Notas iniciais
Hello... It's me... Minha internet está muito muito muito ruim, então vou deixar o capítulo aqui bem rapidinho e correr para as colinas antes que a conexão caia again. Espero que gostem! Boa leitura! Hasta la vista!

Não sei por que, mas creio que eu não deveria ter chamado o tormento de midgardiana desprezível. Algo me diz que Olivia não gostou nem um pouco disso e, por mais que eu não consiga demonstrar certas coisas por ela em público, não quero desagradá-la. Me importo com o que ela pensa e, principalmente, com o que sente. Me julguem, mas o tormento me pegou mesmo de jeito.

Por outro lado, Olivia tinha que ter a audácia de vir a Asgard vestida daquele jeito? Com aquele maldito uniforme da S.H.I.E.L.D.? Eu já entendi que ela aceitou se aliar aos honrados mocinhos da história, mas por que me confrontar com isso? Por que me lembrar que, para todos os efeitos, eu estou no lado oposto da questão?

Por que a minha midgardiana nada desprezível quer que eu aceite o seu novo emprego com um largo sorriso de satisfação no rosto, sendo que eu sinto que a posição que Olivia escolheu estar pode nos afastar de alguma forma? Por que ela não enxerga isso? E por que, apesar de toda a minha revolta e receios, tive vontade de tirar a sua roupa assim que a vi esta noite?

Foco, Loki. Repito para mim mesmo enquanto observo o tormento conversando toda animada com Thor, na escadaria do palácio. Sim, porque ao invés de me seguir quando eu deixei o salão, como seria o certo, Olivia preferiu ficar com o meu irmãozinho, Sif e o trio inseparável de energúmenos.

Confesso que algo ardeu dentro de mim quando olhei para trás e me dei conta disso. Olivia preferiu a eles do que a mim. Assim como ela, talvez inconscientemente, fez uma escolha pela S.H.I.E.L.D., pelos Vingadores, ao invés de mim.

Seja como for, eu não vi outra escolha a não ser ficar por perto, escondido atrás de uma pilastra para que o tormento e os outros não me vejam, esperando para ver aonde a singela confraternização regada a muito hidromel vai dar.

Neste momento, enquanto Frandal, Volstagg, Hogun e Sif continuam bebendo e se empanturrando no salão, Olivia ri a cada trinta segundos de uma história idiota que o Deus do Trovão conta.

— E então Stark me mediu da cabeça aos pés e perguntou, com aquele jeito dele, se a minha mãe sabia que eu usava as cortinas dela para me vestir — Thor conclui, indicando sua capa vermelha e fazendo Olivia cair na gargalhada mais uma vez.

Não posso negar que o som da sua risada me arrepia consideravelmente. E que vê-la segurando a barriga dolorida de tanto rir me faz fitá-la com certo encanto.

Olivia Mills. Meu bálsamo.

— Então foi assim que você conheceu o Homem de Ferro e sua turma? — A midgardiana me traz de volta à realidade ao fazer tal pergunta a Thor. — Eu sabia que tinha sido por causa do Loki, mas não imaginava que tinha sido tão divertido assim — completa, ainda rindo.

Mesmo a certa distância, consigo perceber o semblante do meu irmãozinho murchando aos poucos. Logo, o sorriso relaxado dá lugar à uma expressão séria e um olhar distante. Quase triste, eu diria.

Por fim, Thor toma um gole generoso de hidromel e discorda:

— Na verdade, não foi tão divertido.

Sei o que ele quer dizer. E sei que Olivia também captou a mensagem, já que prontamente para de rir e lamenta um pouco constrangida:

— Oh! Claro... Me desculpe, realmente não foi. Deve ter sido difícil para você reencontrar o gafanhoto depois de ter chorado a sua morte.

Não sei por que, mas não estou gostando do rumo desta conversa. Como eu ia adivinhar que Thor ficaria tão arrasado com a minha pseudo morte? Depois de tudo o que eu fiz? Eu pensei que ele ficaria aliviado, bem como Odin.

Mas, surpreendentemente, não foi isso o que aconteceu. Na época, eu pensei que somente minha mãe sentiria a minha falta, mas os dois também lamentaram. Quem diria?

