumas vezes e, embora seja uma tremenda falta de educação deixar as pessoas no vácuo, tenho todo o direito de fazer isso nesse momento. Mereço explicações, antes de decidir se confio nele ou não.
Quando Coulson percebe que eu não tenho intenção de cumprimentá-lo, ele abaixa a mão discretamente, permitindo que eu recomece com certa ironia:
— Quer dizer que você é paciente do Dr. Patel também? Você tem uns parafusos a menos como eu e precisa se consultar com ele regularmente, certo? — Diante do seu cenho franzido, eu resolvo ser mais direta: — Eu te vi no dia em que fui a clínica dele pela primeira vez. Você era o penúltimo paciente e eu a última. Eu te vi na sala de espera e depois quando saiu do consultório. Você cumprimentou a secretária Margot e depois olhou rapidamente para mim e para os meus amigos, acenou com a cabeça e foi embora. Eu vi você lá.
Prontamente e muito calmo, o Diretor da S.H.I.E.L.D. expõe:
— Você está certa novamente, Srta. Mills. Eu estive lá. Eu vou até a clínica regularmente. Aliás, não só eu, mas muitos agentes também. Você sabe, são tempos difíceis, nós passamos por muitas coisas e talvez tenhamos perdido mesmo alguns parafusos pelo caminho.
— Oi? — sibilo, confusa diante da sua naturalidade em dizer tudo isso.
Coulson resolve ser mais incisivo:
— Stark não te indicou o Dr. Christian Patel por acaso. Ele é um profissional conveniado à S.H.I.E.L.D. e auxilia os agentes no que eles precisam, desde os casos leves de estresse aos traumas mais graves, como mortes de parceiros e missões que dão muito errado.
— Uau! E me perguntam por que eu ainda não aceitei o emprego dos sonhos! — ironizo, pensando em como me tornar uma agente poderá afetar ainda mais a minha sanidade.
Coulson esboça um discreto sorriso e argumenta:
— Ninguém disse que seria o emprego dos sonhos, Srta. Mills, mas eu tenho total convicção de que você se sairia muito bem se aceitasse. — Antes que eu diga qualquer coisa, o Diretor continua: — E eu sei o que você está pensando neste momento, mas eu te dou a minha palavra que a S.H.I.E.L.D. não usou nem está usando o Dr. Patel para te cercar de alguma forma, te espionar, nada disso. Stark o indicou apenas porque Christian é de extrema confiança e está acostumado com a nossa realidade atípica. Você pode lhe confidenciar qualquer coisa. Coisas que um terapeuta comum não iria sequer acreditar.
Entendo o que Coulson está insinuando. Eu não poderia mesmo contar para qualquer terapeuta que eu não sou totalmente humana e que namoro um alienígena. Mas o Dr. Gato Patel não ficou nem um pouco chocado em nossas últimas sessões, quando eu lhe contei todos os babados possíveis sobre mim, justamente porque deduzi que Stark tinha indicado alguém de confiança.
Mas apesar do argumento de Coulson fazer sentido, algo ainda me intriga e, por isso, questiono:
— Mas por que pagar as minhas sessões?
Rapidamente, ele explica:
— A S.H.I.E.L.D. arca com as despesas médicas de todos os seus agentes e eu pensei que, como Fury ia te fazer a proposta em breve, seria justo proceder da mesma forma com o seu tratamento. Eu pretendia te explicar tudo quando você nos desse uma resposta. E mesmo que fosse negativa, eu achei que você merecia que a S.H.I.E.L.D. financiasse o tratamento, depois de toda a sua ajuda em relação ao Loki. Por falar nisso, qual é o problema? Algum motivo específico para você protelar a resposta tanto assim?
— Me diga, você — o desafio, cruzando os braços e olhando para os lados um pouco aborrecida. — Você parece ter resposta para tudo mesmo.
Não esperava que Coulson aceitasse o desafio, mas é o que ele faz depois de me analisar por alguns instantes:
— Minha aposta é que você está preocupada em como esse emprego irá afetar a sua relação com Loki.
— E? — é tudo o que consigo dizer, enquanto faço cara de paisagem para que ele não perceba que acertou na mosca.
