Transgressões
8 Você Precisa Relaxar
Notas iniciais
VOCÊ PRECISA RELAXAR
Eva estava caminhando tranquilamente pelos corredores do colégio. Ela deveria estar assistindo aula de Biologia, no entanto estava matando aula. Enquanto caminhava pelos locais corretos para não ser pega por nenhuma das freiras que inspecionavam a disciplina dos alunos do Colégio Madre Teresa de Calcutá, Eva ficava relembrando os momentos da noite passada.
Ela não conseguia prestar atenção na aula, sua mente estava mais interessada em Sofia, a garçonete bonita do Caveirão. Eva se perguntava se tinha chances reais com a moça. Ela ainda não tinha certeza se Sofia curtia outras garotas, mas queria tentar. E depois de ter usado algumas de suas cartas nas mangas, com certeza teria boas chances de alcançar seu objetivo. Eva sabia das consequências de fazer uma manobra tão ousada como aquela, contudo ela estava no lugar certo na hora certa com a pessoa certa. Tudo parecia perfeito. Era o momento oportuno de testar suas habilidades e mostrar do que ela era realmente capaz. Sua conduta não foi a mais correta, porém ela não se importava com isso. Estava usando seu dom para fazer algo bom (para ela obviamente), ainda assim, não perdia a intenção. Ela só esperava não ser punida por isso depois.
A moça de pele escura continuou caminhando, agora, em direção ao laboratório de informática. Ela já tinha conversado muitas vezes com o rapaz responsável pela área de tecnologia do colégio e acabaram se tornando amigos. Algumas vezes ele até deixava Eva ficar lá usando alguns dos computadores. Eva desceu um lance de escadas e estava preparada para virar para a direita quando sentiu seu braço ser puxado. Ela se assustou um pouco, porém não gritou. Agora ela estava atrás das escadas. O lugar era escuro e úmido. Alguns jovens iam ali para “se pegarem”, entretanto este não era o caso. Depois que os seus olhos se acostumaram com a repentina mudança de luminosidade, ela percebeu que fora Melissa que puxara seu braço.
— O que aconteceu? – Eva perguntou.
— Não faça essa cara de cínica. Você sabe muito bem o que anda acontecendo – ela disse apontando o dedo indicador para o peito da outra.
— Você poderia ser mais específica. Eu faço muita coisa acontecer por aqui. – a mulata piscou um dos olhos dando um sorriso malicioso.
— Você pode até ser uma veterana aqui no colégio, mas no grupo eu tenho muito mais experiência que você e posso lhe afirmar que as coisas não vão ficar do jeito que você imagina. – Melissa comentou dando uma risadinha — O buraco é mais embaixo, querida.
— E o que foi que eu fiz dessa vez? – Eva perguntou cruzando os braços e bufando.
— O que você anda fazendo é nos expor. – começou Melissa com um tom até jocoso — Talvez você tenha um sonho encubado de ser uma diva e por isso queira chamar tanta atenção, só que você também sabe muito bem o que acontece quando nos revelamos. – mesmo com a grande tensão existente ali, a mais jovem não tirava o sorriso do rosto — Principalmente em cidades pequenas, religiosas e conservadoras como Vila dos Ajustados.
A mulata via Melissa alegre na maioria das vezes, todavia estava surpresa com a expressão feliz da garota até mesmo numa conversa que exigia um tom mais sério. De alguma maneira, a garota conseguia impor-se mesmo com uma voz tão doce e melodiosa, o que parecia um pouco bizarro.
— Tá bom... – suspirou Eva — Eu admito. Andei extrapolando um pouco e não estou sendo tão cuidadosa, mas eu não vejo tanto problema assim. Acho que você precisa relaxar.
— Você não vê tanto problema porque não viu o que realmente acontece quando pessoas como nós são descobertas. – Melissa continuou em tom sério e abaixou o volume de sua voz — Eu tinha uma prima que recebeu tratamentos de choques e exorcismos.
— Exorcismo? Isso não é meio... Medieval demais não?
