Trapaças do Destino
38 Família
Notas iniciais

As palavras de Loki ainda ecoam em meus ouvidos, apesar dele ter sumido do meu alcance de visão já há alguns instantes, quando virou no final do corredor por onde viemos. São tantas coisas para assimilar que sinto que simplesmente congelei diante da porta em que ele me deixou.
O gafanhoto não fugiu de mim depois da nossa famigerada e proveitosa noite de acasalamento, como eu havia julgado. Na verdade, ele saiu estrategicamente de Asgard e foi para os confins dos Nove Reinos para procurar por algo. Ou melhor, por alguém. O Deus da Trapaça fez isso por mim. E ele voltou por mim também, trazendo a tiracolo alguém chamado Peter Quill que ao que tudo indica é... Meu irmão. Por parte de pai ao menos.
Em outras palavras, esse estranho é parte de mim. Parte das minhas origens alienígenas que eu tanto tentei ignorar, mas que agora batem à minha porta. Ou melhor, que agora está bem atrás desta porta, dentro desta sala, aqui na Torre dos Vingadores.
Mama Mia... Para onde eu corro agora? Para as colinas talvez?
Não, eu não posso fugir. De acordo com o Dr. Gato Patel, esse é um dos meus pontos fracos. Meu constante instinto de fugir daquilo com o que eu não sei lidar. Foi assim com a morte da minha avó, depois com Loki e com as minhas origens. E eu não posso mais fazer isso, simplesmente não posso mais fugir. Preciso parar com a palhaçada, abrir esta porta e encarar o meu irmão.
Não sei como se deu isso, mas ao mesmo tempo em que eu pensava no que devia fazer, acabei fazendo e quando percebo já abri a porta e entrei meio aos tropeços em uma enorme sala da Torre, com uma vista e tanto de Manhattan.
Claro que não é nela que eu reparo, mas sim em alguém que está de costas para mim, observando a cidade através da vidraça que vai do teto ao chão, sacudindo sutilmente os ombros enquanto ouve alguma música por meio de fones de ouvido e um aparelho obsoleto preso na lateral do seu cinto.
O estranho, digo... Peter Quill veste roupas relativamente normais para alguém que veio do espaço. Botas marrons estilosas, uma calça preta que eu não sei se é de couro, sarja, uma mistura dos dois ou talvez algum tecido especial que não existe por aqui, e uma jaqueta vermelha bem escura, quase bordô, sobre uma camiseta azul pelo que vejo no reflexo do vidro.
Ele parece notar a minha presença, talvez também pelo reflexo, já que imediatamente e um tanto atrapalhado, retira os fones, se vira e dá alguns passos em minha direção. Mas acaba esbarrando em uma mesa no caminho e resmunga algo baixinho enquanto massageia o joelho, até se recompor e entreabrir a boca, como alguém que quer dizer alguma coisa, mas subitamente ficou sem palavras.
Não posso negar que o entendo perfeitamente. Sinto-me da mesma forma neste momento. E incapaz de falar, resolvo examiná-lo mais um pouco.
Seu cabelo é castanho claro, quase loiro, mas eu ainda o considero castanho claro comparado ao meu. Peter é forte, alto, musculoso e deve ser um pouco mais velho do que eu. Ele tem um rosto anguloso e angelical ao mesmo tempo, uma barba rala, charmosa e um olhar de cachorro pidão... Vixe Maria, meu irmão é bem gato, tenho que admitir que não esperava por isso.
Pelo visto, nosso misterioso pai transmitiu os melhores genes para ele. E talvez para mim também, afinal eu não sou de se jogar fora, não é mesmo? O gafanhoto que o diga. Rá!
Okay, falando sério, pelas fotos que vi e pelo o que minha avó falava, eu sou a cara da minha mãe. O que me leva a crer que talvez Peter seja mais parecido com o nosso pai. Claro que eu precisaria saber quem é a mãe dele antes de fazer essas suposições, mas...
— Você deve ser Olivia.
