Trapaças do Coração
5 Seguindo instintos
Notas iniciais
Depois de rezar toda a missa para o meu terapeuta gato, me concentro em respirar fundo e soltar o ar devagar a fim de recuperar o fôlego, enquanto ele avalia tudo o que ouviu. E é muita coisa para assimilar, diga-se de passagem.
Contei tudinho. Tim tim por tim tim. Desde o meu primeiro dia na base secreta da S.H.I.E.L.D., o embate com a Viúva Negra e suas consequências, a missão que Coulson designou a mim e como eu comecei a colocá-la em prática, contando o babado para o trapaceiro irresistível e saindo de Asgard de fininho.
— Então, deixe-me ver se eu entendi. — Christian pigarreia, e mesmo de costas para ele no divã onde estou esparramada e balançando os pés, aposto que o crush do Josh se mexe em sua poltrona de couro e ajeita o óculos charmosamente antes de continuar: — Em outras palavras, você deu um ultimato em Loki.
— Claro que não! — digo meio no susto, embora no fundo tenha sido praticamente isso mesmo. — Eu só me afastei para que o gafanhoto possa pensar com carinho na proposta da S.H.I.E.L.D. e pelo menos ponderar aceitá-la.
Pouco convencido e ligeiramente desconfiado, o Dr. Patel questiona:
— Simples assim? Sem nenhuma artimanha envolvida?
Eitcha lelê... E agora? Conto ou não conto o pequeno detalhe?
Bem, já que o meu rosto ruboriza assim que lembro da greve de acasalamento que impus ao Deus da Trapaça, decido que é melhor desconversar:
— Okay, digamos que nós mulheres temos que jogar com as armas que possuímos. Agora eu agradeceria muito se você me poupasse de entrar em detalhes constrangedores. Você pode ser o meu terapeuta fofo, mas certas coisas são muito íntimas e eu prefiro mantê-las assim.
Prontamente, Christian assente:
— Claro, como você quiser. Eu não quero constrangê-la, Olivia.
Então ele não diz mais nada, porém o seu silêncio é bem significativo e me incomoda consideravelmente.
Impaciente, me sento no divã de uma forma que eu possa vê-lo de frente e intimo:
— Desembucha logo. Por que você não aprova o que eu estou fazendo?
O crush do meu melhor amigo me encara e permanece mudinho da Silva por mais alguns instantes. Logo depois, pega o tablet que até então repousava em seu colo e o coloca sobre uma pequena mesa ao seu lado. Só depois de apoiar uma perna sobre o outro joelho, se manifesta com uma sinceridade tangível:
— Eu não disse que não aprovo, eu só... Estou preocupado. Não apenas como seu terapeuta, mas principalmente como seu amigo. Eu estou me perguntando se a forma como você decidiu conduzir a missão é benéfica. Em como isso já está afetando a sua relação com Loki e em como vai te afetar pessoalmente, tanto se ele recusar a oferta da S.H.I.E.L.D. como se aceitá-la. Como você se sentirá nas duas situações, Olivia? Se Loki recusar, tudo bem para você?
Mal tenho tempo de refletir sobre esses questionamentos e o Dr. Patel despeja mais uma série deles:
— Supondo que Loki aceite, tentar pelo menos, será que fará isso por escolha própria ou apenas para não desapontá-la? Você quer colocá-lo nessa situação? E supondo que ele aceite a oferta de bom grado, como será depois? Quais serão os próximos passos? Como será quando os Vingadores forem envolvidos? Você está realmente pronta para esse desafio, Olivia? Para ser a ponte entre eles? E para eventuais consequências do sucesso ou do fracasso da missão, você está pronta?
Zonza com tantas perguntas e receosa porque desde que Phil Fofo Coulson me designou esta missão, eu não pensei tão profundamente assim sobre ela, me ouço balbuciando com sarcasmo:
— Poxa... Você sabe mesmo como animar alguém, Dr. Patel.
— Desculpe, não foi minha intenção desmotivá-la. Longe disso, Olivia — meu terapeuta gato se apressa em esclarecer. — Na minha opinião, a missão é válida e as motivações que te fizeram aceitá-la são nobres. Eu só acho que você deve pensar melhor nas suas atitudes até aqui e nas que terá que tomar eventualmente. Eu quero que você esteja ciente do que elas significam, entende?
— Você acha que eu não estou ciente? — Franzo o cenho.