— Não, Eva. Infelizmente, muitas pessoas ainda têm mentes bem ultrapassadas nos dias de hoje. – ela disse calmamente — Qual foi a sua última brincadeira, hein?
— Eu realmente tenho que contar cada detalhe da minha vida? – questionou entediada olhando para as suas unhas curtas.
— Não que eu ache a sua vida tão interessante assim, porém preciso fazer algumas coisas mesmo que não seja para o meu deleite. – Melissa comentou sarcástica — É meu papel impedir que você nos condene.
— O que aconteceria se eu hipoteticamente tivesse feito algo que não deveria? – a garota de cabelos trançados começou receosa.
— Depende... Seja mais específica – ela disse rapidamente.
— Se eu tivesse feito uma “bebida afrodisíaca” e tivesse jogado um pouco de “charme”?
— Você não pode manipular as pessoas assim. – Melissa a encarou com uma chama de raiva no fundo dos seus olhos mélicos — Sabe muito bem disso.
Eva suspirou e encostou as costas na parede fria e deslizou até sentar no chão.
— Sinceramente... Eu só queria ser normal. Eu não pedi pra ser assim.
Melissa se agachou próximo à garota sem se importar de estar usando saia.
— Nenhum de nós pediu pra ser assim. É algo que nasceu conosco e não podemos contornar esse fato. Temos que viver com isso de um jeito ou de outro. É melhor que seja tendo controle sobre nós mesmos e protegidos por um grupo e não acusados de sermos servos de demônios ou coisa pior. Só tome cuidado com as suas atitudes. Lembre-se bem: Você agora não está sozinha, faz parte de um grupo. De uma família. – ela disse gentilmente com a mão no ombro de Eva. — Mas, é melhor você andar na linha ou terei que te denunciar.
***
Melissa se levantou e subiu as escadas rumo a sua sala de aula, já que ao contrário de Eva ela se importava um pouco mais com os estudos. Entrou na sala e voltou para o seu lugar ao lado de Jessika.
— Você trouxe o meu copo de água? – perguntou Jessika, em voz baixa para não perturbar o ritmo da aula, olhando as mãos vazias da amiga. A pergunta foi inútil porque a resposta era visível.
— Ai, amiga! Esqueci. – ela se desculpou dando um tapa leve na própria testa.
— Como você se esquece de me trazer um copo de água se você saiu pra beber água? Não faz sentido! – a loira então levantou uma das sobrancelhas — Tem certeza que está tudo bem?
Melissa anuiu fazendo o máximo de esforço possível para não se entregar por causa de sua linguagem corporal. Jessika tinha se mostrado uma grande companheira, alguém que ela poderia realmente chamar de amiga. Entretanto não poderia deixar uma pista sequer de que escondia algo. Seu segredo tinha continuar a salvo. Até mesmo para grandes amigas.
— Ultimamente eu ando esquecida. – se explicou — Acredita que o louco do meu irmão disse que vai fazer uma superfesta lá em casa e me deixou organizando tudo?! Às vezes, dá vontade de lembrá-lo que eu só tenho quinze anos. – Embora tenha usado como desculpa, a festa era real.
— Como é que é? – pergunta Jessika franzindo o cenho.
— Ultimamente eu... – a loira interrompe Melissa.
— Não, eu ouvi o que você disse. Só não tenho certeza se eu entendi direito. Você disse superfesta?
— Sim. Tá bom, não vai ser tão super assim. Provavelmente vai ser meu irmão bebendo com os amigos deles. Aí que eu entro. Meu papel é deixar as coisas mais bonitinhas ou pelo menos apresentáveis. Ele quer que eu chame pessoas legais então tenho que dar uma festa à altura.
— Nossa... Faz tanto tempo que eu não vou a uma festa...
— Sério?
— Sim. Eu costumava sair com as minhas amigas na Alemanha de vez em quando, porém não sou acostumada a ir a festas. Nós fazíamos noites do pijama ou íamos a alguma lanchonete.
