Transtorno da Genialidade Compulsiva
10 Campo de Trigo com Corvos
Notas iniciais

No recôndito de minha alma escondi minhas idéias mais ludibriantes.
Tais idéias, enterradas sob os despojos de minha tragédia, sustentaram-me a vida toda. Suportei essa passagem efêmera sobre a terra graças a elas.
Nunca passou-me pela cabeça a vontade de pronunciá-las, porém transportei-as aos meus quadros. À minha arte.
Coloquei no pincel minha esperança e na tinta minha amargura. Então mergulhei minha esperança na amargura e pintei a minha vida. Mas não ganhei nada com isso. Falhei e fracassei em tudo o que fiz.
Busquei a humanidade e encontrei a rejeição, busquei a arte e encontrei a solidão.
Fui um incômodo a todos com quem vivi e convivi por causa de minha inconstância de personalidade, de minha mente insana, de minha fraqueza de espírito.
Mas, se arruinei a vida dos outros com problemas e reviravoltas estressantes, a minha, por outro lado, foi um verdadeiro justapor de enfado, desgosto e suplício.
Muitas vezes, os campos de trigo foram palco para minhas obras de arte. Mas, dessa vez, serão palco para meu perecimento.
A sensação é de que algo inacabado espera pelo seu ponto final.
O extenso horizonte, aberto à minha frente, parece-me muito menor agora que deixarei, enfim, de tentar alcançá-lo.
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