Trapaças do Coração
27 Pela bola quadrada do Kiko!
Notas iniciais
É como estar dormindo, naquele estágio prestes a despertar, e em seguida ser envolta pela atmosfera do sonho mais uma vez. Só que não há sonho algum, apenas o vazio, uma dor pungente, certa confusão e um receio constante de não conseguir acordar nunca mais, de nunca mais me reencontrar. Sinto-me fraca e perdida.
***
Não sei quanto tempo se passou. Parece ter sido uma eternidade, mas algo me diz que pode ter sido um breve momento também. Tempo é algo muito relativo nas circunstâncias em que estou, embora eu não consiga compreendê-las muito bem agora. Tudo o que sei é que algo deve ter acontecido comigo em Sokovia.
Estou ferida?
Isso, com certeza, explica a dor.
***
Perdi a conta de quantas vezes quase retomei a consciência e, logo depois, fui puxada para o vazio existencial de novo. Mas, em dado momento, finalmente tenho um vislumbre de algo real. Ao menos, parece real.
Há pessoas ao meu redor. Mulheres. Tenho certeza que estou deitada em um tipo de superfície rígida. Elas estão fazendo algo, estão empenhadas e concentradas. Vejo feixes coloridos e brilhantes sobre mim.
Aos poucos, a dor diminui, porém ainda me sinto fraca e zonza.
Alguém toca a minha mão. Seus dedos escorregam até meu punho e fazem um círculo, espalhando calor. Reconheço seu toque. Não há só mulheres por aqui afinal.
Faço um esforço para abrir mais os olhos. Não consigo ver Loki, mas acho que estou em Asgard. Algum tipo de enfermaria... Não, a sala de cura, é isso.
Apago mais uma vez.
***
Não sei quanto tempo mais irá transcorrer até que eu consiga acordar de fato.
Sinto-me muito cansada, com um pouco de náusea e meu corpo parece pesar uma tonelada. Mas pelo menos a dor diminuiu consideravelmente.
A superfície sob meu corpo é macia e confortável agora. Uma cama.
Sem alternativa, entrego-me ao estranho sono que insiste em me embalar.
***
Finalmente um sonho. Estamos todos na plataforma do aeroporta-aviões da S.H.I.E.L.D. Eu, meu irmão desnaturado, os Vingadores, agentes, muitos civis e Loki. Vejo-o em meio aos vários rostos e começo a caminhar até ele. De repente, uma confusão se inicia. Algo sobrevoa a plataforma e ouço disparos. Um deles me acerta. A dor é excruciante e me rasga por dentro.
Não é um sonho, é um pesadelo.
Tombo no chão. Há um gosto ferroso e quente na minha boca. Tudo está girando.
Não é um sonho, não é um pesadelo. É uma memória.
Abro os olhos, alarmada. Fito o teto do quarto onde estou. A coloração dourada com desenhos em alto relevo tomam conta de minhas retinas. Aos poucos, minha respiração se torna mais regular. Por fim, acalmo-me, ciente de que estou a salvo agora, e tento me mexer.
— Lady Olivia! — uma voz amigável e feliz me cumprimenta. — A senhorita despertou!
Uma serva do palácio, chamada Freya, se aproxima rapidamente da cama, sorrindo, e ajeita os travesseiros sob minha cabeça enquanto me posiciono um pouco para cima, ficando mais deitada do que sentada. Quando faço menção de me erguer e ficar com a coluna mais ereta, ela me repreende com um toque sutil no ombro e diz:
— Não, a senhorita não deve abusar. Seus ferimentos estão cicatrizados, porém é prudente tomar cuidar e repousar.
— Repousar? Mais? — protesto, sentindo a garganta um tanto seca. — Mas parece que eu estou dormindo há séculos.
Freya ri baixinho.
— Asseguro que é apenas uma impressão, Lady Olivia. Passaram-se apenas alguns dias.
Penso em retrucar, desobedecê-la, sentar, quem sabe até levantar de vez e dar uma sapateada. Contudo, ao me sentir meio zonza e ter um breve escurecimento na visão periférica, percebo que ela tem razão e me contenho. Devo ser cautelosa e paciente mesmo. Fui ferida durante a missão, escapei e preciso ir com calma.