Prontamente, ele rebate:
— Eu acho que você está empolgada e esperançosa. O que é bom, desde que isso não te cegue. Para não se iludir nem se decepcionar, você deve estar preparada para o sim e para o não. Para o que der e vier, como dizem por aí.
Talvez percebendo que eu fiquei sem palavras, Christian me observa por um momento, pensa um pouco e depois aconselha mais suavemente:
— Esteja ciente, Olivia, mas não se cobre tanto. Nem o Loki. Não deixe que a missão da S.H.I.E.L.D. influencie a relação de vocês mais do que o necessário, nem que abale a sua amizade com os Vingadores. Eu sei que eles são importantes para você e sei que você quer fazer algo positivo por todos eles e pelo mundo, mas lembre-se que antes de agente Mills, você é a Olivia. Apenas Olivia. É isso que vai restar se a missão não der certo, apenas você e os relacionamentos que construiu até aqui. Então, siga os seus instintos, confie em si mesma e esteja ciente de qualquer decisão que tomar daqui para a frente.
As palavras do meu terapeuta fofo vagueiam por minha mente e eu tento assimilá-las como posso. Sinto que ele tem razão, que eu estou mesmo agindo impulsivamente até agora, pensando apenas no sucesso da missão, custe o que custar, com medo de decepcionar a S.H.I.E.L.D. e desesperada para que Loki seja aceito por todos.
Preciso colocar os pés no chão, preciso seguir os meus instintos e meu coração, preciso pensar melhor em cada passo que eu der de agora em diante. Ou eu pondero melhor minhas atitudes, ou vou acabar magoando o gafanhoto e até os Vingadores.
Tenho que ser a ponte entre eles. E uma ponte precisa ser firme, forte e segura, mas também flexível. Preciso estar aberta ao diálogo e preparada para ouvir alguns nãos pelo caminho.
Vendo as coisas com mais clareza agora, torno a fitar o Dr. Fofo Patel e sorrio discretamente, sentindo-me mais confiante, porém realista.
Estou pronta para agradecê-lo por abrir os meus olhos — e talvez até para voar em cima do dito cujo e encher o seu rostinho lindo de beijos de gratidão —, quando algo que ele diz me desagrada imediatamente:
— Por fim e não menos importante, não use esta missão para não pensar em outro assunto igualmente pertinente.
— Não começa — corto seca, sentindo certo desconforto ao deduzir do que ele está falando. Ou melhor, de quem.
Christian me encara por alguns segundos e parece ponderar as palavras, antes de dizê-las com certa cautela:
— Eu sou o seu terapeuta, Olivia. Tenho que tocar em todos os assuntos que julgo importantes para a sua evolução. Mesmo que você queira evitá-los.
Sentindo-me acuada e ainda mais desconfortável, limito-me a reforçar com cara de poucos amigos:
— Eu disse não começa.
— Em algum momento, você terá que falar sobre o seu pai — insiste, depois de respirar fundo.
Cruzo os braços e enquanto balanço os pés impacientemente, retruco:
— Não agora.
— Quando então? — o danado me desafia. — Quando Peter voltar do espaço, dizendo que o encontrou e que o pai de vocês quer conhecê-la?
Abro a boca para responder, mas as palavras não saem. Então me dou conta de que não sei o que dizer. Muito menos o que farei se isso acontecer em um futuro próximo. Não sei como vou agir se e quando estiver diante do meu misterioso pai.
Novamente, não estou preparada. Evito pensar no assunto porque a verdade é que sinto muita mágoa dele. Não consigo entender por que o Sr. Pegador da Galáxia se engraçou com a mãe de Peter, com a minha e depois simplesmente desapareceu.
Ele nunca me procurou. Será que ao menos sabe que eu existo? Será que se importa?
— Eu tenho medo — admito por fim, abandonando a postura defensiva e abaixando a cabeça para olhar minhas mãos sobre o colo. — Medo de descobrir quem ele é, medo de ser rejeitada, medo de não gostar dele e da recíproca ser verdadeira, medo de gostar muito e ele desaparecer de novo, medo. E raiva também. Muita raiva. Não tanto por mim, mas pela minha mãe. O que ele fez não fui justo com ela. Ele foi um canalha. — Ergo o olhar na direção de Christian e exponho vencida: — Você está certo, eu preciso falar sobre isso. Mas por favor, não hoje.
