Trapaças do Coração
6 Oh, céus! Oh, vida!
Notas iniciais
Tento relaxar em uma poltrona semelhante àquelas de hemodiálise, enquanto Bruce Fofo Banner prende meu braço com um tipo de liga médica e passa delicadamente um chumaço de algodão com álcool em minha pele.
Quando ele aproxima a agulha, comprimo os lábios instintivamente, prendo a respiração e fito o teto do seu laboratório na Torre dos Vingadores.
Quando estremeço consideravelmente, ele recua e pergunta com deboche:
— Não me diga que você tem medo de agulhas, Olivia?
— Eu não tenho! — apresso-me em dizer e rio nervosa. Percebo um discreto e incrédulo sorriso em seu semblante. Reviro os olhos e tento ser mais convincente: — Bitch, please! Anda logo com isso.
Bruce apoia uma das mãos no meu braço e com a outra aproxima a agulha acoplada em uma seringa — que parece ficar maior a cada segundo, assim como a agulha parece ganhar mais espessura.
Fecho os olhos e me obrigo a relaxar, a pensar em outra coisa, em unicórnios, por exemplo. Saltitantes, com seus rabos coloridos e o chifre marfim no meio da testa. Unicórnios são tão fofos!
Porém meus pensamentos acabam me traindo e se focam em gafanhotos mesmo. Em um espécime deles, melhor dizendo. Em Loki, claro.
Faz exatos dez dias que eu deixei Asgard e até agora nada. O trapaceiro irresistível não deu qualquer sinal de vida e isso está me matando. De certo, ele precisa de mais tempo para assimilar a minha missão e decidir o que fará a respeito.
O engraçado é que estou com tanta saudade do traste que juro que tive a nítida impressão de vê-lo em meu quarto nas últimas noites, me observando enquanto eu estava sonolenta, quase dormindo.
Será que foi imaginação? Minha mente me pregando uma peça? Efeito colateral da abstinência de acasalamento? Teria sido um sonho mesmo ou o deus trapaceiro...
— Não se preocupe, é só uma picadinha de formiga.
Bruce me desperta dessas reflexões e eu sinto uma fisgada no ponto em que ele insere a agulha.
— Picadinha de formiga é uma ova! Está mais para um ataque de marimbondo. Ai... Eu vou morrer — protesto.
Não sei se apenas por dizer ou se para me distrair, mas na sequência Bruce argumenta calmamente:
— Não seja exagerada, já está acabando. Além disso, eu não me lembro de você ter ficado tão nervosa e com medo quando eu colhi uma amostra do seu sangue pela primeira vez, lembra?
— Eu não estou nervosa. Muito menos com medo — minto na maior cara de pau. — Além disso, na época você não me deu tempo para assimilar o que estava prestes a fazer. Simplesmente espetou uma agulha em mim como se eu fosse um boneco de vudu e, logo depois, saiu correndo para a sua bancada de cientista, a fim de comparar a minha amostra com a de Peter.
— Não foi bem assim — Bruce tenta amenizar, mas acaba rindo um pouco de si mesmo, afinal ele ficou bem empolgado com a suspeita, e depois confirmação, de que eu sou uma híbrida e não fez questão de esconder isso na ocasião.
— Já terminou? — indago, impaciente e tensa.
Uma eternidade depois, sinto a agulha sair do meu braço, uma gaze ser pressionada no lugar e Banner responde debochado novamente:
— Sim. Parabéns, Olivia, você foi muito corajosa. Eu te daria um pirulito, mas as crianças que atendi antes ficaram com todos eles, desculpe.
— Rá, rá, rá! Estou morrendo de rir — ironizo, antes de flexionar o braço junto à gaze, enquanto o Vingador caminha até a sua bancada. Depois de me recompor totalmente, o sigo. — E então? Você consegue refazer o mapeamento pra mim em tempo recorde e salvar tudo em um novo pen drive?
Banner acomoda a amostra na base de uma espécie de microscópio, ao lado de um notebook de última geração, e ajeita o óculos no nariz. Com uma preocupação tangível, vira a cadeira na minha direção e articula:
— Olivia, nós temos que conversar melhor sobre essa questão. Se você perdeu o pen drive ou se alguém o pegou, o Coulson precisa saber. Portanto, você deve reportar isso o quanto antes.
E lá vamos nós...