— Eu vou avisar o Príncipe Loki que a senhorita retomou os sentidos e trazer o seu desjejum.
Depois que ela se vai com passos silenciosos, passo as mãos sobre o cobertor felpudo que me aquece e respiro fundo. Isso me causa certo desconforto, suportável, mas algo que me leva a erguer a gola da camisola asgardiana e dar uma espiada no meu corpinho.
Noto uma pequena cicatriz rosada no meu ombro e enfio mais a cabeça dentro da roupa. Vejo uma marca maior na altura da minha costela esquerda, porém também cicatrizada. A última marca me deixa mais preocupada devido à localização. Ergo mais a camisola e arrasto a mão para tocá-la. Está mais sensível que as outras e dolorida. Essa passou bem perto do coração.
Graças a Nossa Senhora Protetora das Midgardianas e ao meu DNA alienígena, o perigo maior passou. O ferimento está fechado e acredito que, em poucas semanas, esta e as outras cicatrizes terão ficado mais suaves. Talvez até desapareçam por completo em um futuro próximo.
Estou matutando sobre isso, quando ouço a porta dupla do recinto ranger. Atrapalho-me com a camisola e me perco dentro dela. É muito pano, socorro! Onde fica a saída disso, Jesus do céu?! Continue a nadar, Olivia! Continue a nadar!
Quando, por fim, consigo me desvencilhar e emergir à superfície, descabelada e um tanto sem fôlego, vejo o Deus da Trapaça parado na soleira da entrada, com as sobrancelhas meio arqueadas, divertindo-se com minha confusão.
— Nem tente me seduzir, tormento. Você não está condições. Ainda.
É engraçado como Loki camufla o alívio por me ver consciente fazendo uma gracinha e flertando ao mesmo tempo.
Como também não consigo demonstrar muito bem a alegria que sinto por revê-lo, dou alguns tapinhas na cama, indicando um lugar para ele se sentar, e retribuo:
— Aproxime-me, gafanhoto. Eu não mordo.
Mais uma vez, Loki ergue as sobrancelhas. Neste caso, discordando do que eu disse. Reconhecendo que ele tem razão, ressalvo:
— Bem, eu não pretendo te morder agora. Ainda não.
Após um breve momento, o trapaceiro irresistível fecha a porta atrás de si e caminha até mim devagar, com as mãos para trás e a postura altiva de sempre. Logo acomoda-se na minha frente. Loki não diz nada, apenas permanece com seus olhinhos esmeraldas de noite serena cravados nos meus. O que faz meu coração palpitar e meu rosto queimar um pouco. Sinto-me inquieta.
Não sei se isso é possível, mas parece que esse tempo perdida no limbo existencial fez meus sentimentos por essa criatura se intensificarem ainda mais. É como se eu não visse Loki há séculos e todas as sensações dentro de mim tivessem acumulado num nível insuportável de saudade. Agora, tudo está transbordando. Eita macumba poderosa!
Quando dou por mim, meus dedos já estão caminhando sorrateiramente até a mão do dito cujo. Quando o toco, ele desvia o olhar do meu e volta-se para a cena. Observa um pouco, enquanto entrelaço seus dedos devagar, e torna a me fitar nos olhos. Logo ele corresponde, envolvendo os meus dedos também.
Loki aperta minha mão e meu coração dá um salto. Começo a pensar no que não devo. Seu olhar incisivo bagunça meus sentidos.
Não estou em condições! Como ele bem disse. Então, a contragosto, solto sua mão e proponho um tanto constrangida:
— Sem contato físico por enquanto?
Denunciando que também estava envolvido pelo momento e prestes a se entregar a ele, o gafanhoto levanta-se rápido e rebate na defensiva:
— De acordo. Um pouco de distância também?
— De acordo.
Ficamos em silêncio. O tempo passa. Começa a ficar embaraçoso. Precisamos dizer alguma coisa. Como Loki não se manifesta, limpo a garganta e digo a primeira coisa que me vem à cabeça:
— Por que eu não estou na Terra? Não querendo parecer ingrata, mas a S.H.I.E.L.D. poderia ter cuidado de mim. Stark podia também, afinal, ele tem recursos.
