Transcendentais

1 Capítulo 1 - Mansão Foster


Notas iniciais
Comente e adicione essa história as seus favoritos! :)

– Kurt, acorde! Você precisa ir para a escola, menino.

Sentei na cama com rapidez, não estava entendendo, porque minha mãe havia me acordado e não o meu despertador. Peguei o celular em cima do criado-mudo e vi que ele estava desligado, com certeza havia acabado a bateria.

– Você já está de pé? — perguntou Elisa, batendo como louca na porta.

– Sim! — resmunguei em resposta.

Ela cessou as batidas e ouvi seu sapato batendo no assoalho do corredor enquanto ela ia embora. O silêncio voltara a reinar, e não há nada melhor que isso.

Não sei que horas são, mas acho que passei um pouco do meu horário matinal. Então me vesti com pressa, pondo meu uniforme azul desbotado, consequência da má vontade de Elisa ao lavar minhas roupas. Vesti a calça jeans, com furos na altura do joelho e coloquei meu tênis surrado.

Eu nem ligo para minha vestimenta, na escola onde eu frequento, existe pessoas com condições mais precárias que as minhas. O ruim de morar em uma cidade pequena e de ter apenas uma escola, e presenciar a mistura heterogênea de pessoas ricas e pobres, nunca foi algo que consegui engolir, pois há divergência entre as classes sociais, gerando muita discriminação por parte das muitas pessoas mesquinhas, que julgam aparência e não caráter.

Nunca reclamei de não ter condições econômicas, pelo contrário, eu tenho orgulho de Elisa ser batalhadora e nos sustentar, já que meu pai nos abandonou e deixou com que o mundo nos cuidasse.

Arrumei minha bolsa, com livros e cadernos e coloquei-a nas costas, sentindo um peso desconfortável. Entrei no corredor, trancando a porta ao sair e rumei para a cozinha para tomar café da manhã.

A cozinha era o maior lugar da casa, com mais espaço que o necessário. Havia uma mesa no centro, com uma toalha estendida mas nada de comida sobre ela. Me sentei, esperando minha mãe me servir algo para comer, mas ela estava distraída demais fritando ovos com bacons no fogão.

– O que eu vou comer? — perguntei.

Ela se virou, percebendo minha presença. Sem dizer nada, ela retirou a frigideira do fogão e pôs o conteúdo dentro do prato. Minha barriga roncou ao sentir o delicioso cheiro que exalava.

– Tem cereal no armário! — rosnou minha mãe, com a boca cheia de bacon, após eu ter começado a bater o pé no assoalho fazendo um som irritante e aclamando por atenção.

Abri os armários a procura do cereal, consegui encontrar facilmente, pois os armários eram sempre tão vazios que era sorte encontrar qualquer coisa ali. A caixa estava quase vazia, e até um pouco empoeirada, não era a toa, pois a validade do produto indicava que já havia vencido a três meses atras.

Deixei o cereal sobre a mesa e encaminhei para a porta da dispensa, a qual encontrei trancada. Eu nunca havia entrado por essa porta, Elisa sempre me proibira por motivos desconhecidos, mas imaginei que ela tinha medo de que eu soubesse quanto de comida havia lá dentro e fosse rouba-lá, mas nesse caso, era necessário.

– É isso que está procurando? — perguntou Elisa, virei para entender o que ela estava se referindo, e vi que na sua mão estava a chave que abria aquela porta. Elisa balançava as chaves com um sorrisinho no rosto.

– É que esse cereal, está estragado! Me deixe pegar algo para comer. — vociferei com total descrença.

– Se não quer comer, então não coma!

Por força maior, tive que sentar para comer aquele troço. Abri a caixa e despejei o conteúdo em um recipiente, enfiei a colher e retirei um punhado e socando na boca. O gosto desagradável ficou em minha boca quando engoli de uma vez só. Comi algumas colheradas até meu estômago reclamar.

Meus cafés-da-manhã sempre foram desumanos, meu estômago passava sempre a manhã na escola com apenas um ovo frito, isso era o máximo de atenção que Elisa me proporcionava durante a manhã, fritar um ovo. Mas hoje ela se superou e disse meia dúzia de palavras, coisa que era difícil de ocorrer.

Porque uma das qualidades da minha mãe é ser uma péssima mãe.

Não adianta reclamar, ela nunca vai mudar, não sei o porque do desprezo dela por mim, mas sempre foi assim. Sempre me martirizando, sempre sendo a pior das pessoas.

