Trapaças do Destino
33 Eitcha lelê
Notas iniciais
Não acredito que coloquei o gafanhoto asgardiano contra a parede, lhe dando um verdadeiro ultimato durante a festa. Só faltei soltar a máxima ou dá ou desce, chuchu. Graças a Deus, não cheguei a tanto.
De qualquer forma, onde eu estava com a minha cabeça mesmo? Será que eu agi certo ao falar tão abertamente com Loki e exigir que ele tome uma decisão sobre... Nós? Será que pode existir um nós? Afinal, ele é Loki, o Deus da Trapaça que quase destruiu Nova York e usurpou o trono de Asgard. E eu sou Olivia Mills, a garota cheia de problemas existenciais e inseguranças.
Por outro lado, o que eu deveria fazer? Ficar nesse chove não molha eterno? Negar o que sinto por aquele traste? Desistir antes mesmo de tentar? Permitir que Loki continue em negação como certamente ainda está?
É tudo o que estou me perguntando enquanto olho fixamente para o teto do meu quarto, aqui no palácio.
A minha festa de aniversário acabou há algum tempo e, depois de tomar um banho bem demorado e vestir uma camisola asgardiana comprida e bem folgadinha — que saudade dos meus pijamas de desenhos animados —, pensei que seria fácil relaxar e dormir um pouco. Me enganei feio. Simplesmente não consigo pregar o olho, como diria a minha avó.
Então, depois de me revirar na cama algumas vezes, me irrito comigo mesma e resolvo levantar. Em seguida, caminho descalça até a varanda, me apoio nela e fico observando o céu de Asgard.
Aqui as noites nunca são totalmente escuras. Há mais estrelas, constelações e outros astros no céu. Tudo parece mais perto e colorido. É tão bonito. E somado as edificações asgardianas em torno do palácio, tudo é ainda mais deslumbrante. Quase como um cenário de um sonho. De um filme ou algo assim.
Se eu soubesse que passaria uns dias por aqui, teria trazido o meu celular para tirar umas selfies com este cenário divoso ao fundo.
Ao pensar nisso, me dou conta de que esta pode ser a minha última noite em Asgard. Não que eu estivesse pensando em ficar para sempre — afinal eu tenho a minha vida em Midgard também —, mas se o trapaceiro irresistível me desse algum sinal de que me quer de verdade, de que está disposto a ceder um pouquinho que seja, eu ficaria feliz em passar mais algum tempo aqui. Com ele. Me julguem.
Depois disso, Loki poderia ficar um tempo no meu cafofo também, como foi durante o seu exílio. Mas com algum upgrade desta vez, é claro.
E assim, um pouco lá e um pouco cá, nós poderíamos fazer isso dar certo. Por que não?
Sinto-me meio idiota por estar cogitando essas coisas. Então, respiro fundo e solto o ar com força, tentando dissipar meus pensamentos. Não funciona e apenas penso mais naquele traste.
Suspiro sem perceber, mas franzo o cenho em seguida, me sentindo ainda mais idiota. Tenho vontade de me estapear, mas me contenho.
Viro-me e caminho de volta ao interior do quarto, disposta a contar carneirinhos pulando cercas, macaquinhos pulando árvores e golfinhos pulando ondas até o sono vir e me vencer.
Porém não chego a me deitar na cama, muito menos a começar a contagem da bicharada toda, já que antes disso, ouço duas batidas na porta e hesito por um instante.
— Eita... Quem será, meu santo Odin? — murmuro enquanto caminho até lá, imaginando que talvez seja a fofa da Jane ou a diva da Sif, já que quase não conversei com as duas esta noite.
No entanto, quando abro a porta, sou tomada por um sobressalto, por uma surpresa genuína que faz o meu coraçãozinho midgardiano disparar imediatamente. Tudo isso porque vejo ninguém mais ninguém menos do que Loki, andando de um lado para o outro do corredor — depois de ter batido à porta dos meus aposentos, ao que tudo indica.
E é impossível não me lembrar de quando o conheci, em Nova York, em meio a uma forte tempestade. É impossível não me lembrar dele andando feito barata tonta — como agora —, inconformado com o exílio imposto pelo top model asgardiano.