Respiro fundo, organizo meus argumentos e rezo a mesma missa de quando cheguei aqui:
— Eu já disse que não perdi o pen drive, só não me lembro onde o guardei. Eu pensei que estava em um lugar, mas não estava, logo, me enganei. Simples assim. E eu duvido que alguém tenha roubado, isso é muito teoria da conspiração, Bruce, francamente. — Rio sem humor e prossigo: — Só quem tem acesso ao meu cafofo sou euzinha, o gafanhoto e a faxineira que vai até lá uma vez por semana. Eu tenho certeza que ela deve ter achado o pen drive e o guardado em um local bem óbvio, mas que neste momento, não passa pela minha cabeça qual seja. Eu poderia ligar, mas pelo o que eu soube, a irmã dela está doente e eu não quero incomodar. Além disso, meu chefinho querido está pedindo esse maldito pen drive há dias e eu não posso dizer que esqueci de novo na próxima vez que for até a base. — Lanço um olhar do Gato de Botas para o meu amigo e imploro com extrema meiguice: — Por favor, Brubru, quebra esse galho pra mim. Eu nunca te pedi nada.
Sinto que o Dr. Banner vai retrucar e capricho ainda mais na minha expressão, fazendo o Gato de Botas virar um cachorrinho indefeso que caiu do caminhão de mudança, o que surte efeito imediatamente.
Então, depois de me fitar por alguns instantes e pensar um pouco, ele ergue o indicador e impõe:
— Tudo bem, eu vou fazer isso, mas eu te dou quarenta e oito horas para encontrar o pen drive original. Se você não encontrá-lo, irá me avisar imediatamente e nós dois falaremos com o Coulson a respeito. Eu fui claro?
— Você é um anjo, Bruce Banner! — Sorrio largamente, seguro seu rosto e dou um beijo estalado em sua bochecha. — Fofo! Fofo! Fofo! — Abraço-o, agradecida.
Um pouco constrangido com a minha demonstração de gratidão, ele dá um tapinha em minhas costas e, quando o solto, retorna a posição inicial e pede:
— Agora me deixe fazer o meu trabalho. Quando estiver tudo pronto, eu te aviso.
— Sim, senhor! — Bato continência e me viro a fim de deixar o laboratório. Entretanto, me lembro de algo importante antes de alcançar a porta. Então me viro novamente e anuncio: — Ah! Só mais uma coisa. Eu vou precisar de um autógrafo seu.
— Como? — Bruce me encara com o cenho franzido.
Rapidamente, faço um resumo:
— É para uma amiga minha, a Amy. Eu acho que vocês dois meio que se conheceram na festa de aniversário do Sr. Gênio Bilionário Playboy Filantropo, lembra?
Com uma expressão estranha e um olhar indecifrável, Bruce sibila distraído com seus próprios pensamentos:
— Vagamente... — Depois de se endireitar na cadeira, pigarrear e ajeitar o óculos, ele indaga meio tenso: — Por que a sua... amiga ia querer um autógrafo meu? Eu não sou nenhuma celebridade, convenhamos.
— Na verdade, está mais para um autógrafo do Incrível Hulk — explico. — Ela é uma grande fã dele. Digo, sua... Enfim, você entendeu. Ela só não sabe que vocês dois são a mesma pessoa.
— Melhor assim. — Bruce fica estranho novamente, mas rapidamente retorna ao assunto ao questionar: — O que eu escrevo em um autógrafo? Supondo que eu seja uma celebridade para a sua amiga e resolva atender o seu peculiar pedido.
— Eu não sei. Que tal... "Com carinho, Verdão"? — sugiro, arqueando as sobrancelhas.
Bruce fica em silêncio por alguns instantes e seu olhar se distancia não só do meu, mas de tudo em volta também.
De repente, ele ri sem humor e resmunga:
— Isso é ridículo.
Surpresa e sem graça, gaguejo um pouco ao me defender:
— Desculpe, eu... não consigo pensar em nada melhor... Mas um autógrafo é sempre um autógrafo, Bruce. Qualquer coisa que você escrever está valendo. Pode ser apenas "Hulk."
Subitamente mal humorado, Banner esclarece com uma indignação que eu não sei de onde surgiu:
— Não... Você não entendeu, Olivia. Eu quis dizer que é ridículo a sua amiga ser fã de alguém como... — Ele pigarreia e completa: — O outro cara. Por favor, faça com que Amy desista dessa história de autógrafo, diga que o Hulk é um porre, qualquer coisa assim, que ela deveria admirar os outros Vingadores. Stark, por exemplo. Todo mundo ama o Homem de Ferro.
Antes que eu assimile as suas duras palavras consigo mesmo e pense no que lhe dizer para levantar a sua autoestima, uma voz inconfundível surge bem atrás de nós:
— Está aí uma coisa inegável e totalmente compreensível. Todo mundo me ama!