— Sim — Thor assente simplesmente, ficando pensativo em seguida. E isso acaba me deixando pensativo também.

A verdade é que se não fosse por Odin nos comparando desde sempre, nos colocando um contra o outro — segundo ele, sem perceber —, nos fazendo almejar o trono que só poderia ser de um, talvez... Apenas talvez, minha relação com Thor pudesse ter sido diferente. Talvez nós pudéssemos ter sido irmãos. Não rivais disfarçados de irmãos.

Espera... Por que eu estou pensando nisso agora?

Estou me fazendo essa pergunta, quando o Deus do Trovão torna a se pronunciar. Desta vez, com certa dureza e amargura na voz:

— Mas nada se compara ao que Loki fez depois. Todo o rastro de destruição que deixou pelo caminho enquanto tentava dominar Midgard.

Realmente não estou gostando do rumo desta conversa. Principalmente porque agora percebo certa oscilação no rosto do tormento. Olivia parece desapontada. Comigo. E isso é algo difícil de encarar. Então desvio o olhar da cena à minha frente e cogito me retirar daqui na surdina.

Contudo, o que ela diz na sequência me detém imediatamente:

— Mas depois ele te ajudou, não foi? A dar um jeito naquele elfo do mal que fez um tremendo estrago em Londres? Loki se saiu bem trabalhando com você, certo?

Sinto a esperança implícita em sua voz sedenta por respostas afirmativas e me pergunto por que Olivia Mills acredita tanto em mim. Mais do que isso, por que ela faz tanta questão de aliviar o meu lado sempre? Por que releva tudo o que sabe a meu respeito? Por que não se incomoda com o meu passado? Por que aceitou me ajudar com aquele bracelete, mesmo sabendo quem eu era? O que esse tormento viu em mim e o que eu fiz para merecer tal dádiva?

Estou quase acreditando que o meu passado não importa, quando Thor retruca com uma mágoa contida:

— Exceto pelo fato que ele forjou a própria morte no final. Mais uma vez.

Sim, eu fiz isso. Mas eu queria o trono de Asgard! Qual a dificuldade em entender isso? Eu sempre quiser ser um Rei, aliás.

Além disso, eu considerava Thor um fraco por ter lamentado a minha "primeira morte". Pensei que ele tinha aprendido alguma coisa com isso e que superaria a segunda rapidamente. Pelo visto, me enganei. Talvez Thor seja mesmo meu irmão. Apesar de Odin. Apesar de tudo.

Pisco algumas vezes, afastando tais pensamentos e reparo melhor em Olivia. Vejo-a murchar ao ouvir as palavras do Deus do Trovão e me sinto estranhamente envergonhado por isso.

Para meu alívio, Thor parece perceber o efeito do que disse e se empenha em consertar:

— Desculpe, Olivia, eu não devia dizer essas coisas. No fundo, eu já perdoei Loki há muito tempo. Mas é que quando eu penso na nossa mãe e em como ela ficou arrasada quando o meu irmão se foi pela primeira vez... E não satisfeito, depois que ela morreu, Loki fez isso de novo, sem se importar com o que eu sentiria a respeito.

O filho de Odin hesita por um instante, fazendo a culpa se agitar dentro de mim, mas em seguida se recompõe, bebe mais um pouco do hidromel e conclui sorridente:

— Quer saber? O importante é que graças a você, eu tenho certeza que meu irmão não fará algo deste tipo novamente. Ele mudou, por mais que faça questão de esconder isso para não parecer sentimental ou fraco. Você sabe, ele tem uma visão meio distorcida dos sentimentos.

Sim, este sou eu. Muito prazer.

Para minha surpresa, Olivia resolve fazer uma pergunta inusitada:

— Você acha que ele seria capaz de mudar mais um pouco? — E depois de pigarrear, emenda de um jeito no mínimo suspeito: — Eu quero dizer... De repente, ser útil em alguma missão contra um super vilão de novo? Trabalhar em... Equipe de alguma forma? Algum dia talvez?

