Trapaças do Coração
29 Pressão por todos os lados
Notas iniciais
Se eu fosse uma pessoa normal, me jogaria nos braços de Loki agora mesmo em virtude das coisas intensas que ele confessou. Mas, caso ainda não tenham percebido, eu tenho sérios problemas.
Sou Olivia Mills, lembram? A adulta infantilizada e doida de pedra que, embora tente enfrentar seus medos primitivos e inseguranças femininas, quase sempre mete os pés pelas mãos, antes de pegar no tranco de novo e confiar em seu próprio taco.
É assim que me sinto agora. Tentando pegar no tranco, confiar em mim mesma e reagir de alguma forma.
Sei que Loki merece mais do que o silêncio perturbador que se instalou entre nós agora. Ele merece uma resposta à altura, só que não consigo pensar direito no momento.
Não que eu não soubesse que ele nutre certos sentimentos por mim, mas é muito diferente quando o deus trapaceiro e orgulhoso coloca as cartas na mesa assim, pois torna tudo mais real e íntimo. E desta vez, o danado caprichou no discurso. Ele se expôs de um jeito raro e, ao mesmo tempo, deixou o significado maior de suas palavras subentendido, preservando-se de uma declaração explícita de... amor.
Querem saber? Eu não preciso de uma declaração explícita quando meu boy magia afirma, com todas as letras do alfabeto e inquestionável sinceridade, que eu faço a diferença em sua vida e que eu conquistei o meu lugar em seu mundo.
E isso me lembra que preciso dizer alguma coisa logo! Preciso que o gafanhoto saiba que ele não está sozinho nisso, já que me sinto da mesmíssima forma, pois também carrego em meu peito uma pá de sentimentos por ele. Especialmente um.
Decidida a dizer a primeira coisa que vier a minha cabeça, engulo em seco e preparo-me para desembuchar. Mentalmente, rezo para que seja algo tão bonito quanto o que ouvi há poucos instantes. Porém, antes que eu abra a boca e consiga formular algo decente, o Deus da Trapaça parece se cansar da espera e me dá as costas.
Estática, observo-o se afastar com passos apressados pelo corredor e o orgulho ferido, até desaparecer do meu alcance de visão.
Sinto que perdi a chance, deixei o momento perfeito escapar por entre os dedos e fiquei no vácuo. Pior, levei o trapaceiro irresistível a ficar no vácuo também, a ver navios. Sou uma bicha má que demorou demais para abrir o bico e acabou deixando uma brecha para que esse silêncio seja interpretado de maneira errada.
Decidida a ir atrás de Loki, coloco-me em movimento tão logo consigo me recompor e recuperar a razão. E se eu não for capaz de me expressar com palavras, paciência, vou partir para o ataque de piriguetismo mesmo — aquela carinha.
Abro um sorriso malicioso, certa de que essa é uma tática infalível. Enterro meus temores acerca da gravidez, das mudanças que isso implica, de tudo e continuo a nadar. É bem nesse instante que alguém surge em meu campo de visão e barra minha corrida de São Silvestre.
— Lady Mills! — A criada Freya leva a mão ao peito, recompondo-se do sobressalto, enquanto eu faço o mesmo. — Que bom que a encontrei. O Pai de Todos deseja lhe falar em particular.
Meio zonza e, torcendo para que seja possível adiar esse pedido por um tempinho, questiono com ansiedade:
— Agora?
— Imediatamente — Freya esclarece.
Espio o corredor por sobre o ombro dela e não vejo o gafanhoto em parte alguma. A criatura se afastou o mais depressa que pôde e, com certeza, soltando fogo pelas ventas.
Embora cada parte de mim queira ir atrás dele e esclarecer as coisas de uma vez por todas, vejo-me encurralada pela urgência do Rei de Asgard em conversar comigo.
O que será que ele quer agora, Jesus, Maria e José? Justo agora?
Respiro fundo e faço uma nota mental para procurar Loki tão logo resolva esse assunto. Depois disso, sigo Freya em silêncio.
***
Assim que alcanço o grande e dourado salão do palácio, Freya faz uma reverência a Odin, posicionado majestosamente em seu trono, e nos deixa a sós. Em sinal de respeito, também me curvo por um momento e o cumprimento:
— Mestre dos Magos, tudo na santa paz?
— Olivia, folgo em saber que você se recuperou totalmente, inclusive o senso de humor. De fato, você é uma midgardiana diferente. É especial e forte.