— Falando no diabo... — murmuro, enquanto Tony adentra o laboratório.
Cruzo os braços e evito olhar em sua direção, já esperando pelo momento em que ele soltará algum comentário desnecessário e negativo sobre o gafanhoto, como tem feito ultimamente.
Talvez para provocá-lo, Bruce aproveita que mais um Vingador se junta a nós e faz outra sugestão:
— Ou o Steve! As garotas adoram o Capitão América.
Afiado como sempre, o Homem de Ferro opina em tom de deboche:
— Está aí uma coisa que eu nunca vou entender, mas parece que algumas mulheres gostam mesmo de antiguidades. Piram no velhote.
Steve olha para ele com certa confusão. Depois para mim e Bruce, e só então se pronuncia:
— O que está acontecendo aqui?
— É uma ótima pergunta, Capicolé. — Tony dá um tapinha nas costas do amigo e depois caminha até Bruce, perguntando: — Por que nós fomos citados na conversa? E o que vocês estão aprontando afinal?
Troco um olhar significativo com o cientista. Não vou falar nada sobre o autógrafo, pois sei que Stark faria alguma piadinha a respeito, mas também não quero que ele saiba que eu perdi temporariamente o pen drive. Aposto que faria algum comentário desnecessário também só para me deixar nervosa, como: "Olivia! Se o Coulson souber, você está demitida!"
Lendo meu olhar, Bruce se levanta, se coloca na frente do microscópio, cruzas os braços e desconversa:
— Sem ofensa, Tony, mas isso é confidencial.
Sem se intimidar, Stark aponta na direção do microscópio, deixando claro que deu uma boa olhada antes, e inquere:
— Por acaso aquilo é uma amostra de sangue?
E lá vamos nós...
Antes que eu tenha tempo de jogar a gaze discretamente em uma lixeira atrás de mim, o Homem de Ferro se vira e me pega no flagra. Deixo o curativo provisório cair no lixo mesmo assim e sorrio amarelo, esperando por sua pergunta, que logo vem:
— Olivia, por que o Verdão precisa do seu sangue?
De um jeito ingênuo e preocupado — lê-se muito fofo! — Steve pergunta discretamente:
— Está tudo bem? Você não está doente, está? Complicações por causa do DNA alienígena?
Antes que eu diga que está tudo bem e agradeça pela preocupação, Tony resolve ser Tony e solta a máxima:
— Por acaso não é um teste de gravidez, é?
— O quê?! — eu, Banner e Rogers exclamamos ao mesmo tempo.
E apesar de não encará-los nesse momento, tenho certeza que devem ter arregalado os olhos como eu.
Acho que pela minha expressão perplexa, Stark deduz a resposta, já que sibila satisfeito:
— Ufa! Menos mau. Acho que ninguém em sã consciência quer um filhote de rena à solta por aí, não é?
Sinto uma pontada forte no estômago e me encolho involuntariamente, magoada.
— Você devia medir melhor suas palavras, Stark. — Steve lhe lança um olhar duro e acrescenta firme: — O que é piada para você, pode machucar as pessoas. Caso ninguém tenha lhe dito, elas têm sentimentos e não estão acostumadas com um senso de humor tão... peculiar como o seu.
Estou atônita demais com o comentário maldoso do Homem de Ferro, para pensar no questionamento levantado por ele. Ou para agradecer ao Capitão pelo apoio.
Confusa e magoada, me viro para sair e digo:
— É melhor eu ir embora antes que o caldo entorne de vez.
— Espere — o Homem de Ferro diz de repente e eu detenho o passo. Longos instantes se passam até que ouço o seu pedido de desculpas: — Tudo bem, eu não devia ter dito isso, foi mal. Não está mais aqui quem falou. Bem, na verdade eu ainda estou, mas vamos esquecer o que eu disse, tudo bem?
Fecho os olhos por alguns instantes e depois me viro lentamente em sua direção. Por mais que, do jeito dele, Tony tenha se desculpado, não consigo disfarçar minha expressão de poucos amigos.
Em resposta, ele ergue as mãos em sinal de rendição e diz com franqueza:
— Às vezes eu falo demais, eu sei.
— Às vezes? — Estreito o olhar e inclino a cabeça.
Stark expira com força, abaixa os braços e se defende:
— É mais forte do que eu. Mas como prova do meu arrependimento e da minha sincera amizade, eu prometo não fazer mais piadas com você e aquela... Rena.
— E você vai conseguir cumprir? — questiono, duvidando que ele seja mesmo capaz de fazer o que está falando. Como Tony mesmo disse, é mais forte do que ele.
