Trapaças do Coração
28 Exceção à regra
Notas iniciais
Durante toda a minha vida, vivi à sombra da grandiosidade de Thor, tendo que me contentar com as sobras de uma família que, embora eu não imaginasse na época, não era minha.
Por mais que Frigga tenha sido uma verdadeira mãe e feito o possível para que eu me sentisse acolhido e amado, a verdade é que nunca me encaixei neste mundo. Sempre tive a sensação de que me faltava algo. Algo que me daria a sensação inversa. Algo que me faria pleno e completo, acalentando o vazio sombrio que crescia dentro de mim.
Por muito tempo, acreditei que ascender ao trono de Asgard era a resposta para esse vazio. Depois, que dominar Midgard e reinar sobre suas criaturas primitivas seria a solução. Nunca admitirei isso em voz alta, mas, nas duas ocasiões, eu não podia estar mais equivocado.
Sei disso agora porque, pela primeira vez em minha vida, experimento a plenitude e me sinto completo de verdade. Porque, pela primeira vez, tenho algo meu. Não as sobras, não os restos, não as sombras, mas algo genuinamente e apenas meu. Pela primeira vez em minha conturbada existência, sei exatamente qual é o meu lugar neste mundo e em qualquer outro.
É com essa certeza que observo o tormento dormindo em minha alcova, depois de desmaiar mais uma vez.
Pobrezinha... Não aguentou a emoção de descobrir que está carregando meu legado. Totalmente compreensível. Eu mesmo fiquei chocado e um tanto incrédulo quando recebi a notícia. No fundo, ainda estou assimilando o seu significado. Isso é novo para mim. Dê-me um inimigo, e eu lidarei com o infeliz de bom grado. Mas filhos? Crianças? Este é um território desconhecido que nunca esperei desbravar.
Mas, apesar de não ter imaginado que algo assim viria a acontecer comigo, logo o choque deu lugar a uma satisfação intensa que os sentimentalistas chamam de felicidade.
Saboreando essa sensação, sorrio de um jeito discreto e permito que meus dedos deslizem suavemente do rosto ainda pálido de Olivia até uma de suas mãos, que repousa sobre seu ventre repleto de mim.
Quando ela suspira de forma sonora e se mexe um pouco em meio aos lençóis, afasto-me categoricamente e endireito a postura. Instantes depois, Olivia abre os olhos. Logo, encontra os meus. Não demora muito e faz menção de se levantar.
— Não faça isso — alerto firme, e ela se detém. Com deboche, aconselho: — Antes que você desmaie de novo, é melhor permanecer onde e como está. Poupe-me do trabalho desta vez, tormento.
A criatura não diz uma palavra pelos instantes que se seguem. Confesso que uma parte de mim começa a estranhar isso e se sente desconfortável com a ausência de reação.
Uma longa pausa se arrasta.
Depois de se ajeitar, ficando com as costas apoiadas na cabeceira, ela limpa a garganta e, finalmente, rompe o pesado silêncio:
— Então é mesmo verdade? Eu estou... buchuda? De gêmeos?
Seu tom me desagrada. Não entendo por que a midgardiana diante de mim não está radiante com essa descoberta. Ela deveria se sentir honrada por carregar minha herança, aliás. Seu choque já deveria ter passado ou, ao menos, diminuído o suficiente para que Olivia esboçasse um mínimo sorriso. Porém, não é o que observo em seu semblante agora.
Incomodado, ouço-me respondendo com um indisfarçável tom crítico:
— Folgo em saber que, por fim, você compreendeu. Sua expressão de felicidade é algo tocante, devo dizer.
— Ei! — Ela protesta, e então expõe um tanto hesitante: — Eu estou feliz, só que também estou... assustada. É uma novidade e tanto para absorver, convenhamos. Algo que muda tudo, que muda coisas que eu... Sei lá, que eu preferia que não mudassem e que talvez você também não queira, certo? Algo que levanta uma série de perguntas que eu não pensei em responder tão cedo, e que não quero que você se sinta pressionado a responder também.
Olivia faz uma pausa e me encara de um jeito vacilante, enquanto eu tento compreender o que ela quer dizer com essas conjecturas sem sentido. Confesso que não tenho êxito em tal missão. Às vezes, é bem complicado captar o que se passa em sua mente. Ainda mais quando ela tem dificuldade em se expressar, como agora. Para piorar, ao invés de ser mais clara, tudo o que faz é tentar encerrar o assunto:
— Eu só preciso de um tempo para me acostumar com a ideia, é isso.
— Você terá alguns meses pela frente. Devem ser suficientes — comento, a fim de aliviar a estranha tensão que ainda paira no ar.