— Isso já foi um bom começo. Nós podemos continuar na próxima sessão. — Ele arqueia as sobrancelhas, aguardando minha resposta afirmativa.
Sorrio amarelo e, tentando ganhar mais um tempinho, sugiro:
— Que tal na última sessão do mês?
— Olivia...
— Eu prometo que não vou fugir! — asseguro, afoita. — Eu só preciso de um tempinho para procrastinar... Digo, para me preparar psicologicamente e tocar nessa ferida, falar mais abertamente, essas coisas.
O Dr. Patel me analisa por algum tempo, como se estivesse buscando qualquer sinal de que eu estou tentando enganá-lo. Em seguida, parecendo convencido do contrário, ele relaxa visivelmente e assente:
— Tudo bem, mas até lá eu quero que você realmente pense sobre o seu pai. E o mais importante, que reflita sobre algo que sua avó costumava te dizer, lembra?
Sim, eu lembro. Sentir o medo e enfrentá-lo. Falar é fácil, colocar em prática nunca é. Mas eu não posso entregar os pontos. Tenho que me preparar para quando Peter encontrar o nosso pai.
— Eu vou tentar — comprometo-me e então a sessão acaba.
Levanto-me logo depois de Christian. Mas quando ele se despede com o seu característico aperto de mão forte e um sorriso gentil, eu permaneço imóvel, reavaliando os meus planos para este dia, até que uma ideia surge em minha mente.
Percebendo que o meu terapeuta me encara com certa confusão, resolvo explicar:
— Sabe, eu pretendia fazer uma visitinha aos Vingadores hoje e prosseguir com a missão de alguma forma impulsiva, mas em virtude da nossa conversa, acho melhor esperar um pouco mais e ponderar minhas atitudes daqui para frente.
— Muito bem. Eu fico feliz que nossa conversa de hoje tenha surtido efeito tão rápido. — O Dr. Patel estreita o olhar, pressentindo que isso não é tudo que eu tenho a dizer.
E realmente não é. Por isso, pigarreio e, enquanto me mantenho atenta às suas possíveis reações, revelo meu plano pausadamente:
— Sabe... Eu estou pensando em ligar para o Josh e convidá-lo para almoçar aqui perto. O que você acha?
Vamos estabelecer uma coisa elementar? Christian Patel é lindo. Isso é um fato. Outro fato é que ele fica ainda mais lindo quando é pego de surpresa e fica sem graça. Como agora, por exemplo. Seu olhar se concentra em um ponto qualquer do chão, seu rosto perfeito fica ligeiramente ruborizado e o nervosismo é tangível, praticamente exala do seu corpinho.
Porém, Christian logo faz um esforço para disfarçar o quanto ficou desconcertado ao ouvir o nome do meu melhor amigo, volta a me fitar nos olhos e, contendo um sorriso misterioso, avalia:
— Parece uma ótima ideia. Com certeza, será um almoço muito divertido.
Divertido vai ser quando eu inventar uma desculpa, sair pela tangente e deixar vocês dois sozinhos, meu bem!
Rá! Me julguem, mas eu acho que esse romance entre meu terapeuta e meu melhor amigo está indo devagar demais. Está na hora de dar uma acelerada básica no processo, um empurrãozinho de amiga, bancar o cupido, fazer esses dois correrem para o abraço, para os beijos de uma vez e eitcha lelê!
— Então você topa? — Antes que Patel mude de ideia, procuro o celular na bolsa apressadamente. — Eu vou ligar para Josh agora mesmo!
— Claro, fique à vontade — Christian diz despreocupadamente, porém sinto pelo tom da sua voz que ele está escondendo alguma coisa. — Eu tenho certeza que Josh não vai se importar se você almoçar conosco também.
Hesito com o celular em mãos e o encaro confusa.
— Como assim? — Algo no discreto sorriso do Dr. Patel me faz deduzir surpresa e com empolgação: — Ai meu Deus! Vocês já tinham marcado de almoçar juntos! Então não precisam do empurrãozinho! Glória a Deus!
Oops... Acho que falei demais.
— Então você ia mesmo armar uma situação entre nós? — o crush do meu amigo mata a charada, cruzando os braços e me encarando de um jeito incisivo e divertido ao mesmo tempo.