Desconfiado, franzo o cenho e ouço o deus trovejante pronunciar as palavras que estão entaladas em minha garganta:

— Como assim?

Aos gaguejos, evitando encarar Thor diretamente, visivelmente atrapalhada e enrolando uma mecha do cabelo repetidamente com o dedo, Olivia desconversa:

— Oi? O que eu estava falando mesmo? Onde? Quando? Por quê? Cuma?

Enquanto ela entorna a taça com o hidromel e bebe tudo de uma só vez, Thor tenta retomar o assunto:

— Você estava dizendo que...

Entretanto, Olivia não o deixa falar. Ao invés disso, vacila um pouco, leva a mão à testa e exclama teatralmente:

— Oh céus, oh vida! Acho que bebi demais! Eu realmente não sei o que estava falando, cogitando, tanto faz. Não tenho a mínima ideia! Aliás, você acha que hidromel é um fator de risco para Alzheimer?

Péssima mentirosa. Tenho que lhe ensinar alguns truques urgentemente. Mas antes preciso descobrir o que Olivia está escondendo porque, sim, ela está escondendo algo.

Thor, ingênuo como é, acredita no tormento e propõe visivelmente preocupado:

— Talvez seja melhor você se recolher aos seus aposentos. Você precisa de ajuda? Eu posso chamar a Sif ou alguma criada para te acompanhar.

Olivia dá um tapinha no ar e desconversa mais uma vez:

— Não se preocupe. Eu consigo achar o caminho. — Mas ao invés de se afastar e seguir para o seu quarto, ela comprime os lábios por um instante e anuncia: — Só uma última pergunta.

Depois de pegar a taça vazia da mão dela, o Deus do Trovão assente:

— Claro.

Estreito o olhar na direção de Olivia ainda mais desconfiado e ouço com atenção o que ela despeja na sequência:

— Na sua opinião, por que o gafanhoto está tão incomodado com o meu emprego na S.H.I.E.L.D.? Você sabe, fazendo todo esse mimimi desnecessário.

Mimimi desnecessário? Midgardiana abusada...

Ela ainda revira os olhos ao dizer isso, mostrando que realmente não entende como o seu novo emprego pode nos afetar. Ela realmente não entende como eu me sinto no meio disso. Excluído e receoso. Com um mau pressentimento martelando o tempo todo em minha mente.

Estou quase indo até a escadaria e respondendo a sua pergunta — embora eu não tenha certeza se conseguiria falar tão abertamente sobre como me sinto —, quando Thor responde reflexivo:

— Eu acho que é porque ser uma agente te aproxima ainda mais dos Vingadores. — Talvez percebendo que Olivia não captou o cerne da questão, ele acrescenta: — Loki sempre se sentiu preterido em tudo. Com certeza, está se sentindo assim agora. — E aos risos, ele solta a máxima: — Mais do que isso, eu acho que Loki está com ciúme de você.

Ciúme?

— Ciúme? — Olivia expõe meu pensamento e, de onde estou, juro que posso ver os seus olhinhos brilhando com certo entusiasmo.

Maldito Thor... Por que ele tinha que dizer isso? E por que eu sinto que, de alguma forma, ele está certo em sua análise?

Espera. Como assim ele está certo? Claro que não está! Thor nunca está certo em coisa alguma. Ele é apenas um tolo e o que disse é um completo absurdo! Faz-me rir!

Que fique bem claro, eu não estou com ciúmes de Olivia, eu só não quero dividi-la com outras pessoas. Muito menos com os meus arquiinimigos. É totalmente diferente e justificável, convenhamos.

Claro que o meu tormento já assumiu a teoria do Deus do Trovão como uma verdade absoluta. Muito obrigado, irmãozinho. Se Olivia Mills já era uma midgardiana muito convencida antes, agora que ouviu isso então... Ela vai ficar insuportável.

Incomodado, fecho os olhos e apoio a testa na pilastra, enquanto meus dedos se agarram a estrutura com mais força. Maldição. Thor está certo.

