Notas iniciais
Oi, gente! O dia foi corrido e o calor tá de rachar a cachola, estou muito desmaiada (oi?), então só vou deixar o capítulo aqui, sem delongas. Boa leitura... PS: gostei muito de escrever esse capítulo, foi divertido kkkkkk Espero que curtam!

O clima na Torre dos Vingadores ficou bem tenso depois do ataque do Robocop genocida, há algumas horas. Especialmente entre Tony e Steve, já que o herói patriota ficou passado na margarina light — afinal, ele é fitness — quando soube o que o companheiro de equipe andou aprontando, nos últimos três dias, em seu laboratório, sem consultar o restante do time e tomando decisões arriscadas por conta própria.

Todos nós ficamos abismados, aliás. Ainda mais porque Bruce — sempre tão certinho — também estava envolvido no babado. Ele ajudou o amigo a transferir a consciência artificial do Cetro para o audacioso Projeto Ultron que, teoricamente, deveria proteger o planeta de futuras e hostis invasões alienígenas. Sabe como é, o seguro morreu de velho.

Claramente, algo deu errado e o tiro saiu pela culatra. Para piorar, antes de fugir por meio da internet, Ultron afanou o Cetro, deixando claro que o potencial completo do artefato ainda é um mistério para todos nós.

Resumo da ópera: a vaca foi pro brejo.

Apesar de tudo, não consegui ficar decepcionada com o Homem de Ferro por muito tempo. Ele meteu os pés pelas mãos, é verdade — quem nunca? —, mas tinha boas intenções, como sempre tem.

Além disso, ele mencionou algo sobre uma visão apocalíptica e perturbadora que teve em Sokovia. Algo que, com certeza, o influenciou para acelerar o Projeto Ultron da forma como fez. Tudo indica que a tal Wanda Maximoff não é camarada como a Eleven de Stranger Things, apesar de terem poderes parecidos, na minha opinião. O fato é que ela devia estar por perto quando Stark encontrou o Cetro e mexeu com sua mente de alguma forma.

Sobre Ultron, o que sabemos até o momento é que o infeliz vem tentando acessar e acionar códigos nucleares. Para nossa sorte, ele tem sido barrado por um possível aliado dos Vingadores. Ninguém sabe quem o sujeito é.

Esse perrengue todo circunda minha mente enquanto vejo Amy na ala médica da Torre, através da janela de vidro que separa a área do corredor. Minha amiga não se feriu gravemente, mas teve escoriações por conta de alguns estilhaços.

Ao meu lado, e mais mudo do que o Dunga da Branca de Neve, Bruce observa uma enfermeira fazendo um último curativo no ombro dela. Amy está distraída e não nos nota.

— O que aconteceu com ela não foi sua culpa — digo, embora eu tenha certeza que Bruce não pensa assim.

Provando que eu acertei e que está mesmo se martirizando pelo ocorrido, ele replica sério:

— Não? Para mim, foi uma pequena amostra do que pode acontecer, se eu continuar... fazendo isso que estou fazendo, deixando que ela se aproxime, mantendo contato, permitindo que entre na minha vida.

Volto-me em sua direção e argumento mais incisiva:

— Você e o Homem de Lata cometeram um erro, ok. Mas quem trouxe a Amy para essa confusão toda fui eu. Se não fosse minha melhor amiga, ela não teria se envolvido nessa história, para começo de conversa. Eu a convidei ontem. Além disso, o mais importante é que não foi nada grave. Acredite, Amy já se machucou bem mais do que isso, fazendo uma simples faxina no quarto. Ela vai ficar bem.

O alter ego do Incrível Hulk permanece em silêncio por um longo momento. Por fim, assente de um jeito que eu não gosto nem um pouco:

— Nisso, nós concordamos. Eu tenho certeza que ela vai ficar bem sim.

Sem dizer mais nada, Bruce começa a se afastar.

Deduzindo que ele está colocando um ponto final na pequena, porém importante, proximidade que estabeleceu com minha amiga, e com isso zelar pela segurança dela, tento argumentar:

— Bruce... não faça isso. Pode parecer prematuro, mas eu olho para vocês e sinto algo. Eu vejo um futuro. Quem sabe promissor? Pode não ser nada, tudo bem, só a minha vontade, mas também pode ser o começo de uma história. Não feche o livro antes da melhor parte, ele está apenas começando.