Confesso que uma parte de mim estranha os elogios gratuitos. Mesmo assim me sinto inclinada a agradecer:
— Obrigada. O senhor queria falar comigo? Parecia urgente.
— Sim, eu quero.
O poderoso Rei de Asgard faz um sinal para que eu me aproxime. Meio hesitante, obedeço. Então, sem rodeios, ele começa de fato:
— Eu soube que você está carregando meus futuros netos.
— Claro, até as pedras da rua sabem — é tudo o que consigo formular no momento, enquanto reviro os olhos.
Parecendo confuso, Odin rebate:
— Como?
Pigarreio para limpar a garganta, mas não sei o que dizer. Explicar minha frustração por todo mundo ter descoberto, antes de mim, que eu vou parir em breve parece irrelevante agora. Limito-me a observá-lo então. O Mestre dos Magos tem uma expressão impassível no rosto. Indecifrável, melhor dizendo. Só então me dou conta que não pensei em como ele recebeu a notícia. Estou curiosa e receosa ao mesmo tempo sobre isso. Embora Thor tenha adiantado que ele ficou feliz, pode ter sido uma mentirinha para me poupar de algo bem diferente.
— O que achou da novidade? — inquiro por fim, vacilante e meio paranoica.
Odin se mexe um pouco no trono e fica pensativo, como se estivesse escolhendo as melhores palavras. Na sequência, articula firme:
— A princípio, eu fiquei chocado. Por um momento, senti que poderia mergulhar em meu sono profundo de novo. — Um discreto sorriso surge em sua face enrugada quando ele conclui: — Demorei alguns instantes para perceber que, de fato, fiquei alegre com a notícia.
— Ufa! Finalmente alguém que fala a minha língua. — Respiro aliviada. E sentindo-me bem mais à vontade, sento na escadaria diante do trono e me abro de vez: — Eu passei pela mesmíssima coisa, sabe? Inclusive, acho que o sono também, já que desmaiei duas vezes desde então. Mas claro que eu também fiquei feliz.
Um sorriso bobo me vence e me deixa surpresa quando as últimas palavras simplesmente escapam, e me dou conta que estou feliz mesmo. Fiquei tão nervosa e passada com a novidade que não me permiti sequer perceber isso antes, perceber que apesar do desafio da maternidade, eu já quero meus bebês mais do que tudo.
Sinto-me uma idiota agora e tenho vontade de me estapear loucamente.
Acho que o choque inicial está passando e a ficha finalmente caindo. Uma sensação boa começa a vencer o medo dentro de mim. Permito-me pensar melhor sobre meus futuros filhotes e toco minha barriga pela primeira vez desde que descobri que estou carregando os dois. Dois. Nada de mixaria, vou ter gêmeos! E da única pessoa, deus na verdade, com quem eu quero dar esse passo.
Tudo isso ainda é bem assustador e com certeza será um desafio e tanto, porém agora estou mais calma. E me sentindo muito culpada também, afinal o Deus da Trapaça entendeu tudo errado. Entendeu errado porque eu transpareci tudo errado. Sou uma burra estúpida que deve ter soado bem insensível para ele.
— O que vocês pretendem fazer agora? — Odin retoma, despertando-me desses pensamentos. — Eu soube que estavam conversando. Tudo resolvido, eu espero.
— Tudo o quê? — franzo o cenho, sem entender direito o que ele quer dizer.
Sem rodeios e como se fosse a resposta mais óbvia do mundo, o rei asgardiano me atinge em cheio quando desembucha:
— O casamento. Os devidos arranjos para sua realização. O quanto antes, aliás.
Subitamente, meu rosto queima. Meu coração acelera de um jeito desconfortável. Confusa de novo, engulo em seco e questiono aos gaguejos:
— Arranjos? Casamento? Que casamento?
O Mestre dos Magos me encara por um momento com as sobrancelhas unidas. É como se não entendesse por que eu fiquei tão passada na manteiga. Em seguida, chega a uma conclusão:
— Meu filho ainda não requisitou sua mão. Estranho.
What?! O gafanhoto pretende me pedir em casamento? Jesus, Maria e José! Eu não estou bem! Empolgada com a possibilidade, claro, mas ao mesmo tempo atordoada com o ritmo com que as coisas estão mudando desde que acordei. Mal me recupero de um tiro e sou atingida por outro. O que é isso, gente? Uma coisa por vez, por favor.