Comprimo os lábios como o Baby da Família Dinossauros enquanto avalio se devo desembuchar ou não. Como seria inútil negar o óbvio, decido que o melhor é abrir o jogo de uma vez e quem sabe conseguir algumas informações sobre o casalzinho do momento.
Sendo assim, despejo empolgadíssima:
— Eu só queria ajudar, juro juradinho. Mas fico muito feliz em saber que os meus serviços de cupido não são necessários. Já era hora, hein, doutor? Mas me conta! Quem tomou a iniciativa de convidar o outro? Vocês já se beijaram? Ouviram os sinos? E as borboletas?
Quando dou por mim, estou com as mãos unidas abaixo do queixo e encarando o dito cujo com ansiedade e curiosidade nível hard. Até que Patel desvia o olhar do meu, engole em seco, passa a mão pela nuca e tenta desconversar meio sem jeito:
— Olivia... Eu prefiro não entrar em detalhes. Nós estamos apenas nos conhecendo melhor e... Eu prefiro... Bem...
— Ai que fofo! Você ficou sem graça de novo! — vibro aos risos. — Tudo bem, relaxa, doutor. — Decido pegar leve, me recompondo enquanto me afasto, dando passos para trás em direção à saída. — Eu não vou perguntar mais nada e tampouco quero te atrasar para o seu almoço romântico.
O Dr. Patel fica vermelho novamente e eu sinto uma satisfação enorme diante disso. É como uma doce vingança, já que ele tem o direito de perguntar qualquer coisa sobre mim e agora eu paguei na mesma moeda, o colocando numa saia justa. Entretanto, o que me deixa mais feliz é saber que realmente está rolando alguma coisa entre ele e Josh.
Lógico que eu senti um clima quando os dois se conheceram, pouco antes da minha primeira sessão. E senti um climaço na festa de aniversário de Tony Stark, há alguns dias, quando eles ficaram conversando em um cantinho do salão.
Fora isso, tenho certeza que Josh e Christian devem ter se visto outras vezes. Trocado telefones e se falado, pelo menos. Só que eu estava concentrada demais em estreitar laços com o meu recém descoberto meio irmão, que passava uma temporada na Terra, para bancar a shipper desses dois lindos!
Bem, agora Peter não está mais aqui, logo...
De repente, algo que Christian começa a dizer dissipa os meus devaneios:
— Não é um almoço roman...
Não o deixo prosseguir, afinal quem ele está querendo enganar? Então reviro os olhos e o corto:
— Bitch, please! Pra cima de mim? — Afasto-me mais um pouco e abro a porta. Sorrio, dou uma piscadinha e o incentivo: — Aproveite o almoço, Christian. A companhia, melhor dizendo.
Desistindo de me enrolar, a coisa fofa relaxa com um leve sorriso e assente com um meneio de cabeça.
— Depois eu quero o relatório completo do babado, hein? — exijo para desespero do meu terapeuta e amigo, que me olha com certo pânico na sequência.
Christian é mesmo um sujeito discreto, o que o torna ainda mais fofo. Por outro lado, coitado, vai sofrer com a minha inconveniente e incorrigível curiosidade. Sinto muito, mas eu vou querer saber tudinho.
Quase solto uma risada maquiavélica, mas me seguro e esclareço:
— Relatório de ambas as partes! Então diga ao meu querido Best Friend Forever que se prepare para o interrogatório de Olivia Mills.
Antes de sair do consultório rapidamente e, portanto, sem dar qualquer chance para que Christian proteste, me despeço bem humorada e feliz:
— Beijos de luz, tchauzinho e até semana que vem, neste mesmo horário, neste mesmo canal!
***
Quando saio da clínica e alcanço a calçada, meu celular vibra e o retiro da bolsa prontamente. Caminho em direção à rua, ao mesmo tempo em que leio a mensagem de Amy dizendo que precisa conversar.
Enquanto sigo distraidamente para o outro lado da rua, sugiro um almoço em um restaurante perto daqui. Estou aguardando a confirmação da minha amiga do coração, quando um barulho estridente e irritante me traz de volta à realidade. Olho para a minha direita a tempo de ver um carro se aproximando em alta velocidade.
Macacos me mordam!
Sou tomada por um sobressalto e minha vida passa como um filme diante dos meus olhinhos de noite serena. Estagnada pela surpresa, não consigo me mover e apenas aguardo pelo meu trágico desfecho enquanto abro a boca até formar um O.