Algo me diz que não foi um bom recomeço de conversa. A cara de limão azedo do Deus da Trapaça não nega, ele não gostou nem um pouco do que eu disse. Provando isso, o danado ri com escárnio e é irônico em sua resposta:
— É, claro. Nada mais lógico do que deixar você aos cuidados daqueles que lhe causaram isso.
Loki indica a cama, frisando a situação em que estou, ainda me recuperando das consequências da batalha de Sokovia.
— Não foi culpa deles — faço questão de apontar, diante do seu argumento injusto.
De pronto, o trapaceiro teimoso retruca afiado feito uma navalha:
— Não, foi culpa de um monstro criado por um deles com a ajuda de outro deles. Seu coração quase foi atingido, Olivia. Mesmo com sua regeneração avançada, você deve saber que quase morreu.
Loki para de falar, parecendo incomodado ao me revelar a última parte. Talvez esteja relembrando o último ataque de Ultron e revivendo o que deve ter sentido quando se deu conta das proporções para mim.
Eu já desconfiava que a terceira cicatriz que vi há pouco era o resultado de um ferimento mais grave. Confesso que ter a confirmação disso me causa um arrepio e admito que Loki fez bem em me trazer para Asgard. A ciência avançada deste Reino deve ter sido decisiva. Talvez só o meu DNA especial e a medicina humana não tivessem me salvado desta vez.
Pensando assim, decido não discutir este ponto e tento amenizar a situação como um todo ao refletir divertida:
— Às vezes, coisas ruins acontecem por um bom motivo. Por exemplo, se o top model asgardiano nunca tivesse te banido, você nunca teria me conhecido. Rá!
Minha estratégia funciona. A cara de limão azedo se dissipa e Loki esboça um sorriso displicente.
— Então você presume que é uma coisa boa para mim? Vejo que continua fofa e convencida.
— Bitch, please. — Reviro os olhos. — Pare de negar o óbvio, gafanhoto. Se eu não fosse, você não teria ficado desesperado e me trazido para cá às pressas.
— Eu não fiquei... — ele começa a negar, desviando o olhar do meu. Um momento se passa e Loki torna a me encarar. — Muito bem — admite, meio contrariado.
Não resisto e lanço-lhe um sorriso vitorioso. Contudo, ciente da gravidade da situação, me contenho e ressalvo:
— De qualquer forma, acho que o exemplo atual não é muito justo. Eu quase morri. O que pode haver de bom nisso? Além do fato de eu ter escapado da morte, é claro.
Estou esperando que o Deus da Trapaça concorde comigo pura e simplesmente, para que possamos encerrar o assunto e partir para o próximo tópico, porém não é o que acontece. Para minha surpresa, ele fica pensativo demais diante do que eu disse, como se estivesse ponderando meu argumento de verdade, lembrando de alguma coisa talvez.
Quando vou questioná-lo a respeito, Loki se pronuncia primeiro:
— Sabe, é aí que você se engana, midgardiana. Apesar de tudo, eu fiz uma descoberta importante devido ao seu estado crítico. Algo, definitivamente...
Espero ele concluir. Isso não acontece.
— Bom? — arrisco, confusa.
— Bom não é uma palavra justa — o gafanhoto discorda, encarando-me como se esperasse alguma coisa de mim.
Franzo o cenho, sem entender o que seria, enquanto a pausa se estende entre nós. Se não fosse loucura, eu diria que ele parece... feliz. Só isso para explicar o brilho atípico que surge em seu olhar e um meio sorriso que esboça quando faz suspense:
— Eu me perguntava se você tinha conhecimento disso, agora percebo que não. Como poderia? Com a medicina primitiva do seu Reino, talvez você só descobrisse muito tempo depois.
Medicina? Ai Jesus! Será que eu estou doente? Nas últimas? Com os dois pés na cova? Mas por que o trapaceiro irresistível estaria feliz? Não faz sentido, nada disso faz. Não sei o que pensar, mas estou ficando receosa.