Não funciona. Olivia respira fundo, passa as mãos pelo rosto e questiona ainda meio incrédula:
— Como isso foi acontecer afinal?
Mais uma vez, tento amenizar a situação, ponderando em tom insinuante:
— Se deseja uma reconstituição, lamento dizer que você não está em plenas condições agora. Ainda está se recuperando do incidente em Sokovia, lembra? Além disso, eu suspeito que esses pequenos seres tenham sido concebidos naquela Torre cafona, portanto, longe no momento.
Com as bochechas ligeiramente coradas, o tormento franze o cenho e rebate:
— Como você pode estar tão tranquilo, gafanhoto? Todo engraçadinho e trabalhado na serenidade. Parece até... feliz.
Empertigo-me um pouco, assumindo uma postura mais defensiva, e questiono:
— Supondo que eu esteja, por que não poderia estar?
— Porque... — Olivia oscila, parece aturdida, e responde meio contrariada: — Porque você é você, ora bolas! Você não fica feliz por qualquer coisa, ou pelo menos não costuma demonstrar que fica.
— É verdade — concordo em parte. Lançando um breve olhar para o seu ventre, ressalvo: — Mas isso não é qualquer coisa.
Olivia pisca algumas vezes, surpresa com meu argumento. Em seguida, volta atrás:
— Não, claro que não. Desculpe, não foi o que eu quis dizer. Eu nem sei o que estou dizendo...
Ela abaixa a cabeça e amassa um pedaço do cobertor entre os dedos. Parece tensa.
Mantenho um olhar inquisidor em sua direção, e Olivia percebe que eu anseio por uma explicação melhor do que as palavras confusas que soltou no ar até agora. Então, ela engole em seco, limpa a garganta e recomeça:
— Não me leve a mal, gafanhoto, mas é que esses bacuris nos... unem de um jeito diferente, sabe? Isso é diferente, é... para sempre. E eu não imaginei que... Digo, eu não me preparei para grandes mudanças como essa. Por isso estou tão passada na Nutella e dizendo coisa com coisa.
A sensação de plenitude dá lugar a outra coisa. Um gosto amargo invade minha boca e sinto a frustração se misturar a um inesperado desapontamento. De todas as coisas que esperava ouvir de Olivia, isso passou longe de minhas expectativas. Em outras palavras, sinto-me um perfeito idiota por ter imaginado que ela reagiria de outra forma, que ficaria feliz por estar ligada a mim mais do que nunca. Como fui tolo e estúpido.
Disfarço a decepção da melhor maneira que posso e sentencio seco:
— Agora eu entendo.
— Entende o quê? — Olivia une as sobrancelhas, soando curiosa e confusa.
Sem pestanejar e com o olhar cravado nela, acuso ressentido:
— Tudo bem dividir a cama com um monstro, mas quando se trata de carregar a prole de um monstro, a história muda. Certo?
— Oxente! — ela exclama, subitamente brava. — Ficou louco, chuchu? Sem esse papo de “Eu sou um monstro” para cima de mim, okay? Nós já passamos dessa fase, portanto, pode parar com a palhaçada. O problema não é você, sou eu. — Olivia se detém, faz uma careta e volta atrás: — Cruzes! Que frase horrível de se dizer! Deleta e vamos começar de novo.
Limito-me a permanecer sério — ou como o tormento costuma definir: esboçando minha melhor cara de limão azedo —, e coloco as mãos para trás, empertigando-me mais a fim de intimidá-la para que tome muito cuidado com o que vai dizer.
Olivia me analisa por um momento e fica pensativa. Em seguida, coça a nuca com um tique nervoso e retoma:
— Tudo o que eu sempre quis... que ainda quero, aliás, é conquistar o meu lugar no mundo, viver de forma digna, dar o meu melhor e fazer a diferença de alguma forma. E agora, tudo está tomando um rumo diferente e bem mais complicado. É assustador perder o controle da minha vida assim. Eu não sei o que pensar, mal sei o que estou sentindo, o que será do amanhã, responda quem puder.
Ela faz uma breve pausa, esperando que eu me manifeste, porém permaneço impassível. Então, Olivia prossegue um tanto sem jeito:
— Eu, você, dois filhos... é um grande passo. Para mim, as coisas estavam perfeitas como estavam, e agora estão uma verdadeira bagunça na minha cabeça. Some-se a isso o fato de eu ter escapado da morte mais uma vez e meu irmão gato ter encontrado nosso pai biológico, e você tem uma midgardiana-espartana sob muita pressão e zonza aqui. Eu preciso de um tempo para processar tudo isso.