Sem pestanejar, Coulson expõe com firmeza:
— Eu entendo a sua preocupação, mas você só está vendo as coisas por um ângulo, Srta. Mills. Se juntar a S.H.I.E.L.D. pode ser benéfico para você, para Loki e, principalmente, para resolver o atrito dele com os Vingadores. Pode ser bom para todos nós no final, inclusive para o planeta. Quem sabe?
Sem entender patavinas do que esta criatura está dizendo, franzo o cenho e indago:
— Como assim?
Phil Coulson me analisa por algum tempo com um sorriso... Fofo, eu acho, e responde emblematicamente:
— Sabe, entre todas as pessoas do mundo, eu sou a que mais desejaria ver Loki morto ou preso para sempre. Mas você provou que ele pode ter salvação e isso despertou a minha curiosidade e reacendeu a minha fé no mundo. Eu gosto de me sentir assim. Chama-se esperança.
Pronto, agora é que eu não estou entendendo mais nada. Custa ser um pouco mais claro? Ou será que sou eu que sou muito burra e não consigo enxergar o óbvio?
— Eu não estou entendendo — admito por fim.
O Diretor da S.H.I.E.L.D. simplesmente sorri e diz:
— Eu espero poder te explicar tudo em breve. Que tal na segunda-feira?
Então ele me estende a sua mão mais uma vez e eu novamente hesito. Não por muito tempo, já que apesar de vagos, seus argumentos convenceram uma parte de mim. Meu coração. Não posso negar que a ideia de resolver o atrito entre Loki e os Vingadores de uma vez por todas me deixa curiosa e interessada.
Por isso, respiro fundo e tomo a minha decisão. Vou aceitar a proposta, o emprego e o risco. Me julguem. S.H.I.E.L.D., aí vou eu!
Seguindo esse impulso dentro de mim, aperto a mão de Coulson e me comprometo:
— Até segunda... Chefe.
Ele esboça um sorriso terno e satisfeito e, no momento seguinte, se afasta e entra em seu carro. Dá a ré, vira e segue rumo à uma saída que na verdade não é uma saída. É apenas uma grande abertura para lugar nenhum. Para o céu, melhor dizendo. Como um hangar.
Estou a ponto de gritar para avisá-lo que ele está no topo da Torre dos Vingadores e que, portanto, o carro está caminhando para uma queda livre que não tem como terminar bem, quando as rodas do Corvette vermelho viram de um jeito engraçado e ele começa a... Levitar? Planar? Voar? Cuma?
Meu queixo cai no mesmo instante em que o veículo cruza a saída, voando a toda velocidade e logo desaparece do meu alcance de visão.
— Papagaio... — murmuro ainda em choque.
Volto para a festa apenas para dar um penteleco de despedida na orelha de Tony Stark e para afanar o último algodão doce da noite, já que não me empanturrei o suficiente.
Por sugestão minha, o aniversariante colocou gôndolas e mais gôndolas da guloseima pelo salão e claro que foi sucesso absoluto, não é? E claro que eu fiquei muito preocupada, pensando que não sobraria nada para mim, mas graças a Minha Nossa Senhora Protetora das Viciadas em Gordices, sobrou. Ufa!
Algum tempo depois...
Assim que abro a porta do meu cafofo e adentro a sala cantarolando I want to you back dos Jackson 5, tropeço em alguma coisa no chão e imediatamente paro de entoar a canção na qual meu irmão me viciou. Em seguida, acendo a luz, reconheço o Caco aos meus pés e meu coração dispara imediatamente diante do que isso significa.
É como um código entre mim e o trapaceiro irresistível. Quando eu vou para Asgard, levo o Muppet verdinho e fofo comigo, o deixando para trás quando venho embora. E quando é a vez de Loki me visitar, o Caco reaparece em algum lugar do meu humilde apartamento. Como agora.
Fecho a porta atrás de mim, me abaixo para pegar esse verdadeiro easter egg e levanto com um sorriso de felicidade e surpresa no rosto.
— Gafanhoto?! — chamo, depois de colocar o Muppet no sofá e olhar tudo em volta à sua procura.
Loki não responde, mas não é necessário. Logo o vejo de costas, na varanda, observando Nova York.
Embora a minha vontade seja de correr até ele e me jogar em seus braços, decido não lhe dar esse gostinho agora. Ao invés disso, paro a poucos metros dele e começo de fato:
— O top model asgardiano disse que você tinha ficado em Asgard, que não poderia vir, então...