Não sou hipócrita. Embora não tenha idealizado um futuro, porque estava muito feliz com o nosso presente, cada parte de mim quer ficar com o deus trapaceiro para sempre, sim. Por outro lado, não quero apressar as coisas só porque virei um Kinder Ovo com surpresa dentro. E não quero que ele se sinta pressionado a ficar comigo por causa disso também.
Será que a ideia de se casar comigo já havia passado por sua cabeça ou Loki está tentando juntar o útil ao agradável por livre e espontânea pressão de Odin? Não que ele faça algo para agradar o velho, mas vai saber...
Epa! Será que o gafanhoto nem cogitou isso ainda, e Odin que resolveu colocar a carroça na frente dos bois?
Algo no jeito que ele falou até agora me leva a crer que é exatamente isso, fazendo a genuína felicidade dentro de mim se dissipar tão rápido quanto surgiu.
— Nós mal conversamos sobre os bacuris, que dirá sobre... juntar as escovas de dentes — balbucio zonza.
— Mas deviam — Odin é taxativo e assume uma postura mais séria e imponente. — Eu falarei com Loki a respeito, não se preocupe. Ele ainda deve estar em choque com a notícia, mas certamente a ideia do compromisso já passou por sua mente. Há de haver passado.
Essa não... Como eu imaginei, o gafanhoto não está pensando em casório por vontade própria. Ele nem pensou ainda. Ao invés disso será pressionado a tomar essa decisão. Algo que eu não quero que ocorra. Não seria certo, muito menos romântico, além de constrangedor para nós dois.
— Eu não estou entendendo patavinas...
O Pai de Todos me analisa por um momento com um olhar estreito, ajeita-se no trono e recomeça pausadamente:
— Olivia, com o devido respeito, você e meu filho apressaram certas coisas. Eu não estou julgando, mas com isso algo maior está em jogo: o futuro de vocês e dos meus descendentes. Eu não quero que os meus netos sejam criados em dois Reinos diferentes, no meio desse revezamento que você e Loki têm feito. Até agora pode ter funcionado, era cômodo para os dois, mas essa situação precisa ser definida o mais breve possível.
— Definida por nós dois, não por você — tais palavras simplesmente escapam da minha garganta e soam mais ríspidas do que eu gostaria. — Com todo o respeito — conserto.
A verdade é que não estou gostando do rumo que essa conversa está tomando. Por mais que eu não tenha a menor dúvida que Loki é a tampa da minha panela, estou achando o tom de Odin um tanto duro. De repente, é como se ele tivesse o direito de decidir o que é melhor para nós, ignorando totalmente que eu tenho uma vida em Midgard e que o seu filho é livre para fazer as próprias escolhas sozinho.
Resumo da ópera: Odin pode ser o rei da cocada preta, mas não gosto nem um pouco da sua intromissão e do jeito que está tentando conduzir as coisas para um desfecho prático só porque acha mais conveniente.
Sendo assim, ergo o queixo e faço questão de deixar claro:
— E tem mais. Quando eu me casar não será na base do arranjo, da pressão, por convenção ou por ter apressado certas coisas.
— Não foi isso que eu quis dizer. — Odin parece arrependido de repente. É cauteloso com as próximas palavras: — Olivia, eu sei que você e meu filho são importantes um para o outro. Por isso mesmo, nada mais natural que, em virtude do ocorrido, vocês não adiem mais. A união, a essa altura, é inevitável.
Inevitável. De todas as palavras que meu pretenso sogrinho poderia usar, essa foi a pior delas. Sei que não foi sua intenção, mas sinto como se eu estivesse dando o golpe da barriga e o casamento fosse a solução prática para tudo.
Tento ignorar certa humilhação que se abate sobre mim e o gosto amargo em minha boca. Gosto muito do Mestre dos Magos, mas sua praticidade soa insensível para mim. Ele quer acertar, mas está metendo os pés pelas mãos, assim como acredito que fez com Loki todos esses anos. Ele está sendo mais rei do que pai ou futuro sogro.
Tudo o quero agora é encerrar essa conversa. Então respiro fundo, organizo minha mente e digo:
— Com todo o respeito de novo, mas essa decisão não cabe a você, Pai de Todos. — Ignoro sua expressão um tanto chocada de esquilo dramático e continuo: — E por favor, não fale com o gafanhoto sobre nada disso. Primeiro, porque ele não vai gostar da sua intromissão. Segundo, porque eu não quero que ele se sinta pressionado a tomar qualquer decisão sobre... nós. Terceiro, porque eu também não quero ser. As coisas estão ótimas assim, aliás. Ou estavam. Eu já nem sei mais...