— Ciúme! Rá! — Olivia ri, profundamente satisfeita, chamando minha atenção mais uma vez. Então ela dá um tapinha no ombro de Thor e diz cheia de si: — Valeu, cunhadinho. Eu não tinha pensado nisso, mas é bem óbvio na verdade. É claro que o gafanhoto está com ciúme, ele é louco por mim! Totalmente compreensível, diga-se de passagem.

Como eu temia. Mil vezes mais convencida. Obrigado mesmo, Thor. Você acabou de criar um monstro.

Estou me torturando com essa reflexão, quando o tormento solta um suspiro profundo e finalmente se despede do infeliz:

— Depois dessa, eu vou dormir como um bebê. Até amanhã, top model asgardiano. Bons sonhos, viu?

Com a sua típica cara de bobão e um largo sorriso, Thor assente com um meneio de cabeça e encerra a conversa:

— Até amanhã, Olivia. Tenha uma boa noite também.

Juro que quase vejo a criatura loira e abusada saltitar à medida que se afasta dele. Contudo, o hidromel parece mesmo ter causado um grande efeito em seus sentidos, já que ela oscila um pouco e depois passa a caminhar meio aos tropeços pelo corredor onde me encontro.

Rapidamente, dou a volta na pilastra, me ocultando, enquanto Thor volta para o salão e se junta aos seus amiguinhos. Aguardo alguns instantes até que Olivia finalmente passa por mim sem me ver. Então, após hesitar, tomo uma decisão repentina e resolvo segui-la. A certa distância, é claro. E com a aparência de um guarda do palácio, obviamente.

Caminhando lenta e silenciosamente atrás de Olivia, reparo melhor em seu corpo curvilíneo sob o uniforme. Quem diria que uma roupa tão odiosa fosse lhe cair tão bem?

Tenho que admitir, Olivia com esse uniforme é um verdadeiro crime contra a minha sanidade e concentração. Tenho que fazer um esforço para não olhar demais para o seu traseiro realçado pela malha colada às suas curvas e não tropeçar em minhas próprias pernas.

Posso ser um Gigante de Gelo, mas sinto que estou suando consideravelmente agora. Entretanto, algo que Olivia faz na sequência me traz de volta. Isso porque a ouço cantarolando alegremente:

— Mas é ciúme, ciúme de você, ciúme de você, ciúme de você...

Reviro os olhos e decido que é melhor interrompê-la antes que o seu ego se torne maior que o meu:

— Com licença, Lady Mills.

Sobressaltada, Olivia se vira com a mão no coração e exclama:

— Papagaio! Que susto, minha Nossa Senhora! Quer me matar de infarto do miocárdio?

Claro que não. É o que penso retoricamente, antes de assumir minha postura de serviçal e prosseguir:

— Não foi minha intenção assustá-la. Eu lamento que tenha acontecido. De qualquer forma, a senhorita precisa de ajuda para chegar ao seu recinto?

Talvez eu possa ajudá-la a se livrar das roupas também. Quem sabe lhe faço companhia durante o banho?

Foco, Loki. Foco. Não se esqueça do novo emprego da sua midgardiana. Não se esqueça que ela aceitou se aliar à S.H.I.E.L.D., ficando ainda mais próxima daqueles heróis pedantes. Não facilite as coisas para esse tormento de uniforme provocante. Pense com a cabeça de cima. Não com...

Faço um esforço e mantenho a postura firme, enquanto visivelmente ofendida com algo que eu falei, Olivia coloca as mãos na cintura e retruca afiada:

— Eu não estou tão bêbada assim. Portanto, consigo perfeitamente encontrar o meu quarto sozinha. — Faço uma cara de serviçal coitadinho que só queria ajudar e ela abandona a postura defensiva imediatamente. — Obrigada, mas não é necessário, guarda — conserta de um jeito polido, antes de se virar a fim de retomar o caminho.

O que acontece na sequência é tão rápido que eu só consigo agir instintivamente. Resumo da ópera: Olivia pode estar bem lúcida para alguém que consumiu muito hidromel, mas o seu corpo sente os efeitos da estripulia. Em outras palavras, suas pernas vacilam mais uma vez e antes que eu pense no que estou fazendo, já estou ao seu lado. Mais do que isso, já a segurei firme em meus braços, impedindo que o tormento despenque no chão.