Sua voz me desperta imediatamente e eu o fito nos olhos. Algo neles faz com que eu me lembre de mim mesma e isso é engraçado. Sinto-me em casa, em família e, ao mesmo tempo, estranha e envergonhada.
Seja como for, abro a boca e me obrigo a retribuir a sua constatação um tanto sem jeito:
— E você deve ser Peter Quill, certo?
— Isso mesmo, mais conhecido como o legendário Senhor das Estrelas! — Ele ri e faz charme, aparentemente com certo orgulho do que disse, mas disfarça quando eu franzo o cenho sem entender o que isso significa. — É uma longa história — diz, sem graça e olhando para o chão por um momento.
Um silêncio incômodo e ao mesmo tempo engraçado perdura entre nós por alguns instantes e eu volto a analisá-lo. Quando percebo, Peter está fazendo o mesmo, até que nossos olhares se encontram e desviamos juntos. Levamos a mão à nuca ao mesmo tempo e coçamos a região pelo mesmo tempo, antes de as abaixarmos de novo, em sincronia.
Tenho vontade de rir, quero me aproximar e enchê-lo de perguntas, mas me sinto meio estagnada.
Isso tudo é muito novo para mim. Até alguns minutos atrás, eu não podia sequer imaginar que tinha um irmão e agora estou diante dele. Simplesmente não sei como devo agir.
Graças a Odin, Peter volta a se pronunciar:
— O sujeito de roupas verdes... Digo, Loki avisou que se fosse ele que entrasse nessa sala, seria porque o resultado tinha dado incompatível. Mas, se fosse uma midgardiana loira e bonita, era sinal de que o resultado seria... Outro.
— Espera aí, ele disse bonita? — Arqueio as sobrancelhas e sorrio levemente, surpresa e satisfeita com o elogio vindo do gafanhoto. Não é sempre que o trapaceiro irresistível admite que eu sou um pitel, não é mesmo?
Peter franze o cenho, talvez achando minha pergunta desnecessária — e talvez seja mesmo —, mas responde:
— Sim. E eu acho que disse insolente também. — Desmancho o meu sorriso e ele acrescenta às pressas: — Mas depois Loki garantiu que isso era apenas uma brincadeira entre vocês. Algo assim.
Brincadeira? Este gafanhoto é muito abusado mesmo. Ele vai se ver comigo mais tarde...
Paro de pensar nisso, quando Peter pigarreia, dá um passo a frente e retoma o assunto:
— Então, o resultado...
— Compatível. — Assusto-me comigo mesma quando tal sentença simplesmente sai de minha garganta de repente, o interrompendo abruptamente. Engulo em seco, encaro-o por alguns instantes e, já que quem está na chuva é para se molhar mesmo, me encho de coragem, resolvo dar uma de Darth Vader, ou quase isso, e formalizo de uma vez: — Eu sou sua irmã.
Peter mantém seu olhar fixo no meu, mergulhado no meu, enquanto assimila minhas palavras. E mais uma vez, sinto-me em casa, em família, conectada com alguém. Alguém como eu. Meu irmão.
Essa sensação fraterna e agradável se intensifica dentro de mim quando percebo um discreto sorriso se formando em seu rostinho lindo e fofo. Acho que começo a sorrir também e meus olhos estão ardendo consideravelmente quando Peter se aproxima com passos firmes e me surpreende com um abraço forte e carinhoso que eu correspondo prontamente, por instinto, escondendo minha cabeça em seu pescoço e o ouvindo dizer:
— E eu sou seu irmão. — Abraçando-me mais forte, ele brinca: — Maninha.
Rio e dou um leve soco em seu ombro, mas sem me desvencilhar do seu abraço. Fecho os olhos e digo para mim mesma que eu não vou bancar a manteiga derretida e chorar copiosamente. Isso é uma coisa boa e eu estou feliz, portanto, não vou chorar.
Droga, eu vou chorar... Essa não...
Epa! Epa! Epa! Acho que estou ouvindo algo ao longe e isso é o suficiente para chamar a minha atenção, a ponto de dissipar o choro que queria vir.
