Transformação

1 Capítulo único


Notas iniciais
Dói. Doeu muito para escrever este one-shot, principalmente porque me identifico muito com Tessa e tenho um carinho especial por Peças Infernais :') Espero que goste!

Às vezes vinha sobre ela, com um baque estrondoso e forte que quebrantava seu coração de tal forma que as lágrimas desciam antes que ela pudesse pensar em chorar.

Aquela sensação que a surrupiava repentinamente e tirava dela todas as boas lembranças, todos os detalhes que amava, e deixava um vazio insuportável no coração ferido. O vazio era perceptível, causava-lhe uma dor aguda, e a dor era tão forte que ela se sentia sufocar.

Ela odiava esses momentos.

Magnus já a ensinara como lidar com eles, apesar de ter dito que a perfeição vinha com o tempo.

– Pense em momentos bons, Tessa. — ele dizia. — São eles que fazem essa dor valer a pena.

Ela se lembrava da boca de Will na dela, de seus lábios carnudos e absurdamente meigos, e de repente cheios de uma paixão intensa que a fazia tonta e esquecida de todo o mundo, a não ser de Will, Will e seus toques, Will e sua sutileza, Will e sua maneira intensa de enxergar a vida. Will, o pai dedicado, Will, o esposo amado, Will, o amigo sorridente e receptivo. Ela pensava nessas características e, junto com elas, vinham imagens de momentos. A dor se suavizava por um instante, mas voltava em pouco tempo para tirar lembranças de outras pessoas que amara: seus filhos, seus amigos, seus netos. Era uma cadeia viciosa: e ela pensava em como estariam seus parentes, em como não dava conta de cuidar deles, em como não tinhaforça suficiente para conhecê-los, em como eles iriam deixá-la.

E, nesse ponto, Tessa já se dirigia ao banheiro para olhar a si mesma, o rosto de 19 anos que nunca mudaria, e que ela nunca obrigaria a se Transformar. Não de novo. Não desnecessariamente. A não ser...

E pensava em vê-lo mais uma vez. Em retomar a lembrança vívida de seus olhos azul-violeta. Mas nunca tinha coragem. Talvez ela não suportasse a dor. Talvez só piorasse.

Mas, naquele dia, foi diferente. Mal se deu conta e, quando foi se olhar no espelho, já era ele. Já havia se Transformado em Will, a camisola dele que vestia para dormir caindo-lhe perfeitamente.

Ela observou o choque em seu rosto — no rosto de Will, o Will como o conhecera em seus 17 anos -, e as lágrimas que desceram. Ela se aproximou do espelho lentamente e esticou o braço para a imagem refletida, as mãos trêmulas, o rosto eximindo pura ansiedade e apreensão.

Ela tocou o espelho onde teria tocado o rosto de Will, naquela parte do queixo que sabia que o fazia ter arrepios.

Tessa fechou os olhos e levou as mãos trêmulas para o rosto.

Ela passou as mãos na face devagar, absorvendo os detalhes como se eles trouxessem algum segredo: o nariz empinado, as bochechas cheias, o maxilar protuberante, o cabelo rebelde e macio, tentando lidar com o conflito de emoções — ela tocando a si mesma, e seu coração imaginando que ela tocava ele.

Tocou o tórax, o abdômen, e quase sorriu quando lembrou-se da tatuagem de dragão. Tocou as próprias mãos, nos próprios braços. Ela olhou-se no espelho e viu lágrimas correndo pelo rosto de Will, e ela sentiu um desejo absurdo de confortá-lo e de que ele confortasse a ela. Ela inspirou, esperando sentir o cheiro de Will, que não veio. Involuntariamente, abraçou aquele corpo, e abraçou a si mesma.

Abraçou a si mesma.

Não era Will. Era uma tentativa estúpida e desesperada de revê-lo.

Tessa parecia ter entrado em um estado de dormência, e se sentia num sonho. Ela não sentia mais nada, a não ser aquela dor aguda e os braços apertados fortemente ao redor de si, tentando juntar os cacos do seu coração.

Por fim, ela tocou a estrela do ombro. A estrela dos Herondale.

O pensamento era insuportável — poder tocar Will, mas não poder senti-lo. Ele estar tão perto e tão corporeamente, temporalmente, infinitamente longe.

A sensação de impotência e solidão retiraram todas as forças que restavam e Tessa caiu no chão ajoelhada, e já era ela mesma, os cabelos desgrenhados caindo em volta do rosto enquanto ela tentava conter os soluços.

Estúpida. Não é o Will. Nunca será o Will. Nunca mais faça isso de novo. — ela dizia a si mesma, a voz chorosa e trêmula.

Foi quando ouviu a porta do quarto se abrir e tentou recompor-se imediatamente, tentando ignorar o jorro de emoções que caía sobre ela.