— Do que você está falando, criatura?
Loki ainda me tortura com mais suspense ao afirmar intrigado:
— Então é verdade, você não sabe. Fascinante.
Perco a paciência ao perceber que o danado está se divertindo por eu estar por fora do babado. Não pode ser algo ruim, afinal. Mas seja o que for, eu preciso saber logo. E para que ele desembuche de uma vez, fuzilo-o com o olhar e cruzo os braços.
Com isso, Loki enfim para com a palhaçada e volta a se aproximar. Senta-se diante de mim, ainda me observa por um longo momento, deixando-me curiosa e apreensiva, e só então diz:
— Não é o ideal que seja eu a lhe revelar, mas, aparentemente, você está carregando algo meu em seu ventre, tormento. Uma vida.
Cri... cri... cri...
What?! Epa! Epa! Epa! O gafanhoto disse mesmo o que eu acabei de ouvir? Não pode ser e não acredito que o abusado continua fazendo seus joguinhos. Eu pedi a verdade, não uma piada dessas. Oxente!
Lembrando-me de minha amada avó e de seu conselho sobre nunca contrariar um louco, apenas balbucio:
— É... certo.
Minha postura séria não se mantém por muito tempo. Um riso escapa sem que eu o sinta chegando. Logo transforma-se numa sonora e intensa gargalhada que não consigo controlar por mais que eu tente. Contorço-me, segurando a barriga, enquanto Loki estreita o olhar, nada satisfeito.
— Ai meu pâncreas... — Rio ainda mais diante da sua expressão, ao ponto de chorar e ficar sem fôlego.
— Isso é engraçado para você?
O tom sério de Loki acende um alerta dentro de mim. Faço um esforço e consigo parar de gargalhar, embora eu não entenda por que ele ficou zangado de repente. O dito cujo fez uma gracinha e eu ri, o que tem de errado nisso?
A menos que Loki acredite mesmo no que disse, é claro.
Oh, man... É isso, o danado está falando sério e eu feri os seus sentimentos — que ele faz questão de esconder, aliás. Não sei o que o levou a crer numa marmota dessas, mas me vejo obrigada a dissuadi-lo:
— Engraçado e impossível. Eu não posso estar buchuda, gafanhoto. Eu tomo minhas precauções.
Assim que termino de falar, ele arqueia as sobrancelhas, parecendo esperar por outros argumentos. Argumentos mais fortes, uma vez que precauções podem falhar, certo?
Meu coração dá um pulo ao me lembrar deste pequeno detalhe. Engulo em seco e arregalo os olhos ao, finalmente, compreender que Loki não virou piadista nem cometeu um engano. Ele tem certeza da revelação que fez porque é verdade. De alguma forma... Talvez na sala de cura, enquanto eu era examinada, a descoberta foi feita.
— Pela bola quadrada do Kiko! — Pulo da cama, sem me importar com a orientação de repousar e focar em minha recuperação.
Loki se levanta em seguida e acho que vai fazer um gesto com a mão para que eu volte a me deitar. Não lhe dou chance de prosseguir. Ao invés disso, aponto desesperada para os seus documentos e acuso com veemência:
— Espermatozóide trapaceiro! Trapaceiro! Trapaceiro!
Mas querem saber? Eu não devia mesmo ter me levantado. Pelo menos, não de supetão. É automático, fico tão tonta que dou um passo para trás, buscando retomar o equilíbrio. Acho que esbarro na cama. Ou seria num unicórnio? Tenho a impressão que vi um espécime desses correndo por aqui. Ou estou delirando?
Ergo o olhar para o rosto de Loki, mas é como se alguém tivesse apagado as luzes do mundo de repente. Só vejo um breve espectro do seu semblante quando ele dá um passo em minha direção. Antes que me alcance, no entanto, eu tombo para trás.
— Madeeeeira... — é a última coisa que murmuro, antes de mergulhar na escuridão e no fofinho da cama.