Embora uma parte de mim até entenda que Olivia esteja atordoada e sentindo-se sob pressão, a sensação de que, no fundo, o motivo do seu choque é por abominar a nossa nova ligação me atormenta e me impede de continuar diante dela. Então, sem dizer mais nada, dou-lhe as costas e caminho rumo à saída.
— Espera. Aonde você vai?
Giro nos calcanhares e respondo com uma ponta de cinismo:
— Você disse que precisa de um tempo. De repente, eu estou inclinado a lhe conceder.
— Não um tempo de você, cara pálida, eu só preciso me acostumar com a nova realidade...
Enquanto o tormento continua despejando suas explicações, retomo o caminho.
— Ei! Volta aqui! — Soando muito brava, ela continua: — Não me deixe falando às paredes como Chitãozinho & Xororó! Macacos me mordam! Ele me deixou falando sozinha. Palhaço!
Resoluto e desgostoso, ignoro-a, deixo o quarto e alcanço o corredor. Sigo caminhando depressa até que ouço Olivia confessar bem atrás de mim:
— Eu só estou com medo, me julgue!
Detenho o passo e fecho os olhos com força. Na sequência, volto-me em sua direção e retruco raivoso:
— Então o enfrente! Não era isso que sua avó costumava lhe dizer?! Ou o que eu tenho feito desde que você surgiu no meu caminho? Desde que permiti que você se aproximasse e vislumbrasse o meu verdadeiro eu?!
Hesito por um momento enquanto o olhar do tormento oscila diante do meu, parecendo surpresa com minha confissão implícita. A verdade é que eu mesmo estou por me expor de tal maneira. É isso o que eu ganho por nutrir certos... certas coisas por Olivia Mills, acabo abrindo caminho para que ela me tire do sério e me faça falar demais. Paciência... Agora que comecei, decido ir até o fim e acrescento mais calmo:
— Geralmente, eu não confio nas pessoas, você sabe disso. Elas só veem o que está na superfície, o que eu permito. Mas dizem que toda regra possui uma exceção. É por isso que você mergulhou na minha imperfeita alma e visitou lugares sombrios onde ninguém mais esteve. Porque você, tormento, é a única exceção de todas as minhas regras. — Após uma pausa, arremato: — E você já faz a diferença. Lamento que tenha se dado conta que o lugar que conquistou não é o bastante.
A criatura fica paralisada como uma estátua. Os únicos elementos que indicam que está viva são o seu rosto meio ruborizado e sua respiração irregular. Olivia nem pisca. Em dado momento, parece que vai se manifestar e, intimamente, eu torço para que ela desminta a minha última sentença. Mas não é o que acontece.
Amargurado e abominando a ideia de me rebaixar, lanço-lhe um olhar frio e me afasto.
Desta vez, Olivia não vem atrás de mim.
Ignoro o pesar que tenta me abater e me visto de orgulho, como se eu não me importasse com o que ela pensa. Apenas me afasto. E não só fisicamente.
***
Mais tarde, descubro por meio de uma criada que o tormento voltou para Midgard. Ela não me procurou mais, preferindo ir embora às pressas, o que prova que eu tinha razão. Estar ligada a mim desta maneira é mesmo demais para Olivia. Por mais que tenha dito que não se trata disso, a verdade é que ela precisa de um tempo de mim. Do monstro em mim.
Apesar de convencido disso, confesso que fico surpreso e amargurado por Olivia ter partido para Midgard na companhia do irmão. Ela simplesmente foi embora. Sem me dar mais explicações, sem se despedir, sem hesitar, na surdina.
Sinto uma mistura de raiva e vazio. Um ímpeto de ir atrás dela e um desejo de esquecê-la a qualquer custo. Arrependimento por ter me exposto e a sensação de que, apesar de tudo, algo em sua partida não faz o menor sentido.
Deve haver uma explicação para isso, certo? Algo que eu perdi? Algum tipo de engano ou mal entendido? Ou Olivia Mills apenas percebeu que não está mesmo satisfeita com o lugar que conquistou? Ao meu lado.
A verdade é que eu não sei o que pensar, muito menos o que fazer. Pela primeira vez em minha existência, estou de fato perdido. E, não pela primeira vez, sentindo-me duramente rejeitado.
Uma parte de mim quer falar com Heimdall imediatamente. Se alguém pode me dar respostas, esse alguém é ele. No entanto, por ora, ouço apenas o meu orgulho e desisto de tal ideia.
Talvez eu tenha me enganado sobre Olivia Mills. Talvez ela não seja a mulher da minha vida. Talvez eu tenha sido mesmo um tolo, afinal.
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