Será que o meu DNA alienígena é capaz de me salvar desta vez? Eu sou à prova de atropelamentos? Eu vou sobreviver?
De repente, penso no gafanhoto e me arrependo de não ter me despedido direito antes de voltar de Asgard. Se eu soubesse que ia morrer hoje, teria tirado a sua roupa e deixado minha marca.
De repente, alguém se aproxima e me puxa para a calçada abruptamente. Não, não é o trapaceiro irresistível quem salva a minha vida, nem Bruce Banner como da última vez, mas sim Amy Prescott, minha melhor amiga.
O carro, que quase me atropelou, passa buzinando de um jeito irritante por nós duas e eu tenho a impressão que o motorista tem a audácia de me xingar.
Embora eu não tenha entendido muito bem o que ele disse exatamente, não penso duas vezes e revido possessa:
— É a mãe, seu barbeiro de uma figa!
— Olivia! — Amy me puxa novamente, obrigando meu corpo trêmulo a segui-la pela calçada aos tropeços, enquanto me dá um sermão: — Pelo amor de Cher! Onde você estava com a cabeça para atravessar a rua daquele jeito? Por que você nunca olha para os dois lados? Por que você não olha para lado nenhum? Você é maluca ou se acha imortal?! Deus... Você podia ter morrido!
— Ei, ei! Não se preocupe, não precisa ficar assim — tento tranquilizá-la, finalmente percebendo que ela tem razão. Eu nunca aprendo e sempre me esqueço de olhar antes de atravessar, ainda mais quando estou distraída com alguma coisa ou pensando na morte da bezerra. — Eu estou bem agora. Graças a você, aliás. Obrigada, viu?
— Agradeça-me olhando para os dois lados da próxima vez, Olivia. — Amy ri sem humor, ainda possessa com o meu momento de distração.
Quando ela finalmente se recupera do susto e solta a minha mão, eu me lembro do que estava fazendo enquanto atravessava a rua, detenho o passo e exponho intrigada:
— Espera aí, por que você me mandou mensagem se estava do outro lado da calçada? Bem em frente à clínica?
Amy detém o passo também, mas hesita por alguns segundos antes de finalmente se virar em minha direção e responder evasivamente:
— Eu só estava ansiosa.
— Deu para perceber. Você estava me esperando sair? — Estreito o olhar, estranhando a atitude da minha amiga.
Depois de respirar fundo e pensar um pouco, Amy torna a se pronunciar:
— Eu queria conversar, Liv, mas não queria atrapalhar os seus planos. Agora você é uma agente secreta e namora um deus nórdico. Eu ia entender se não pudesse se encontrar comigo neste momento e iria embora antes que você me visse.
Sinto um aperto em meu peito ao ouvir tais argumentos e uma ponta de culpa me atinge em cheio.
A verdade é que nos últimos tempos, acabei deixando Josh e Amy meio de lado. Loki, meu irmão, os Vingadores e a proposta de emprego da S.H.I.E.L.D. roubaram toda a minha atenção nas últimas semanas.
Tenho certeza que meu amigo não se importou muito com o meu distanciamento, já que também esteve focado em outras coisas — lê-se em Christian Patel — e acabou se afastando também. Mas Amy... Sinto que estou em débito com ela.
Disposta a consertar isso, esqueço todo o resto e esclareço pausadamente:
— Em primeiro lugar, eu não tenho planos para hoje. E em segundo lugar, mesmo que eu tivesse, eles teriam que esperar porque parece que a minha melhor amiga está precisando conversar. E você pode contar comigo para isso sempre, okay? Sempre.
Amy sorri levemente, visivelmente aliviada e feliz com as minhas palavras. Também feliz por termos um momento como esse, indago empolgada:
— Então, onde você quer almoçar?
— Humm... — ela murmura com a mão no queixo enquanto avalia a minha pergunta. Logo depois, responde super animada com a própria ideia: — Já sei! E se ao invés de almoçar, a gente se entupisse de sorvete até não aguentar mais? Tem uma sorveteria bem perto daqui.
Meu estômago se anima com a sugestão, me fazendo bater palmas e responder imediatamente:
— É uma ótima ideia! Eu aprovo! Aliás, eu tenho certeza que uma boa dose de sorvete tem os mesmos nutrientes que uma refeição completa.