— Thor só disse o que eu instruí que ele dissesse. — Loki se vira e me encara de um jeito indecifrável com seus olhinhos de esmeralda. Ai meu coração!
Disfarço o arrepio que senti ao ouvir a sua voz e me concentro em suas palavras. Logo, elas se relacionam com a minha conversa com Phil Coulson, eu mato a charada e digo a primeira coisa que me vem a cabeça, numa tentativa de amenizar o clima pesado entre Loki e os Vingadores:
— Você poderia ter ido também. Eu tenho certeza que Tony não se importaria...
A mentira morre em minha garganta e eu desvio o olhar. Mas volto a encarar Loki quando ele ri sem humor e retruca com desdém:
— Festa de aniversário do Homem de Ferro? Uau! Eu não sei como vou sobreviver depois de ter perdido essa.
Controlo a vontade de rir, arqueio uma sobrancelha e replico:
— Você poderia ter ido por mim, para me fazer companhia.
Não sei se eu devia ter dito isso, não quero parecer uma namorada grudenta arrastando o boy magia para lugares que ele não se sentiria à vontade, mas simplesmente saiu.
Por sorte, o Deus da Trapaça não parece irritado com a minha observação. Ao invés disso, apenas abre os braços, me encara sugestivamente e insinua:
— Bem, eu estou aqui agora.
Analiso-o por alguns instantes, sorrio displicentemente e respondo:
— Eu sei. E eu iria até você sem pensar duas vezes, caso este fosse você de verdade.
O gafanhoto de mentirinha abaixa os braços e logo se dissipa diante dos meus olhos. Na sequência, o verdadeiro Loki questiona:
— O que me denunciou desta vez?
Sorrio, viro-me na direção de sua voz, o vejo parado na porta do meu quarto e respondo orgulhosa:
— Sei lá. Eu só não caio mais nas suas trapaças, chuchu.
Loki me observa atentamente e eu vejo uma chama em seu olhar. Ele está com saudade de mim, claramente me desejando profundamente, mas assim como eu, está se segurando para não se entregar ao impulso de me agarrar agora mesmo.
Por que nós não podemos ser um casal normal, hein? Daqueles que demonstram os sentimentos o tempo todo e fazem coraçõezinhos com as mãos em fotos?
Certo. Porque nesse caso, não seríamos nós. Loki e eu temos outras formas de demonstrar o que sentimos, e só fazemos isso depois de um instigante joguinho de quem vai ceder primeiro. Ou seja, quem vai agarrar o outro primeiro.
— O que é isso na sua mão? — o deus trapaceiro pergunta, movendo mais uma peça do nosso tabuleiro, reiniciando o jogo.
Demoro alguns instantes para entender do que ele está falando, mas logo vejo que estou segurando a minha guloseima favorita que afanei da festa.
— Ah... É algodão doce. Quer? — Loki caminha lentamente até mim e só então eu me dou conta do que fiz, me arrependo e entro em desespero. Sendo assim, escondo a guloseima atrás de mim e tento fazê-lo desistir: — Você não quer realmente, quer? Eu acho que você vai detestar, gafanhoto. Acredite, isso aqui não chega aos pés dos doces asgardianos e do seu paladar refinado. — Loki para diante de mim, procura pela minha mão que segura o algodão doce, a leva para perto de si e eu arregalo os olhos. — Por favor, não come tudo! Deixa um pedacinho pra mim! Não seja guloso! Eu ofereci por educação, seu desnaturado!
Ignorando meus pedidos, Loki pega uma porção minúscula de algodão doce, mas que para mim parece enorme, e experimenta. Ele fecha os olhos enquanto saboreia a gordice e quando os abre novamente, opina:
— É bom.
Sinto um calor repentino se espalhar pelo meu corpo ao me lembrar de algo e deixo escapar:
— Eu sei. É como o seu beijo.
Oops. Eu não devia ter dito isso. A chama no olhar do gafanhoto se alastra no mesmo instante, mas antes que ele pense que venceu o jogo, eu faço um esforço, me afasto e caminho até a cozinha dizendo:
— Sabe de uma coisa? Eu vou guardar o restinho para amanhã, antes que alguém muito sem noção e esfomeado acabe com o meu algodão doce. Meu, ouviu? Só meu.
