Trakai - Love Is Unpredictable
4 Capítulo 4
Notas iniciais
No fim das contas, elas não brincaram de correr ou se esconder, como planejavam, mas ficaram conversando. Emma fez dois bonequinhos com a palha que estava espalhada pelo chão e entregou um à Regina para passarem o tempo. Mais tarde, as meninas ouviram a carruagem de Cora e Henry adentrar as muralhas do castelo.
— Emma, nós temos que ir. — Regina ficou em pé, arrumando e limpando o vestido.
— Eu tenho que ir pra casa então. — Emma falou.
— Não, vamos. Sua mãe ainda está no castelo.
As meninas se arrumaram e entraram no castelo. Foram direto para o salão onde Snow estava guardando os livros, a tinta e a pena de Zelena, enquanto a mesma reclamava.
— Eu odeio isso! Porque eu não posso ir brincar lá fora? Eu odeio você! Se fosse burro o suficiente, não teria nada para me ensinar! — Ela xingava o mestre, que se preparava para retirar-se também.
— Zel, nossa mãe chegou. — Regina avisou. — Snow, Emma pode ficar com você hoje?
— Ah, querida... Você sabe que sua mãe não ia gostar disso, não sabe?
— Você pode dizer que seu marido não estará em casa e Emma não pode ficar sozinha... Por favor?
— Não irei mentir para sua mãe. Desculpe, Regina.
— Tudo bem... — Regina suspirou. — Tchau, Emma. Até amanhã!
Emma abraçou a amiga, com o ritual que sempre faziam. Um abraço, um tapinha nos braços e um “eu te amo”. Snow riu com o tapinha costumeiro das crianças, com certeza, era ideia de sua filha.
— Emma, vá direto para o estábulo.
— Eu sei, eu sei. Tchau, Zel, Tchau, Gina! — A loira saiu correndo pelo castelo até chegar à saída da cozinha e correu até o estábulo, onde encontrou com seu pai e foram para casa esperar Snow, que chegaria mais tarde.
O rei e a rainha desceram da carruagem discutindo ideias, e pareciam muito absortos da discussão que não notaram as velas acesas no quarto das filhas, quando passaram até os aposentos reais seguidos por seus amos e seus baús.
— Henry! Não quero plebeus entrando no meu castelo! Eu tenho nojo deles! Entende o que é isso? Já devo aguentar os criados, não posso suportar mais ninguém dessa laia.
— Cora... Sabe que não podemos ser assim. Eles são nosso povo. E não precisamos de plebeus exatamente. Podemos selecionar. Somente àqueles que tem alguma influência. As meninas precisam de contato com outras crianças, elas tomaram conta do reino um dia.
— Eu sei. E isso me preocupa. Zelena é mais lenta que o seu cavalo. — Cora insultou a própria filha. — Bem, pensando deste modo, acho digno encontrarmos uma saída, e que seja de preferência, algo que envolva ouro. Henry, chame o escrivão. Eu pensei em algo e quero que isso seja feito já! — Cora ordenou ao marido.
— O que seria, minha alteza?
— Você saberá na hora certa.
O rei fez a cotidiana reverência à sua esposa e saiu do quarto, indo direto ao escritório, clamar pelos serviços do escrivão. Vinham discutindo sobre a entrada de outras crianças da idade de Regina e de Zelena no castelo, para a hora dos estudos. Por mais que Cora odiasse a ideia, viu uma vantagem. Uma não, várias. A maior delas seria enriquecer, claro, mas além disso, poderia fazer com que as filhas estabelecessem contatos com outras pessoas importantes para a economia, aprenderiam como se portar em público e como serem sociáveis -isso era imprescindível em rainhas, dissera Henry- e Cora poderia afastar a filha de Snow White de suas princesas. A garota imunda, como ela chamava, só estava no castelo ainda porque Henry a defendia com ardor. Snow White tinha dado com a língua nos dentes e foi implorar ao rei, na ausência de Cora, para que pudesse levar a filha ao castelo quando a mesma nascera, e desde então, a menina continuava frequentando o lugar. E a rainha, enquanto isso, ainda não encontrara um jeito de passar por cima da promessa de Henry.
O escrivão entrou o aposento real com sua estrutura de madeira, a tinha, o papel e a pena.
— Sua alteza. Mandou chamar-me?
— Mandei. Escreva já o que lhe direi. Quero isso sendo anunciado em praça pública ainda hoje.
O escrivão se ajeitou rapidamente e empunhou a caneta.
— Todas crianças entre 7 e 12 anos com poder aquisitivo alto, capazes de pagar a taxa de 120 moedas de ouro por mês, poderão participar das aulas com o mestre Grant junto com as princesas.
— Cento e vinte moedas? Cora, desse jeito restringiremos demais as relações de nossas filhas!