Com isso, nós ficamos bem próximos um do outro. Nossos corpos em constante contato. Nossas respirações se misturando no curto espaço entre nós...

É impossível não ficar abalado pela nossa súbita proximidade. É impossível não retribuir o olhar intenso que Olivia me lança, antes de estreitá-lo num claro sinal de confusão e indagar:

— Gafanhoto? — Afastando-se abruptamente, Olivia questiona ainda mais surpresa: — Mas que marmota é essa, gente?

Como ela me reconheceu?

— Como? — sibilo do jeito mais convincente que consigo, incapaz de raciocinar direito. — Eu não tenho ideia do que a senhorita está falando — desconverso, desviando do seu olhar inquiridor.

Claro que Olivia não se convence. Claro que ela coloca as mãos na cintura, ri sem humor, me encara firme e insiste:

— Pra cima de mim, coração? Pode parar com a palhaçada. Eu sei que é você, trapaceiro. Anda, mostra logo a sua carinha.

E agora? O que eu devo fazer? Continuar com o teatro ou...

— Surpresa. — Decido acabar com o disfarce, dizendo isso com certo enfado, fazendo a imagem do guarda se dissipar rapidamente e abrindo os braços para frisar que sou eu mesmo.

Sorrio amarelo, esperando que Olivia se dê por satisfeita ao ver que acertou em cheio. Contudo, ela apenas questiona possessa:

— O que significa isso? Que tipo de trapaça é essa? Espera, você estava me seguindo? — Antes que eu decida entre responder ou não, mentir ou não, a midgardiana pisca algumas vezes, engole em seco e deduz visivelmente preocupada: — Você ouviu a minha conversa com o top model asgardiano.

Mais confiante, abro a boca para confirmar a sua suspeita, aproveitando para pressioná-la a contar o que está escondendo. Entretanto, acho que Olivia adivinha a minha intenção, já que sorri cheia de si e rapidamente tenta virar o jogo ao seu favor:

— Então é verdade que você está com ciúme de mim, chuchu?

O sangue ferve em minhas veias e eu fecho a cara. Sem querer que ela saia vitoriosa deste embate, e muito menos que fuja do assunto, mantenho-me firme, estreito o olhar em sua direção e intimo:

— O que você está escondendo, Olivia?

Na mosca. No mesmo instante, a midgardiana abusada engole em seco e o seu olhar vacila.

— Como? — murmura com um fio de voz.

— Pra cima de mim, coração? — Rio sem humor e devolvo o que ela me disse antes. — Eu sei muito bem que você está escondendo alguma coisa sobre essa sua empreitada ridícula na S.H.I.E.L.D.

Desta vez, é o tormento quem fecha a cara e, em seguida, retruca ofendida:

— Não fale assim do meu emprego, ele é muito importante pra mim. Eu estou tentando fazer algo útil da minha vida, algo importante para o mundo, pelas pessoas, a coisa certa.

Mais uma tentativa de desviar a minha atenção e fugir do assunto. Não, Olivia. Eu não vou te deixar sair daqui sem me contar o que está acontecendo.

— Talvez, mas não é apenas isso, é? — pressiono.

Mais uma vez, Olivia engole em seco. Culpada. O que esse tormento está escondendo, afinal?

— Eu não tenho ideia do que você está falando — apressa-se em dizer, para em seguida franzir o cenho e questionar com um olhar distante: — Jesus amado, por que nós estamos repetindo as falas?

— Porque nós estamos andando em círculos! — Perco a paciência e me aproximo mais dela. — Que tal parar com esse jogo de uma vez? O que você está tramando, Olivia? — insisto, com o olhar fixo no seu.

Ela abre a boca, mas nenhuma sílaba sai de sua garganta. Visivelmente nervosa e encurralada, a midgardiana finalmente sibila algo:

— Eu... — Mas em seguida, se afasta rapidamente anunciando: — Eu vou para o meu quarto ver uma coisa!

Tentando fugir. Culpada.

— Olivia, volte aqui — exijo duramente. — Olivia! — chamo em vão, enquanto ela se afasta com passos apressados e trôpegos.