— Jurava que você era do tipo baladeira que só andava chapada!
A boca de Jessika fez um perfeito “O”.
— Eu tô brincando – Melissa riu — Eu sei que você é uma boa moça.
— Eu sou normal. Não acho que sou adepta da “linha boa moça”, mas também não sou do tipo loucona. E nem se eu tivesse vontade de ser uma, eu conseguiria. Meu pai é tão controlador que não tem nem como passar da linha.
— Já o seu irmão me parece bem saidinho.
— Ser um garoto tem suas vantagens. – comentou Jessika.
— Ou talvez seja porque ele é mais velho.
— Enfim, não vamos falar do meu irmão. Vamos falar da sua festa.
— Eu gosto de falar do seu irmão. Principalmente daquele corpo de deus nórdico que ele tem. – disse dando um sorriso malicioso.
— A expressão não seria deus grego?
— Vocês são alemães. Resolvi fazer uma adaptaçãozinha básica.
Jessika revirou os olhos e riu em seguida.
— O que foi? Ele tem mesmo um corpo divino.
— Mudando de assunto... Qual o motivo da festa? É aniversário do seu irmão?
— Do Pablo? Não! Ele só quer aproveitar que os meus pais estão fora esse final de semana pra não ter sair de casa pra se divertir.
— E o que os seus pais acham disso?
— Eles não sabem, mas não ligam muito pra isso. Contanto que tudo esteja em ordem quando voltarem e nós não ultrapassemos o valor da nossa mesada, está tudo certo.
Jessika continuou ouvindo a amiga falar sobre como arrumaria a casa, os objetos de valor que teriam que ser guardados para caso de alguma coisa acontecesse, da banda de uns amigos do irmão dela que foram chamados até o sinal do intervalo tocar.
— Agora é a parte que você me ajuda. – Melissa falou apontou para a loira.
— Eu? – indagou Jessika confusa.
— Sim. Nós vamos chamar as pessoas para a festa. Não tem que ser algo formal, fale de forma natural pra passar aquele clima de não é algo pomposo. Chame pessoas legais e bonitas. Essas foram as exigências do meu irmão.
— Mas, eu não conheço quase ninguém! – argumentou.
— Então siga a sua intuição e deixe-a levar até os festeiros – Melissa deu uma piscadela e seguiu pelo caminho contrário ao de Jessika.
***
A biblioteca tinha se tornado o refúgio de Melanie. Era ali que ela se escondia dos outros e ficava feliz em sua solidão. Era naquele cômodo onde ficava se debruçando sobre livros de poesias e romances. Parecia irônico ler romances depois de passar por uma situação daquelas, no entanto fazia parte do costume de Melanie. Não importa o que aconteça, ela continuaria sendo uma eterna romântica. A diferença que agora lia romances com finais trágicos.
Encolhida entre as estantes, sentada no chão encostada à parede; a garota ruiva lia entretida com as palavras se controlando para não deixar as lágrimas rolarem e danificarem o livro. Ela não queria se sentir daquele jeito, contudo seu coração não obedecia ao seu cérebro. Era outra desilusão amorosa vinda de um mesmo garoto, todavia dessa vez tudo parecia muito mais intenso. Talvez porque ela tivesse finalmente se declarado para Pedro, talvez por finalmente ter dado o seu primeiro beijo.
Melanie também cogitava na possibilidade de ele ter ficado assustado com a reação exagerada de sua mãe. A garota não estava nem conversando com a mãe direito depois do incidente, principalmente após ter ficado de castigo por um motivo injusto. Naqueles dias a sua inspiração estava a mil. Seu caderninho de poesias estava cada vez mais cheio de versos melancólicos, sua professora de balé disse que seus movimentos estavam cada vez mais leves e expressivos, suas redações para o colégio estavam se saindo melhor. No meio de uma montanha de sofrimentos, ainda havia algo bom para recompensá-la.
— Melanie? – uma voz perguntou.
A garota ruiva levantou a cabeça lentamente e notou Jessika se aproximando dela.