Eu acho que sou tonto, pois sinto pena dela, mesmo ela nunca ter sentido isso por mim. Mas sua aparência é deplorável, cabelo negro e mal cuidado com fios brancos e desbotados, pele sempre pálida e corpo esquelético, sem contar as olheiras que faziam parte dela, nada comum para mulheres.

Desde que me lembre ela se destinou a trabalhar e cuidar de mim, pois nem isso meu pai conseguiu fazer, nos abandonou enquanto eu ainda estava no ventre dela. Mas Elisa nunca me amou, isso tenho certeza, parece que o único amor de sua vida foi meu pai.

Nunca vi nenhuma fotografia, ou algo relacionado a ele, nem sei o seu nome para falar a verdade. Quando perguntado ela simplesmente muda de assunto ou me ignora, e constantemente diz que é melhor eu não saber.

Mas acho que tenho uma ideia de como ele seja, pois um dia Elisa deixou escapar que eu pareço muito com ele. Foi nesse dia que entendi um pouco melhor ela, Elisa me maltrata por eu ser parecido com meu pai, eu sou o seu peso, sou aquele que ela amava e passou a odiar, represento para ela o meu pai. E isso me corrói por dentro. Não quero ser como ele. Nunca!

Corri escovar os dentes para tirar esse gosto ruim que ainda estava sentindo na boca, quando acabei ouço a buzina do ônibus tocar e saio de casa sem dizer nada.

Que belo dia hoje, nada de calor, e as nuvens umas sobre outras.

O ônibus estava estacionado na frente da Mansão Foster defronte a minha casa, atravessei a rua e dei meia volta para poder entrar no ônibus.

A Mansão Foster era muito esplendorosa, que pertence a uma família classe-alta, com muros bem altos e portões gigantescos. Dizem que a família é a mais rica da cidade e nada os falta, por isso são difíceis de serem vistos publicamente, dizem que seus empregados fazem tudo por eles, fico imaginando com é ficar trancado lá dentro. Eu não reclamaria, sério.

Os Srs. Foster tinham uma filha, minha melhor amiga, Etrom Foster, a qual eu conhecia por estudar na mesma sala de aula. Éramos muito próximos, tínhamos diversas semelhanças. Mesmo pertencendo a uma família que vive trancafiada por ter uma fortuna de dinheiro, ela não era metida e esnobe, pelo contrário ela detestava atenção e odiava quando falavam sobre ela, mas nunca ligava, por isso que sou muito parecido com ela, eu não ligo para o que os outros pensam.

Ela esperava por mim perto do seu portão, e sorrimos um para o outro enquanto subíamos juntos as escadas para dentro do ônibus.

O motorista, Eddy, era muito amigo de Elisa, pois eles já namoraram um dia, ele ainda gosta dela, mas Elisa nunca gostou de mais ninguém além do meu pai, então o namoro durou pouco. Eddy, me cumprimentou, e como de costume, perguntou sobre minha mãe, ele nunca a esquecera.

– Bem. — digo.

Achamos um banco desocupado de três lugares ao fundo e sentamos.

Etrom, não era bonita, tinha cabelo castanho encaracolado e ensebado, olhos negros vidrados em tudo que vê e boca descascada e seca. Usava roupas diferentes e simples, sem ambição para marcas caras e grifes. Simplicidade e nomes estranhos deviam ser coisas comuns de pessoas de outro estado, pois ela havia se mudado a pouco tempo para essa cidade.

– Kurt, que cara é essa? O que aconteceu? — observou Etrom, mexendo discretamente na mochila em seu colo, procurando algo entre as repartições.

– Nada, é que acabei de comer... — falei roncando a garganta, observando Etrom tirar uma pastilha de dentro da bolsa e dando para mim. — cereais estragados... Ei, como você sabia que estava com gosto ruim na boca?

– Isso deve bastar — falou Etrom, ignorando minha pergunta, sem relutância coloquei a pastilha de morango na boca e aproveitei a sensação de refrescância.

Agradeci mesmo sem ter a resposta, mas isso me grilou, pois parecia que Etrom sabia como eu estava me sentindo, fiquei imaginando como ela poderia saber, se ao menos tinha contado. Ela não poderia estar me espionando, poderia?

A dúvida foi me consumindo até que o ônibus parou novamente e meu outro melhor amigo apareceu pelo corredor sentando ao meu lado, na vaga disponível do banco.

– Olá! — disse Gordon ao sentar.