— Que música é essa, cara pálida? — pergunto, o soltando, pegando um dos seus fones e colocando-o no meu ouvido, sem esperar por resposta. Quase imediatamente reconheço a melodia e a letra, é Escape do Rupert Holmes.
Sorrio e me mexo um pouco ao som da música. Peter parece ficar feliz por meu gosto musical ser parecido com o dele — exceto pelo fato de que eu duvido muito que ele seja fã de carteirinha da Britney Spears —, mas me lembrando que temos coisas mais importantes para conversar no momento, retiro o fone com cuidado, lhe devolvo e decido expor a pergunta que me atormenta desde o dia em que eu passei a me entender por gente:
— Você sabe quem ele é? Eu quero dizer... O nosso pai?
Sim, eu entendi o que o gafanhoto disse antes, que ele não encontrou o meu pai, mas o meu irmão. Mesmo assim, não custa nada arriscar.
Contudo, Peter apenas reafirma o que eu já sabia:
— Infelizmente não. Mas eu estou trabalhando nisso. Há muito tempo, na verdade, e uma hora eu chego lá. E quando eu descobrir quem ele é, você será a primeira a saber. — Estou analisando sua postura e constatando que esse é um assunto delicado para o meu irmão também, quando ele ressalva: — Na verdade, provavelmente você será a segunda a saber. Gamora é muito curiosa e está me ajudando com essa parte...
— Quem? — Franzo o cenho.
Me chamem de maluca, mas acho que o meu irmãozinho fofo fica vermelho de repente quando responde evasivo:
— Ah... Uma amiga.
— Você tem muitas amigas? — Arqueio uma sobrancelha e cruzo os braços contra o peito, descobrindo que talvez eu seja uma irmã meio ciumenta.
— Mais amigos do que amigas — Peter responde.
— E como eles são? — indago, curiosa.
Não sei o que tem de tão engraçado na minha simples pergunta, mas meu irmão solta uma risada leve, olha para os lados por um momento, volta a me encarar e diz de um jeito misterioso:
— Diferentes.
Comprimo os lábios como o Baby da Família Dinossauros enquanto analiso sua resposta por algum tempo. E isso faz eu me dar conta de algo que imediatamente verbalizo:
— Há poucos minutos, eu nem sabia que você existia, e agora... Tem tantas coisas que eu quero te perguntar.
— Eu também! — ele admite empolgado, mas em seguida se recompõe e emenda: — Damas primeiro, é claro. O que você quer saber sobre mim?
Estreito meu olhar em sua direção, volto a cruzar os braços e disparo:
— Quem é Gamora, maninho?
Algum tempo depois
Resumo da ópera: aparentemente, Gamora é a girl magia de Peter. Ah! E pelo o que entendi, ela é verde. E tem cabelos vermelhos. Deve ser linda, por sinal. Poderia ser garota propaganda do extrato de tomate Elefante. Aff...
Não, eu não estou com ciúme do meu irmão com uma piriguete de outro planeta. Eu sou uma mulher adulta e madura, okay? Okay.
Conversamos por bastante tempo e ele me contou toda a sua vida. Desde a infância, a perda da mãe, a misteriosa abdução até a sua vida como Senhor das Estrelas. Sim, meu irmão é um herói. O líder de um grupo que se intitula Guardiões da Galáxia.
Tenho que arranjar uma forma sútil de lhe dizer que esse nome é meio brega, assim como Senhor das Estrelas, mas talvez seja melhor ficar quieta mesmo. Como dizia a minha avó, cada um com os seus problemas.
Não sei se entendi direito, mas parece que um dos membros dos Guardiões é um guaxinim falante. Queria conhecê-lo, ele deve ser fofo. Talvez eu adote, se meu irmão concordar.
Peter me explicou também que Loki o localizou nos confins dos Nove Reinos, contou que tinha ouvido boatos sobre ele, o informou sobre mim, expôs a possibilidade de nós termos o mesmo pai e o convenceu a vir à Asgard para tirar a dúvida. Chegando lá, eles não me encontraram e os dois mais o Deus do Trovão vieram para Midgard. O que não foi fácil para Peter, afinal esse lugar lhe remete a lembranças de sua infância e de sua mãe.