— Como me achou? – ela indagou. Sua voz estava fraca e tristonha.
— Bem, digamos que você é a única pessoa ruiva natural que eu já encontrei nesse colégio.
Melanie riu um pouco enquanto secava os olhos marejados.
— Eu vim aqui te convidar pra sair. Parece que o irmão da Melissa vai fazer uma festinha ou algo do tipo.
Ouvir aquele nome não foi uma experiência muito agradável para a garota. Ela se lembrava de que pelo menos a outra tivera a chance de ser de alguma maneira correspondida por Pedro. Jessika notou o rosto não muito amistoso da ruiva.
— Você não me parece muito a fim de ir pra festa. Ainda é a história do Pedro?
Ela assentiu e abaixou o rosto tristonho.
— Por favor, vamos! – a loira implorou — Não vai ter ninguém que eu conheça lá. Não quero me sentir um peixe fora d’água.
Melanie suspirou e olhou para a nova companheira por um tempo. Ela pensou sobre o assunto e decidiu aceitar. Jessika mostrou um belo sorriso ao ouvir o sim dela.
— Acho que vai ser bom me distrair um pouco. Tirar toda essa coisa do Pedro da minha cabeça. – a ruiva disse colocando o marcador de páginas dentro do livro e fechando-o.
— Vai ser bem legal. Obrigada por aceitar o convite – disse Jessika estendendo a mão para ajudar Melanie a se levantar.
***
Era sexta à noite e Kennedy estava absorto em seus pensamentos. O mundo a sua volta não parecia existir e tudo o que ele conseguia ver era o caderno a sua frente. Ele pegou um caderno antigo e começou a anotar tudo o que ele já sabia sobre o assassinato e todas as pistas que ele conseguira.
Pedro tinha sugerido a possibilidade de latrocínio, roubo seguido de morte, entretanto, Kennedy não queria aceitar essa hipótese. Era plausível. Ela tinha sido morta de maneira inesperada e possuía uma grande quantia em dinheiro que tinha misteriosamente sumido. Porém, o coração do garoto não queria aceitar isso. Para ele tinha que ter um motivo. Não era possível que alguém tenha cometido tal barbárie só para conseguir dinheiro. Até porque quem iria esperar tanto dinheiro de uma senhora solitária e aposentada? Para isso, o amigo sugeriu que o bandido tivera sorte. Mas, nenhum argumento tiraria a impressão de que alguma coisa estava de errada de Kenny.
Uma batida na porta ecoou no quarto e o garoto finalmente foi removido de seus devaneios. Ele se virou para a entrada do cômodo e viu Pedro todo arrumado e perfumado encostado no batente.
— O que você está fazendo desarrumado e usando esse pijama ridículo em plena sexta-feira à noite? – Pedro questionou e Kennedy olhou para o seu próprio pijama de aviõezinhos.
— Não conte nada sobre isso pra ninguém, ok? – ameaçou e o mulato riu como resposta. — Mas, o que está fazendo aqui tão arrumado assim?
— Eu não estou tão arrumado assim. Quando eu estiver “todo arrumado”, — ele fez aspas com os dedos — você vai saber. Você não vai pra festa?
O jovem arregalou os olhos em surpresa. Ele tinha esquecido totalmente do convite de Melissa. Num pulo, ele correu para o banheiro para tomar banho e se arrumar o mais rápido possível. Pedro só ria da situação e foi esperá-lo na sala enquanto conversava com Renato, o pai de Kennedy.
Quando Kennedy finalmente desceu que ele percebeu que estava vestido de maneira semelhante a Pedro. Ambos usavam sapatênis, jeans surrado e camisetas básicas. A diferença é que Kennedy usava jeans mais escuro com uma blusa branca de linho, já Pedro usava uma camiseta laranja que contrastava com o moreno da sua pele.
— Você definitivamente precisa relaxar e esquecer toda essa coisa de assassinato. – falou Pedro massageando os ombros do amigo — É hora da festa!
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