Banner gira nos calcanhares e demonstra que está irredutível quando diz de um jeito estritamente profissional:

— A Torre não é o lugar mais seguro no momento. Ultron sabe que estamos aqui e pode voltar. Amelia precisa ir embora antes que fique no meio do fogo cruzado de novo. Eu já falei com Coulson. Até tudo isso acabar, ela deve ficar com a S.H.I.E.L.D.

— Claro, afinal ela achou bem divertido da última vez — resmungo com ironia e emburrada com a teimosia desta criatura altruísta.

Porém, percebendo que Bruce tem razão em certo ponto e Amy precisa mesmo se afastar disso tudo por enquanto, me comprometo:

— Eu vou pensar em outro lugar. — Lembrando de uma opção, emendo: — Na verdade, acho que eu já sei onde Amy pode ficar.

Por um momento, penso que Bruce vai perguntar para onde pretendo enviá-la. Depois, parece se lembrar que não é mais da sua conta, uma vez que decidiu afastá-la de sua vida e se fechar como uma ostra ressabiada de novo. Então, ele assente com um meneio de cabeça e se vai, desaparecendo no final do corredor.

Volto a olhar para a enfermaria e encontro o olhar de Amy cravado em mim. Não sei há quanto tempo estava nos observando, tampouco o que deduziu da conversa, uma vez que o vidro é a prova de som.

Quando, por fim, sorri de um jeito tranquilo, me convenço que ela não captou nada.

Mais tarde...

Não sei o motivo, mas Phil Coulson me intimou para uma reunião. Assim que entro num dos escritórios de Tony, na Torre, o Diretor da S.H.I.E.L.D. aponta a cadeira de frente para a mesa onde está e orienta sério:

— Agente Mills. Sente-se, por favor.

Fecho a porta atrás de mim e vejo que não estamos sozinhos. Loki também está presente, em pé, perto da mesa, aparentemente tranquilo.

— O que o gafanhoto está fazendo aqui?

— O assunto que tenho a tratar diz respeito a ele também. Pensei em economizar nosso tempo — Phil explica.

— Algum problema, chefe? — pergunto, estranhando o clima meio pesado. — Fora, Ultron.

Sem rodeios, ele dispara visivelmente incomodado com algo que ainda não captei:

— Eu vi as filmagens, Olivia. Stark não está brincando quando diz que a Torre tem um sistema de vigilância avançado. Há muitas câmeras por aqui e são bem úteis nesse tipo de situação. Eu vi tudo.

Meu coração dá um salto ornamental, quase sai pela boca e volta, batendo assustado. Sinto meu rosto enrubescer quando deduzo do que Coulson está falando. Lembrando-me da pegação nervosa entre mim e o trapaceiro irresistível na noite passada, olho rapidamente para o dito cujo perto de mim. Como ele permanece impassível, volto-me para meu chefinho querido e busco confirmar:

— Viu tudo? Tudinho mesmo? Cada lance?

Coulson balança a cabeça em sinal afirmativo, indica o tablet diante de si com as possíveis cenas do acasalamento mid-jotun e, em seguida, explica melhor:

— Apesar de você estar embaixo da mesa, eu tive uma boa visão do que aconteceu ontem à noite. Portanto, sim, eu vi o que você fez.

— Oh, man... — Faço uma careta, tentando disfarçar a vergonha que sinto. — Eu juro que posso explicar. Embora seja constrangedor...

Ouço uma leve e debochada risada ao meu lado, e então o deus trapaceiro se manifesta pela primeira vez desde que entrei aqui:

— Antes que você prossiga, tormento, não é daquilo que ele está falando.

— Daquilo o quê? — Phil parece confuso.

Loki o ignora e, com o olhar cravado em mim, continua:

— Seria divertido ouvi-la explicar, é claro, mas eu vou te poupar desta vez. Espero que fique grata por isso.

Meu rosto fica quente mais uma vez. Só que por outro motivo. Eitcha lelê! Antes que eu perca o foco, limpo a garganta e lhe pergunto:

— Só para ficar claro, eu vou querer assistir a essa filmagem, gafanhoto?

— Não vejo por que não, é bem interessante — ele responde pura e simplesmente, deixando-me mais curiosa.

