Trapaças do Coração
7 Visita indesejada
Notas iniciais
Quando chego em meu cafofo, minha cabeça está fervilhando de tantas perguntas sem respostas que me fiz.
Exausta, aperto o interruptor ao lado da porta, mas as luzes simplesmente não acendem.
— Que ótimo — resmungo, batendo a porta e tropeçando na escuridão até me acostumar com a única luz disponível, aquela proveniente da lua e que ilumina minha varanda e a sala parcialmente.
Com certeza faltou energia no prédio inteiro e o elevador está funcionando apenas pelo gerador, assim como a iluminação do estacionamento e corredores. Ou então só faltou energia no meu cafofo. Dada a minha sorte atual, não é nada difícil.
Querendo tirar a dúvida, caminho até o interfone na cozinha. Aproximo o aparelho do meu ouvido e estranho quando tento chamar a portaria e nada acontece. Intrigada, seguro o fio e descubro que ele está rompido. Cortado, na verdade.
Mal tenho tempo de assimilar o que isso significa e uma voz grave e sombria surge atrás de mim:
— Olá, Olivia. Ou seria... Agente Mills?
Meu coração congela por um momento e o interfone cai da minha mão, causando um baque surdo no chão.
Do outro lado da bancada, o estranho dá um passo a frente e eu reconheço o seu rosto. Automaticamente, sou transportada para a sorveteria em que fui com Amy há alguns dias e me lembro do homem sentado numa mesa atrás de nós. É ele. O sujeito que me causou um medo instantâneo e acendeu meu alerta para perigo. O mesmo alerta que dispara dentro de mim agora.
O que ele está fazendo aqui? Como entrou? O que eu faço? Eu devia correr para as colinas, afinal sei que estou em perigo iminente, mas meu corpo parece ter estagnado no lugar em virtude da surpresa e do medo aterrador.
— Desculpe aparecer assim sem ser convidado — ele diz com cinismo e frieza enquanto se aproxima e se apoia na bancada, como um predador estudando a melhor forma de atacar a sua presa. — Eu vou ser direto — anuncia enquanto eu tento, discretamente, alcançar o faqueiro na pia atrás de mim. — Eu não pretendo te machucar, desde que você seja uma boa menina e não tente nenhuma gracinha.
Nenhuma gracinha? Poxa vida... Ele devia ter dito isso antes, agora eu já peguei uma das facas.
Do jeito mais discreto que consigo, aperto-a em minha mão e abaixo um pouco o braço, mantendo a arma oculta atrás de mim. Em seguida, tentando ganhar tempo e coragem, pergunto com a garganta seca:
— Quem é você?
O estranho sorri de um jeito enigmático e desconversa:
— Você não precisa de um nome, mas se quiser eu posso te dar uma dica.
Então ele dá a volta na bancada e eu simplesmente não consigo me mover. Cada batida pesada do meu coração é como um alerta de perigo, uma ordem para eu correr, mas simplesmente não consigo reagir. Minha mão começa a suar e meu corpo a tremer, o medo se alastra e me domina. Engulo em seco quando o meu provável sequestrador para bem diante de mim, afasta uma mecha do meu cabelo, aproxima o rosto e sussurra no meu ouvido:
— Hail HYDRA.
Um arrepio percorre minha nuca e se espalha por cada célula do meu corpo. HYDRA! Inimiga da S.H.I.E.L.D.! Os vilões! Perigo! Tenho que fugir!
Finalmente venço a sensação congelante do medo e deixo o instinto de sobrevivência ganhar força. Quando dou por mim, já movi a faca na direção do meu inimigo e acertei o seu abdômen. Infelizmente, apenas de raspão. Felizmente, o suficiente para fazê-lo se afastar um pouco e cambalear, o que me dá certa vantagem para correr.