Gordon Brown era um menino órfão. Seus pais o deixaram, ainda bebê, solitário em um orfanato onde vive até hoje, esse era o meu melhor amigo.

Nós se conhecemos quando ele foi parar no meu quintal, quando ainda éramos crianças, ele havia fugido do orfanato pois havia sido apanhado por um funcionário de lá. Em seu corpo havia hematomas roxas, no momento tive muita pena dele e o abriguei em meu quarto até que minha mãe o expulsou e ele teve de voltar. Mas sempre o visitei, até que Gordon entrou para a mesma escola e coincidentemente caiu na mesma sala, podendo ficar mais tempo juntos.

Conversamos durante a viagem em que o ônibus parava em cada ponto pegando mais alunos e enchendo os bancos. Quando o ônibus para no estacionamento da escola. Saímos e fomos juntos até a sala de aula, onde a professora de matemática estava esperando. Tivemos três aulas até o recreio, saímos quando o sinal tocou.

No pátio, tentamos encontrar um lugar para sentar e achamos um banco de pedra livre, nos acomodamos lá. Nunca levávamos lanches para comer, muito menos compramos na cantina da escola que vive sempre lotada, apenas nos ocupamos pondo a conversa em dia.

– Que sono! Vocês nem imaginam a hora que acordei. Tive que lavar os banheiros hoje para ajudar no orfanato, vocês sabem como é... — falou Gordon aborrecido e soltou um leve bocejo. — Tem horas que eu adoraria fugir novamente, aí eu penso, não tenho pra onde fugir.

Um aperto me deu no coração. Gordon era obrigado a morar lá, este era seu único abrigo, não tinha quem o protegesse ou desse amor. E tinha que fazer favores para com o orfanato e como se não bastasse tinha que fazer isso antes de vir para escola.

– Minha mãe também se superou hoje, tive que comer cereal podre enquanto ela comia ovos com bacons. — falei, dando um sorriso para ele, consolando-o. — Eu também penso em fugir todos os dias...

– Você não pode fazer isso! — interrompeu Etrom, sua voz foi alta e me assustou, que meu virei incrédulo para ela.

– Eu sei, tá legal? Mas estou cansado de tudo que minha mãe vem fazendo comigo! — sussurro deprimido.

– Mas você não pode abandonar ela... ela te criou... ela é a sua única ajuda, e também precisa de você... — gaguejou Etrom, tentando tirar essa ideia da minha cabeça. Não entendi o motivo desse desespero todo. — Você não quer ser como o seu pai?

Sinceramente, me senti ofendido, é claro que eu não quero ser como o meu pai, aquele que nos abandonou sem nenhum motivo, aquele que não merecia meu amor. Eu apenas estava criando uma possibilidade, nunca deixaria Elisa, não mesmo.

– Vocês não sabem o que aconteceu com a professora de português, foi pega dando uns amassos no professor de educação física no estacionamento. -relatou Gordon, tentando mudar de assunto, tive que rir, pois imaginar uma mulher baixinha de fina e elegante com um brutamontes gordo daqueles. — Não sei como vou conseguir olha-los da mesma maneira!

A conversa se alastrou e ninguém mais aguentava rir. Quando alguém falou os interrompendo:

– Ei, vocês esquisitões! — falou alguém vindo em nossa direção, empurrando quem estivera na sua frente, saindo de meio da multidão de aluno que conversavam em um grupinho próximos dali.

Um menino grandalhão saiu do meio do grupinho e apareceu no campo de visão, ele era exageradamente forte e desajeitado, seus braços eram tão gordos que não se aninhavam ao tronco. Tinha cara de quem não gostava de nada e que enfrentaria qualquer um que mexesse com ele.

– Como vão o trio parada dura? — zombou o garotão.

– Muito bem, antes de você chegar! — desafiou Gordon. Eu tive que rir, acompanhado de Gordon, mas Etrom nem ligou, estava completamente distraída, olhando para o garoto com curiosidade.

Ninguém pisa no calo de Bryan, por ser filho do diretor e por seu grande porte físico, então essa resposta fez com que vários olhares curiosos aparecessem para ver o que estava acontecendo e espantados pelo que acabaram de ouvir.

– Do que estão rindo, palhaços? — perguntou Bryan. — Como vai sua mãe, Kurt? Se ela quiser, eu arrumo um serviço de gari para ela.

Eu estremeço, ao ponto máximo de ficar com dor de cabeça, mas aperto a mão em punho e me acalmei enquanto as unhas penetravam em minhas mãos.