Em sua defesa, o abelhudo argumenta:
— Eu te pressionei, não foi minha intenção. Eu só estou tentando demonstrar o meu apoio. Essa situação é nova para mim também. Mas eu insisto, vocês devem se casar o quanto antes. É o correto a se fazer.
— Essa não parece ser a maneira certa de demonstrar apoio — insisto também, inevitavelmente magoada.
É então que tomo uma decisão. Não posso ficar aqui. Não agora pelo menos. Mal me recuperei da revelação acerca dos bebês e fui atropelada por essa conversa esquisita do rei asgardiano. Preciso me afastar, recarregar as baterias, arejar a cabeça, parar de sentir essa sensação estranha dentro de mim. De repente, é como se tudo tivesse escapado do meu controle de novo e isso volta a me assustar.
Preciso dar espaço para Loki decidir o que realmente quer também. Por mais que tenha me dito todas aquelas coisas lindas, ele não demonstrou, em nenhum momento, que cogita formalizar nosso trelelê. E eu não quero pressioná-lo a fazer isso, ficando aqui e permitindo que Odin o induza de alguma forma.
Não sei se alguém conseguirá entender os meus motivos, mas estou com muita vergonha de olhar para o gafanhoto agora. Será que, lá no fundo, ele pensa que eu fiz de propósito? Que fiquei buchuda só para prendê-lo a mim para sempre?
Não me orgulho, mas estou surtando com tantas caraminholas na minha cabeça de vento. E quando não sei lidar com uma situação complicada, eu fujo.
— Eu... Eu preciso mesmo de um tempo. Acho que vou voltar para Nova York. — Viro-me e começo a me afastar, meio trôpega. — É, é isso que eu vou fazer. Agora mesmo.
— Quando Loki souber que você foi embora por minha causa, não irá me perdoar nunca — o Mestre dos Magos prevê, temeroso. — Mais uma vez, eu terei falhado com ele.
Detenho o passo e giro nos calcanhares.
— Por mim, ele nunca ficará sabendo que esse papo maluco aconteceu. Eu mesma quero esquecer o que ouvi. Além disso, eu não estou o abandonando de verdade, só preciso de um tempo para pensar. Loki acredita que eu preciso desse tempo, então não deve estranhar o meu afastamento agora.
Antes que o todo poderoso tente me convencer a ficar, despeço-me com uma reverência meio desengonçada e coloco-me em movimento. Ainda o ouço chamar meu nome, mas prossigo e saio do palácio o mais rápido que consigo, fazendo Odin ficar no vácuo. Aliás, é o segundo deus que eu deixo a ver navios hoje.
Sinto-me horrível por isso, mas não estou aguentando tanta pressão por todos os lados e em um dia só. Preciso colocar a cabeça em ordem, acalmar meu coração e decidir o que farei em relação a essa nova vida que se apresentou a mim quando acordei esta manhã, ao mesmo tempo em que concedo um pouco de espaço para Loki também.
Estou matutando sobre tudo isso quando chego à Bifröst. Então o Rádio Patroa, que deve ter ouvido minha conversa com Odin, expõe com sua voz grave e firme:
— Loki vai perguntar por você. O que eu devo dizer?
Penso por um momento e respondo com pesar:
— Diga que isso não é um adeus. Longe disso. Que eu sinto muito por todas as coisas estúpidas que disse. Que, antes que eu diga mais asneiras, é melhor me afastar por um tempo para pensar. Que ele deve fazer o mesmo enquanto isso. Que eu não quero magoá-lo, embora sinta que estou fazendo exatamente isso. E que eu... que eu o...
Arre-égua! O que eu estou tentando dizer mesmo?
— Sim? — Heimdall cobra uma definição.
Hesito. Desisto. Não é justo que o trapaceiro irresistível ouça essas palavras pelo sentinela asgardiano e devido a essa situação estranha na qual nos coloquei.
— Esquece. — Limpo a garganta e ignoro certo rubor em meu rosto. — Eu espero que, no fundo, ele saiba.
Antes que o silêncio se instale por muito tempo e fique embaraçoso, apresso-me em mudar de assunto:
— E o desnaturado do meu irmão? Cadê?