E é o que eu faço. Corro em direção à sala como se minha vida dependesse disso — e de certa forma, acredito que dependa mesmo —, porém antes que eu cruze o cômodo, alguém segura o meu braço com força e o torce dolorosamente para trás, me obrigando a soltar a faca e me arrancando um gemido de dor e agonia.
— Shh — o homem que tentei esfaquear há alguns instantes me segura com mais força e ameaça: — Eu não quero ter que matar os seus vizinhos, Olivia, mas se você fizer barulho e acordá-los, eu não terei escolha.
Tal possibilidade me congela novamente. Contudo, ao me lembrar de um golpe típico de filmes de ação, arrisco tentar. Não quero que ninguém se machuque por minha causa, mas não posso entregar minha vida nas mãos do inimigo. Por isso, lanço a cabeça para trás com força e acerto o seu rosto com um impacto tão forte que fico zonza no mesmo instante. Sem falar na dor lancinante que se espalha por minha cabeça.
Droga, sempre funciona nos filmes!
O estranho me solta e eu caio no chão de mau jeito. Minha cabeça acerta a mesinha de centro e uma nova dor se junta àquela da cabeçada anterior. Os cacos do tampo de vidro se espalham pelo chão e, enquanto eu me arrasto na direção da porta, suas pontas cortantes perfuram a palma das minhas mãos.
Solto um grito involuntário e desvio dos próximos cacos. Mas não vou muito longe, já que o lacaio imundo da HYDRA volta a me atacar, segura o meu cabelo com força, puxa a minha cabeça para trás e prende meus braços com os joelhos.
Em cima de mim, ele me imobiliza e debocha:
— Você é uma lutadora, Olivia. Eu admiro isso.
Quando ele solta o meu cabelo, meu rosto atinge um caco de vidro no chão. Um corte é aberto em minha têmpora e eu grito.
— Os vizinhos, lembra? — meu algoz ameaça novamente, com um hálito quente no meu ouvido, e eu engulo a dor com um gemido abafado.
Quando ouço o barulho característico de uma fita adesiva sendo desenrolada, me debato, tentando desesperadamente me soltar. O homem em cima de mim aumenta a pressão nas minhas costas e puxa um braço por vez antes de começar a envolver meus pulsos com a fita.
Continuo me debatendo, mas algo que o sujeito diz me faz parar automaticamente:
— Essa força toda com certeza pode ser explicada pelo seu DNA alienígena, não é? Bem, pelo menos foi o que eu entendi com as informações do pen drive.
Oh não... Ele sabe. A HYDRA sabe. Eu não perdi o pen drive temporariamente, esse sujeito desprezível entrou no meu cafofo e o roubou sabe-se lá quando e como. Teve tempo suficiente para examiná-lo e compartilhar o conteúdo com a organização para a qual trabalha. Não! Não! E não! Isso não pode estar acontecendo!
Convencido de que meus braços estão bem presos, o sujeito me vira e me encara com um olhar gélido e um sorriso triunfante que me dão arrepios.
— Você será muito útil para nós, Olivia.
O que está acontecendo? O que a HYDRA quer comigo afinal?
Buscando respostas, acabo me lembrando do amigo do Capitão América, Bucky Barnes. A HYDRA o capturou, o transformou em uma verdadeira máquina de matar a favor deles, apagou suas memórias, o transformou em algo que ele certamente não queria ser, coitado.
Será que pretendem fazer o mesmo comigo? Fazer experiências em mim? Testar ao extremo o meu atípico DNA?
Apavorada com tal possibilidade, resolvo aplicar o único golpe que posso, dada a minha posição. Um golpe que aprendi com a minha saudosa avó e que até já desferi no Loki Jr. Me julguem, mas na época, o abusado bem que mereceu aquilo.
Sem pensar duas vezes e correndo contra o tempo para me salvar desta sinuca de bico, dou uma senhora joelhada nos países baixos do parasita em cima de mim. Mas devido ao meu nervosismo e falta de coordenação no momento, apenas acerto a sua coxa.