— Henry, não discutirei sobre isso. Já estou abrindo mão de nosso castelo para a plebe. Cento e vinte moedas de ouro. Aqueles que puderem pagar por isso todo mês certamente são um pouco menos pobres que o resto do vilarejo e que o restante do reino.
O escrivão registrou tudo com sua rapidez e os reis carimbaram com seu anéis na massa de vela ao fim do papel, validando o documento com a marca real.
— Vá logo para a praça e anuncie. Aproveite que a plebe está saindo de seus serviços e passaram pelo local. Quero a notícia espalhando-se como miasmas.
— Como desejas, alteza. — O escrivão reverenciou e saiu.
— Irei avisar sobre Regina para a criada. Henry, mande uma carta ao rei Colter, do reino de Gediminas. Quero oficializar o nosso acordo.
Cora deixou seus aposentos e foi para o corredor leste, para o quarto de Regina. O quarto de Zelena já estava apagado, certamente a filha mais velha já dormia. O único que ainda estava aceso era o de Regina e ela podia ouvir a voz doce de Snow ecoando pelas paredes ao entoar uma música alegre que lhe dava nos nervos. Cora abriu a pesada porta de madeira esculpida com força, fazendo barulho e interrompendo a moça.
— Regina. Já está na hora de ir para sua cama. Você sabe de seus deveres.
— Eu sei, mãe. Acabei de sair de meu banho e Snow está penteando meus cabelos, como pode ver.
— Ah, então a cantoria que ouvi foi ilusão minha? — Cora cuspiu as palavras.
— Não, senhora. Desculpe-me, alteza. — Snow pediu, olhando para o chão.
— Poupe-me. Sua voz já me bastou por hoje. Amanhã, Regina começará suas aulas.
— Aulas? Mas... Mamãe! Ainda não fiz 10 anos! Zelena começou aos 10!
— Regina, não me importa o que quer ou não. Irá começar as aulas amanhã. Você é uma princesa e precisa saber governar para não afundar nosso reino quando Zelena se for para Locksley e eu com seu pai não estivermos mais aqui. Pare de reclamar. É para seu bem. Quero elas prontas às 14 horas em ponto.- Ela dirigiu-se à Snow na última frase.
— Sim, majestade.
— E quero que ao fim da semana, acompanhe Zelena na costureira real. Ela precisa de um novo vestido para o próximo evento.
— Sim, senhora. — Snow assentiu novamente e ouviu a porta bater à suas costas.
— Snow, eu não quero ir às aulas! Não poderei mais brincar com a Emma...
— Regina, por mais que não queira, você é a futura rainha, precisa aprender as coisas para governar com sabedoria. Pode brincar com Emma de manhã e as aulas não acontecem todos os dias.
— Mas eu gostaria de brincar todos os dias... Pode deixar Emma fazer as aulas comigo? — Regina pediu.
— Regina! Não seja maluca. Sua mãe jamais permitiria uma coisa dessas. — Snow riu e conseguiu arrancar um sorriso da princesa de cabelos negros.
— É verdade...
— Pronto, querida. Pode ir deitar-se. — A moça guardou a escova de cabelos na penteadeira da menina enquanto esta ia deitar-se. — Nos vemos amanhã de manhã. Boa noite. — Snow sorriu e apagou a maioria das velas, deixando apenas a que estava perto da porta, para que pudesse sair depois.
— Snow, o beijo! — Regina pediu. Secretamente, Snow dava um beijo de boa noite todos os dias em Regina. Isso aconteceu quando a menina viu Snow beijando Emma antes de irem dormir, num dos dias em que Emma dormiu no castelo. O rei e a rainha estavam viajando e David estava no reino vizinho, à pedido do rei. No mesmo instante que Regina viu o gesto, pediu à Snow a mesma coisa, e a moça não negou. Desde então, Snow White dava um beijo de boa noite na princesa e em sua filha.
— Até amanhã, Regina.
— Até.
A morena apagou a última vela e fechou a porta, deixando o quarto da princesa Regina e saiu do castelo, seguindo para sua casa e finalizando mais um dia.
O reino de Trakai amanheceu com a luz brilhante do sol e a garota de olhos verdes acordou com os dois beijos na bochecha de seu pai, os quais já estava acostumada.
— Bom dia, little swan. — David a chamou.
— Bom dia, pai! — Ela sentou-se na cama e olhou pra os lados. Geralmente, quando acordava podia encontrar sua mãe em pé, perto do fogão à lenha esquentando a cevada ou o leite, antes de saírem de casa, mas esse dia em especial, Snow não estava.
— Onde a mamãe foi?
— Ela teve que ir pro castelo mais cedo. O rei pediu ajuda para receber os pais dos novos alunos que iniciaram as aulas com Zelena e Regina.
— Regina? Ela vai ter aulas?
— Sim. Portanto, você vai ficar comigo durante à tarde.
— Não. Não... Regina ainda não tem aulas. Ela me disse que poderia brincar comigo por mais dois anos.