— Com certeza! E nós podemos montar um prato bem colorido, como os nutricionistas mandam. — Amy sorri ainda mais entusiasmada com o nosso plano calórico.
— Claro! Com sabores variados, coberturas de todas as cores, bastante M&M'S e jujubas por toda a parte! — sugiro, sentindo o meu estômago se agitar de novo.
Sem dizer mais nada, Amy segura a minha mão e praticamente me arrasta pelo centro de Nova York, certificando-se de que eu não serei atropelada nas duas avenidas que atravessamos, até finalmente chegarmos ao paraíso. Digo, à sorveteria.
Depois que montamos os nossos pratos e passamos pelo caixa, nos acomodamos em uma das mesas externas e partimos para o ataque como duas esfomeadas.
Enquanto me delicio com o excesso de glicose e calorias, observo Amy discretamente à minha frente. Ela estava ansiosa para se encontrar comigo e agora está comendo doce compulsivamente. Ou seja, está acontecendo alguma coisa.
Querendo descobrir o que é, para assim ajudá-la no que for preciso, interrompo a minha comilança, me endireito na cadeira e indago:
— E então? O que você queria me contar?
Meio no susto, ela rebate:
— Oi? Nada... Por quê?
Estreito o olhar em sua direção, querendo ter o dom de ler a sua mente, e faço questão de lembrá-la:
— Porque você ficou sabe-se lá quanto tempo me esperando sair da clínica e me arrastou para cá sob o pretexto de que queria conversar. Então, aqui estou eu. O que houve?
— Nada... Nada de importante. — Amy desconversa. E talvez percebendo que não soou nem um pouquinho convincente, acrescenta com um sorriso amarelo: — Eu acho que só estava com saudade de ver a minha melhor amiga. Desses momentos, sabe?
Respiro fundo, a encaro com firmeza e articulo pacientemente:
— Amy, eu também estava com saudade, mas eu te conheço muito bem. Não é só por isso que nós estamos aqui. Tem caroço nesse angu, não tem? O que está acontecendo?
A criatura abre a boca — possivelmente para desconversar de novo —, porém quando eu a encaro com o olhar semicerrado e incisivo, ela morde o lábio por um momento, revira os olhos e finalmente é sincera:
— Okay, você está certa. Eu tinha mesmo algo a dizer. Mas agora eu percebi que é bobagem, então vamos esquecer isso, tudo bem?
Esqueçam o que eu disse sobre Amy estar sendo sincera. A danada não é sabonete, mas escorregou mais uma vez e está tentando me enrolar de novo. Por que, eu não sei. Ela sabe muito bem que pode me contar qualquer coisa.
Tentando lembrá-la disso, resolvo insistir:
— Eu não sei o que você está escondendo, mas com certeza não é bobagem.
— Eu não estou escondendo na... — Amy desiste de mentir quando eu inclino a cabeça e lhe lanço um sorriso incrédulo. — Certo, eu vou abrir o jogo e você vai ver que não é nada de mais — anuncia, estranhamente sem graça e então começa a batucar os dedos na mesa.
— Prossiga — incentivo-a, tentando não demonstrar a minha curiosidade para não deixá-la ainda mais tensa.
Amy ainda me enrola mais um pouco, voltando a se concentrar na sua montanha de bolas de sorvete, e só depois da última colherada, começa a contar o babado:
— Aquela noite, na Torre dos Vingadores, eu estava frustrada e com raiva por causa do seu irmão gato, com todo o respeito, que não quis saber de mim e acabei bebendo demais. E... Depois eu esbarrei em alguém, que me pediu inúmeras desculpas, perguntou se havia me machucado, mas não chegou a se apresentar oficialmente. Ele simplesmente se afastou depois disso e eu o perdi de vista.
O relato da minha amiga me leva de volta àquela noite, aniversário de Tony Stark — o Homem de Ferro!!! —, despedida de Peter.
Ter dançado à beça com o meu irmãozinho lindo e conhecido Phil Fofo Coulson depois são as lembranças mais vívidas da ocasião. Contudo, não preciso pensar muito para me lembrar da situação que Amy está relatando. Eu só não entendo por que ela está trazendo isso à tona agora.
— Eu lembro que você estava por perto, Liv. Então eu fiquei pensando se, por acaso, você viu essa pessoa e sabe quem ele é.