— Foi até a Torre dos Vingadores com Thor, levar notícias da sua recuperação.
— Ótimo. Me mande para lá também.
Tento soar firme e decidida, mas a verdade é que sinto que estou cometendo um erro ao partir assim. Por outro lado, meu coração está acuado, pressionado, confuso, me afastar parece ser a melhor solução no momento.
Então posiciono-me diante de Heimdall, ergo o olhar em sua direção e peço:
— Sem mais perguntas. Por favor.
Mesmo sem concordar com a minha partida, o sentinela abre alas... Digo, a Bifröst para eu passar. Os feixes coloridos e uma onda de calor me envolvem enquanto sinto meu corpo ser deslocado no espaço. Em questão de segundos, estou de volta a Nova York. Os pés fincados no hangar da Torre dos Vingadores, sob a recente marca deixada pela energia da ponte do arco-íris. Alguns pontos ainda fumegando.
Esse detalhe perde a importância quando meu olhar é atraído pela cidade linda a minha volta. Só então percebo que quase perdi isso, quase morri, quase não retornei. Independentemente das circunstâncias, é muito bom ter voltado.
Um leve sorriso me vence e sinto-me profundamente agradecida por ter escapado do pior mais uma vez. Recebi uma terceira chance da vida.
Prometo a mim mesma que não vou desperdiçá-la, embora minha consciência insista em dizer que ter deixado Asgard — e Loki — desta forma não foi um bom recomeço. Sinto que estou estragando tudo e que neste momento não sou capaz de consertar nada. Se ficasse em Asgard, provavelmente pioraria ainda mais as coisas entre nós com a minha insegurança. Talvez tenha sido melhor assim. Espero que seja.
***
Quando viro em um dos inúmeros corredores da Torre e chego à sala principal, sou surpreendida por muitos olhares, que me fitam de volta com visível surpresa. Além do meu irmão, a equipe Vingadores está presente em peso, além dos acréscimos: Wanda, Pietro e Visão. Todos acomodados no espaçoso sofá, o que me leva a concluir que interrompi algum tipo de reunião.
— Liv, o que você está fazendo aqui? — Peter se levanta e caminha até mim com uma expressão preocupada, como se desaprovasse meu súbito retorno em virtude do perrengue recente que passei.
— Surpresa! — Sorrio amarelo, incapaz de soar natural e feliz. — Olivia Mills está de volta na cidade. Sentiram minha falta, pessoal?
Tony, gracioso como sempre, arqueia as sobrancelhas e indaga em tom de tédio:
— Você quer uma resposta hipócrita ou eu posso ser sincero?
Lanço-lhe um olhar de desdém, mas antes que eu retribua a brincadeirinha sem graça, o Homem de Ferro deixa o drink que estava bebericando de lado, se aproxima e me surpreende com um abraço. Apertado demais. Forte demais. Quê?
Pega de surpresa, dou alguns tapinhas em suas costas ao mesmo tempo em que luto para respirar e vejo os demais heróis se levantarem.
— Isso foi estranho — Stark reconhece de repente.
— Muito — concordo, sem fôlego.
— Emotivo demais e constrangedor. O que deu em mim? Será que já estou bêbado?
— Nem parece você, Homem de Lata. Mas acho que isso responde a minha pergunta.
Então ele me solta de forma abrupta, segura em meus ombros e propõe com praticidade:
— Vamos fingir que nunca aconteceu?
— Combinado. — Puxo algumas lufadas de ar e mexo os braços a fim de dissipar certa dor deixada pela demonstração intensa de alívio e carinho. De certo, por me ver sã e salva.
Enquanto Tony se afasta e entorna o restante do drink goela abaixo, seus colegas me cercam e me cumprimentam um a um. Steve Tudo de Bom Rogers me dá um abraço respeitoso e bem mais rápido do que o de Tony. Clint sorri acolhedor e dá um leve soco em meu ombro. Natasha segura minhas mãos e diz que está feliz com o meu retorno e recuperação. Visão sorri para mim de um jeito discreto. Apesar do pouco tempo que nos conhecemos, abraço-o também. Faço o mesmo com Wanda e até com o seu irmão ligeirinho e folgado. Estou feliz por reencontrar cada um deles, já que minha última lembrança era da confusão em Sokovia.
Na sequência, o top model asgardiano quase me quebra ao meio ao me apertar mais forte do que o amigo enlatado, a tal ponto que me ergue alguns centímetros.