***
Acordo sozinha no quarto. Há uma bandeja com meu desjejum numa pequena mesa ao lado da cama. Meu estômago ronca, dizendo que há interesse, sim. Devagar, me ajeito e pego uma porção de um fruto asgardiano, um pãozinho de grãos e beberico um pouco de suco.
Enquanto mato quem está me matando — lê-se uma fome de leoa —, repriso em minha mente o ocorrido antes, quando o gafanhoto revelou que há um gafanhotinho trapaceiro dentro de mim, e eu entrei em pânico.
Por que entrei em pânico? Não é como se eu nunca tivesse cogitado ter um filho algum dia, é?
Bem, a verdade é que, com o meu histórico desastroso em matéria de sexo oposto e relacionamentos, eu enterrei a possibilidade por tempo indeterminado e não pensei mais no assunto. Com a chegada do Deus da Trapaça, havia outras coisas em jogo. Minha primeira missão, meu novo emprego como agente, a segunda missão, Ultron. Então o assunto permaneceu esquecido.
Claro que entre uma coisa e outra, me vi envolvida por Loki. Mais do que isso, me apaixonei pelo dito cujo. Mas embora o que eu sinta por ele seja mais forte do que uma mera macumba poderosa, nunca pensei muito no nosso futuro juntos, muito menos em constituir uma família algum dia. Pelo primeira vez na vida, eu estava plenamente satisfeita com o que tinha no presente e sem qualquer pressa de fazer planos. Agora, com a recente descoberta de que serei mãe e Loki, papi, vejo-me obrigada a pensar a respeito.
Um filho é algo maravilhoso, com certeza, e eu devia estar radiante com a notícia. Porém, um filho também muda tudo. Como será quando ele vier ao mundo? Onde vou criá-lo exatamente? Serei uma boa mãe ou uma mãe meia-boca? E Loki? Está pronto para essa responsabilidade? Como fica a minha situação com a S.H.I.E.L.D.? E a minha relação com Loki? O que somos um para o outro, afinal? O que essa criança pode esperar de duas criaturas como nós?
Essas perguntas me assombram à medida que penso mais em tudo isso. O fato de um filho me ligar para sempre ao Deus da Trapaça me assusta também. Muito. Parece que o trelelê entre nós está prestes a virar algo mais sério e definitivo. Já disse que isso me assusta?
Mergulhada nesses pensamentos, deixo a comilança de lado.
Queria que Josh ou Amy, ou os dois, estivessem aqui. Seria bom conversar sobre isso com meus melhores amigos.
Tenho um estalo ao me lembrar do meu irmão gato e desnaturado. Ele brotou no meio de Sokovia, será que me acompanhou até Asgard? Será que está por aqui? Ai dele se não estiver!
Ansiosa para desabafar com alguém, ignoro a recomendação de ficar de repouso e saio do quarto depois de colocar um vestido asgardiano que encontro no armário. Caminho pelo palácio, esgueirando-me nas sombras e escondendo-me atrás das pilastras como a Pantera Cor de Rosa, a fim de que nenhuma criada ou guarda real me pegue no pulo. Estou contando os passos e me policiando para não fazer barulho, quando ouço uma voz atrás de mim:
— Eu voltei para ver a minha irmã e descubro que vou ser tio. Que marmota é essa, Olivia Mills?
Com um sobressalto, viro-me na direção de Peter. Estou prestes a esmurrá-lo por ter me assustado desse jeito, mas decido que é melhor relevar, uma vez que quem deveria ser repreendida sou eu, por estar desfilando por aqui.
Outra coisa que me desarma é reencontrá-lo depois do que aconteceu em Sokovia. Mal tive tempo de matar a saudade e fui almejada, fiquei entre a vida e a morte e descobri que estou grávida. É como se este momento fosse nosso real reencontro.
Por tudo isso, puxo-o para um abraço apertado, que ele de pronto corresponde.
— Loki te contou, foi?
— Está brincando? — Ele se afasta um pouco quando, por fim, o largo. — Acho que só faltava ele contar para a maior interessada. O cara está se sentindo porque passou na frente do irmão em alguma coisa. Não só por isso, é claro. O seu gafanhoto está feliz do jeito dele. E eu fico feliz por vocês dois, irmãzinha. Ainda não acredito, mas estou feliz.
