Transgressões
14 Um Colírio para os Olhos
Notas iniciais
UM COLÍRIO PARA OS OLHOS
– Como é possível que vocês sobrevivam numa cidade onde não existe um cinema? – Michel perguntou enquanto digitava algo no celular
– Na verdade, até tinha... – Pedro começou.
– Mas faliu. – Kennedy concluiu.
Os três rapazes estavam todos no carro do pai de Pedro. Do pai de Pedro era um termo bem simbólico, já que o dono quase não usava. Pedro o considerava seu e o dirigia para cima e pra baixo. A pouca fiscalização na cidade era mais um motivo para não se preocupar com multas. No momento, o sol estava se pondo e eles dirigiam-se para a cidade vizinha para ir ao shopping assistir alguma coisa no cinema.
Michel, filho de Elena, havia se tornado a nova companhia dos rapazes. Kennedy dizia que o estava usando como uma forma de descobrir mais sobre Elena. Pedro achava que ele só estava tentando ser gentil com o rapaz novo na cidade. De qualquer forma, Michel até que estava gostando de estar com eles. As recentes mortes na cidade deixaram sua avó temerosa e ele não podia sair de casa, só para a escola basicamente. Sua casa estava parecendo mais uma prisão, com uma decoração bizarra, mas ainda assim uma prisão. Ele não se via saindo com pessoas com Pedro e Kennedy. Na verdade, mais com Pedro. Ele era popular e bonito e Kennedy parecia extrovertido e inteligente. Ele era só o garoto roqueiro esquisito.
– Liga o som, Pedro – Kennedy disse
– Certo.
Logo uma música pop começou a tocar e Michel deu uma rápida revirada de olhos, mas o pardo percebeu o sutil movimento e trocou de estação até uma que tocava rock dos anos 80. Michel não conseguiu conter um sorriso. Pedro era mais gente boa do que ele imaginava.
– E aí, Michel? Gostando da cidade?
– Bem, quando você quase não sai de casa não dá para responder essa pergunta direito. Mas eu também não vi nada de muito interessante até então.
– Talvez você possa se surpreender – Pedro disse dando uma risadinha.
Michel se ajeitou melhor no banco de trás para captar o rosto de Pedro pelo retrovisor. Os lábios dele eram bem tentadores com um sorriso daquele no rosto.
– Você vai ver que tem uma galera legal por aqui – Kennedy disse enquanto olhava as fazendas de eucaliptos sendo deixadas para trás.
– Eu realmente espero que tenha. Algo de bom ter que ter
– Caramba! Não precisa esculhambar minha cidade
– Bem, uma cidade que não tem nem um cinema e onde rola um monte de mortes sinistras. Não é a minha visão de lugar perfeito para se morar
– Não pode culpá-lo, Pedro – Kennedy apoiou Michel.
– Você gosta das mortes.
Michel arregalou os olhos com aquela revelação.
– Pedro, não fala desse jeito. Faz parecer que eu sou um assassino em série.
– Desculpa. Não foi minha intenção. Michel, não precisa se preocupar. Não vamos te levar a uma estrada escura no meio do mato e te matar lá lentamente enquanto nos divertimos a luz da lua.
– Isso foi bem... detalhista.
– Pedro, você não está ajudando! – Kennedy deu um soco de leve no ombro do rapaz
– Foi mal. Só estou ansioso para o filme. Já vi vários trailers e tô louco para assistir.
– Qual o gênero?
– Terror, com muitas mortes e demônios no meio – Kennedy disse rindo
– Ação, Michel – Pedro corrigiu
O garoto suspirou de alívio antes que percebesse o que estava fazendo. As luzes da cidade finalmente apareceram e ele se sentiu mais aliviado. Não achava que os rapazes fariam algo de ruim com ele, mas ele sempre foi bem desconfiado com todo mundo. Para Michel, aquilo era algo novo. Estar saindo com garotos para um programa de amigos. Mesmo quando morava com sua mãe, sempre foi bem solitário no colégio e a maior parte dos seus poucos amigos eram virtuais. Imaginar fazer amizade com aquele tipo de pessoa nunca esteve nos seus planos ou sonhos.
***
Os três rapazes estavam na praça de alimentação devorando seus sanduíches e conversando animadamente sobre o último jogo de futebol da escola. Michel era o mais calado do grupo. Ele até assistira o jogo, mas só porque os grupos eram divididos entre com camisa e sem camisa e o grupo dos descamisados era bem atraente.
Ele ainda tentava digerir tudo o que estava acontecendo naquela noite. O cinema estava muito lotado porque eles pegaram horário de pico num dos filmes mais aguardados do ano. Nem conseguiram sentar os três juntos sequer. No final das contas, Michel sentou junto com Pedro numa das últimas filas e Kennedy duas filas à frente no meio de desconhecidos.