De qualquer forma, já que Coulson não está se referindo ao que eu estava pensando — ufa! —, volto-me para ele mais uma vez e assisto ao vídeo que o tablet reproduz na sequência. Trata-se de um trecho da noite anterior, mostrando o ataque de Ultron no final da confraternização na Torre. Consigo me ver embaixo de uma mesa, disferindo vários — e inúteis — golpes na cabeça de um dos Legendários que a Inteligência Artificial possuiu. Sim, com uma sandália, me julguem.

Logo depois da cena, quando já estou ciente do motivo desta reunião, me vejo dando um chute mortal na criatura metálica no vídeo. Um chute que parece bem mais forte do que pensei ter sido, vendo por este ângulo. Chego a arregalar os olhos, impressionada com minha força. Então, a filmagem termina.

— Diga-me, agente Mills. — Coulson está extremamente sério quando deixa o tablet de lado e olha fixo para mim. — A verdade, por favor. Isso foi uma mera reação potencializada devido à adrenalina do momento ou tem algo que você esqueceu de me contar nos últimos tempos?

Sei que sua pergunta é retórica. Sei que ele está P da vida, se sentindo enganado e desconfiado dos meus motivos para esconder algo assim de ninguém mais ninguém menos do que ele, Diretor da S.H.I.E.L.D., representante da organização para a qual trabalho. Ou trabalhava — já não sei mais, acho que estraguei tudo.

Sem saber o que dizer, olho para o gafanhoto por um instante. Ele continua firme em sua postura e me encara de volta de um jeito significativo. É quase como se estivesse me incentivando a desembuchar de uma vez e seguir em frente. Como se não desse a mínima para o que Coulson pensa ou pensará de mim depois disso. Como se me dissesse para não temer aquilo que me faz especial, que me faz quem eu sou.

De repente, sinto que vai ficar tudo bem. E sinto que é hora de me abrir com mais alguém que não seja o gafanhoto. Sinto-me pronta e subitamente corajosa.

Então torno a olhar para Coulson, expiro com força e digo com sinceridade:

— Desculpe, eu sinto muito. Eu não pretendia esconder nada nem mentir, mas a verdade é que fiquei confusa e com medo. Em algum momento, eu ia contar, juro juradinho. Só senti que precisava entender melhor o que estava acontecendo comigo antes. Há pouco tempo, eu descobri que meu pai é o ET de Varginha, depois veio essa superforça dentro de mim. Eu fiquei assustada e preferi ignorar o assunto até me sentir pronta para falar com mais alguém sobre isso. — Olho mais uma vez para Loki e depois concluo com pesar e arrependimento: — Bem, de qualquer forma, acho que isso marca o final da história de Olivia Mills na S.H.I.E.L.D.

— Como? — Phil franze o cenho, visivelmente surpreso com minhas últimas palavras.

— Eu estou fora, certo? Demitida? Pode falar, eu aguento. Eu sei que devia ter aberto o bico antes. Esconder que o meu lado alienígena vinha se manifestando assim não foi nada legal da minha parte. Eu devia ter confiado mais nas pessoas a minha volta.

— Você está certa em um ponto, Olivia, mas eu não pretendo te demitir.

Surpresa com a resposta do Diretor e por ele não parecer mais decepcionado ou bravo comigo, murmuro baixinho:

— Ah não? Por acaso eu vou ganhar um aumento então?

De soslaio, percebo que Loki balança a cabeça com certa incredulidade diante da minha cara de pau. Mas um aumento seria bom mesmo, oxente!

Fugindo da minha pergunta despretensiosa, Coulson esclarece:

— O que eu quero dizer é que isso não é o fim da sua história na S.H.I.E.L.D. Na verdade, minha intenção é justamente propor um recomeço.

Quer saber? Nos dias de hoje, não perder o emprego está de bom tamanho. Além disso, não foi por dinheiro que aceitei trabalhar para esta organização. Foi porque eu queria um propósito, me sentir útil, ajudar no que eu pudesse para tornar esse mundão de meu Deus um lugar melhor, como naquela música famosa do saudoso Michael Jackson. Agora percebo que nunca deixei de querer tudo isso. Ainda quero muito!

— Eu estou ouvindo, chefe — assinto curiosa e feliz por receber uma segunda chance.

— Eu te chamei aqui, agente Mills, porque toda ajuda é necessária e importante contra Ultron. Eu quero saber se posso confiar em você para uma missão em campo com os Vingadores. Como um apoio, caso seja preciso.