Graças ao Mestre dos Magos, é o suficiente para que o imbecil se desequilibre, diminua a pressão sobre meu corpo e recue um pouco.
Aproveito a deixa, reúno todas as forças dentro de mim e empurro o infeliz para longe com meus pés, enquanto grito de raiva tomada por uma onda de adrenalina e energia que nunca senti antes.
Fico surpresa quando percebo o quão longe o sujeito foi parar, do outro lado da sala, batendo as costas na estante em cheio.
Rá! Bem feito, mané!
No mesmo instante, me levanto trôpega e sigo rumo à porta com passos incertos. Mas me vejo diante de um impasse quando percebo que não tenho como abrí-la, já que minhas mãos estão presas com a fita atrás das minhas costas.
Do jeito que posso, esfrego a lateral do meu corpo na maçaneta, lutando para abrí-la de qualquer jeito e o mais rápido possível.
É quando meu inimigo me alcança novamente e uma onda de eletricidade dolorosa atinge as minhas costas e se espalha por todo o meu corpo com um ruído assustador.
Simplesmente caio de joelhos enquanto a descarga elétrica continua me atingindo e tensionando cada músculo do meu ser. Perco as forças e me entrego à dor até que ela me envolve por completo. Não consigo gritar, minha voz simplesmente não sai, como naqueles pesadelos agoniantes em que não conseguimos pedir socorro.
O monstro finalmente afasta a máquina de eletrochoque do meu corpo, me vira em sua direção com um movimento brusco e diz com um divertimento sádico:
— Eu devia ter usado isso antes, mas o que posso fazer? Eu sempre prefiro conversar primeiro, esperando que seja o suficiente. Não dizem que conversando a gente sempre se entende? Que o diálogo é sempre a melhor maneira de entrarmos em um acordo?
Queria mandá-lo ir para um lugar onde o sol não brilha, mas não consigo. Minha garganta está seca e o simples gesto de abrir a boca é um sacrifício doloroso.
De repente, o infeliz ri e diz impressionado:
— Você ainda está consciente! Essa descarga é suficiente para derrubar um cavalo, sabia? Mas veja só! Não é o bastante para derrubar a híbrida Olivia Mills! — Ele dá uns tapinhas no meu rosto. — Você é mesmo especial. Não é à toa que o idiota do Coulson te quer por perto. Muito esperto da parte dele. — Após uma pausa, o parasita acrescenta pensativo: — Von Strucker vai ficar muito satisfeito. Eu soube que ele tem uma jaula especial para você, sabia?
Sinto um calafrio ao entender a mensagem e no momento seguinte, o carrasco me segura firme, se levanta e me acomoda em seu ombro, como se eu fosse uma boneca de pano. É assim que me sinto, aliás. Uma impotente e inerte boneca de pano.
Desolada e incapaz de reagir, faço um esforço para que minha voz rompa o nó em minha garganta e indago novamente:
— Quem… é você?
A porta é aberta, o meu sequestrador olha para os dois lados, se certificando de que meus poucos vizinhos continuam dormindo, e rebate:
— Você quer mesmo um nome, não é? Muito bem, é justo. Eu no seu lugar também ia querer saber.
Meu corpo balança à medida que o monstro detestável caminha pelo corredor, acessa a escada para o terraço e sobe os degraus com destreza, como se não estivesse carregando uma pessoa no ombro.
— Grant Ward — ele finalmente se apresenta — ao seu dispor — completa com um deboche tangível. — Pode me chamar de Grant, se quiser. Ou de Ward, se preferir. Tanto faz.
Fazendo um novo esforço, consigo retrucar com raiva:
— Acho que eu vou te chamar de filho da...
— Oh, oh! — ele me corta. — Cuidado, Olivia. O que Susan Mills iria pensar se te ouvisse xingando assim? Oh, certo! Esqueci completamente, ela está morta, não é? Meus pêsames.