Elisa trabalhava em uma loja de bugigangas, e sempre, quando necessário ela ia saindo pelas ruas a procura de algo que pudesse servir de reciclagem e fazer de algo um produto inovador e divertido. Eu me orgulhava de seu trabalho, aliás, era do seu salário que sobrevivemos.

– Como você sabe disso? — perguntei incrédulo. Pois ninguém sabe nada da minha vida, pois eu e Elisa somos fechados e não contamos das nossas vidas a ninguém.

– Tenho meus informantes, sei tudo sobre você e da sua vidinha sem graça. Inclusive a história de seu pai... — disse Bryan, saiu da minha boca sem querer um rosnado — O que foi? Vai me bater ou vai fugir igual o que seu pai fez?

Levantei em instinto, me aproximei de Bryan e lhe dei um bem dado soco em sua cara rechonchuda. Senti meus dedos entre o seu nariz. Parecia que uma carga de energia negativa estava se indo com o movimento. Mas ao examinar o estrago feito em sua cara, tive um espanto, havia sangue escorrendo pelo seu nariz.

Não me arrependi, mas também acho que acabei indo longe demais. Gordon me segurou, talvez por preocupação e Etrom continou observando sentada, talvez fosse imaginação minha, mas ela tinha um sorrisinho de canto de boca.

Bryan, havia dado uns passos para traz após a pancada e manteve suas mãos tampando sua face. Talvez não queria que ninguém o visse assim, mas não havia jeito. A escola inteira parecia estar nos observando, multidões de alunos sussurrando um para o outro, ou gritando: "Briga, briga, briga..."

– Olha o que você fez! Você tem problema, menino? Meu pai saberá disso! Estou sangrando! — vociferou Bryan tirando a mão do rosto e mostrando seu nariz ensanguentado, e lágrimas saiam de seus olhos e se misturava.

O que todos sabem, é que Bryan adora um teatrinho e isto ele faz muito bem. Aprendeu devido ao mimo dos seus pais. Ele nunca gostou de mim, ou melhor, nunca gostou de ninguém e o que sempre fez é irritar, acho que sou o único que o bateu, agora vem as consequências.

– O que está acontecendo? Deixe-me passar...

No meio da multidão saiu o Sr. Manson, o diretor, usava terno preto, gravata vermelha e sapatos de couro, mantinha completamente rígido seu tom de voz. Tinha cabelo grisalho e postura ereta. Se postou entre nós e percebeu a situação.

O Sr. Manson viu o filho ensanguentado, sua roupa encharcada de sangue e lágrimas que não paravam de escorrer. E me fitou com um olhar de descrença, pois minhas mãos estavam cheias de sangue.

– Bryan, vá para a enfermaria e Kurt, para a minha sala já!

***

O Sr. Manson foi com seu filho até a enfermaria e eu fiquei esperando na sua sala aconchegante, com cortinas brancas de veludo, uma mesa de marfim e poltronas de couro vermelha, sem falar no ar condicionado que estava refrescando.

Esperei em torno de meia hora e estava ficando preocupado até que a porta se abriu e o Sr. Manson entrou e sentou em sua cadeira atrás da mesa e fixou seus olhos nos meus.

– Pode começar a falar.

– Seu filho não é a farsa que se mostra ser para você — falei asquerosamente. — Você já tentou conhecer seu filho direito para saber como ele realmente é? O que todo mundo diz sobre ele?

– Então me diga, como ele realmente é? — perguntou Sr. Manson, com sarcasmo. Se ajeitando na ponta da cadeira para se manter mais perto.

– O fato é bem simples, ele me humilhou na frente de todos, dizendo bobagens sobre a minha família... — senti um aperto no coração quando falei "família", pois nunca havia falado essa palavra. — E eu dei um soco nele para ele aprender que todos temos sentimentos, indiferente dele. Eu acho que ele teve o que mereceu.

– E você também vai ter, vai ficar um dia de suspensão. Sua mãe vai ficar a par da situação. — falou Sr. Manson escrevendo em um papel de autorização. — Entenda, um erro não justifica o outro, ele cometeu um erro e irá pagar, você também se precipitou e vai pagar o seu.

Minhas mãos começaram a tremer de nervoso e preocupação, Elisa ficará brava quando eu der a autorização, não duvidaria muito se ela cogitasse em me bater. Eu não disse nada, peguei apenas a autorização e fui para a sala de aula.