Bem, obviamente, eu também tive que abrir o livro da minha vida para ele. Lhe contei tudo, tim tim por tim tim, com riqueza de detalhes. Minto. Na parte que diz respeito ao gafanhoto, eu fui mais sucinta pois percebi que eu não sou a única ciumenta aqui.
O tempo passou tão rápido, conversamos tanto sentados em um sofá de costas para a vista de Manhattan, que nem notamos que a noite caía lá fora. Ninguém apareceu para nos interromper, mas J.A.R.V.I.S. se fez ouvir algumas vezes e nos ofereceu comidas e bebidas.
Mas o papo estava tão bom que nenhum de nós parecia estar com fome ou sede. Então simplesmente continuamos conversando por mais algum tempo, até que em dado momento, Tony adentrou o recinto, chamando imediatamente a nossa atenção, e se aproximou dizendo:
— Muito bem, está claro que vocês dois ainda tem muito o que conversar, mas está um pouco tarde, então por que não continuar o bate papo amanhã? Ambos estão convidados a passarem a noite aqui. Nós temos comida, chuveiro quente e camas. Topam?
— Sem dúvida! Obrigado, para mim será ótimo — Peter responde animado.
Estou prestes a aceitar o convite também — afinal, quando o Homem de Ferro te convida para pernoitar em sua humilde residência, não dá para sair sorrindo e acenando como se não fosse com você — quando subitamente me lembro do trapaceiro irresistível e hesito. Em seguida e sem querer, solto a pérola:
— O gafanhoto pode passar a noite aqui também?
Tony arregala os olhos e Peter franze o cenho. Sinto o meu rosto queimar e a situação só piora quando o anfitrião diz:
— Esse é o lar de super heróis, Olivia, não um motel.
— Eu não quis dizer dormir comigo! — apresso-me em explicar, embora no fundo... Sabe como é, né?
— Não importa — Stark reitera. — De qualquer forma, não será possível atender a sua solicitação porque o Homem Rena, graças a Deus, se é que Deus existe, foi embora.
Cuma?
Meu coração gela e para por um instante e no seguinte, eu me ponho de pé e questiono:
— Ele foi embora? Como assim? Embora para onde e por quê?
Mal reparo que meu irmão também levantou do sofá pois estou atenta à explicação que o Homem de Ferro me dá a seguir, gesticulando de um jeito Stark de ser:
— Calma, o Homem Rena não desapareceu do mapa, não está fugindo, nem nada do tipo. O que acontece é que eu não vou com a cara dele. Fato. Ninguém aqui vai, aliás. Outro fato. Exceto você e o Shakespeare, é claro. Mais um fato. E Loki também não vai com a nossa cara. Exceto com a sua e talvez com a do cunhado aí... Enfim, muitos fatos. Então, ele disse que ia dar uma volta por Midgard e eu falei que se fosse por falta de adeus... Adeus. E ele foi. Fim da história. Todo mundo ficou feliz. Quase todo mundo, o Shakespeare ainda tentou convencê-lo a ficar, mas para a minha alegria, o tal gafanhoto é bem orgulhoso.
Inconformada com tais palavras, estreito meu olhar na direção de Stark e critico:
— E depois eu que sou infantil. Você não acha que essa birra dos Vingadores com o gafanhoto já foi longe demais?
— Birra? — Tony faz questão de frisar, arqueando as sobrancelhas, para em seguida argumentar: — Desculpe, Olivia, mas o fato do Homem Rena ter mudado um pouco não apaga tudo o que ele fez.
— E o que Loki fez? — é Peter que pergunta, visivelmente confuso e curioso.
— Nada — respondo, querendo evitar uma discussão desnecessária.
— Versão resumida? Invadiu e tentou dominar o nosso planeta — Tony conta de um jeito direto, atropelando minha resposta anterior e acendendo o pavil para a possível discussão.