Meus olhos se enchem de lágrimas. Em parte pela menção fria que ele faz, mas também por perceber que a HYDRA sabe muita coisa a meu respeito e isso não pode ser um bom sinal. Eles devem estar me investigando há semanas, talvez meses. E eu fui tão ingênua que em nenhum momento pensei o quanto era arriscado me envolver com os Vingadores e a S.H.I.E.L.D. Não pensei que eu deveria ser mais cautelosa com a minha própria segurança.
Ao invés disso, continuei deixando a chave extra embaixo do vaso ao lado da porta de entrada. Com certeza, meu cafofo deve estar cheio de escutas clandestinas, talvez câmeras escondidas. Com certeza, estava sendo seguida há muito tempo. Com certeza, Grant Ward entrou lá inúmeras vezes e revirou a minha vida.
Enquanto me martirizo com tudo isso, ele finalmente empurra a porta do terraço. O ar noturno me atinge e um vento forte e artificial balança meus cabelos. Ouço o barulho de hélices em movimento e ouço meu raptor comemorar satisfeito:
— Humm... Nossa carona chegou. Bem a tempo.
Uma lágrima escorre pelo meu rosto quando tudo dentro de mim grita que esse é o meu fim. Estou sendo sequestrada e vou virar cobaia da HYDRA.
Outra lágrima escapa pelo canto do meu olho e uma sensação desoladora de desespero me domina junto com um medo paralisante.
Ward continua andando, mas de repente detém o passo quando um grande estrondo e uma luz muito forte se espalha pelo terraço. Em seguida, vozes xingam em um idioma que deduzo ser russo, tiros ricocheteiam pelo ar e o barulho das hélices girando rapidamente começa a oscilar pouco a pouco.
Ouço gritos de homens e sinto a vibração de uma enorme confusão que acontece a minha volta, mas eu não consigo ver. Pela superfície da porta laminada do terraço, pela qual passei momentos antes, tudo o que consigo distinguir é um reflexo esverdeado surpreendendo agentes em uniformes pretos que, de repente, ficam extremamente brancos, cristalinos, brilhantes... Congelados.
O reflexo se movimenta rápido, some e aparece em diferentes lugares, surpreendendo os agentes da HYDRA, antes que eles consigam acertá-lo com os tiros.
Quando seus corpos atingem o chão é como se estátuas de gelo tivessem tombado e se partido em centenas de pedaços. Os cacos se espalham. Alguns caem do prédio. Outras estátuas despencam inteiras e seguem seu destino: se espatifarem na calçada lá embaixo.
De repente, tudo fica em silêncio e eu sinto um frio congelante me atingir por meio da brisa natural que circula por essa parte do prédio. Não ouço mais o barulho do helicóptero ou os tiros. Muito menos os gritos.
Ward me solta no chão e eu me choco com a superfície em cheio. Gemo de dor e olho para o lado, fitando rapidamente o helicóptero totalmente congelado. Por um momento me sinto em Frozen e tenho vontade de cantar Let it go. Mas não tenho tempo para isso.
Olho na direção dos pés de Grant Ward. Eles recuam mais um pouco. E são erguidos do chão quando outros pés entram no meu turvo campo de visão. Reconheço as botas asgardianas e a capa verde balançando ao vento.
— Gafanhoto... — murmuro, lutando para manter a consciência, mas a escuridão parece mesmo querer me engolir. E é tão forte e tentadora que começo a me entregar a ela, sendo embalada pouco a pouco.
Noto uma fina camada de gelo surgindo nas pontas das botas de Grant Ward e se espalhando rapidamente. O fato curioso me mantém alerta por alguns instantes e eu resisto ao ímpeto de fechar os olhos.
Ergo a cabeça e vejo Loki segurando o pescoço do meu sequestrador. Me surpreendo ao perceber que, tirando os trajes verdes de gafanhoto, o Deus da Trapaça está completamente azul.
Seus olhos vermelhos e sua expressão raivosa e assassina são as últimas coisas que vejo antes de perder a consciência.
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