Estranho seu último comentário e questiono:
— Como assim não acredita? Não que procriar agora estivesse nos meus planos, mas você pensava que eu era infértil? Ou Loki? Algo assim? Mais cautelosos, talvez?
— Oh, man... — Peter faz uma careta de desgosto. — Eu não quero ter esse tipo de conversa com você.
— Por que não, criatura? Qual o problema?
— O problema é que você é minha irmã.
— Oxente! E daí?
Peter hesita por alguns instantes e se explica meio constrangido:
— E daí que, como seu irmão, mais velho, por sinal, eu preferi acreditar que você e o deus exibido não faziam... não faziam certas coisas quando ficavam sozinhos.
— Acasalamento mid-jotun? Pegação nervosa? Eitcha lelê? Sabe de nada, inocente! — Caio na risada. — É só o que nós fazemos, tolinho. Quando não estamos brigando feito cão e gata, é claro. Aliás, essas desavenças nos excitam um bocado.
Suspiro profundamente e, por um momento, todos os meus receios acerca da gravidez e do futuro se vão. Em parte porque não imagino outro pai para o meu filho que não seja o gafanhoto, e em parte porque apenas alguns segundos de conversa com meu irmão são suficientes para me fazerem relaxar.
Volto a rir quando ele coloca as mãos sobre as orelhas e protesta dramático:
— Meus ouvidos! Meus ouvidos! Não fale! Não fale sobre isso! Por favor. Eu não quero imaginar, pensar... — Peter afasta as mãos e gesticula: — Não é nada contra o Loki, okay? Eu só preciso acreditar que vocês nunca, nem vão...
— Tudo bem, tudo bem, não está mais aqui quem falou. — Ergo as mãos em rendição e me controlo para não rir de novo. — Quer saber? Essa criança é fruto de um milagre divino. Do vento. Eu e o gafanhoto nunca brincamos de médico. Nem iremos, pode ficar tranquilo.
— Essa criança? Você quer dizer apenas... — Peter franze o cenho, meio confuso, porém não conclui o raciocínio. Ao invés disso, sugere repentinamente: — Eu acho que nós devíamos mudar de assunto.
— Eu concordo. Mesmo porque algo me diz que você não apareceu em Sokovia daquele jeito só porque ficou com saudade de mim.
Não sou idiota. Peter foi embora há meses, dizendo que iria atrás do ET de Varginha que engravidou nossas mães. Se ele voltou, deve ter algumas respostas sobre isso.
— Você está certa, eu voltei mesmo por um motivo bem específico. Nossa busca chegou ao fim — afirma taxativo.
Sua confirmação me deixa na defensiva. De repente, me dou conta que não estou pronta para descobrir a verdade. Eu devia ter seguido a orientação do Dr. Patel e pensado a respeito nas últimas semanas. Eu sabia que este momento chegaria e mesmo assim não me preparei. E quando não estou pronta para enfrentar uma situação o que eu faço? Eu fujo, é claro.
— Quer saber? Eu não estou interessada. Vixe! E acabei de lembrar, eu tenho que pegar a roupa no varal. Com licença, obrigada.
Tento sair pela tangente, sorrindo e acenando como os Pinguins de Madagáscar, porém meu irmão dá um passo a frente, fazendo-me estagnar no lugar. Depois, me leva pela mão até um salão do palácio e nos acomodamos em um pequeno sofá dourado.
— Olivia, você está magoada e com medo, eu entendo. Mas não minta sobre isso. Nós dois sabemos muito bem que esse mistério sempre te tirou o sono. Você está interessada, sim. Sempre esteve. Ele é nosso pai. E apesar de ter pisado na bola ao desaparecer do mapa e deixado sua mãe sozinha, eu acho que você devia lhe dar uma chance de se explicar. Eu não vou te contar tudo o que ele me disse, mas o motivo para nunca ter te procurado foi porque ele simplesmente não sabia da sua existência.