Levo alguns instantes camuflando o algodão doce dentro da geladeira e quando fecho a porta, tenho um pequeno sobressalto ao ver que Loki me seguiu e está a poucos centímetros de mim.
Meu coração dispara ainda mais e eu dou alguns passos para trás enquanto pergunto:
— Ei! O que você achou do meu vestido?
Dou uma voltinha a fim de mostrar o modelito por completo. Ele é meio rodado, justo na parte de cima, frente única e verde escuro. Óbvio que é verde. Eu tinha que provocar os Vingadores de alguma forma, mostrando que estou com o Deus da Trapaça e não largo. Rá!
Epa! Será que eles entenderam a referência? Steve é meio lento, coitado...
Paro de pensar nisso quando Loki, depois de me analisar minuciosamente dos pés à cabeça com um olhar no mínimo... Impróprio, volta a se aproximar devagar e responde simplesmente:
— Eu acho que você ficaria melhor sem ele, midgardiana.
Eitcha lelê! Nossa Senhora! Que calor!
— Gafanhoto! — Dou um tapa em seu ombro ao mesmo tempo em que suas mãos firmes se fixam na minha cintura, me causando um senhor arrepio. — Você anda muito safado ultimamente! — critico, no fundo esperando que ele me beije logo, mas não é o que acontece. Loki está apenas me dando corda, fazendo o seu jogo, esperando que eu o beije primeiro. Droga... Eu não vou resistir. Me julguem. — Sorte a sua que eu gosto disso — admito por fim, soando mais sensual do que eu poderia imaginar. E quando dou por mim, já envolvi o seu pescoço e uni meus lábios aos seus com ímpeto.
O beijo intensifica a onda de calor dentro de mim e ao mesmo tempo me deixa arrepiada. Sinos, borboletas, gosto de algodão doce, tudo de novo.
Com um perceptível esforço, o gafanhoto se afasta um pouco de mim, solta uma risada satisfeita e diz cheio de si, com o seu bendito e irresistível sotaque:
— Você cedeu primeiro.
— Você me ganhou com essa do vestido. — Rio ao admitir isso. Contudo, em seguida dou de ombros e aviso: — Mas saiba que vai ter volta, coração.
— Eu sei que vai, tormento — é a última coisa que o Deus da Trapaça diz.
No momento seguinte, sua boca travessa está envolvendo a minha de novo. Desta vez, com mais paixão, entrega, desejo, roubando o meu ar aos poucos, não me dando outra escolha a não ser corresponder à altura enquanto minhas mãozinhas, que parecem ter ganhado vida própria, percorrem sua roupa de cosplay de gafanhoto e se agarraram com força a uma parte do tecido asgardiano em sua cintura, trazendo Loki para mais perto do meu corpo, fazendo uma onda de calor, no mínimo libertina, surgir entre nós e nos consumir pouco a pouco.
Loki, por sua vez, me aperta mais contra a pia ao mesmo tempo em que suas mãos se revezam entre se emaranhar em meus cabelos, percorrer o meu corpinho com senhoras apalpadas e carícias ávidas e procurar a todo custo o fecho do meu vestido.
Humm... Devo mencionar que de repente, não mais que de repente, eu sinto o Loki Jr. entre nós? Rá! Okay, esqueçam essa parte e voltemos para a pegação nervosa.
E por falar nisso... Nossa Senhora Protetora Das Midgardianas Híbridas Que Dão Amassos Impróprios e Muito Bons Em Deuses Nórdicos Na Cozinha! Socorro! Acho que vou derreter de tanto calor e enlouquecer de tanto desejo!
Epa! Eu disse cozinha? O que nós estamos fazendo aqui mesmo? Nós não podemos acasalar na cozinha, podemos?
Tudo bem, seria divertido e talvez eu pensasse em formas interessantes de usar alguns ingredientes ali, outros acolá, mas é melhor deixar essa aventura gastronômica para outro dia. Hoje, tudo o que eu quero, é desmaiar de exaustão, ouvindo o ranger lascivo da minha caminha embaixo dos nossos corpos suados e trêmulos de prazer. Me julguem.
Pensando assim e com muito custo, me desvencilho do Deus da Trapaça e me afasto, orientando ofegante:
— Siga-me, bonitão.