Respiro fundo e o fuzilo com o olhar, antes de me virar na direção do meu irmão fofo e pôr os pingos nos is:
— Loki errou. Fato. Mas todo mundo erra e todo mundo merece uma segunda chance. Outro fato. Além disso, ele já pagou pelos erros que cometeu, ajudou o top model asgardiano a vencer um elfo do mal, me ajudou mais do que qualquer pessoa no mundo sem nem sequer saber disso e trouxe você até aqui, para mim, proporcionando esse encontro. Ele mudou. São muitos fatos. — Olhando para Tony, concluo: — E não é justo continuar julgando Loki pelo passado. Fato.
Sem a menor sombra de dúvida, eu venci o embate com o Vingador gênio, bilionário, playboy, filantropo e de quebra ainda tranquilizei Peter.
Não fico por muito mais tempo para confirmar isso, simplesmente me despeço do meu irmão com um rápido abraço e digo:
— Amanhã eu volto aqui e nós podemos fazer... Sei lá, coisas de irmãos. — Passo por Tony e provoco baixinho: — Boa noite, Homem de Lata.
XXX
Saio tão rápido da Torre que nem me despeço dos outros Vingadores. E só quando alcanço a rua, lembro que estou sem o meu carro, pois ele ficou na fazenda. Também não tenho dinheiro para pegar um táxi, já que estou sem a minha bolsa.
Ótimo. Só que não.
Estou quase voltando atrás para pedir arrego a algum Vingador — que não seja o Homem de Ferro porque hoje ele está com a macaca —, quando ouço o barulho característico de uma moto se aproximando.
Viro-me ao mesmo tempo em que ela para no meio fio perto de mim. E não consigo esconder a surpresa quando a pessoa que a pilota retira o capacete e ajeita os cabelos rapidamente, enquanto me olha.
— Jessie! O que você está fazendo por aqui, menina? — pergunto, mesmo imaginando a resposta. Aposto que a agente veio dar umas bitoquinhas em um certo velhote sarado, tirar umas casquinhas, essas coisas.
— Eu poderia te perguntar a mesma coisa. — A girl magia do Capitão Gato América me lança um sorriso sincero e simpático, mas percebo que ela está mesmo querendo saber o que eu estou fazendo por aqui, plantada perto da Torre.
Então dou um tapinha no ar e respondo evasiva:
— Ah! Você sabe, o de sempre. Acabei de descobrir que tenho um irmão. — Jessie arregala os olhos surpresa, mas como não há tempo para explicações neste momento, desconverso: — É uma longa história.
— Eu posso entender isso — a agente reflete, e me chamem de maluca, mas eu acho que ela gostou da expressão que eu usei. Talvez tenha se identificado. — Você precisa de alguma coisa? — pergunta, ainda intrigada por me ver aqui parada feito uma estátua no meio da calçada.
Encabulada por não ter recursos para ir para casa, prefiro me fazer de desentendida:
— Eu? Por quê? Parece que eu estou precisando de alguma coisa? Tipo, de ajuda? — Jessica Wally arqueia as sobrancelhas em resposta, o que me leva a respirar fundo e inserir o assunto de uma vez: — Okay, o negócio é o seguinte. Mesmo que eu não aceite o emprego na S.H.I.E.L.D., nós somos... Amigas, certo?
A Sra. América me lança um sorriso terno e responde fofamente:
— Claro. Inclusive, nós podemos ser Best Friends Forever, se você me convidar para comer um hambúrguer qualquer dia desses.
— Okay, anotado! Hambúrguer! — Faço uma nota mental e rio um pouco diante de tal pedido. Em seguida, retomo: — Então, isso significa que eu posso contar com você, não é? Tipo, para que servem as amigas senão para ajudarem umas as outras?
Visivelmente confusa e talvez até um pouco receosa, Jessie se pronuncia:
— Você pode contar comigo, Olivia, mas eu não estou entendendo aonde você...
— Ótimo! — interrompo-a um tanto afoita, afinal cada parte de mim está ansiosa para reencontrar o gafanhoto. Sem mais delongas, mas mesmo assim com certa vergonha na cara, pigarreio, desvio do seu olhar e solto a máxima: — Então... Você tem algum dinheiro aí? — constrangida, volto a fitá-la e apresso-me em dizer: — É para o táxi e eu prometo que devolvo em breve!