Só que agora a sensação dentro de mim é outra. Se naquela ocasião tudo o que eu senti foi estranheza, confusão e um pouco de medo do desconhecido extravagante, agora eu me sinto... Apaixonada. Completamente apaixonada por ele.
Macacos me mordam! Maldição! Mama mia! Eu estou mesmo caída por este trapaceiro, não é? Como lidar? Será que um dia vou me acostumar com esta sensação de perder o ar toda vez que estou diante dele?
Estou me perguntando essas coisas, quando o Deus da Trapaça finalmente percebe que eu abri a porta. Então, o dito cujo se aproxima prontamente, coloca as mãos para trás e me observa por alguns instantes, como se formulasse o que dizer.
Ah! E só para constar, desta vez Loki está sem aqueles chifres ridículos que exibiu durante a festa. Ufa! Ainda bem. Que moda reversa mais esquisita...
Seja como for, não preciso analisá-lo por muito tempo para constatar que Loki está bem inquieto. Ansioso. Talvez um pouco nervoso também.
Então, incomodada com o seu silêncio e sem conseguir resistir ao impulso de provocá-lo, relaxo um pouco, arqueio as sobrancelhas, me apoio na porta e questiono:
— O que foi, chuchu? Está perdido?
Sem dizer nada e com o olhar ainda mais fixo em mim, o gafanhoto asgardiano simplesmente adentra o recinto, me fazendo recuar enquanto fecha a porta e dá mais passos em minha direção.
Com o coração mais disparado e me sentindo confusa com a postura do dito cujo, engulo em seco e gaguejo:
— O que... O que você está fazendo aqui?
Paro de andar para trás quando esbarro na penteadeira ao lado da cama. E acho que prendo a respiração quando Loki se aproxima ainda mais, segura o meu rosto com as duas mãos e começa a responder com certa raiva, provavelmente de si mesmo:
— Indo contra a minha natureza — e com os seus olhos intensos e ferozes mergulhados nos meus vacilantes, completa: — para te mostrar onde você está pisando.
Vixe Maria! É o que penso, mas o que sai de minha garganta enquanto estremeço com o toque de Loki é:
— E isso significa que...?
Como resposta, o deus trapaceiro inclina um pouco a cabeça, estreita o olhar e me desafia:
— Eu acho que você sabe, midgardiana abusada.
Meu corpo se arrepia, pois me lembro da última vez que Loki me chamou assim. Foi um pouco antes do nosso primeiro e instigante beijo. E ainda estou pensando no primeiro, no segundo e também no terceiro beijo entre mim e este trapaceiro irresistível, quando ele se aproxima ainda mais, me fazendo sentir sua respiração em meu rosto.
— Oi? — murmuro meio engasgada e com o coração ainda mais acelerado. — Eu sei? Espera... Como assim? Gafanhoto...
Não tenho tempo de dizer mais nada, já que antes que eu consiga fazer o meu cérebro pegar no tranco, Loki fecha os seus olhinhos de noite serena e me silencia com o nosso... Vejamos... Quarto beijo!
E adivinha o que eu faço? Fecho os meus olhinhos também e correspondo prontamente, afinal... O que mais eu poderia fazer numa situação com esta? Consultar os universitários? Claro que não.
Sendo assim — e embora uma parte de mim ainda esteja tentando entender o que exatamente a atitude de Loki significa —, jogo meus braços em volta da sua roupa de cosplay de gafanhoto, deixando nossos corpinhos mais próximos, e o beijo com vontade e sentimento. Me julguem, mas não dá para resistir. Rá!
Preciso dizer que ouço sinos de novo? Que sinto as borboletas no meu estômago de novo? Que sinto uma felicidade plena, crescente e surreal enquanto beijo este trapaceiro intensamente? Pois é, pois é, pois é. O babado é forte mesmo.
E assim finalmente começo a entender o que está acontecendo aqui. Finalmente entendo por que Loki está aqui. Por que ele veio até aqui.
Resumo da ópera, essa é a sua resposta ao meu ultimato. Essa é a forma de Loki dizer que sim, ele também quer mais do que o jogo de gata e rato que vínhamos protagonizando até então. Ele também quer.
Ao me dar conta disso, a felicidade que sinto se multiplica e me faz abraçar o deus trapaceiro de um jeito mais caloroso, o trazendo para mais perto de mim, do meu corpo, do meu coração mais acelerado do que nunca.