Mal me recuperei do tiro, e Coulson emenda:

— Quando nós tivermos a localização exata de Ultron, obviamente. Está claro que, mesmo deixando a desejar em termos de técnica de combate, você pode se defender e também atacar quando necessário.

Fico tão jogada na Bifröst com a simples menção de acompanhar os Vingadores em algo importante, que não consigo dizer uma palavra. Claro que eu quero isso, claro que estou honrada com a possibilidade, por isso mesmo preciso assimilar as palavras do Diretor primeiro.

— Eu não tenho certeza se isso é uma boa ideia — Loki contrapõe, meio tenso, jogando um balde de água fria no meu momento especial e me fazendo lhe olhar feio. — Olivia, claramente, tentou destruir o inimigo com um calçado midgardiano. Ir a campo assim, nessas condições, francamente, seria...

Quando ele hesita, percebo que não está debochando de mim de verdade, só está usando uma desculpa para não admitir, com todas as letrinhas do alfabeto, que está receoso com a possibilidade de me ver no meio da ação. No fundo, Loki está preocupado comigo. Por isso, paro de lhe olhar torto e esboço um sorrisinho convencido para provocá-lo.

— Eu sei, ela precisa de aprimoramento. Mas isso não pode ser um obstáculo tão difícil de transpor — Phil diz determinado, me trazendo de volta.

— Não pode e não é. Eu topo, oxe! — comprometo-me, concordando com ele de pronto. — Eu tenho certeza que posso lidar com esse robôzinho de meia tigela numa boa. — Paro de falar por um momento e me corrijo ao perceber que Coulson não gostou do tom de deboche: — Modo de dizer, chefe. Eu sei que Ultron é do balacobaco, que não devo subestimá-lo e que tenho pontos a melhorar no meu desempenho. Pode contar comigo.

— Ótimo — ele comemora, enquanto o gafanhoto tenta camuflar a insatisfação que, de certo, está sentindo.

Como se tivesse lido os pensamentos dele, Coulson prossegue com a reunião, explicando por que o deus trapaceiro foi convidado a participar:

— Não se preocupe, Loki, você irá também. Se concordar, é claro. Não para assegurar a integridade física da agente Mills necessariamente, mas estará lá, se quiser. Eu também sei o que você fez ontem à noite. A forma como lutou e destruiu as armaduras de Ultron, não cogitando se unir a ele ou recuperar o Cetro quando os Vingadores estavam ocupados, mostrou que o passado deve ser deixado para trás de uma vez por todas. Eu estou certo que você será um bom acréscimo para este momento, assim como foi em Sokovia.

Opa! Parece que o jogo mudou, não é mesmo? Meu momento especial não é mais só meu. A S.H.I.E.L.D. tem planos para o Deus da Trapaça também. E diante disso, ele não só relaxa visivelmente — pois poderá ficar de olho em mim —, como assume uma postura superior, esboça um meio sorriso e diz de um jeito convencido:

— Bem, se os Vingadores precisam de um aliado novamente, para limpar a bagunça que um deles fez e lidar com um inimigo que não conseguem vencer sozinhos, como eu poderia recusar?

Reviro os olhos e, embora tenha gostado bastante da ideia e acredite no potencial do gafanhoto de olhos fechados, resmungo incomodada com a sua soberba:

— E lá vamos nós...

Coulson, que também conhece a peça, não se importa muito com a forma como Loki respondeu, preferindo ficar apenas com o seu claro “sim, aceito a oferta” e encerrando essa parte da conversa com um meneio de cabeça. Na sequência, direciona-se a mim:

— Olivia, além da sua força e boa vontade, eu posso contar com a sua pontaria também? Quero dizer, durante o treinamento, Romanoff te ensinou a atirar, certo?

— Sim, sim, ela ensinou. Passo a passo.

Querendo sondar o meu grau de habilidade, ele inquere:

— E como foi? Como você se saiu?

Oops... Esta é uma lembrança um tanto constrangedora, admito. Mesmo sem graça, sou obrigada a responder:

— Talvez... eu tenha errado o pé dela por alguns centímetros.

— Você quase atirou na Viúva Negra?! — O Diretor da S.H.I.E.L.D. se surpreende, enquanto Loki arqueia as sobrancelhas. — Como ainda está viva?

