Transmutado
5 Dejavú
Notas iniciais
CAPITULO 5
O chão maciço transmitia as ondas sonoras e pesadas de homens armados correndo por entre os corredores. O chefe da Liga Operacional do comando especial da Milano havia planejado esse grande movimento somente algumas horas atrás. A surpresa que tiveram com a fuga de Iz e Alec o fizeram ser mais prudentes e usar a frustração como um meio de atingi-los antes que seus planos fossem revelados.
Sr. Moddison era o responsável pela busca em terra firme e vigiava tudo com olhos atentos. Um homem com um renomado punho de aço e autoridade que era transmitida até mesmo pela sua postura. Aos poucos todos os agentes uniformizados esvaziaram a bancada, antes, lotada de armamentos especiais. Os jatos propulsores dos veículos já ligados esperavam somente a ordem do Sr, Moddison para agir. O capitão sorriu satisfeito ao dar a ordem de retirada para a equipe. Logo o grupo de setenta homens estaria a procura do que poderia significar o fracasso dos planos da Milano. A menos, é claro, que ele os impedisse.
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— Alec eu não estou brincando, largue essa arma.
A voz de Iz chegou até os ouvidos dele para cortar sua confiança. Alec segurava com certa rigidez a arma leve e versátil que Iz tinha como reserva. Ele pegou o revólver enquanto ela descansava, pois realmente armas daquele tipo já não eram tão vistas em agentes de alto escalão, sendo mais comuns em pequenas gangues de bandidos que dependiam do pouco dinheiro que tinham.
— Eu sei que posso ajudar mais se souber pelo menos atirar em um inimigo — ele disse, se balanceando com o receio de estar fazendo algo de errado.
Alec poderia muito bem usar uma frase mais expressiva como “Iz, você mal pode usar metade do poder que tem, que tal me deixar ajudar pra que possamos sair vivos dessa?”. Mas não o fez por medo de ter uma perna decepada, caso sua personalidade agora não estivesse das melhores.
Ela tomou o revólver à força das mãos dele com poucos movimentos para depois suspirar derrotada.
— Não quis dizer para não usar, e sim que essa arma tem um ajuste de disparo automático. — ela se dirigiu a ele como se estivesse falando com uma criança de baixa mentalidade — E eu não tenho dinheiro para pagar um conserto na parede para o dono do hotel.
Alec olhou descrente para o lugar em que estavam, fitando os móveis simples e a cor verde que os cercavam no quarto. Pensou que, realmente, tiveram sorte de achar um lugar vazio em meio a um festival que estava havendo na cidade. Esnobou o olhar que Iz o dirigiu e fez questão de mostrar que estava certo, pegando a arma de volta para suas mãos. A morena cruzou os braços se sentindo ferida por ter deixado a guarda aberta.
— Eu sei sobre o disparo automático. Aliás, eu mesmo o desativei antes de empunhar a arma. — ele sorriu tão vitorioso que nem mesmo seu rosto parecia aguentar — Mas eu estou falando sério, em poucas horas eles devem ser capazes de nos localizar.
— Sim isso é verdade. Nesse caso, vou ter que confiar na sua mira.
Ele piscou seu olho para ela, que riu e se sentou na cama. Alec deixou a arma em cima da mesa e observou Iz a cuidar dos ferimentos. Ela não parecia incomodada em fazer reparos nas partes já transmutadas do corpo, porém ás vezes via uma careta em seu rosto quando tinha que tratar de uma parte ainda humana. Ontem ela já tinha cuidado das pernas, pois segundo ela precisariam correr a qualquer momento. Mas agora parece que tudo o que restava eram as partes mais doloridas, que ainda guardavam tecidos e músculos não transmutados. Por causa do corpo danificado de Iz, eles bolaram uma estratégia simples caso algo desse errado na estadia deles naquele hotel.
Ele se sentiu incapaz diante da cena que via. Até agora tudo o que tinha conseguido provar era ser um jovem dependente de sua guarda costas e colocá-la em perigo todos os dias.
No meio de um gemido de dor, ele se pronunciou.
— Deixe-me fazer isso. — falou sentando-se ao seu lado.
Iz parecia tão angustiada com os ferimentos que nem ao menos argumentou antes de passar os dois frascos de remédios que tinha em mãos, fora uma seringa que haviam comprado em um posto de atendimento. Alec injetou o líquido esterilizante da seringa nos locais machucados, principalmente em uma ferida aberta logo em seu abdômen. O ferimento já estancado foi motivo de vários palavrões por parte de Iz, até finalmente depois da aplicação dos remédios, ser fechado com o colete que a agente usava como uma roupa-médica.
O sol estava quase se pondo, dando a impressão de que alguém havia fechado as cortinas do quarto. Alec percebeu a exaustão de Iz e se pôs ao lado dela, se perguntando se ela estaria bem.
— Obrigada — foi tudo o que saiu da boca dela.
Alec sorriu e quis dizer que não foi nada, que não devia agradecer por estar cuidando de uma companheira em uma momento como aquele. Mas, como sempre, Iz o deixava sem palavras. Ela fechou os olhos e se aninhou na cama como uma criança cansada, e por último entrelaçou sua mão com a de Alec.
Isso o surpreendeu, embora depois ele achasse que aquilo fora somente uma reação da personalidade mais branda e calma da agente. Mas, apesar disso, ele deixou o sol apagar as luzes e se deitou ao lado dela, não resistindo a algumas horas de sono tranquilo.
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Alec acordou com o barulho de um vaso de vidro se quebrando ao chão. Olhou ainda sonolento para a porta do quarto onde viu Iz que aparentemente conversava com alguém. Sentou-se na cama, atento a postura corporal da agente que tentava lhe dizer algo. Automaticamente ele pegou a bolsa com as coisas importantes e se dirigiu a janela que estava aberta.
— Ah sim, entendo. Nós realmente apreciamos o serviço de quarto, mas... — ouviu a voz de Iz quando viu o sinal. A mão dela estava nas costas, fazendo um sinal com os dedos. Aquilo fez o coração de Alec tropeçar de medo.
Olhou para a paisagem que o oitavo andar do prédio trazia. Luzes e mais luzes davam à noite o toque mortífero dos arranha-céus, nada mais propício para o momento.
Apertou as alças da bolsa como se pudesse sugar alguma coragem dali. Se Iz o tinha mandado o sinal de perigo, ele deveria obedecer e ir embora. Mas antes que pensasse em pular e fugir, dois homens atravessaram a avenida com as cabeças baixas, e logo entraram na recepção do hotel. Sentiu a boca secar ouvindo as tentativas falhas de Iz ao enrolar quem que fosse na porta, e quando decidiu pular foi como estar revivendo mais uma vez a queda na masmorra.
Alec se virou para o lado da grande cidade e colocou a bolsa nas costas.
— Pule agora Alec!
O grito dela veio junto com dois disparos elétricos pela arma que a agente carregava. Embora o barulho o assustasse ele ignorou aquilo e seguiu as ordens de Iz. Mesmo vendo em torno de vinte homens ultrapassando a esquina de frente para o hotel, ele se abaixou e pulou, bem no momento de perceber uma silhueta lhe ultrapassando no ar. Alguém de dentro do quarto começou a gritar enquanto os dois caíam juntos, tendo a sensação de que várias armas estavam sendo miradas em sua cabeça. E para ele nada poderia ser mais assustador que isso.
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