— Eitcha lelê... — murmuro quando Loki me dá uma folguinha do seu beijo sabor algodão doce e me fita por um instante com um olhar que eu não sei descrever, mas que me deixa completamente arrepiada.
— Feliz aniversário, Olivia — ele finalmente me parabeniza pelo meu dia, com os olhos mergulhados nos meus e com aquele bendito sotaque que tanto me desconcerta.
Antes que eu consiga sorrir ou sequer respirar, Loki me toma em seus braços de novo e me silencia com mais um beijo de tirar o fôlego, me aquecendo de um jeito luxurioso, ao mesmo tempo que faz um frio engraçado surgir no meu estômago e reverberar por cada terminação nervosa do meu corpinho trêmulo.
Mama Mia! Isso aqui está bom demais! Socorro!
Não sei como, mas quando dou por mim, caio sobre a cama e sinto o corpo do deus trapaceiro pesando sobre o meu pouco a pouco. Então, minhas mãos sobem por suas costas e envolvem o seu rosto, trazendo Loki para mais perto de mim, ao mesmo tempo em que as mãos do dito cujo acariciam o meu corpo sob a fina camisola.
Por um momento, a insegurança me assombra e eu fico um pouco tensa. Sinto medo do que estou fazendo, do que estou permitindo que Loki faça, do que isso significa e penso em desistir, em recuar, em fugir.
No entanto, o que sinto em meu coração fala mais alto. O que quero fala mais alto. E esse sentimento não permite que eu desista desta vez. Eu quero Loki. Me julguem. E eu quero agora.
Sendo assim, afasto de vez a insegurança, medos, grilos e afins, interrompo o beijo — com certo custo, pois parece que nenhum de nós dois desejava isso — e confesso ofegante:
— Eu quero tirar a sua roupa...
Talvez surpreso com a forma direta com que eu expus meu desejo, uma risada rouca escapa da garganta de Loki, enquanto ele me observa com um sorriso travesso nos lábios e uma chama intensa no olhar.
Em seguida, ele inclina um pouco a cabeça e insinua com aquele sotaque de arrepiar qualquer cristã:
— Eu acho que posso providenciar isso.
— Ótimo... Porque você usa muitas peças e eu não sei nem por onde começar — brinco, surpresa comigo mesma por ter relaxado tão rapidamente.
Enquanto afasta e desce a alça da minha camisola devagar, arrepiando minha pele com seu toque sútil em meu ombro, Loki insinua:
— Eu tenho mais sorte então.
Ai Minha Nossa Senhora Protetora Das Midgardianas Salientes! Socorro! Como diria aquela famosa música brasileira, é hoje!
Bem, o fato é que Loki está certo. Ele não terá muito trabalho para me despir mesmo. E só de pensar nisso, sinto um calor libertino e uma vontade irresistível de beijá-lo novamente.
E é o que eu faço em seguida, sem pensar duas vezes, mergulhando em sua boca e o agarrando sem pudor, guiada por um profundo desejo e pelo sentimento forte que nutro por este danadinho. Rá! É hoje que ninguém dorme neste palácio, minha gente!
Epa! Epa! Epa! Esqueçam essa parte, juro solenemente que irei me comportar — na medida do possível —, e que não farei muito barulho. Na medida do possível.
Esqueço-me de tal promessa assim que as mãos do meu boy magia irresistível percorrem as minhas pernas com afinco, subindo consideravelmente o tecido da camisola e desaparecendo embaixo dela.
Não consigo me conter e gemo contra a sua boca, lhe arrancando um riso abafado contra a minha.
Também não consigo conter um estremecimento desconcertante que se espalha por meu corpo, quando o danadinho distribui um rastro de beijos e leves mordidas pelo meu pescocinho midgardiano, até aproximar os lábios do meu ouvido e comunicar aos sussurros, mas ainda assim de um jeito firme:
— Você é minha, Olivia. Minha.
Papagaio... Acho que depois dessa, meu cérebro derreteu, virou geleia, fumaça, purpurina, algo assim, pois tudo o que consigo fazer é sorrir feito uma retardada e desafiá-lo:
— Então me pega pra você, chuchu.