— Meu irmão sabe que você está aqui? — pergunta, subitamente intrigado, quando me coloca de volta no chão.
De novo sem fôlego e desconfortável diante do seu questionamento, respondo de forma evasiva:
— Se não sabe, algo me diz que ele vai descobrir em breve.
— Vocês brigaram — Peter sentencia, como se matasse a charada do meu retorno repentino à Nova York.
— Não exatamente — nego, embora não seja de todo verdade. Para Loki, foi isso que aconteceu, já que eu desapareci logo depois da nossa discussão.
— Eu não entendo — Thor murmura de cenho franzido e com sua clássica carinha de cachorro na chuva. Ele parece preocupado comigo, porém mais ainda com a felicidade do irmão e querendo entender o babado.
— Nem eu — admito, pensativa. Ergo o olhar e, diante das expressões questionadores que me encaram, tento colocar panos quentes na situação: — As coisas ficaram meio estranhas, só isso. Eu achei melhor me afastar um pouco, por um tempo, nada de mais.
Visivelmente inconformado e ainda perdido como cego em tiroteio, o Deus do Trovão tenta recomeçar:
— Mas...
Antes que ele termine de formular as palavras, fazendo perguntas que eu só quero evitar agora, o interrompo de maneira brusca:
— Nós podemos mudar de assunto? Por favor.
Após um longo momento de silêncio, durante o qual evito olhar para o irmão do meu provável ex-boy magia, Tony despeja em tom de deboche:
— Então... Olivia Mills e Homem Rena vão procriar, hum? O que será do mundo agora?
Quando estreito meu olhar em sua direção, fuzilando-o de um jeito nada sútil, o Homem de Ferro ergue as mãos em sinal de rendição e volta atrás:
— Não é um bom assunto? Desculpe. — Depois de alcançar o home bar, ele me oferece: — Aceita uma bebida?
Reviro os olhos e lembro:
— Eu estou grávida.
— E? — rebate distraído, servindo mais uma dose para si mesmo.
Steve fecha os olhos por um momento, parecendo não acreditar no que ouviu, e reforça ao amigo:
— Ela está grávida, Tony.
Depois de tomar um generoso gole, ele se dá por vencido:
— Tudo bem, então eu vou entender como um não.
Antes que Tony diga mais alguma asneira, olho tudo em volta por um instante e questiono:
— Cadê o Bruce? Enfurnado no laboratório, aposto.
Sorrio diante da dedução óbvia e preparo-me para ir até lá e lhe dar um baita susto. Entretanto, sou obrigada a deter o passo e repensar meus planos quando Natasha se pronuncia a respeito com seriedade:
— Ele não está aqui. Na verdade, nós não sabemos para onde ele foi.
Sem entender patavinas, retruco:
— Não sabem? Como assim?
Os heróis se entreolham com certo pesar. Na sequência, Tony esclarece com uma amargura tangível:
— Isso mesmo, Bruce Banner foi embora, abandonou o barco e os amigos, desapareceu como já vinha dando indícios que faria.
Enquanto tento assimilar a notícia, Stark parece repensar sua mágoa e se mostra compreensivo:
— Tudo isso foi demais para ele. Então o cara pegou o Quinjet e partiu sem olhar para trás. Dá para julgá-lo?
Não, não dá. Ainda mais eu, que tenho essa mania de correr e me esconder quando algo sai dos trilhos. Embora uma parte de mim esteja com raiva do Incrível Hulk por ter amarelado assim, e triste por Amy, que deve estar desapontada com a partida dele, no fundo eu compreendo o Bruce. Não concordo com sua decisão, contudo não posso condená-lo por fugir. Estaria sendo uma bicha falsa se o fizesse.
— Olivia, nós sabemos que você acabou de se recuperar, mas já decidiu alguma coisa sobre a S.H.I.E.L.D.? — o Gavião Arqueiro indaga, numa clara tentativa de mudar de assunto.
Ao seu lado, a Viúva Negra emenda:
— Eu tenho certeza que o Coulson não quer abrir mão de você, mas em virtude da gravidez... Você sabe, isso muda tudo.
Olho para os dois e para o restante do grupo por algum tempo, enquanto me obrigo a pensar de fato nessa questão. Eu voltei para a Terra porque preciso de um tempo e porque acho que Loki também precisa, mas já que vim, é uma boa oportunidade para resolver minha vida por aqui, reorganizar tudo, definir como será meu trabalho de agente daqui pra frente, talvez voltar para o meu cafofo, retomar a terapia, esse tipo de coisa.