Querendo a verdade mais do que tudo e nem um pouco disposto a abrir mão disso, me coloco em movimento também, a seguindo com a mesma pressa, porém com uma agilidade que Olivia perdeu por causa do hidromel em seu organismo.

Alcanço-a assim que ela abre a porta do seu recinto e adentra o lugar, completamente estabanada. Impeço que ela feche a porta, colocando o pé na soleira.

— Foi um longo dia, gafanhoto! — Olivia justifica-se no susto. E sem olhar para mim diretamente, despeja afoita: — Eu estou bêbada, cansada, preciso de um banho e de uma boa noite de sono. Amanhã nós conversamos, tudo bem? Obrigada, de nada.

Mais uma vez, a midgardiana tenta fechar a porta. E mais uma vez, eu a impeço, fazendo o tormento respirar fundo e me encarar quase suplicante.

E isso me abala de alguma forma. Por um momento, me sinto culpado por tê-la pressionado tanto e penso em deixá-la em paz. Por ora, pelo menos.

Todavia, como quero e preciso saber a verdade, resolvo mudar de estratégia para consegui-la mesmo que não seja imediatamente:

— Tudo bem, mas antes eu tenho uma última coisa a dizer. Algo para você refletir enquanto tenta dormir esta noite. — Percebendo que tenho toda a atenção de Olivia que me encara com os olhos ligeiramente arregalados, uso o passado não muito distante ao meu favor e exponho pausadamente: — Quando eu descobri que você já conhecia Thor e os seus coleguinhas Vingadores, quando eu descobri que tudo não passou de uma missão para me libertar do bracelete, quando eu descobri que você mentiu várias vezes para mim em nome disso... Eu não gostei, Olivia. Nem um pouco. Portanto, não cometa o mesmo erro. Algo me diz que eu não vou gostar de novo.

Meu recado parece surtir um efeito imediato no tormento, a deixando visivelmente tensa. Mas não é o suficiente para ela contar o que eu quero saber neste momento.

Porém como expus, ela terá a noite inteira para pensar a respeito. Duvido que consiga dormir, mas resolvo deixá-la sozinha, lhe dando o tempo e o espaço necessários para decidir se me conta a verdade ou não.

Então, sem dizer mais nada, me afasto e a encaro uma última vez. Em seguida, lhe dou as costas e sigo o caminho rumo ao meu quarto.

Algum tempo depois...

Deitado em minha cama, tento me concentrar na leitura de um livro, mas sempre acabo me distraindo com um ponto qualquer do teto. Entretanto, quando ouço a porta abrir e vejo Olivia surgir sorrateiramente na soleira, faço questão de me mostrar concentrado e me obrigo a encarar o livro, enquanto digo:

— Eu pensei que tinha sido um longo dia, que você estava bêbada, cansada e que queria dormir.

Ouço quando ela fecha a porta com cuidado e os seus passos se aproximam. Sinto quando apoia os joelhos na cama e se debruça pouco a pouco sobre ela, apoiando as mãos em torno de mim. Não protesto quando Olivia retira o livro das minhas mãos, se estica e o coloca sobre o criado-mudo ao meu lado.

Noto que ela tomou banho, já que está vestindo uma longa, branca e mesmo assim provocante camisola asgardiana e seus cabelos ainda estão úmidos. Mas pela sua expressão cansada, logo deduzo que não conseguiu dormir. Ótimo, pelo visto consegui mexer com ela com o que disse anteriormente.

Estou me perguntando o que o tormento está planejando vindo ao meu recinto à essa hora, se veio me contar o que está acontecendo ou apenas para continuar me enrolando, quando ela arqueia as sobrancelhas e expõe de um jeito calmo, irritante e adorável ao mesmo tempo:

— Aquilo não foi uma missão e você sabe muito bem disso. No começo, okay, era. Mas depois... Você sabe muito bem qual foi a minha real motivação para continuar te abrigando no meu cafofo e te ajudando. E eu não menti para você pura e simplesmente, eu tive que mentir porque, olha só que surpreendente, eu estava em uma missão ultra secreta e você não saber de nada era primordial. E tem mais, eu sei que você ficou magoadinho quando descobriu a verdade, mas cá entre nós, chuchu, não foi bem por isso que você me deixou para trás naquela estrada. Você estava fugindo do que tinha acabado de descobrir que sentia. Arrumando um pretexto para não assumir que era, é e sempre será louco por mim.