Quando minha amiga diz isso, meu cérebro mata a charada. Ou pelo menos uma parte dela. Lembro que Amy estava realmente chateada aquela noite e que disse algo sobre ser ridículo uma pessoa — no caso, meu irmão — se apaixonar por alguém verde — no caso, a piriguete da Gamora. E lembro que depois disso, ela e Bruce Gentleman Banner se trombaram no meio da festa e, por um momento, eu imaginei que os dois... Talvez... Por ironia do destino... Quem sabe?
— Por que isso é importante? — indago, controlando o instinto cupido dentro de mim e tentando sondar mais o terreno.
Talvez percebendo a minha empolgação, Amy se apressa em dizer:
— Não é importante.
Pouco convencida disso, apoio os braços na mesa, arqueio as sobrancelhas e a pressiono:
— Não? Tem certeza? Porque ao que parece, você estava doida para falar sobre esse cara comigo.
Minha amiga desvia do meu olhar — claro sinal de que vai mentir — e desconversa pela milésima vez, meio atrapalhada:
— Eu não estava doida para falar sobre ele, eu só... Fiquei curiosa.
Decido insistir um pouco mais e arrisco perguntar mesmo que isso a deixe constrangida:
— Curiosa ou interessada?
— Curiosa — Amy assegura entredentes, porém não soa convincente. — Eu mal olhei pra ele, Liv. Nem o achei... Sei lá... — Com um olhar distante e muito suspeito, ela enumera pausadamente: — Misterioso, bonito, charmoso, gentil e lindamente tímido. — Controlo o riso e Amy desperta da espécie de transe, dá um tapinha no ar e se apressa em encerrar o assunto: — Como eu disse, só fiquei curiosa. Mas já que você não sabe quem ele é, eu posso esquecer isso facilmente e partir para o tópico seguinte.
Penso em contar para Amy que eu sei sim e muito bem quem ele é, mas algo me faz hesitar. Tenho medo que ela fique animada demais e se machuque de alguma forma. Não que Bruce seja capaz de magoar alguém, mas preciso sondar o terreno primeiro, saber se ele corresponde ao interesse da minha amiga, se também ficou impressionado com ela, essas coisas.
Além disso, dizer que o conheço é meio caminho andado para contar que Bruce Banner é o Hulk. E isso é algo que ele mesmo deveria contar a quem quer que saiba o seu segredo. Se eu disser qualquer coisa agora, Amy não vai sossegar até saber o tipo sanguíneo e número do seguro social do dito cujo. Portanto, é melhor não arriscar.
Sendo assim, volto a tomar o meu sorvete sabor algodão doce de diversas cores e indago:
— E qual seria o próximo tópico?
Sem meias palavras, Amy despeja:
— Você acha que consegue um autógrafo do Hulk pra mim? Por favor.
Um M&M'S desce raspando pela minha garganta e meus olhos ficam marejados no mesmo instante. Depois de tossir um pouco, consigo balbuciar:
— Cuma?
Com uma empolgação de fã para com o ídolo, Amy suspira, sorri abertamente e articula com o semblante iluminado:
— Você sabe que ele sempre foi o meu Vingador favorito, mas naquela noite, eu não vi ninguém grande e verde o suficiente para ser ele. Então, eu me lembrei que você contou que o Hulk é um cara comum quando não está esmagando tudo por aí, e deduzi que foi por isso que eu não o reconheci na festa. Se é que ele estava lá, é claro. Seja como for, é o único autógrafo que falta para a minha coleção e o que eu mais quero.
Incrédula e surpresa, pisco algumas vezes e busco confirmar:
— Você pediu autógrafos para os outros Vingadores?
— Qual o problema? — Amy dá de ombros, um pouco ofendida com a minha pergunta.
Lembro-me das minhas reações ao conhecer cada membro da equipe de heróis e concluo que pedir autógrafo não é nada comparado aos meus ataques de tietagem e piriguetismo.
Pensando assim, respondo:
— Nenhum. Eu tenho certeza que Stark deve ter adorado, o Capitão deve ter ficado sem graça e o casal Robin Hood e Lady Marian devem ter estranhado a princípio, mas atendido ao seu pedido de bom grado depois. Acertei?
— Na mosca. — Amy se inclina um pouco na minha direção e praticamente implora: — Então, você consegue o autógrafo do Hulk pra mim? Eu nunca te pedi nada, Liv. Por favor, por favor, por favor.