Acho que tal frase mexe profundamente com o meu gafanhotinho lindo, lindo, lindo! Já que, imediatamente, Loki parte para cima de mim com mais avidez e desejo, roubando o meu ar e a minha sanidade, enquanto me beija de um jeito mais intenso e explora o meu corpo com suas mãos bobas. Safadinho...
Não sei definir o que sinto neste momento, mas acho que é como estar nas nuvens. Ainda não acredito que isso está mesmo acontecendo, ainda não acredito que Loki está mesmo aqui. Comigo. Por inteiro. Entregue.
Epa! Epa! Epa! Será que isso é um sonho então?
Sinto um frio no estômago ao supor isso, mas logo afasto tal ideia. Isso é real. Eu tenho certeza. E sendo assim, decido desligar os meus pensamentos de vez e apenas aproveitar este momento. Vivê-lo intensamente.
Não sei como e quando, mas em dado momento, não há mais nenhuma peça de roupa entre mim e o Deus da Trapaça. E isso deixa a minha cabeça uma verdadeira confusão, porque ao mesmo tempo em que quero me entregar de corpo e alma, volto a ficar tensa com tamanho grau de intimidade entre nós.
Posso estar sendo infantil — novidade —, mas essa súbita vergonha que se abate sobre mim, me faz empurrar Loki, o suficiente para afastá-lo um pouco, e cobrir os meus olhos com as duas mãos por alguns instantes.
Porém, não resisto a certa curiosidade, afasto dois dedos e dou uma espiada no deus trapaceiro apenas com um olho, enquanto digo:
— Olhe para o rosto dele, Olivia. Para o rosto e apenas para o rosto... Você consegue...
Preciso dizer que não consigo seguir minha própria orientação? Pois é.
E... Bem, digamos que o gafanhoto asgardiano não mentiu quando insinuou que a mãe natureza foi generosa com os seus Países Baixos. Pronto, falei!
Tal constatação faz o meu queixo cair, me leva a afastar as mãos do meu rosto prontamente, dissipa a vergonha de uma vez, reacende o desejo e, quando dou por mim, já arregalei os olhos e soltei a máxima:
— É tudo meu?!
E tudo o que Loki faz é soltar mais uma daquelas benditas risadas roucas e voltar a se aproximar de mim, com movimentos tão marcados que me lembram os de um felino prestes a atacar a sua presa.
Ai Minha Nossa Senhora! Acho que no momento, eu sou a presa. Querendo muito que ele me ataque.
E é o que Loki faz. Me ataca, me beija, me envolve e me toma para si. O mesmo Loki que me mediu da cabeça aos pés quando me viu pela primeira vez. Sim, aquele mesmo serzinho insuportável que me infernizou durante o tempo que passou no meu humilde cafofo. A mesma criatura do mal que virou a minha vida de cabeça para baixo e fez uma bagunça no meu coraçãozinho.
Mas também é o mesmo Loki que me abraçou quando eu estava frágil, o mesmo que dançou comigo. Duas vezes, aliás. Mais uma e eu já posso pedir música no Fantástico. O mesmo Loki que me beijou no meio de uma estrada, que se tornou um pouquinho mais digno, aparentemente, por minha causa. O mesmo que foi atrás de mim, há alguns dias, e me agarrou em um beco escuro. E que lutou contra a sua própria natureza para estar aqui comigo agora, como ele mesmo definiu há pouco.
Se alguém me dissesse que isso iria acontecer algum dia, eu diria “Bitch, please! No way!"
No entanto, aqui estou eu. Aqui está Loki. Aqui estamos nós dois. Nos envolvendo e nos entregando um ao outro de um jeito que eu jamais imaginei ser possível.
Mas é como dizem, o mundo dá voltas. Portanto, nunca diga desta água não beberei. Fica a dica.
Paro de pensar nessas coisas e em qualquer outra coisa, quando o gafanhoto asgardiano sussurra algo no meu ouvido. Algo que eu não entendo direito, mas que deduzo ser confie em mim ou algo assim.
Não tenho tempo de perguntar o que Loki quer dizer com isso, nem mesmo se eu entendi direito, pois antes que eu diga qualquer coisa, sua boca se une a minha novamente. E o seu corpo invade o meu.
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