Tive que assistir as duas últimas aulas, todos cochichavam com o vizinho de carteira durante esse tempo, mandando olhares de incerteza para minha direção, mas ninguém perguntou nada, nem mesmo Gordon e Etrom que sentavam próximos de mim.

Foi no ônibus quando Etrom tocou no assunto:

– Você está bem?

– A situação não está nada favorável, amanhã não poderei ir a escola por causa da suspensão e para piorar Elisa não trabalha amanhã. — sussurrei melancólico, pois não gostaria que ninguém ouvisse. — Estou absolutamente encrencado, ela irá me matar!

– Fique calmo, darei um jeito, pode contar comigo. — disse Etrom, pegando em minhas mãos e mirando em meus olhos, profundamente, achei isso estranho, fazendo as bochechas corarem, mas entendi que ela queria ser fraterna nesse momento de tensão. Vi no fundo dos olhos de Etrom, um brilho de esperança, algo que eu não compreendi, parecia algo relacionado a felicidade. — Eu te ajudarei.

– Obrigado! — disse, demonstrando um sorriso.

Li a autorização que pedia para Elisa assinar e se conscientizar da atitude que eu havia tomado durante o intervalo e que amanhã não poderia ir a aula por consequência. Peguei o papel nas mãos e rasguei em milhares de pedacinhos, por fim, joguei todos pela janela.

***

Na manhã seguinte, ocorreu tudo normalmente, me troquei com meu uniforme surrado casual para fingir que ia a escola e esperei na mesa da cozinha até o ônibus chegar. Sai de casa e atravessei a rua, espantado ao perceber que Etrom não estaria no portão da sua casa me esperando como normalmente fazia. Tive que entrar no ônibus sozinho, com o coração batendo disparadamente.

– Como você está, Kurt? E como vai Elisa? — perguntou Eddy, como de costume.

– Estamos bem, obrigado.

Andei pelo corredor, percebendo os olhares que recebia dos alunos que cochichavam, com certeza a briga deu muito o que falar. Mas fui forçado a parar no meio do corredor, pois Etrom vinha ao meu encontro e agarrou meu braço, sussurrou:

– Finja que está passando mal, preciso ver seus dotes de ator em ação.

Antes que eu pudesse perguntar o motivo, Etrom foi ao encontro de Eddy e eu a segui, sem entender nada, mas preparado para o que estivesse por vir.

– Kurt está passando mal, acho que é dor de barriga, eu vou levá-lo para sua mãe e podem ir, que depois meu pai manda um mordomo me levar de carro. — falou Etrom para o motorista, que ficou absolutamente confuso, pois a um momento atras havia dito que estava bem e agia normal. Mas Etrom interpretou tão bem sua cena que eu só precisava confiar e imitar um desarranjo.

Pus as mãos na barriga e fingi estar com dor, a careta que fiz não estava convincente, pois estava difícil de fazer, estava nervoso e ansioso. Precisava me superar, ter uma ideia que fizesse com que ele acreditaria.

– Me ajuda a descer as escadas, Etrom. Não estou conseguindo respirar. — falei, puxando ar o máximo que conseguia, incalculavelmente.

– Tudo bem, podem ir. — disse Eddy com preocupação, com certeza ele não queria alguém vomitando em seu ônibus, ele se sentiria culpado por não ter me deixado com os cuidados da minha mãe. — Quer que eu avise na escola?

– Não precisa, amanhã ele leva atestado médico. — disse Etrom, sem esperar por uma resposta e me puxou para a calçada, longe da vista de Eddy.

Olhamos o ônibus partir e virar a esquina, foi quando me acalmei um pouco e as mãos pararam de tremer. Mesmo aquela encenação ter dado certo, queria saber a ração disso tudo, então perguntei:

– Porque precisava de tudo aquilo?

– Não entendeu ainda, Eddy conhece sua mãe, após o seu turmo de trabalho ele iria para sua casa com o pretexto de querer saber o motivo de você ter faltado da escola e assim poder ver Elisa. — disse Etrom, essa ideia me surpreendeu, pois foi além do que eu imaginaria que ela fosse capaz de pensar e estava completamente certa. Muitas vezes que não fui à escola, ele foi querer saber do motivo. Como ele já sabia o motivo, não nos incomodaria.

– Nossa, obrigado, você pensou em tudo! Agora vem o próximo passo, aonde vamos ficar? — perguntei.

– Eu já pensei em tudo, vamos ficar na minha casa. Papais saíram de viagem e não voltam tão cedo. Podemos ficar lá até a hora que normalmente saímos da escola, para Elisa não desconfiar. — disse Etrom.