Pesando tudo isso, respondo pausadamente:
— É, eu sei. Mas eu não serei a primeira nem a última agente a ficar grávida, certo? Eu terei que diminuir o ritmo a partir de agora, é verdade, e me afastar por um tempo quando os bacuris nascerem, mas eu não quero abrir mão da S.H.I.E.L.D. também. Eu só vou precisar me adaptar, é claro. Não se preocupem, eu vou conversar com o chefinho querido assim que possível e definir o meu futuro na empresa. Próximo assunto?
Todos se entreolham, mas permanecem em silêncio. Uma parte de mim deduz que o assunto acabou, mas o meu sexto sentido capta algo estranho no ar. De repente, é como se os Vingadores estivessem escondendo alguma coisa. Ou como se não coubessem a eles dizer o que é.
Quando a equipe olha para Peter, eu faço o mesmo. Então ele se aproxima de mim, me conduz pela mão até o sofá, obrigando-me a sentar diante de si, e expõe de um jeito cauteloso:
— Você acabou de voltar, e eu não quero te pressionar nem nada do tipo, mas... — Meu irmão limpa a garganta e desembucha: — Nosso pai quer mesmo te conhecer. O que eu digo?
Foi bom Peter ter me feito sentar porque o chão simplesmente desapareceu agora. O que ele acabou de contar não é nenhuma novidade, eu sei, porém de todas as coisas que eu preciso resolver na minha vida, coloquei o assunto pai no final da lista. Por um motivo óbvio: não estou pronta.
Eu devia ter ouvido o Dr. Gato Patel, mas não ouvi. Devia ter me preparado, pensado a respeito do encontro que mais cedo ou mais tarde chegaria, mas não pensei. Não sei o que dizer para meu pai biológico e não quero ouvir o que ele tem a dizer. Não estou disposta a mexer na ferida do abandono agora. Não mesmo.
Pensando assim, solto a mão do Star Lord e desconverso hesitante:
— Ãn... Sobre isso, eu não acho justo ter que ir até Esparta agora.
Como resposta, ele me encara visivelmente insatisfeito.
Ao mesmo tempo, Stark propõe animado aos colegas de equipe:
— Pipoca? Alguém quer pipoca? Com manteiga? Adoro pipoca com manteiga.
Todos o encaram com reprovação. Inclusive eu, embora sua brincadeira seja uma aliada que dissipa a tensão no ar e me ajuda a ganhar tempo.
— Não? Sem pipoca?
— Acho melhor nós deixarmos os dois sozinhos — o Capitão América aconselha, cortando o amigo.
Inconformado, tomado pela curiosidade e inconveniente como quase sempre é, Tony protesta:
— De jeito nenhum!
Neste momento, Thor, Clint e Natasha se despedem de mim com olhares misteriosos de apoio e seguem rumo à saída. Logo, Visão, Wanda e Pietro fazem o mesmo. Steve, por sua vez, se aproxima do amigo, toca seu ombro e o conduz gentilmente na mesma direção dos outros enquanto argumenta:
— É um assunto de família, Tony. Vamos.
Assim que os últimos Vingadores deixam a sala, torno a olhar para Peter. Levo um susto quando me deparo com sua cara de limão azedo — a do gafahoto ainda é a top, claro. Recuo um pouco, levando a mão ao coração acelerado, e murmuro:
— Só Jesus na causa...
— Eu sabia que você ia arranjar uma desculpa. E, pela milésima vez, é Spartax, criatura desmiolada.
Aos gaguejos e sem conseguir encará-lo, tento me explicar:
— Não é desculpa, eu só... não acho justo ter que me abalar do meu querido sistema solar para... outro sistema solar nessas circunstâncias.
Quando, por fim, volto a fitar seus olhinhos de noite serena, meu irmão argumenta taxativo e sério:
— Eu te conheço há pouco tempo, mas já te conheço muito bem, Olivia Mills, e sei exatamente o que você está fazendo. Tentando adiar o encontro com o velho, ganhar tempo. Tão típico de você fugir daquilo que acha que não é capaz de enfrentar.
Suas palavras me atingem em cheio. Especialmente as últimas. É duro admitir, mas só ouvi verdades. O que me revolta profundamente, diga-se.