— Não dizem que o que vale é a intenção? — rebate sugestivamente.
Estou quase aceitando sua meia promessa e dizendo que está tudo bem, só para não me estressar mais com essa criatura incorrigível e bocuda, quando ele torna a se pronunciar:
— Ah! E prometo também que farei um esforço colossal para não demonstrar a minha total insatisfação com o relacionamento de vocês.
Meu sangue ferve e retruco ácida:
— Ótimo, porque o meu relacionamento com Loki não é da sua conta.
Para meu desespero, Tony parece esquecer o que acabou de prometer e recomeça com a implicância:
— Não me leve a mal, Olivia, eu só acho que você merece algo melhor. Todo mundo merece algo melhor... ou menos pior do que aquilo.
— Tony, já chega — Bruce intervém, prevendo que isso não vai acabar bem.
— Qual a sua dificuldade com limites, hein? — Steve o critica duramente.
Ao invés de me abater, visto minha máscara de cinismo e o provoco:
— Não, tudo bem. Ele está certo. Em parte pelo menos, afinal eu também acho que a Pepper merecia alguém melhor. Vai entender...
Isso não é verdade, tenho certeza que Tony é bom para Pepper, mas ele me atacou e, por isso, eu vou atacar também!
— Engraçado, eu não ouvi ela reclamar — rebate de um jeito sério, o que me leva a crer que apesar da resposta convicta, eu o desestabilizei um pouquinho sim.
— E por acaso você me ouviu reclamar? — indago entredentes, dando um passo a frente.
Steve segura o meu braço gentilmente e Bruce se aproxima de Tony, que finge pensar por algum tempo e depois devolve com outra pergunta:
— Então você está feliz?
— Muito! — afirmo, segura do que sinto e de que encontrei a tampa da minha panela, meu par perfeito, mesmo que o Deus da Trapaça não pareça perfeito para Tony e, provavelmente, o resto do mundo. — Loki mudou a minha vida. Ele me diverte, tira os meus pés do chão, faz cócegas na minha alma, me fez alguém melhor. E pelas barbas do profeta, ele mudou! — Irritada com um risinho incrédulo que o Homem de Ferro solta, deixo escapar imprudentemente: — Ele mudou sim! E se vocês não fossem tão teimosos, iriam ver isso! Quem sabe poderiam estabelecer uma trégua? Quem sabe um dia vocês possam...
As próximas palavras morrem em minha garganta, mas eu permaneço com a boca entreaberta e ofegante, enquanto Stark me encara intrigado.
— Vocês? — Bruce diz, provavelmente chateado por eu tê-lo incluído na discussão. Não só ele, mas todos os Vingadores, já que em níveis diferentes cada um deles tem um pé atrás com Loki sim.
— Quem sabe um dia vocês possam o quê? — O Homem de Ferro estreita o olhar na minha direção, como se quisesse arrancar as palavras não ditas da minha mente.
Me julguem, mas eu não estou pronta para abrir o jogo sobre a minha missão. Com certeza, este momento não é o mais propício para isso.
Engulo em seco e sou mais ou menos salva pelo gongo quando Clint e Natasha adentram o laboratório. É a ruiva quem se pronuncia primeiro:
— O que está acontecendo aqui?
— É, nós ouvimos gritos. Está tudo bem? — o arqueiro questiona, parando ao lado da noiva.
Gritos? Oh meu Deus! Eu gritei com Tony. E tenho certeza que ele elevou a voz também, então estamos quites. Mesmo assim, essa situação é horrível.
Respiro fundo e tento me acalmar, não quero mais confusão. Entretanto, Stark insiste em arrancar algo que eu não tenho como contar no momento. Olhando para mim, ele responde aos amigos que acabaram de chegar:
— Que bom que vocês estão aqui, a Olivia ia nos dizer o que está escondendo. Eu tenho certeza que vocês também precisam ouvir.
Um a um, olho para cada membro dos Vingadores e me sinto acuada com suas expressões curiosas e olhares questionadores. Quando volto a fitar o Homem de Ferro, ele arqueia uma sobrancelha e pressiona:
— A S.H.I.E.L.D. te pediu alguma coisa, não foi? Te deu alguma missão especial, aposto.
Engulo em seco, enquanto ele faz suposições e gesticula:
— O que é desta vez? Tornar a Rena minimamente suportável? Quem sabe algo mais fácil do que isso, como... Loki ganhar o Nobel da Paz? Ah! Com certeza, ele mataria por um prêmio desses!
