Transformação

17 Estratégias


O silêncio da biblioteca era quebrado apenas pelo som das páginas sendo viradas e pelo ocasional arranhar de penas sobre o pergaminho.

Rose ocupava uma das mesas próximas às janelas desde o início da tarde. Livros de Poções, Estratégias de Quadribol e História da Magia estavam espalhados à sua frente em uma organização que só ela parecia compreender.

A ruiva terminava um resumo quando ouviu um baque surdo sobre a mesa.

Ergueu os olhos.

Benedict Bridgerton acabara de depositar uma pilha de livros que parecia alta o suficiente para desabar a qualquer instante.

Rose arqueou uma sobrancelha.

— Pretende ler Hogwarts inteira hoje?

Ele sorriu enquanto puxava a cadeira à frente dela.

— Não. Só descobrir como derrotar a melhor capitã do campeonato.

Ela apoiou o cotovelo na mesa.

— Vai precisar de mais livros.

Os dois riram.

Benedict abriu um exemplar antigo, com a lombada já desgastada pelo tempo.

— Segundo o capitão da Corvinal de 1923, quando o adversário tem dois artilheiros muito rápidos...

Rose balançou a cabeça antes mesmo que ele terminasse.

— Esse livro está errado.

Ele franziu a testa.

— Como assim?

Ela puxou um pergaminho vazio e desenhou rapidamente um campo de Quadribol.

— Primeiro não temos só dois artilheiros rápidos. Você ainda não viu meu novo artilheiro jogar — ela sorriu – e essa estratégia só funciona contra uma formação em diamante.

— E vocês jogam em...

Ela fez mais alguns traços.

— Flecha invertida.

Benedict observou o desenho por alguns segundos.

Depois sorriu.

— Isso é brilhante.

Rose cruzou os braços.

— Eu sei.

Ele soltou uma risada.

— Você é muito convencida.

— Só quando estou certa.

— O que, infelizmente, acontece com bastante frequência.

Ela deu um sorriso satisfeito.

— Está aprendendo rápido.

Durante quase duas horas, livros mudaram de lugar, pergaminhos foram preenchidos com esquemas de jogadas e argumentos foram rebatidos com a mesma facilidade com que ambos respiravam.

— Se a Corvinal fechar o lado esquerdo, vocês vão perder velocidade.

— Só se o seu goleiro resolver dormir durante a partida.

— O nosso goleiro não dorme.

— Então espero que ele voe melhor do que pensa.

Benedict riu.

— Você é impossível.

— Ainda bem.

Nem perceberam o tempo passar.

— SENHORITA WEASLEY! SENHOR BRIDGERTON!

Os dois deram um pequeno salto na cadeira.

Madame Pince os encarava com os braços cruzados.

— A biblioteca fechou há quinze minutos.

Rose arregalou os olhos.

— Merlin...

Benedict já começava a juntar os livros.

— A culpa foi minha.

Rose balançou a cabeça.

— Não.

Olhou para Madame Pince e sorriu sem graça.

— Foi nossa.

A bibliotecária apenas apontou para a porta.

— Fora.

Os dois obedeceram imediatamente.

Assim que saíram da biblioteca, a discussão recomeçou como se nunca tivesse sido interrompida.

— Eu continuo dizendo que sua defesa deixa espaço na lateral.

— Só se o seu batedor for muito ruim.

— O meu batedor não é ruim.

— Então prove no sábado.

Os dois riram enquanto caminhavam pelo corredor. Mais à frente, Scorpius voltava do treino da Grifinória. Scorpius os viu antes que eles o notassem. Não conseguiu ouvir o que diziam, mas não precisava ouvir para compreender que os dois se divertiam. Não havia pausas constrangidas nem esforço para manter a conversa. Eles pareciam ter não se importar se haveria mais alguém no corredor.Scorpius diminuiu o passo sem perceber. Não era a primeira vez que via Rose com Benedict. Mas era a primeira vez que percebia como pareciam confortáveis juntos.

Quando chegaram à escadaria principal, Benedict parou. Abriu um dos livros e retirou uma pena presa entre as páginas.

— Ah...

Rose o olhou.

— Esqueci. Sua pena ficou dentro do meu livro.

Ela pegou a pena rindo.

— Obrigada.

— Até amanhã, Rose.

— Até amanhã, Bene.

Scorpius sentiu o desconforto aumentar. Não sabia desde quando Rose o chamava assim. Cada um seguiu por um corredor diferente.

Scorpius permaneceu parado por alguns segundos antes de voltar a caminhar.

Dois dias depois, o treino da Sonserina começava antes mesmo do nascer do sol.