Então, fico de pé num pulo, coloco as mãos na cintura e retruco furiosa com a situação toda:
— Pense o que quiser de mim, irmãozinho, mas eu continuo achando injusto ter que ir até Esparta para conhecer o cara que engravidou a minha mãe e depois desapareceu do mapa sem pensar nas consequências. Se ele está tão interessado assim em encontrar a filha que fez questão de não checar se existia, que venha até ela. Oxente, daqui eu não arredo o pé e quero ver quem vai me obrigar! Você? — Faço aspas no ar com os dedos e debocho: — Star Lord?
Assim que termino de falar, Peter também se levanta e me enfrenta sem se intimidar:
— Como eu disse, eu sabia que você ia arranjar alguma desculpa para adiar o inevitável. Por isso mesmo, eu pensei em tudo, não se preocupe.
Confusa, pisco algumas vezes enquanto tenho a impressão que ele está arrependido do que disse. É como se meu irmão tivesse batido com a língua nos dentes sem querer e estivesse repensando a atitude. Mas como ele começou com a palhaçada, agora eu quero saber tim tim por tim tim o que diabos está acontecendo aqui.
— Como... Como assim? Do que você está falando?
Meu irmão solta o ar por entre os lábios e segura minhas mãos entre as suas mais uma vez. No entanto, antes que se explique, alguém entra na sala e nos interrompe:
— Peter, eu não estou entendendo como essa coisa funciona... Oh, eu sinto muito, não sabia que você tinha companhia.
É automático, olho na direção do homem de meia idade, porém bem conservado e com pinta de galã de Hollywood, que se detém a poucos metros de nós dois.
O sujeito está vestido com uma farda vermelha engraçada. Parece saído de um daqueles livros infantis de contos de fadas que envolve realeza. Tem uma postura altiva, os cabelos num tom de loiro com nuances grisalhas, um belo par de olhos azuis expressivos e traços fortes. Está segurando um tablet, com o qual parece não ter se entendido muito bem.
— Quem é o coroa gato? — deixo escapar, voltando-me para Peter.
Só então percebo que ele trocava um olhar estranho com o homem misterioso. Um olhar quase cúmplice, como se estivesse respondendo-lhe uma pergunta silenciosa, confirmando algo talvez. Tenho um estalo no exato instante em que meu irmão confirma a suspeita que acabou de rondar meus neurônios Tico e Teco:
— Nosso velho.
Uma onda de choque me atinge e se espalha por meu corpo, tencionando cada músculo e me impedindo de reagir pelos segundos que se seguem. Não sei dizer por quanto tempo fico paralisada a la Chaves quando tem aquele piripaque e precisa que lhe joguem água na cara, mas em algum momento consigo mover o pescoço e observo o sujeito de novo.
Não sei dizer o que estou sentindo, além deste profundo choque e da surpresa, é claro. Não estou entendendo nada, na verdade.
Como assim ele está aqui? Como assim estou bem diante do meu... pai? O grande mistério, que me atormentou por anos, finalmente se revelou diante dos meus olhos? É isso mesmo, produção? O que faço agora? Por que meus olhos estão ardendo?
— Olivia, esse é J'son de Spartax — Peter retoma, enquanto o sujeitinho fardado finalmente volta a se mexer, vindo na nossa direção com certa cautela. — Pai, essa é...
Assim que o alienígena que engravidou minha mãe para entre nós, com um discreto e esperançoso sorriso, interrompo meu irmão sem conseguir camuflar a raiva e a mágoa que emanam de dentro de mim:
— Olivia Mills! Da América mesmo. — Seguro a mão do sujeitinho e a sacudo com força e repetidas vezes, enquanto prossigo com a devida apresentação: — A filha que você não sabia que existia até ontem. E que não tem o menor interesse em recuperar o tempo perdido, caso você esteja se perguntando se ela quer.
O sorriso de J’son se esvai, mas seu olhar permanece no meu. Coragem ele tem, não dá para negar.
Tomada pelo fervor da emoção, solto sua mão e passo por ele, esbarrando em seu ombro com violência ao mesmo tempo em que cuspo minhas últimas palavras:
— Pode voltar para Esparta, ET de Varginha.
Com passos apressados, deixo a sala sem olhar para trás. Assim que alcanço o corredor, o ardor em meus olhos vence a batalha contra o autocontrole que tentei manter até então.
Sigo o mais rápido que consigo, afastando-me cada vez mais, embora eu não tenha a mínima ideia para onde estou indo ou mesmo para onde posso ir.
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