— Ei! Nós somos amigas — argumento. Porém, depois de refletir melhor sobre a ocasião, reconheço: — Bem, acho que esse pequeno incidente explica por que ela nunca mais me deixou tocar numa arma.

Para piorar o clima embaraçoso, Loki debocha de mim:

— Você é mesmo um perigo ambulante, tormento.

Fuzilo o dito cujo com o olhar, e Coulson tenta reverter minha situação humilhante com profissionalismo:

— Bem, isso precisa mudar. Você só irá levar por precaução e usar em último caso, mas em campo ter uma arma é essencial. Você é uma agente, afinal. Eu falarei com Romanoff agora mesmo. E você retoma o treinamento ainda esta tarde.

Profundamente animada, abro um enorme sorriso, ergo os braços e exclamo:

— Oba! Partiu! — Ciente de que não foi muito adequado da minha parte, me corrijo instantes depois de forma séria: — Digo, isso é tudo, chefe?

— Não, tem uma última coisa. — Ele faz uma pausa um tanto dramática enquanto olha para nós dois e, por fim, revela: — Von Strucker está morto.

Por um momento, me pergunto se entendi direito. No minuto seguinte, questiono surpresa:

— Cuma? O que aconteceu?

Prontamente, Phil explica de forma resumida:

— Ultron invadiu a base onde ele estava detido desde que foi capturado em Sokovia.

Há um longo e estranho momento de silêncio. Enquanto tento entender o que estou sentindo diante desta notícia, Loki diz com frieza:

— Só lamento não ter sido pelas minhas mãos. Aliás, eu não entendo como vocês, midgardianos, permitem que seus inimigos continuem respirando por tanto tempo depois de subjugados.

Coulson analisa Loki por alguns instantes, como se estivesse pensando a respeito e escolhendo as melhores palavras para uma réplica, então argumenta:

— Eu sei que não é uma comparação justa, mas, ao que tudo indica, alguns inimigos podem se redimir. Alguns a ponto de receberem uma segunda chance.

Na defensiva, Loki retruca:

— Realmente, não é uma comparação justa. Eu sou um deus, Strucker era só um verme.

— De fato, ele era sim — Coulson concorda em parte. — Mas poderia ter nos fornecido algumas respostas. Parece que Ultron não queria que ele contasse algo importante. Foi uma queima de arquivo.

Quando o silêncio se instala de novo, sinto-me pronta para expor o que estou sentindo. Não é bonito, minha avó não aprovaria, mas é tudo o que posso dizer:

— Eu sei que o infeliz podia ter sido útil, mas eu não consigo lamentar, Coulson. Se quer mesmo saber, Strucker teve o que merecia. Uma hora dessas, deve estar dançando rumba com o capeta e é bem feito. Gentalha...

O Diretor da S.H.I.E.L.D. me lança um meio sorriso e encerra a reunião:

— De qualquer forma, eu achei que vocês deviam saber.

Vinte e quatro horas depois

Demorou, mas finalmente uma pista sobre a localização de Ultron surgiu. Ao que tudo indica, ele está interessado em vibranium — o metal mais resistente, poderoso e diferentão da Terra.

Até hoje, Stark pensava que a última amostra havia sido usada para projetar o escudo do Capitão América, porém outra porção parece ter saído de Wakanda — país que meus professores de Geografia esqueceram de mencionar que existe, diga-se de passagem.

O raro metal está com um contrabandista do mercado negro de armas. E foi por isso que todos viemos para a costa africana, para tentar interceptar Ultron e impedir o seu misterioso, e com certeza maligno, plano.

Juro que por um momento pensei que eu iria mesmo para uma missão de campo ao lado dos Vingadores e Loki, mas não foi bem o que aconteceu. Eu devia ter imaginado que seria deixada para trás mais uma vez, afinal Coulson disse que eu seria um apoio, só levaria uma arma por precaução e só seria requisitada em último caso. Mesmo assim, sinto-me bem frustrada enquanto aguardo o retorno dos heróis e do gafanhoto ou um chamado para a ação.

A única coisa que me consola um pouco é não estar sozinha no Quinjet desta vez. Bruce Banner está comigo. É estranho, mas ele praticamente paga para não entrar em uma briga. Só se envolve e deixa o Hulk vir à tona quando é mesmo necessário. Ou seja, quando se trata de um código verde, como ele mesmo diz.