Trôpega e um tanto desconcertada — lê-se: atrapalhada ao extremo, mas tentando parecer sexy —, saio da cozinha e caminho aos tropeços pela sala, indo em direção ao meu quarto, mas paro e solto um gemido abafado quando meu joelho encontra a poltrona no meio do caminho. Pois é, como diz aquela famosa poesia, tinha uma poltrona no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma poltrona. Não sei se é bem isso que a poesia diz, mas tanto faz.
— Ai, ai… — reclamo, fazendo uma careta de dor enquanto massageio o meu pobre joelhinho.
Eu sabia que Loki tinha me seguido, mas não consigo evitar um sobressalto quando o sinto bem atrás de mim, fazendo-me endireitar a postura imediatamente e engolir em seco. Meu rosto ruboriza quando o dito cujo praticamente cola o seu corpo ao meu, analisa a minha situação e pergunta ao pé do meu ouvido:
— O que houve, tormento?
Ignoro o arrepio que percorre a minha pele diante da sua voz rouca e do seu irresistível sotaque e resmungo:
— Essa poltrona assassina apareceu do nada! Eu vou acabar com a raça dela!
Preparo-me para dar um chute na infeliz, mas não tenho tempo de executar a minha vingança infantil e sem sentido, pois antes que eu mova um músculo sequer, sou surpreendida pelos braços do deus trapaceiro envolvendo minhas pernas e aninhando minhas costas. Quando dou por mim, estou em seu colo. Cuma?
Sinto-me presa ao seu olhar cheio de desejo como a um feitiço. O meu coração, obviamente, quase sai pela boca. E instintivamente, passo os braços em torno do seu pescoço para não cair no chão como uma fruta madura, o que, convenhamos, não seria nada legal.
— Isso foi romântico, gafanhoto — consigo dizer por fim, com uma satisfação tangível e um leve sorriso.
Loki arqueia as sobrancelhas, começa a caminhar tranquilamente, como se estivesse carregando uma pena, e confessa de um jeito sonso:
— Eu só quero chegar logo ao quarto, midgardiana atrapalhada.
Franzo o cenho e protesto:
— Isso não foi muito romântico, mas tudo bem. É o que temos para hoje, não é mesmo? Traste...
Sem dizer mais nada, o trapaceiro irresistível adentra a minha humilde alcova, me coloca sobre a cama com uma gentileza que me arrepia e faz o meu coração acelerar de novo, desliza a mão pela minha perna até chegar ao meu joelho ainda dolorido, o acaricia sutilmente com o polegar e me olha de um jeito profundo, antes de se afastar o suficiente para beijá-lo. Demoradamente, devo dizer. Causando-me uma nova e mais forte onda de calor, reacendendo o desejo em meu corpinho, me fazendo esquecer completamente da poltrona assassina e engolir em seco à medida que seus beijos sobem pela minha coxa. E pelo meu corpo que parece que irá entrar em combustão a qualquer momento.
— Eitcha lelê... — murmuro quando Loki alcança o meu pescoço e, ao invés de beijá-lo, dá uma mordida provocante na região, me causando um estremecimento desconcertante e me levando a fechar os olhos com força.
Na sequência, sua boca mergulha na minha em um beijo profundo e lascivo, seu corpo pesa cada vez mais sobre o meu e suas mãos... Bem, suas mãos estão por toda a parte, se é que vocês me entendem. Rá!
Como eu não sou boba nem nada, exploro o seu corpinho também, como posso, sem qualquer pudor, com profunda entrega e muita luxúria.
Em seguida, deixo que minhas mãos subam por seu pescoço e envolvam os seus cabelos por alguns instantes, mas logo lhes dou outra missão: se livrar das roupas desse danadinho o mais rápido possível! Não é uma tarefa fácil, mas um dia eu ainda vou tirar de letra as complicadas vestimentas do Deus da Trapaça. Pretendo praticar bastante até lá. Aquela carinha...
Assim que o gafanhoto me livra do meu vestido com maestria, envolvo minhas pernas em seu quadril e aperto suas costas contra o meu corpo em um abraço caloroso e cheio de segundas intenções, enquanto nos beijamos avidamente mais uma vez.
E bem... Digamos que Loki tinha razão sobre o vestido. Eu fico melhor sem ele. Tudo fica.
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