As palavras de Peter me atingem de um jeito que, creio eu, não era o pretendido. Descobrir que ele não só encontrou o nosso pai misterioso, como também conversou com o dito cujo sobre mim e obteve essa resposta chula, me deixa nervosa e ainda mais na defensiva.
Possessa, retruco em tom acusatório:
— Isso só mostra o tipo de alienígena que ele é. Sai por aí acasalando com as terráqueas e depois banca o distraído.
Prontamente, meu irmão contra argumenta:
— Eu não estou minimizando o que ele fez, o seu sofrimento ou o da sua mãe, mesmo porque eu e a minha passamos pelo mesmo. Eu não o perdoei, se você quer saber, mas quero entender melhor algumas coisas antes de dar o meu veredicto e acho que você devia fazer o mesmo. Nosso pai quer reparar esses anos de ausência, ele está arrependido.
— Um pouco tarde para isso, não? — retruco afiada.
Algo no olhar do meu irmão me faz repensar minha postura defensiva até aqui. O passado não pode ser mudado, porém todo mundo merece a chance de se explicar, certo? Se ele deu essa oportunidade para o ET de Varginha, por que eu não posso fazer o mesmo? Se o cara for um idiota incorrigível, ninguém poderá me recriminar por não ter tentado pelo menos.
Sendo assim, respiro fundo e recomeço:
— Tudo bem, como o infeliz se chama? Não! Espere, não diga. Eu prefiro que ele mesmo se apresente. Supondo que eu aceite conhecer o Don Juan do espaço, é claro. Por falar nisso, de onde o pegador é? Marte?
Peter esboça um meio sorriso, feliz por eu ter cedido e, talvez, se divertindo com meu mau-humor. Bem que dizem que gravidez mexe com os hormônios, sensibilidade e afins. Sinto minhas emoções intensificadas e confusas.
— Um pouco mais longe do que isso. — Ele segura minhas mãos e revela com o olhar no meu: — A alguns sistemas solares daqui, existe um planeta próspero e evoluído chamado Spartax. Nosso pai é de lá. E devo dizer, ele não é qualquer um, Liv.
Pisco algumas vezes, absorvendo as informações. Meio decepcionada, rebato:
— Depois de todos esses anos nessa indústria vital, sem saber nada sobre a minha origem paterna, e agora eu descubro que sou espartana?!
Peter fecha os olhos por um momento e, em seguida, corrige:
— Na verdade, o termo correto é spartoi.
— Tanto faz. — Dou de ombros e retomo: — Bem, não que eu faça muita questão de conhecer o velho, mas você tem razão. É melhor enfrentar essa situação de uma vez mesmo. Nós vamos para Esparta ou Esparta virá até nós?
Perdendo um pouco da paciência, ele me corrige mais uma vez:
— É Spartax... Olivia. Spartax. Pelo amor de Deus.
Credo! Que menino apegado aos detalhes. Eu hein!
Antes que ele me responda o que realmente interessa, Thor se aproxima de nós, visivelmente animado e muito sorridente.
— Olivia! Que bom te ver lúcida, firme e forte!
Mal me levantei e o deus trovejante me dá um senhor abraço, ao mesmo tempo em que despeja:
— Eu sabia que você iria se recuperar, mas não pude deixar de temer por sua vida mesmo assim.
— Obrigada... eu acho — balbucio, um tanto sufocada e sem saber o que dizer exatamente.
Enquanto meu irmão também se levanta do sofá, Thor me solta e emenda uma pergunta com uma ansiedade tangível:
— Loki já te contou?
— Que eu vou parir? Sim, eu sei de tudo.
— Ótimo! — Ele volta a me abraçar contra seu corpo robusto. — Meu irmão está tão feliz! Nosso pai! Todo o Reino! Eu!
Uma parte de mim se alegra por constatar que eu não estava imaginando coisas, o gafanhoto estava mesmo feliz quando me contou a novidade. Por outro lado, essa situação continua sendo assustadora. Não sei direito o que estou sentindo ou como as coisas serão daqui para a frente.
— Uau! Então eu fui mesmo a última a saber? — digo depois que o top model asgardiano me solta. — Até as pedras da rua souberam antes de mim, é isso?