Após um engraçado momento de silêncio e para minha surpresa, a agente e par perfeito do Capitão América sorri e propõe:
— Você não prefere uma carona?
Uma carona seria ótimo, é verdade, mas ao me lembrar que Jessie devia estar prestes a entrar na Torre dos Vingadores, onde seu boy magia deve estar ansioso por sua ilustre presença, dispenso:
— Não, não! Eu não quero te atrapalhar. — Estendo a mão e insisto: — O dinheiro, por obséquio?
Algum tempo depois...
Pago a corrida até o meu prédio e saio do táxi tomada pela ansiedade. Sei que existe uma chance do gafanhoto não ter vindo para cá, de estar andando a esmo por aí, disfarçado de midgardiano desprezível, ou talvez Tony tenha se enganado e Loki voltou para Asgard mesmo.
Contudo, uma parte de mim tem certeza que ele está no meu cafofo. Meu coração deseja isso mais do que qualquer outra coisa nesse momento e, por isso, fico andando feito barata tonta pela cabine do elevador e saio dela assim que as portas duplas de aço se entreabrem no meu andar.
Minha suspeita se confirma quando não acho a chave extra que costumo deixar embaixo de um vaso ao lado da entrada. Em seguida, giro a maçaneta e constato que a porta está mesmo aberta e que a chave está do outro lado.
Adentro o lugar lentamente, fecho a porta atrás de mim e retiro as minhas sandálias, deixando-as perto da soleira. Caminho pela sala, tomando cuidado para não fazer barulho nem tropeçar em nada, já que o lugar está um breu que só.
Vejo que o sofá está vazio, mas isso não significa que o trapaceiro irresistível não está aqui. Eu sei que esse danadinho está e eu vou encontrá-lo. Rá! Adoro um suspense e esse climinha de vem me pegar, minha midgardiana híbrida.
Finalmente chego em meu quarto, empurro a porta lentamente e vejo quem eu mais queria ver nesse momento. Meu coração acelera subitamente e minha garganta fica seca assim que vejo o Deus da Trapaça deitado em minha caminha fofa, com os braços flexionados, servindo de apoio para a cabeça, e o olhar fixo no teto.
Logo isso muda, já que o dito cujo nota a minha presença e fixa os olhos em mim. Estremeço.
Caminho pelo quarto que está iluminado apenas pelas luzes da cidade que entram pela janela e me aproximo da cama, ignorando minhas pernas ligeiramente trêmulas e um frio em meu estômago.
É, definitivamente eu estou mesmo apaixonada por esse traste.
Ciente disso e feliz por isso, procuro dissipar a onda de nervosismo dentro de mim e tento ser sedutora, apoiando meus joelhos na cama, me inclinando sobre Loki aos poucos e colocando as mãos em volta dele no colchão, enquanto digo cheia de mim:
— Eu sabia que você estaria aqui, gafanhoto... Na minha desprezível e nada confortável cama midgardiana.
Loki não diz nada, mas noto um sorriso displicente e convidativo em seu rostinho lindo. Então, sem pensar duas vezes, fecho meus olhinhos de noite serena e preparo-me para beijá-lo.
Aproximo-me mais e procuro por sua boca. Deixo o meu peso cair sobre ele, mas então algo estranho acontece, me pegando totalmente de surpresa. Isso porque o corpinho do meu boy magia simplesmente desaparece, evapora no ar e meu rosto mergulha na cama vazia embaixo de mim.
Confusa, afasto-me prontamente, apoiando minhas mãos no colchão, passo os olhos pela cama, procurando por Loki, e questiono:
— Oxi! Que marmota é essa? Cadê ele, gente?
Subitamente, ouço sua risada característica e charmosa, o que me faz olhar na direção da janela, onde o infeliz encontra-se em pé, me observando com os braços cruzados e um sorriso cretino nos lábios, se divertindo por ter criado aquela ilusão de si mesmo para me enganar.
Desgraçado...
— Não teve graça — protesto, sentando-me na cama e semicerrando o olhar em sua direção.