Meia hora se passa enquanto aguardamos. Impaciente e começando a ficar preocupada com a demora e ausência de notícias, caminho de um lado para o outro ao mesmo tempo em que repasso em minha mente as últimas horas de treinamento com Natasha Romanoff. Não virei nenhum Jackie Chan, mas sinto que aprendi golpes importantes no curto espaço de tempo. Certamente, não irei partir com uma sandália para cima de Ultron da próxima vez.

Sei que não posso bancar a louca de novo e sair correndo para o meio de campo, sem ser convocada, como fiz em Sokovia. Imagino que esta segunda chance seja, na verdade, um teste. Portanto, tenho que me comportar e agir de uma maneira profissional para, quem sabe, participar de forma ativa na próxima enrascada. Tenho que provar que a S.H.I.E.L.D. pode confiar no meu taco primeiro.

Mesmo assim, é difícil me controlar. Ainda mais com os minutos se arrastando, todo o perigo envolvido, o suspense no ar e o pressentimento ruim que começa a rondar minha cabeça. Algo me diz que as coisas não estão saindo como o esperado no cais de Sucata lá fora, onde o navio cargueiro com vibranium está ancorado.

Sei que os Vingadores e Loki são crescidinhos, vacinados e sabem se defender muito bem, porém isso não me impede de temer por eles. Cada vez mais.

Para piorar, toda vez que Bruce tenta contatar seus companheiros de equipe pelo canal de comunicação, não recebe qualquer resposta. Apenas estática e, em alguns momentos, ruídos estrondosos de metal e luta.

Minutos depois, e visivelmente apreensivo, ele faz mais uma tentativa:

— Pessoal, isso é um código verde?

De novo, ninguém lhe responde. Então Bruce respira fundo, aciona o botão que abre a porta de embarque e desembarque do Quinjet, olha para mim e orienta:

— Olivia, fique aqui até eu ou alguém voltar, entendido?

A porta se fecha assim que ele sai e eu faço um bico emburrado. Sinto-me como uma criança que foi deixada de castigo. Contudo, tento me acalmar para não fazer nada imaturo desta vez.

Claro que essa determinação vai para a Lua quando, minutos depois, escuto uma espécie de rugido nas proximidades e o chão treme um pouco a minha volta. Não preciso pensar muito para deduzir que o Hulk está na área. Algo deve ter acontecido para que ele se manifestasse assim de repente, não mais que de repente, como diria Vinicius de Moraes.

Por mais que seja uma fera gigante e estrondoso por natureza, sinto que o Hulk parece furioso demais, além da conta. Transtornado, como um animal ferido. Percebo também que o Hulk está se afastando rapidamente, causando mais abalos no solo que, pouco a pouco, cessam. Logo, não ouço nem sinto mais nada.

Confusa e sozinha, tento o canal de comunicação, mas ninguém se manifesta. Vejo-me então obrigada a tomar uma decisão importante. Instantes depois, aperto o mesmo botão que Bruce e saio do Quinjet, justificando-me baixinho:

— Sinto muito, pessoal, mas isso parece ser um código rosa choque para Olivia Mills.

O que vejo — ou melhor, quem eu vejo — me deixa em parte surpresa e em parte mais confusa ainda. A poucos metros do Quinjet, dois indivíduos se voltam na minha direção com interesse. Acho que já estavam indo embora — e com certeza fizeram algo com Bruce para desencadear o Hulk daquele jeito —, porém ao notarem minha presença, mudam de ideia e me encaram.

Ao reconhecer um deles, corto o silêncio perigoso:

— Papa-Léguas? Você de novo?

Ele não diz nada, mas olha para a garota ao seu lado de um jeito cúmplice. Logo deduzo que ela é sua irmã gêmea, Wanda Maximoff. Não sei o que estão fazendo aqui, porém se eram leais a Strucker, talvez tenham se aliado a Ultron de alguma forma também.

Olhando daqui, Wanda não me parece perigosa. Tenho que admitir que fico até com invejinha branca da sua roupa meio gótica e indiscutivelmente diva. Por fim não resisto e deixo escapar:

— Gostei do look. Onde você comprou? Será que tem meu número?