— Vocês podem brincar durante as manhãs. Emma, você sabia que uma hora, ela iria ter que estudar. Enquanto isso, você pode me ajudar com os cavalos... E treinar com o arco e flecha de sua mãe. — Ele sorriu, faceiro. Tentava conquistar a atenção de Emma para que ela não sentisse tanto o choque da diferença de mundos em que as duas amigas estavam.
— É... Pode ser. — Ela assentiu, triste. — Porque eu não posso fazer aulas com a Regina e os novos alunos?
— Emma... Não podemos pagar por isso. Você sabe que se pudéssemos, estaria vivendo no castelo, tão bem quanto Regina. Mas não podemos. Desculpe.
—... Tudo bem.
A menina lavou o rosto na bacia de água morna ao lado de sua cama e vestiu-se. Ela e seu pai dividiram uma baguete de centeio feita na noite anterior e beberam a cotidiana cevada quente antes de saírem de casa. Enquanto David parou no estábulo, Emma correu até a entrada da cozinha e foi direto procurar por Regina.
— Emma! — A princesa estava ajudando a criada da limpeza coma arrumação de sua cama. Era um ato secreto que ela adorava fazer. Não queria ser rude com seus criados e queria poder arrumar sua própria cama pelo menos, pensando que se um dia perdesse o reino, poderia pelo menor viver normalmente sem depender de ninguém. Assim que viu a amiga, saiu correndo e abraçou Emma.
A loira era pouquíssimos centímetros menor que Regina, e ninguém dizia que Regina era mais velha um ano inteiro.
— Regina, você vai começar a ter aulas?
— Então você ficou sabendo... — Regina desanimou no mesmo instante. — É... Mamãe disse que eu devo começar antes e ser melhor ainda que Zel. E o pior: terei que conhecer as outras crianças. Só que eles não vão gostar de mim. Eu sei disso.
— Não fala assim, você vai ver... Eu queria poder brincar com você durante à tarde também, mas vai ser legal pra você, e vai fazer novos amigos. Talvez a gente possa brincar juntos um dia. Eles vão adorar você. Só não vale me trocar por eles! — Emma sorriu e pegou na mão da amiga.
— Não sei... Não quero mais falar disso, Emma. Vamos brincar?
— Vamos.
— Belle, eu vou brincar com a Emma! Pode avisar a Snow por mim, por favor?
— Claro. Cuidado, crianças. — A criada era tão nova ou mais que Snow e particularmente, adorava Regina. Mal terminou de falar e as duas já tinham desaparecido por entre o castelo. Cora e Henry normalmente ficavam no escritório real ou no grande salão, tratando de assuntos do povo e negociações pequenas, então, Regina e Emma passeavam por todo o castelo sem serem pegas.
— Espera! Vamos deixar Zelena sozinha? — Emma perguntou, puxando a princesa para o lado contrário ao que estavam indo, em direção ao quarto de Zelena.
— Oi, mãe! — Emma foi até Snow, que estava sentada na cama de Zelena, e deu-lhe um beijo. — Oi, Zelena! Quer ir brincar? Eu e Regina vamos procurar alguma coisa pra fazer... — Emma perguntou, animada.
— Não vou, Emma. Estou doente. — Zelena gemeu.
— O que você tem? — Regina perguntou, preocupada, indo direto para o lado da irmã ruiva.
E então Snow interviu, explicando que a princesa mais velha estava virando uma moça, e seu corpo estava passando por mudanças para terminar a transformação. Em outras palavras que não foram proferidas pela morena, Zelena estava com cólica e dores pelo corpo e na cabeça, e dentro de poucos dias, teria sua menarca. Aconselhou as mais novas a irem brincar sozinhas e deixar Zelena se recuperar.
— Tudo bem, melhoras, irmã. — Regina deu um beijinho na testa de Zelena enquanto Emma segurou a mão da mais velha, lhe sorriu e saíram as duas do quarto. Seguindo a rotina delas, subiram pela escada de pedras não muito iluminada até uma das torres mais baixas. Uma porta de madeira e ferro guardava um sótão antigo. Pertencia ao tataravô de Regina, quando este foi preso lá por ser considerado louco. O reino chamava-o de Dom Quixote. Regina encontrou o lugar com Zelena há dois anos atrás quando zanzavam pelo castelo durante à noite e desde então, o lugar foi consagrado por elas como “o quarto de brincar escondido”. Cora e Henry não poderiam jamais saber disso, até porque, se soubessem que elas entravam no quarto do tataravô louco, acusariam as princesas de serem tão loucas quanto ele.
A cama de madeira e o colchão ralo de espumava estavam em perfeitas condições, um armário de madeira ainda abrigada algumas roupas de algodão de Alonso Quixano, o Dom Quixote e o que lhes era mais interessante: um diário com muitas e muitas folhas, todas amareladas pelo tempo, mas que guardavam registros escritos e desenhos, estes sendo os que elas mais adoravam ver por horas e horas.
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