Loki dá de ombros e replica de um jeito sonso:
— Para mim, teve.
O fuzilo com o meu olhar por um instante e em seguida faço o meu travesseiro voar em sua direção. Ele bate em seu peito e cai no chão, o que me faz ter certeza que aquele Loki é de verdade.
Então, ignorando mais uma vez o nervosismo dentro de mim e controlando a raiva que ainda sinto por conta da sua brincadeirinha totalmente sem graça, levanto e caminho até o dito cujo devagar. Paro em sua frente, o encaro por um instante, me aproximo mais e arrisco tocar em seus cabelos negros e sedosos.
Sério, que tipo de shampoo o pessoal de Asgard usa, hein?
— O que você está fazendo? — Loki indaga, um tanto sério, mas visivelmente interessado em minhas intenções.
Meu coração acelera mais um pouco e eu respondo:
— Agradecendo.
Esquecendo-me completamente de tudo que pensei sobre o Deus da Trapaça quando acordei sozinha no palácio de Asgard e profundamente feliz por ter conhecido Peter Quill graças a ele, fecho os olhos, inclino o rosto e encaixo meus lábios nos seus de um jeito suave e carinhoso por longos instantes, fazendo as borboletas em meu estômago se agitarem e os sinos ecoarem em meus ouvidos.
Quando me afasto, Loki engole em seco, desvia do meu olhar, adota uma postura indiferente e desconversa:
— Eu não fiz nada de mais. Eu só segui uma suspeita e ela se confirmou. Peter Quill é seu irmão. Grande coisa.
Comprimo os lábios para controlar a súbita vontade de rir da sua total incapacidade de admitir que fez algo de bom, acaricio o seu queixo com o polegar por alguns instantes, fazendo o trapaceiro voltar a me encarar, e só então digo:
— Não desmereça o que você fez, gafanhoto. — Faço uma breve pausa e reforço do fundo do meu coração: — Obrigada.
Sem esperar por resposta, torno a beijá-lo. Desta vez para valer, deixando-me levar pelo forte sentimento que tenho por ele, deixando que tal sentimento me guie à medida que nossas bocas se envolvem avidamente, minhas mãos enroscam em seus cabelos e nossos corpinhos ficam mais e mais próximos.
Eita! Isso aqui está muito bom, minha gente! Por isso, é com muito custo que me afasto novamente e o encaro ofegante.
— De nada — Loki diz por fim, arrancando-me um sorriso com certeza bobo.
Mordo o lábio inferior por um instante ao me lembrar de nossa conversa mais cedo na fazenda, quando eu lhe dei duas opções: continuar discutindo pelo mal entendido causado pela minha insegurança ou tirar a roupa e investir em um repeteco da nossa primeira noite.
E por mais que não seja realmente necessário perguntar o que Loki decidiu, dado esse beijo de tirar o fôlego que ele correspondeu prontamente, resolvo trazer o assunto à tona mesmo assim:
— Eu te fiz uma pergunta mais cedo, gafanhoto. E aí? Como vai ser?
Sua resposta não demora nem bem um segundo. E ela não vem com palavras, mas sim com suas mãos firmes e obstinadas em meu rosto, me levando para junto de si novamente, fazendo minha boca encontrar a sua mais uma vez, em mais um beijo de abalar as minhas já abaladas estruturas.
Quando finalmente tal beijo é interrompido, permaneço de olhos fechados, com a respiração entrecortada, me recompondo pouco a pouco.
— Boa resposta — finalmente lhe digo, abrindo os olhos, me desvencilhando e caminhando em direção à porta.
Estou quase saindo do quarto quando ouço Loki me chamar firme, mas também confuso:
— Olivia. — Viro-me, me apoio na soleira e ele arqueia as sobrancelhas ao informar o óbvio: — A cama é bem ali.
— Eu sei, chuchu. Mas o terraço é lá em cima... — insinuo, sorrindo e abaixando uma das alças do meu vestido antes de deixar o quarto.
Não demora muito e o trapaceiro irresistível me segue.
E eitcha lelê define esta noite.
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