Com um olhar duro cravado em mim, ela pergunta ao ligeirinho:

— É a indefesa atrapalhada que esbarrou com você em Sokovia?

— Ela mesma.

Indignada com a afronta e o apelido humilhante, coloco as mãos na cintura e protesto:

— Como é que é? Indefesa o quê?

Os dois me ignoram. Wanda dá passos lentos na minha direção, e Pietro lhe pergunta:

— Quer ajuda, irmãzinha?

— Está brincando? — Ela sorri com deboche e dispensa: — Eu dou conta.

Arregalo os olhos e confesso que sinto uma pontinha de medo da gótica das trevas sim. Entretanto, quando espalmo algo no cinto do meu uniforme, lembro que não sou tão indefesa assim como ela acredita. Sem pensar duas vezes, saco a arma para o alto, fazendo Wanda deter o passo imediatamente, e comemoro aos risos:

— Ei! Eu tenho uma arma! Eu tenho uma arma! Olha só! Uma arma novinha em folha! Chupa essa manga!

Um vento repentino e rápido me atinge e bagunça meu cabelo. Se fosse só isso, tudo bem, mas noto que minha arma desapareceu como num passe de mágica. Será que caiu no chão, gente?

Uma olhadinha ao meu redor e constato que não. Então procuro pelo Papa-Léguas e vejo que está com ele. Com um sorrisinho vitorioso, o platinado me corrige:

— Não tem mais.

Moral da história: nunca anuncie aos quatro ventos que você tem uma arma. Simplesmente saque-a e aponte para o inimigo o mais rápido que puder. Tenho certeza que Natasha mencionou algo assim durante nosso treinamento.

Estou relembrando isso quando Wanda volta a se aproximar de forma lenta e, mesmo assim, ameaçadora. Caminho para trás por instinto enquanto ela me olha fixo. Preciso fazer alguma coisa e preciso fazer rápido.

Ela está a um metro de mim quando move sua mão direita de um jeito estranho, emanando feixes avermelhados entre os dedos. Lembro então que Wanda pode ler mentes, descobrir nossos piores medos e usá-los para nos despedaçar de dentro para fora.

Nem um pouco disposta a deixá-la fazer isso comigo, espero a bruxinha se aproximar mais um pouco e erguer a mão na minha direção, pronta para jogar sua feitiçaria na minha cachola já perturbada o suficiente. Então eu ataco. Fecho a mão e acerto seu abdômen com tanta força que a criatura perde as estribeiras, o equilíbrio e vai parar a uns seis metros de mim, ofegando de dor e completamente desnorteada.

— Tchau, querida — finalizo enquanto Pietro olha na minha direção com um ódio tangível.

Por um momento, acho que ele vai me atacar e me vejo em maus lençóis de novo. Entretanto, quando sua irmã o chama com um sinal, a atenção do Papa-Léguas se volta inteiramente para Wanda. Percebo então que eles podem ser dois delinquentes que se aliaram ao vilão da história, mas é inegável que se preocupam um com o outro.

Provando que a família vem em primeiro lugar, Pietro se move até ela como um flash, a pega no colo com destreza e desaparece em alta velocidade, levando-a consigo.

Sozinha de novo e aliviada por ter me livrado dos dois, vibro aos risos:

— É melhor vocês correrem mesmo, bocós! Eu tenho super força! Rá!

Meu momento de alegria dura pouco. Desmancho o sorriso quando avisto parte da equipe se aproximando devagar. Clint está guiando Natasha pelo caminho, ela parece muito abalada e tem um olhar perdido. Steve e Thor também já tiveram dias melhores e aparentam cansaço e introspecção. Em resumo, parece que o grupo levou uma rasteira e tanto da vida e está se arrastando pela sarjeta. Mesmo Loki aparenta frustração, porém pelo menos não está abalado como os outros.

Tudo isso me leva a concluir que a missão deve ter sido um fiasco. Ultron deve ter fugido com o vibranium e voltamos à estaca zero.

Desanimada, procuro Tony entre o grupo, mas nem sinal dele. Lembro que Bruce se transformou no Hulk, há alguns minutos, e também não está aqui. Começo a me perguntar o que Wanda Maximoff fez com a mente do pobrezinho, para onde ele foi e o que o Hulk está aprontando agora.

Volto a sentir aquele mau pressentimento. Já mencionei que a vaca foi para o brejo?