— Você estava inconsciente, o que esperava? — Ele ri e, sem parar um segundo para respirar, acrescenta: — Seja como for, essa é uma notícia que merece ser festejada. E nós faremos isso assim que você estiver em plenas condições de celebrar. Por ora, saiba que eu desejo que seus filhos nasçam com muita saúde! Meus sinceros parabéns!
Tenho a impressão que meu irmão faz um sinal para o Deus do Trovão, como se pedisse, gentilmente, para ele fechar a matraca, mas parece tarde demais.
Confusa com algo que Thor mencionou no meio do discurso, solto uma risada nervosa.
— Filhos? Plural? Que marmota é essa? Eu vou ter um bebê, um único e fofo bebê... — Paro de falar quando Peter abaixa a cabeça e o asgardiano sorri amarelo, meio descrente. — Não vou?
Mais perdido do que cego em tiroteio — só não tanto quanto eu —, Thor troca um rápido olhar com meu irmão, que limita-se a fazer uma cara de paisagem. É muito esquisito, mas parece que os dois sabem de algo que eu não pesquei ainda.
Por fim, o top model asgardiano torna a me encarar e lembra:
— Você disse que meu irmão havia te contado tudo.
Epa! É isso! Os dois sabem mesmo de algo que eu, Olivia Mills da Silva Sauro, não sei. E quando, finalmente, junto as peças, meu coração dá um salto e uma onda de nervosismo se abate sobre mim.
Engulo em seco e consigo formular uma frase:
— Claramente, ele esqueceu algum detalhe.
Louca para encostar o gafanhoto contra a parede e entender tim tim por tim o que patavinas está acontecendo comigo — a maior interessada no babado —, dou as costas para Peter e Thor, e sigo, apressada, soltando fogo pelas ventas, para a alcova da criatura.
***
Entro sem bater e, assim que meus olhinhos de noite serena encontram com os olhinhos de noite serena do dito cujo — acomodado em um sofá com um livro em mãos —, despejo:
— Tem alguma coisa que você esqueceu de mencionar sobre a minha gravidez, chuchu? Tipo, sobre o meu útero, talvez?
Loki fecha o livro e se levanta, ao mesmo tempo em que me repreende:
— Você não devia estar de pé.
Perdendo a calma de novo, ignoro seu comentário e mantenho o foco no que preciso descobrir:
— De quantos espermatozóides trapaceiros nós estamos falando afinal, hum?
Com uma calma irritante e a postura superior de sempre, Loki se defende:
— Em virtude da sua reação mais cedo, foi inviável revelar tudo, lembra? Mesmo agora me parece que você não está pronta para saber a verdade.
Estreito o olhar em sua direção e insisto entredentes:
— Quantos, gafanhoto?
Há um longo momento de silêncio e suspense no recinto. Juro que tenho vontade de bater nesse trapaceiro de uma figa até ele abrir o bico de uma vez. Porém, confesso que quando ele se aproxima devagar, me encara por um momento e depois encosta a mão em minha barriga suavemente, fico sem defesas e mexida.
Em outras palavras, sinto que estou pegando muito pesado com o coitadinho. Loki não fez nada disso sozinho. O que acontece é que eu preciso saber quantas crianças exatamente estou carregando. Talvez eu consiga me acalmar depois disso.
— Há duas vidas dentro de você, tormento — o trapaceiro irresistível revela com o olhar em meu ventre.
Minha garganta fica seca e meu coração palpita. Sem chance de me acalmar. Na verdade, acho que estou mais nervosa do que antes. Dois bebês mudam ainda mais as coisas.
O chão parece feito de gelatina. E, embora eu saiba muito bem o que as palavras de Loki significam, ouço-me perguntando de forma retórica e com um fio de voz:
— Gêmeos? Eu vou ter gêmeos? Eu vou ter dois bebês fofos midgardianos-espartanos-jotuns? Dois?
O gafanhoto me segura quando o chão desaparece. Estou lutando para manter os olhos abertos quando ele solta uma de minhas expressões favoritas:
— E lá vamos nós...
É, acho que desmaiei de novo, gente.
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