Convencida. Abusada.

Tudo bem, eu sei que tudo o que Olivia disse é a mais pura verdade, mas o meu instinto de defesa e minha irritação diante de suas palavras me fazem assumir uma postura indiferente e questionar:

— Aonde você quer chegar com essa conversa, midgardiana despre...?

Olivia me cala ao colocar o dedo indicador sobre minha boca — realmente muito abusada e sem qualquer noção do perigo que corre ao fazer isso —, e prossegue:

— Ressalvas feitas, você está certo em um ponto. Esconder a verdade agora... Não seria certo. Não é certo. Ainda mais porque eu quero que desta vez seja diferente. — Depois de afastar o dedo de minha boca, ela tem a audácia de soltar a máxima: — No final, eu não quero que você tenha qualquer desculpa para bancar a mulherzinha da relação de novo.

Irrito-me mais uma vez e rebato com certa incredulidade:

— Como é que é?

Para minha surpresa, o tormento anuncia:

— Eu vou te contar a verdade, gafanhoto. O que eu estou escondendo. O grande spoiler.

Confesso que não esperava que fosse ser tão fácil, mas não vou reclamar, é claro. Sendo assim, limito-me a sentar, fazendo-a endireitar o corpo em volta do meu, e digo:

— Eu estou ouvindo.

Noto uma oscilação no semblante de Olivia, como se ela tivesse perdido a coragem e a segurança subitamente. Confirmando isso, ela desconversa:

— Eu não disse que ia contar agora.

— Olivia — repreendo-a, enquanto tento não enlouquecer.

Fecho os olhos e trinco o maxilar, mas os abro novamente quando percebo as mãos ágeis da midgardiana em minhas vestes, tentando tirá-las de qualquer jeito, enquanto anuncia entusiasmada e fugindo do assunto pela milésima vez esta noite:

— Vamos tirar a roupa primeiro! Ótima ideia! Só podia ter partido de mim, é claro! Eitcha lelê...

— Olivia... O que você está fazendo? — pergunto, procurando manter o foco e não ceder facilmente, embora esta seja minha real vontade desde que ela adentrou o palácio mais cedo.

— Sendo multitarefa, chuchu — insinua simplesmente, enquanto continua empenhada em me despir, com uma expressão travessa. — Em outras palavras, funciona assim: você relaxa, eu relaxo, nós tiramos as roupas, todo mundo fica feliz e então, enquanto isso, eu conto o babado. Mas você vai estar ocupado demais, distraído demais, empenhado demais... Se é que você me entende, e nem vai ligar muito para o que eu disser.

Entendendo o que ela quer dizer com tudo isso, seguro em seus punhos, a levando a me encarar apreensiva, inclino um pouco a cabeça e digo com um sorriso displicente:

— Você está tentando manipular o rei da manipulação? Que fofa. — Encarando-a firmemente, faço mais um esforço para manter o foco e exijo: — A verdade primeiro, chuchu. Diversão depois. Dependendo da verdade que você tem a contar, é claro.

Finalmente. Pela cara que Olivia faz, parece que desta vez ela entendeu que eu não vou desistir e que não adianta tentar me distrair com a sua feitiçaria pélvica.

Prova disso, é que ela solta o ar com certo derrotismo e anuncia:

— Okay. A verdade. — Talvez tentando prever a minha possível reação, ela relata pausadamente, com o olhar fixo no meu: — Eu recebi uma nova missão. Novamente envolve você e o bem estar do planeta, do universo, essas coisas.

Enquanto eu tento imaginar o que isso significa exatamente, Olivia pigarreia, arqueia as sobrancelhas e indaga receosa:

— Gafanhoto, por acaso você já ouviu falar da Iniciativa Vingadores?

Espera. O que foi que esse tormento de camisola acabou de dizer?