Sinto uma nova pontada dentro de mim e abaixo o olhar. Querendo descobrir a verdade a qualquer custo, Tony simplesmente prossegue:
— Oh, não! Nada disso! Como eu não pensei nisso antes? A S.H.I.E.L.D. quer que você transforme Vingadores e Rena em melhores amigos, claro! Em parceiros, em... Aliados.
De repente, ele para de falar e arregala os olhos pensativo, como se tivesse ficado surpreso com o próprio pensamento. Na sequência, sinto os olhares dos outros membros da equipe em meu rosto e sei que eles chegaram a mesma conclusão que Tony.
Ótimo, não preciso mais me preocupar em como contar o babado, os Vingadores já mataram a charada.
Finalmente tomo coragem e observo todos eles. Pelas suas expressões, a princípio incrédulas e confusas, depois de profundo espanto e, por fim, de clara repulsa à ideia, só posso concluir que a vaca foi pro brejo.
— Olivia, isso é verdade?
A pergunta de Steve, em um tom desolado de alguém que implora para que seja uma piada de péssimo gosto, é a gota d'água. O balde de água fria que faltava para me desanimar por completo. Mas a situação ainda piora, quando Clint ri e protesta:
— Isso é loucura. Eu nunca, nunca, lutaria ao lado daquele... Vamos chamar de ser.
— Eu não consigo nem conceber a ideia — Natasha acrescenta, meio zonza.
Logo em seguida, Tony também protesta:
— Está aí uma coisa que nunca vai acontecer. Loki e Vingadores juntos. Eca!
Para arrematar, Bruce sibila visivelmente desnorteado:
— Eu não sei o que pensar. A S.H.I.E.L.D. te deu mesmo essa... missão, Olivia? Desculpe, mas é... Surreal demais.
Sem olhar para ninguém em específico, respondo pausadamente:
— Não importa o que a S.H.I.E.L.D. me incumbiu de fazer. Indiscutivelmente, eu estou fadada ao fracasso antes mesmo de fazer qualquer progresso. — Rio sem humor, depois ergo meu olhar e encerro resignada e afiada ao mesmo tempo: — Não se preocupem, eu não vou incomodá-los com esse assunto. Claramente, foi um erro pensar que vocês seriam minimamente maduros para ao menos cogitarem a ideia.
O silêncio que se instala a seguir é sufocante. Incomodada e derrotada, viro-me para deixar o laboratório. Ninguém me impede, ninguém me segue, o silêncio apenas permanece atrás de mim.
Pouco tempo depois, saio da Torre e, enquanto dirijo rumo ao meu cafofo, relembro a minha primeira missão e reflito sobre a postura dos Vingadores na época.
Resumo da ópera: tudo bem virar a vida de uma garota de cabeça para baixo por causa de uma missão maluca. Tudo bem exigir que a garota confie cegamente neles. Tudo bem a garota abrigar um deus potencialmente perigoso no seu cafofo, porque na época era isso que Loki era, convenhamos. Tudo bem a garota se envolver emocionalmente e vice-versa, afinal era bom para a missão, iria tornar Loki digno! Thor e os outros Vingadores apostaram nisso e deixaram as coisas acontecerem. Tudo bem usarem os meus sentimentos no processo.
Não me entendam mal, eu não me arrependo de ter aceitado o desafio. Valeu a pena. Pelo trapaceiro irresistível tudo valeu a pena. Mas quando eu espero que os Vingadores retribuam, confiando em mim um pouquinho que fosse, mesmo que a minha missão pareça maluca para eles agora, os pomposos ficam com aquelas caras de estou passada na manteiga? Bando de frescos mimizentos!
Qual o sentido de me incumbir de transformar Loki em alguém digno, se nenhum deles acredita que o gafanhoto realmente mudou? Tudo bem, Thor acredita, mas será que o suficiente para não achar a minha missão ridícula e inviável também? Que lado ele escolheria?
Quer saber, não importa. Mesmo que o top model asgardiano reaja de um jeito diferente, a maioria não gostou nem um pouco da ideia da S.H.I.E.L.D., portanto, é perda de tempo insistir.
Será? Será que devo desistir então? Será que essa é e sempre será a postura dos Vingadores? Espantados e irredutíveis? Estou desistindo rápido demais?
Mas o que mais eu poderia fazer para mudar esse cenário? Será que a S.H.I.E.L.D. me deu essa missão apenas como um teste? Será que acredita mesmo em seu improvável sucesso? E o que vou dizer para o Coulson? Vou arregar? Pedir para sair? Serei uma vergonha para a corporação por causa disso?
Oh, céus! Oh, vida!
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