Michel não era muito fã do gênero, mas tinha entrado em uma boa conversa com o pardo durante o filme comentando sobre as coisas incríveis do enredo e os erros grotescos. Eles riam e várias vezes receberam olhares zangados dos que estavam próximo a eles. Quase acabando o filme, o cansaço parecia que iria dominar o corpo do menor e quando ele menos esperava estava com a cabeça encostada no maior quase caindo no sono. Pedro se espreguiçou e acabou com os braços ao redor dos ombros de Michel. Ele ainda se lembrava bem das palavras sussurradas ao pé do seu ouvido com o tom de voz rouco: “Não dorme não, Bela Adormecida. Estamos chegando na melhor parte”. A frase não tinha muito romance presente, mas as ações de Pedro foram o suficiente para deixar Michel desperto. Na verdade, parecia que o coração dele iria explodir de tanta euforia. Mas ele recusou a levantar a cabeça e se sentar corretamente. Estava tão bem onde estava que se pudesse ficaria ali para sempre.
— Michel? Michel!
A voz que antes parecia distante fez-se ouvida. Ele percebeu que Kennedy o chamava. Estava tão feliz em seus devaneios que nem percebera que tinha fugido da realidade e vivendo num mundo próprio.
— Oi – ele disse limpando a boca com um guardanapo.
— Você estava torcendo para qual time? – Kennedy perguntou.
— Para o dos sem-camisas. – ele falou rápido. Esperava que suas bochechas não começassem a queimar e denunciá-lo.
— Por quê? – Pedro perguntou curioso.
— Porque você estava nele e parecia um bom zagueiro.
— Toca aqui, então – Pedro esticou o punho para ele em meio aos sorrisos
Michel correspondeu o gesto, mesmo sentindo que estava caindo na friendzone. Pedro era areia demais para seu caminhãozinho. Não deveria ter criado expectativas, mas não conseguiu impedir.
— Você não entende nada de futebol, né? – Kennedy perguntou para confirmar.
— Não muito.
— Deu para perceber. O time do Pedro era péssimo!
— Você deveria me apoiar, seu traíra – Pedro reclamou de brincadeira batendo na cabeça do melhor amigo.
O grupo caiu na gargalhada e terminou o lanche deles. Michel estava começando a se sentir parte de um grupo e aquilo parecia bom. Não que ele não gostasse de antes, quando tinha paz e tranquilidade, mas ter a si mesmo como única companhia cansava também. Era bom estar com garotos. Finalmente estava fazendo amigos de carne e osso, e não apenas amigos virtuais localizado a milhares de quilômetros de distância. Ainda não entendia como sua avó disse para ele não confiar nos garotos.
***
Finalmente Pedro estacionou o carro em frente à casa de Michel. A viagem era longa, mas foi tão divertida que o grupo nem viu o tempo passar.
— Ei, Mike! – aquele era o apelido que Pedro tinha dado a ele — O que acha de dormir lá em casa.
— Dormir na sua casa? – o garoto falou quase gaguejando. Aquele não era um pedido que ele ouvia com frequência.
— Os pais do Pedro saíram – Kennedy falou depois se esticar todo para colocar a cabeça para fora da janela. — Vamos ter um belo fim de semana de filmes, videogames e muitos salgadinhos.
— Eu aceito! – ele comentou. Precisava mesmo de um player 2 para os seus jogos favoritos. — Só preciso falar com a minha avó.
— Vamos lá – Kennedy disse já abrindo a porta do carro.
— Por quê? – Pedro questionou.
— Porque se a gente pedir, talvez tenhamos mais chances da avó dele deixar
— Ou não... – Pedro disse se lembrando do último encontro com a senhora Ramalho.
— Não seja pessimista, Pedro – Mike disse com um sorriso no rosto.
Pedro acionou o alarme que levantou os vidros do carro e trancou a porta e o trio adentrou a residência. A casa estava estranhamente silenciosa.
— Vó!
— Dona Elena!
O grupo chamou e nada de ela aparecer. Não estava muito tarde para ela já ter dormido.
— Ela pode estar no quarto.
Os três rapazes seguiram pelo corredor até a última porta e Michel bateu com gentileza na porta de madeira de lei.
— Vovó? Você está aí? – ele perguntou.
Por motivos que nem ele mesmo conhecia, Michel decidiu puxar a maçaneta. Sua avó costumava deixar o quarto trancado, mas naquele dia tinha sido diferente. Mike entrou e seus dedos ansiaram pelo interruptor. Ele acendeu a luz e se surpreendeu...
— Pessoal, acho que vocês precisam dar uma olhada nisso...
Fale com o autor