– O.k. — consegui dizer, pois iria conhecer a famosa Mansão Foster, a qual todos admiravam mesmo nem conhecendo seu interior. Se os muros com trepadeiras verdes e vivas e o portão de ferro todo condecorado com traços de prata já eram bonitos, imagina-se o interior.

Etrom empurrou o pesado portão que dava uns cinco da minha altura e passamos sem precisar fechar, uma vez que ele voltou sozinho.

Eu pensei que por ser uma casa grande e bonita por fora, lá dentro seria igual, mas me enganei, a água da piscina estava amarelada com musgo, sujeira e insetos mortos. Os jardins que imaginava ser lindo, eram completamente secos e mortos. Até a única árvore que achava-se dentro dos muros estava morta, com um balanço solitário em seu galho, nada era vivo lá dentro, exceto nós dois.

– Não ligue para a sujeira e a bagunça, tivemos que despedir muitos empregados. E deste então, não conseguimos achar mais nenhum que fosse eficiente para cuidar dessa enorme casa. — disse Etrom, caminhando entre o chão de pedras. Caminhei ao seu lado, tentando não tropeçar nos buracos que se encontrava pela passagem.

Achei o que ela disse estranho, já que muitos falavam que a casa era cheia de empregados e que os Srs. Foster não precisavam nem sair de casa por isso, mas fofoca é fofoca.

A casa era muito linda, apesar de estar precisando de acabamentos e limpeza, mas mesmo assim, era hipnotizante a sua estrutura. Tinha dois andares, onde o andar superior era repleto de janelas largas. No andar inferior havia uma varanda, com uma porta ornamentada de madeira.

Segui ela e entramos na casa, por sinal mal iluminada e com um cheiro horrível, o odor me deu dor de cabeça e tontura. Não questionei, apenas segui-a novamente por entre o hall.

Dentro da casa, a parede era de um tom vermelho-vinho, o chão de madeira preta. Parecia casa de filme de terror, nada normal por sinal. No hall havia diversas portas e uma escada, Etrom se dirige para uma porta que ficava no final do corredor.

A cozinha era mal iluminada, empoeirada e organizada, parecia que nunca tinham a usado, isso me assustou um pouco. Essa família devia viver de restaurantes ou fast-foods, essa era a única explicação plausível de a cozinha ser intacta.

– Você deve estar com fome... — disse Etrom, indo ao canto direito do recinto.

No canto direito havia uma mesa para quatro pessoas, duas cadeiras das pontas da mesa estavam sendo ocupadas por um casal. O homem e a mulher estavam de cabeças debruçadas na mesa viradas para a parede, não conseguia ver seus rostos, apenas a parte posterior da cabeça.

– Não ligue para eles, acho que pegaram no sono...

– Mas você falou que eles estavam viajando! — vociferei, uma coisa que odeio, mas que o desprezo da minha mãe, é que mintam para mim.

– Sim e eles não voltam tão cedo. Sente-se, vamos tomar café da manhã. _ disse Etrom, se sentando em uma das cadeiras, a qual ficou encostada na parede. Eu me recusei a sentar na cadeira defronte a ela, apenas fiquei de pé diante a ela, confuso.

A mesa estava limpa, apenas pelas duas cabeças sobre a mesa. O que seria um café da manhã para ela? Estava tudo estranho demais. Aquilo com certeza não era resquício do estado de onde eles haviam vindo, aquilo não era normal a qualquer lugar do mundo.

Cansada de esperar por eu uma atitude minha de sentar, Etrom se levantou e aproximou-se da mulher debruçada na mesa. Parecia que ela ia sussurrar algo em seu ouvido, mas não foi bem assim. Ela tirou o cabelo de cima do seu pescoço e chega bem pertinho. Ela mostra os dentes afiados como espinhos e navalhas para o pescoço da mulher e com um gesto rápido ela crava as mandíbulas no pescoço, espirrando sangue pelas paredes.

Ela me fitou e seu nariz, ouvido e olhos escorriam um sangue escuro, algo como se pela sua boca entrasse um sangue limpo e puro e saísse pelos outros um sangue sujo e podre. Os cabelos castanhos, ficaram lisos, loiros e jovens e seus lábios avermelhados e molhados. Aquela cena me arrepiou e meu coração palpitou furiosamente, nada disso poderia estar acontecendo.

Etrom lambia os lábios e voltava em uma estocada mais uma vez a procura de sangue.

Notas finais
Comente e adicione essa história as seus favoritos! :)