Enxugou o rosto na toalha e virou-se para trás, sobressaltada.

Mas era Jem, com sua roupa cor de pergaminho e cajado.

Jem, o seu Jem. Jem, o Jem de Will.

Ela o havia chamado, era verdade.

Tessa, o que aconteceu?, ela conseguia ouvir, na voz dele, a preocupação de Jem. Por que me chamou?.

Seus pés a guiaram até Jem, e ela colocou o capuz dele para trás. Apesar de ele ter se modificado bastante, emocional e fisicamente, ele nunca deixara de ser o seu Jem, e ela amava isso nele.

Tessa não sabia como ele reagiria, mas ela caiu em seus braços e o abraçou, o abraçou como se ele fosse seu apego à vida. Ela sentiu o corpo dele se retesando, mas ele não foi para trás.

– Jem. — ela tentava conter o choro, que teimava voltar. — Eu me Transformei. Nele. Foi sem querer. Me olhei no espelho e já tinha me Transformado.

Ele não a abraçou, mas deixou-a ficar ali, pendurada em seu pescoço e chorando em sua toga.

Tessa..., ela ouvia as emoções que queriam transbordar sobre os símbolos dos Irmãos do Silêncio. Por que você me chamou?.

Ela tentava ignorar a dor que sentia sempre que Jem a tratava distante dessa forma, apesar de saber que não era ele que queria fazer isso.

– Eu... — ela não deixou de abraçá-lo. O corpo de Jem em frente ao seu era um conforto totalmente imprescindível naquele momento. — Precisava de você. Eu acho que sabia que algo assim ia acontecer.

Ela o chamara porque ele sempre seria o único a entender seu sofrimento, e o único que podia confortá-la e fazê-la sentir que havia algo para se segurar na vida — ela podia se segurar nele.

Jem não perguntou mais nada, e também não precisava. Ele sentou-se na cama com ela e deixou-a ficar abraçada a ele e chorar. Ele até tentou erguer os braços para abraçá-la, mas isso parecia de alguma forma tão fora de sua natureza que seu corpo não obedecia.

Você deve tentar controlar esses momentos, Tessa. Nós dois amamos Will, e ele nunca deixará de estar conosco se nos lembrarmos dos bons momentos com ele.

– Eu sei. — ela sussurrou. — Mas isso me pareceu impossível hoje.

Ele finalmente se afastou e a encarou, os olhos e a boca dele fechados.

Você é forte, minha Tessa.

E, dizendo isso, levantou-se, olhou Tessa por um momento do batente da porta e fechou-a.

Tessa se deitou na cama novamente, o efeito de ter Jem por perto deixando-a mais calma.

"Minha Tessa. Ele me chamou de minha Tessa". Ela sorriu involuntariamente — um sorriso fraco, mas um sorriso que conseguiu, de alguma maneira, se sobrepor a todo aquele sofrimento. Ela sabia o esforço de Jem para conseguir fazer aquilo, e que Will se contentaria com o avanço de Jem.

Ainda sorrindo, ela abraçou o bichinho de pelúcia que estava a seu lado — um unicórnio brilhante que ganhara de Magnus — e pensou no amor que sentia por eles. Em como pensar neles fazia seu peito inflar e fazê-la ter a sensação de estar nas nuvens, no carinho que parecia transbordar involuntariamente em seus toques dispensados a eles, e em como se sentia completa com os dois ao seu lado.

"Nunca deixará de estar conosco se lembrarmos dos bons momentos", dissera Jem. Esse bom sentimento não era só uma lembrança, mas uma realidade, e Tessa apegou-se a ela; e uma paz tomou conta dela, uma paz que não sentia há tempos, embalando-a em um sono tranquilo.

Jem a observava pela fechadura da porta, e perguntou-se no que Tessa estaria pensando a ponto de sorrir depois do que acabara de acontecer. Ele levou a mão até onde o tecido de sua roupa estava molhado com as lágrimas de Tessa, e segurou aquele pedaço de pano como se o gesto desse forças para ele. Jem observou-a até ter certeza de que sua respiração estava regular — ou seja, até ter a certeza de que ela havia conseguido dormir — e saiu da casa.

Voltemos à realidade, Irmão Zachariah, disse a si mesmo, e embrumou-se na escuridão da noite de Londres.

Notas finais
Sinceramente, eu não acredito que isso aconteceria. Cassandra Clare afirmou que Tessa dificilmente se Transformaria em Will, pois sabia na dor que sentiria quando isso acontecesse. Também não creio que Tessa abraçaria Jem como Irmão do Silêncio, pois conhece as limitações dele e o fato de que ele não retornaria as emoções, sofrendo mais. Mas, se isso tivesse acontecido...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!