— Outra vez!

A voz firme de Rose ecoou pelo campo. Rose voltou à sua posição, e os três artilheiros repetiram a jogada.

— Melhor. Mas ainda estamos abrindo espaço demais na direita.

Lyra aproximou a vassoura.

— Foi culpa minha.

— Não foi só sua.

Rose apontou para Matt.

— Você entrou meio segundo atrasado.

Depois olhou para Lilyan.

— E você saiu cedo demais para procurar o pomo.

Lilyan fez uma careta.

— Mas ele apareceu.

— E desapareceu porque você abandonou a cobertura.

Lilyan bufou.

— Tá bom...

Rose sorriu.

— Vamos de novo.

O treino seguiu intenso. Ela não levantava a voz, não brigava, explicava, corrigia e mandava repetir. E, aos poucos, o time inteiro parecia entender exatamente o que ela queria. Quase duas horas depois, Rose apitou.

— Muito melhor do que segunda-feira.

Guardem isso.

Quero exatamente esse ritmo no sábado.

Enquanto todos começavam a recolher o material, Brand passou por ela carregando uma das caixas de goles.

Sorriu.

— Eu falei que ela sabia o que estava fazendo.

Alguns jogadores concordaram imediatamente. Rose apenas respondeu com um sorriso discreto. Poucos minutos depois, o campo já estava quase vazio. Lyra e Lilyan terminavam de guardar as vassouras enquanto conversavam perto das arquibancadas.

Rose conferia a prancheta com as últimas anotações do treino quando ouviu uma voz atrás dela.

— Rose.

Ela se virou. Brand parecia incomumente nervoso.

— Podemos conversar um minuto?

Ela hesitou.

— Brand...

— Por favor.

Só um minuto.

Ela olhou para Lyra e Lilyan.

As duas continuaram organizando o material, fingindo não prestar atenção. Rose suspirou.

— Tudo bem.

Os dois caminharam alguns metros.

Brand demorou alguns segundos para começar.

— Eu queria pedir desculpas.

Ela permaneceu em silêncio.

— Passei muito tempo pensando no jeito como te tratei no começo do ano.

Baixou os olhos.

— Eu fui um idiota.

Rose não respondeu.

— Achei que você fosse só mais uma garota. E nunca foi.

Ela respirou fundo.

— Brand...

— Deixa eu terminar.

Ela assentiu.

— Quando percebi quem você realmente era...já era tarde. Você tinha seguido em frente.

Rose sorriu de leve.

— Eu não guardo mágoa de você.

Ele devolveu o sorriso.

— Ainda bem.

Houve um breve silêncio. Então ele respirou fundo.

— Posso te falar uma coisa?

Ela apenas concordou.

— Quando o ano começou, achei que você só tinha mudado por fora. Hoje percebo que estava errado. Você cresceu, Rose. E não estou falando da sua aparência.

Rose ficou completamente sem reação. Brand continuou.

— Antes você era uma excelente jogadora. Hoje... você faz esse time acreditar que pode vencer qualquer partida. Isso é liderança. Estratégias você pode aprender nos livros. Fazer o time acreditar que consegue vencer é outra coisa.

Não era um elogio à sua aparência, às suas notas ou ao nome que carregava. Era ao que havia construído. Por isso significava tanto.

— Obrigada.

Ele fez um pequeno aceno.

— Boa sorte contra a Corvinal, capitã.

— Obrigada. Boa sorte para nós.

Brand sorriu antes de voltar para o restante do time.

Quando Rose se aproximou das amigas, Lyra foi a primeira a falar.

— Posso saber o que o Brand queria?

Rose deu de ombros.

— Pedir desculpas.

Lilyan arregalou os olhos.

— Só isso?

— Só isso.

Lyra lançou um olhar para Brand, que já se afastava pelo gramado. Depois voltou a encarar Rose.

— Estranho...

Rose soltou uma risada baixa.

— Nem tanto.

As três seguiram em direção ao castelo. No instante em que atravessavam o portão do campo, Scorpius e Albus chegavam para o treino extra da Grifinória. Scorpius viu Arthur indo embora. Depois viu Rose caminhando entre Lyra e Lilyan, com um pequeno sorriso ainda estampado no rosto. Seu olhar foi de um para o outro. Por um instante, uma pergunta incômoda se instalou em sua mente. Sobre o que eles tinham conversado?

Primeiro Benedict. Agora Brand.

Scorpius percebeu, com um desconforto ainda maior, que o problema não era nenhum dos dois. Era o fato de que outras pessoas pareciam conhecer partes de Rose às quais ele nunca prestara atenção.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.