O que eu posso fazer diante de um pedido como esse?
— Bem — começo, fazendo mistério para deixar minha amiga agoniada. Rá! Me julguem, mas estou começando a achar essa história de autógrafo divertida. —, se ele estiver na versão grande e verde, mal vai conseguir segurar a caneta e talvez a esmague só de raiva. E se for a versão gentleman... Aposto que ele vai ficar sem graça e vai dizer que não é uma celebridade para dar autógrafo. Mas eu vou tentar. Prometo.
— Valeu. — Amy suspira e quase esmaga os meus dedos ao apertar minhas mãos sobre a mesa. — Ah! Só mais uma coisa. Você disse que o Hulk é um sujeito comum na maior parte do tempo, algo assim, certo? Mas qual o nome dele? Desculpa, eu não lembro desta parte da história porque eram tantas coisas para assimilar da sua nova vida... — Amy para de falar de repente, se foca em alguma coisa atrás de mim e murmura: — Eita.
— O que foi? — estranho, franzindo o cenho, mas feliz por ter fugido da sua pergunta sobre o verdadeiro nome do Hulk.
Falando baixinho, ela explica:
— Não olhe agora, mas tem um moreno muito bonito olhando fixamente para você.
— Aonde? — Viro-me na cadeira e logo meu olhar encontra o tal rapaz a que Amy se referiu.
Só pode ser ele, é o único moreno por perto e está olhando mesmo para mim. Mais do que isso, está sorrindo de um jeito que me causa uma sensação desconfortável e de perigo, como se algo dentro de mim tivesse entrado em alerta imediatamente.
Minha avó costumava dizer que não devemos julgar as pessoas, muito menos as que mal conhecemos, mas eu não gostei nem um pouco do tal sujeito. Tem algo de negativo nele. Algo ruim.
— Liv! — Amy aperta minha mão, me fazendo voltar à posição de antes e soltar um grito de dor. — Eu disse para não olhar agora — me lembra, praticamente sem abrir a boca e então me solta.
— E eu devia ter te ouvido. — Massageio meus dedos massacrados e resmungo: — Palhaço. O gafanhoto poderia transformá-lo em uma estátua de gelo num piscar de olhos, se estivesse aqui.
Amy ri e deixa escapar com ironia:
— É, o seu boy magia é mesmo um sujeito muito legal e civilizado.
A ironia e o tom crítico me desagradam profundamente e eu fecho a cara. Às vezes, me esqueço que Josh e Amy não têm uma opinião muito positiva sobre o Deus da Trapaça. Os dois não são contra a minha relação com ele, sabem muito bem o quanto eu amadureci e o quanto estou feliz por causa daquele traste, mas não o conhecem como eu, ainda estão presos a imagem do deus megalomaníaco que tocou o terror em Nova York.
Acho que Amy percebe que eu fiquei magoada e se arrepende por ter dito o que disse, já que apressa-se em corrigir de um jeito brando e amigo:
— Loki não é perfeito, mas te faz feliz e eu fico feliz por você. Se você viu algo de bom nele, certamente tem algo de bom nele. Eu confio nos seus instintos, Liv. Me desculpe por ter falado demais.
Seria perfeito se ela parasse aí, mas Amy resolve mudar de assunto da pior forma:
— Só que o moreno perigoso ali atrás não sabe de nada disso e não para de te secar.
Eu sei. Quase sinto o seu olhar gelado na minha nuca. Cada parte do meu ser me diz para eu me afastar. Sinto-me em perigo crescente.
— Vamos embora? — exponho o meu desejo, rezando para que Amy compreenda. — Eu não estou me sentindo muito bem aqui. O clima ficou pesado de repente.
Percebendo o meu incômodo, minha amiga assente:
— Tudo bem, vamos. Mas antes eu vou pegar uma casquinha. Você quer?
Sorrio amarelo e balanço a cabeça negativamente. Então Amy se levanta e volta para dentro da sorveteria. Ela retorna em menos de dois minutos, mas mesmo assim pareceu uma eternidade.
Quando começamos a nos afastar, olho de esguelha rapidamente na direção da mesa do rapaz esquisito. Respiro aliviada ao constatar que ele se foi.
Convencida de que eu só estava sendo paranoica, sorrio para Amy, distraída com sua casquinha mista. Obrigo-me a relaxar e enterro a sensação estranha dentro de mim.
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